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segunda-feira, 17 de julho de 2017

No princípio era o verbo

Estou lendo sobre o Cristianismo, um resumão da história desde Jesus aos dias atuais. E cheguei na parte em que a Bíblia atual é consolidada, lá pelo século sexto depois de Cristo, consolidação ajudada com o surgimento de uma tecnologia nova e revolucionária, a imprensa. Mas, o que me comoveu na leitura foi muito mais a lembrança do que a história. 

Recordei da Bíblia que tínhamos em casa, enorme, de capa preta de couro, margens e letras douradas, com lindas ilustrações coloridas. Minha mãe comprou desses vendedores de porta em porta que chegam com suas camisas puídas e gravata, junto com uma enciclopédia de adultos e livros educativos para crianças, cujos exemplares foram se perdendo nas quatro construções da mesma casa, enchentes e demais avarias da chuva nas paredes e assoalhos de madeira e ataques feitos por nós, crianças. Salvou-se das intempéries e das nossas garras, a Bíblia, no entanto. Por ser objeto sagrado, se manteve largada pelas estantes improvisadas ao longo do tempo, apodrecendo sozinha.

Foi o primeiro livro que tentei ler, quando ele ainda era novinho e cheirava a tinta. Mas, não passei do Gênesis com a confusão de personagens e coisas que eu não entendia, como o fato de ter gente com mais de 700 anos nas histórias. Quando meu bisavô Vivi vinha de Cametá para Belém, ele também se debruçava para ler o tijolão. Calça cinza escuro, cinto com grande fivela ovalada, o amargo cheiro dos velhos, a cara de índio, a moleta de manco, os óculos de aro marrom e lentes de fundo de garrafa. As lembranças são traiçoeiras e redesenham a realidade, mas me lembro de ter sentado junto com ele pra ouvi-lo lendo e de vê-lo calado sozinho, na sala da minha avó, absorto no livro, as sobrancelhas erguida e os olhos pequenos atirados ás páginas. A imagem daquele ancião com modos de sábio naquela cômodo modesto com poucos móveis me prende até hoje.

Com o tempo, a nossa Bíblica foi se desfazendo. Soltou a capa, perdeu páginas e as cores de ouro, envelheceu sem a dignidade merecida na bagunça do dia a dia. Dignidade que lhe envolvia não poder ser um livro santo, mas por ser da nossa memória dos afetos, que, afinal de contas, logra muito mais cuidados do que outras bugigangas genéricas que se perdem igualmente no mundo do beleléu.

Era ela, a Bíblia, dos poucos objetos de menor porte que se mantinham firmes com as mudanças que nós, nômades do mesmo lugar, passávamos a cada temporada em que a casa precisava ser refeita ou era invadida pelas enchentes.

No princípio era o verbo e o verbo era Deus e o verbo estava com Deus. E, nesse princípio, ela estava lá, como fóssil de papel de uma memória que se aviva com o tempo, na distância de Deus e na intimidade com a leitura e outros livros.

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