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domingo, 18 de junho de 2017

Os três mal amados

Ele olhava pro nada quando eu cheguei e me fez sentir vergonha de mim. Me reconheci ali, sentado na beira da calçada de uma loja de conveniência, porque para nós, pretos ou quase pretos ou quase brancos vindos da pobreza, a sarjeta tem uma espécie de ímã e não podemos vacilar. Por qualquer coisa a gente cai nela. A sarjeta é um fantasma, um terror, um bicho à espreita. E essa confissão/constatação não é história, não é charme nenhum, não é romantismo. Um desemprego, uma desilusão, uma depressão, um vício qualquer, uma falta de coragem numa manhã e a sarjeta pode virar de pesadelo à realidade. Há muitos irmãos que estão nela que podem confirmar a tese. 
Edward Hopper
Desci do carro. Óculos escuros, limpo e penteado, grana e cartões no bolso e dei de cara com ele. E quando me deparei estava mais alto, mais bonito, mais rico, mais influente e mais privilegiado. A minha triste história de moleque da Pedreira se reduziu a pó. Comparado a ele eu era um rei. E, ao mesmo, tempo me vi nele, no chão, ali a poucos metros da queda de verdade. Ele me olhou com seu olhar periférico dos que não encaram mais ninguém por medo de incomodar. Andrajos, uma bota, os olhos empapuçados de álcool, como ficam os olhos empapuçados quando bebemos com tristeza. Entrei na loja e pedi: um café com remorso, por favor. Era eu ali e não fiz nada. Quando saí, ele continuava lá e o observei com mais atenção. Havia os pertences, alguns trapos, uma marmita e refrigerante. Comida havia. Era eu ali, absorto, com a boia do lado, esquecido, invisível.

Voltei pra casa com aquele nó de impotência. Sem muita razão, catei coisas pela casa. Fiz uma valise com algumas camisetas que não uso, biscoitos, uma garrafa térmica e voltei para me ajudar, era eu ali na sarjeta. Mas, ele havia ido embora. Perguntei para atendente da conveniência. Ela deu o rumo do homem e fui atrás.

Rodei o quarteirão todo, rodei os quarteirões adjacentes à esquerda e à direita. Passei pela rodoviária. Entrei no Banco do Brasil, quem sabe ele tinha ido aproveitar o ar refrigerado, pensando na minha lógica de quase branco privilegiado. Rodei mais longe, entrei por vielas, busquei nas sombras de árvores, nos pátios com cobertura. Nada. Fui pela avenida central, encontrei evangélicos marchando, homens sentados nas sarjetas, mas sem nenhum ar de derrota, sem nenhuma dor aparente. Eles não eram eu. Desisti.

Na volta, avistei o homem em frente a um supermercado. Ele estava com um amigo, também em andrajos, também abandonado. Eles falavam e riam na linguagem, agora, feliz dos ébrios. Cheguei perto para me certificar se era ele mesmo. Vi as botas. Era ele. Era eu. Me aproximei: era o senhor que estava na frente do posto?

Ele imediatamente se encolheu e fez o olhar de antes, de lado: não era eu, não. Não era. 
Estava com medo. Quando estendi a valise, ele não percebeu. Deixei no chão. E expliquei o que tinha dentro. Ele mudou a postura, sorriu. Tentei conversar. Perguntei de qual cidade era. Ele balbuciou com a voz de bêbado. Falou do pai, mostrou um dedo amputado, comentou uma agressão que sofrera, um chute na cabeça, uma queda no rio, tudo mudo desconexo, pouco inteligível. Pedi que ele dividisse com o amigo a doação. Eles levantaram os polegares. E eu me afastei.

Éramos nós. Três mal amados. Eu, burramente, tentando me ajudar e aplacar minha culpa, tentando ajudá-lo com o nada que eu tinha. Era, sim, eu ali, mas já entregue, já perdido. Dei as costas, aflito. A sacola no chão. E nada mudara. Eles continuavam lá, eu continuava. Existíamos, apesar de tudo. Voltei para casa por ter casa, sem nenhum sentimento de satisfação, sem nenhuma esperança e pensando quando foi que desistimos de nós, largados, nas sarjetas por aí.

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