Seguidores

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Como um retrato

Gostava mais de mim quando: lia Bukowski e não achava nada daquilo coisa de bêbado transtornado e sem ter mais o que fazer; tinha mais tempo pra ler e me traumatizar ou me encantar com as minhas leituras; andava sem documento nas madrugadas voltando pra casa depois de horas sem compromisso por aí; tinha insônia e as noites eram dias; era menos prático e me enrolava sozinho nos meus pequenos problemas, nas minhas mesquinhas paixões, nas minhas inseguranças da idade, nos medos que me assombravam, nas recusas e aceites a que fui submetido; carro era sim um luxo e por ser supérfluo não tinha um com que me preocupar; a minha bagagem cabia numa sacola de supermercado da Yamada; ria com mais facilidade e minhas palavras fluíam como um rio sobre qualquer coisa; escrevia cartas e poemas sem nenhuma vergonha ou temor de ser mal interpretado; um emprego era só um emprego e não a tábua de salvação para a própria vida; o fígado era um mero detalhe e nunca as causas de um dia ruim depois da bebedeira; pouco dinheiro não era necessariamente um problema, mas um desafio de equilíbrio; viver era uma meta, um quadro fixo na parede da existência, e não um compromisso adiado para as próximas férias; o amor me derrubava como fera endemoniada que era; um foda-se era, de verdade, uma solução para qualquer coisa; o coração vivia desconsolado e, ao mesmo tempo, leve e esquizofrênico, tolo e protegido de qualquer mal pelos acasos e tropeços frequentes.

Gostava mais de mim quando interpretava um personagem distante da vida real, envelopado em uma embalagem de teimosia, resignação e rebeldia, e tinha pouca consciência do tempo curto para viver e nenhuma angústia por esse tempo voar tão veloz rente aos cabelos que já se vão, às rugas que já se avizinham, ao corpo que já se alquebra. Gostava mais quando me detestava e não me sentia tão confortável nesse mesmo corpo, numa contradição revelada só agora, depois de tanto tempo. Gostava mais de mim quando me via refletido nos amigos que se foram ou estão tão distantes que é como se tivessem partido - no final, fui eu quem parti.
Gostava mais de mim quando, nova contradição, nem queria minha própria companhia e era menos sério, a testa menos franzida, as sobrancelhas de pelos mais curtos, o anseios mais largos, a alma perturbada, as certezas inexistentes - até as mais óbvias, como a própria morte.

Não que eu não goste mais de mim, nada disso, longe de mim desgostar do que me tornei, desdizendo tudo o que foi dito, como criminoso arrependido. É que, às vezes, dá saudade da pessoa que já fomos, embora ela esteja por perto, dentro, calada, imiscuída, nesses cacos que sobraram, que mal nos definem hoje, que quase não enxergamos devido à proximidade e má perspectiva, os quais, porém, um dia também sentiremos uma profunda e difusa ausência e poderemos enxergá-los límpidos, sólidos, palpáveis, unidos em um só, não mais fragmentos, como um retrato.

Nenhum comentário: