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terça-feira, 4 de julho de 2017

Choque de classes

Lembro que fui estudar no Método, em 1999. Foi um choque, porque, pela primeira vez, me deparei com a classe média alternativa de Belém.

Antes disso, conhecia a classe média patroa. Tipo, os japoneses patrões da minha avó, um pessoal meio distanciado que viajava para o Japão, tinha casas boas e bons carros e uma relação até afetuosa com ela. Na casa deles, provei peito de peru defumado pela primeira vez e vi uma televisão que era maior que a geladeira que tínhamos em casa numa sala toda de vidro, coisa fina.

Também convivi com uma classe média baixa, muito baixa, no Colégio Rutherford e no Impacto, onde conviviam meio pobres, meio classe médias, meio ferrados, meio bem de vida, numa boa. O pessoal chegava em carrões, umas meninas loiras de olho verde lindas e uns garotos branquinhos de cabelo liso e bochecha rosada, mas também vinha o povo pendurado no busão, como eu, todo dia.

Mas, no Método, não. Era diferente. Era uma forma de classificação social até então estranha pra mim, porque era um pessoal da classe média que não tinha muita cara de classe média, mas também não se parecia com os pobres como eu. Ficam ali num limbo das pesquisas do IBGE, um elo perdido ali naquele casarão que funcionava como colégio. Era um espaço meio alternativo. Tanto que depois virou o Café com Arte. Era um negócio meio de acolhimento também, muito intimista e tals, com o dono meio maluco do pedaço, nosso querido Assaid. Ali circulava o pessoal que, apesar de estudar a vida toda no Colégio Moderno, não se deu bem no vestibular por algum motivo que eu desconhecia. E gente que passou pelo Marista, mas fumava maconha e devia ser o desgosto da família, eu acho.

De minha parte, eu era da Pedreira. Uma Pedreira dos cafundós que nasceu nos igapós da fronteira com a Sacramenta e se ergueu, lentamente, numa urbanização meia boca e preguiçosa a partir do governo do prefeito Fernando Coutinho Jorge, quando vimos maravilhados pavimentarem a passagem Secundino (que nome!) com blocos de concreto poligonais, os blocretes. Eu disso blocretes! 

Era como um caipira em rota de colisão com a cidade grande na década de 50. Mas, estávamos no final da década de 1990, dobrando o inverno da minha desesperança. Entrei em contato com aquele mundinho underground de pátio de colégio com seu jeito largado bem medido, suas roupas imitando o grunge americano com um resto de contracultura adaptada aos trópicos. Lembro bem do Felipão, um oriental com cabelo rasta! em trajes de mendigo, super articulado com sua bolsa tipo carteiro, seu interesse por história e seu sono na sala de aula, um tipo perfeito de Humanas. Ali, encontrei aquele monte de gente falando de filmes que eu não tinha visto e de bandas que eu nunca tinha ouvido falar. Aliás, nem aparelho pra tocar CD eu tinha. Quando mamãe comprou um da Samsung na Yamada não tínhamos grana pra comprar os CDs. Adquiria raramente e às cegas - acabei comprando até um CD do Cidade Negra, pra vocês terem uma ideia. 

Um parêntese para o contorcionismo financeiro de mamãe: ela sempre dava um jeito de comprar essas modernidades para casa, apesar do nosso quase nada de dinheiro. Bem antes, eu com uns 15 anos, apareceu com o videocassete que eu tanto queria só pra me deixar antenado e ver os lançamentos das locadoras. Hoje, adulto e dono dos meus próprios problemas, sei que foi muito suor e muitos boletos, coitada. 

No Método, ficava ali ouvindo atento as conversas e falando pouco pra não dar mancada. Minhas referências vinham das FMs e das aparelhagens Big Ben (A fera da Pedreira) e Jota Som, antes do Dinho virar estrela da Regina Casé e aparelhagem virar ponto turístico pra Playboy, em Belém.

Percebi já naquela época que não acompanharia os coleguinhas. Liguei o foda-se porque não havia condições de acesso ao conteúdo deles. Mas, veio a Internet, o Emule, os Torrents e cheguei, finalmente, ao tesouro alardeado pelos moleques e meninas dos colégios particulares. Cheguei, mas sem nenhuma pressa e sem correr muito atrás do prejuízo para não me desgastar e evitar a fadiga. E... achei uma merda mesmo. Era disso que eles tanto falavam? Ora, porra. 

A "Gringa" e toda aquela palhaçada de rótulo jovem desajustado e contestador do mundo se definindo pela música que ouvia... caguei.

O mundo girou e hoje todo mundo escuta tudo. Creio que os coleguinhas que tinham muito orgulho de suas escolhas artístico-culturais devem ter ficado meio sem chão com os novos tempos, embora ainda haja essa bobagem também de se achar mais cool por consumir certo tipo de produto cultural.

No final, abracei mesmo minha sina suburbana distante de tudo o que o pessoal da minha idade e com acesso teve. Fiquei no meio do caminho e aprendi o mínimo para circular incólume no meio dos descolados, que até eram boa gente, ainda que não admitissem que os bregões chegavam na casa deles como chegavam na minha.

Olhando o cenário hoje, em Belém, esse retorno aos sucessos populares com festas de brega e lambada curtidas como se não houvesse amanhã pela classe média alternativa, fico pensando: se fosse em 1999, eu faria um baita sucesso com os coleguinhas do Umarizal, Nazaré e Batista Campos. 

É tudo uma questão de estar no lugar certo e na hora certa.

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