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sexta-feira, 16 de junho de 2017

Caldo de galinha e pão de rosa

O começo da vida profissional de cada um tem histórias nem sempre edificantes, com escolhas nem sempre louváveis. Penso nisso, porque observo alguns jovens focas com todo o cuidado para escolher onde vão começar a gramar um troco. E viajam e fazem pós e usam expressões como network, coaching e o caralho. Sorte a deles.

De minha parte, a estratégia que usei para me inserir no mercado foi o desespero. Precisava de dinheiro pra pagar a passagem de ônibus até a universidade e comprar um salgado e um Refry (aquele suco no copinho) no Ver-o-peso do Básico da UFPA pra não morrer de fome nem passar muita vergonha. Então, a onda era topar qualquer parada que rendesse uns 100 reais. 

Na primeira, me dei muito bem. Foi um congresso médico de Neurocirurgia, Atendia a imprensa e produzia notinhas sem ter a menor noção do que eu estava fazendo (ainda hoje tenho cá minhas dúvidas). Ao final, eu ganharia 400 pilas!!!! Mais os 80 reais destinados a comer nos dias de trabalho. Somando dava quase três salários mínimos. Era um sonho realizado. Eu era acostumado a passar longas horas sem comer e foi o que eu fiz pra economizar: passei esses dias em jejum pra embolsar o dinheiro da refeição. No almoço, eu ia tomar um caldinho de galinha pronto num máquina ótima da Knor, ignorando que era uma mistura rala de água quente com sódio saborizado. Às vezes, dava para abocanhar algum canapé deixado pelas bandejas de bobeira. 

No intervalo, como o evento era na Estação das Docas, olhava o rio e as lindas recepcionistas que zanzavam no salão com seus sóbrios vestidinhos cinzas colado ao corpo e a maquiagem que ressaltava ainda mais o rosto bonito. Onde se metiam aquelas mulheres em Belém? Nunca tinha visto tantas no mesmo lugar, eu me questionava. Era magro demais e usava uma calça branca, igual ao Cazuza no show Ideologia. Talvez, muito talvez, alguém chegou a pensar que eu era um cover ou estivesse doente. 

A tarefa acabou e eu achei que a minha vida profissional fosse para sempre um passeio: mulheres bonitas ao redor, dinheiro a rodo e comidinhas de graça. 

Como em Jornalismo trabalho puxa o outro, isto é, se você não fizer muita merda ou não ser muito antipático, me indicaram para procurar um pastor que precisava de um produtor de TV. Ai, meu deus. Eu fui. 

Era numa igreja na Avenida Ceará, ao lado do Terminal Rodoviário. Cheguei muito cedo, formalmente vestido. Muito cedo, uma senhorinha muito humilde me abordou e perguntou se eu era obreiro. Meu disfarce estava funcionando. A mulher contou uma história triste sobre câncer e milagres que eu não tive coragem de interromper. Pedi para ela voltar depois interpretando meu novo personagem na Universal do Reino de Deus. 

Depois do diálogo insólito, bati na porta do estúdio e apareceu um sujeito uniformizado com a cara toda amassada de sono. Ele disse que o expediente começava só às nove horas. Fui matar o tempo em uma banca de revista. Comprei o livro "As confissões de um comedor de ópio" e desisti. Foda-se. Vou pra casa. E por lá fiquei. À tarde, o pastor me ligou insistindo pra que eu fosse no outro dia, desta vez às dez. Ok, vamos lá.

No outro dia, ele me contou das pretensões políticas de ser deputado federal e de me levar para Brasília, se tudo desse certo (acho que deu errado, nunca mais ouvi falar dele). Mostrou os bastidores e a contabilidade da igreja e fomos ao estúdio. O tema do programa naquele dia era A PARADA GAY. Naquela época, os debates sobre direitos civis ainda estavam muito centrados em nichos. Não havia acesso maciço à Internet. Mas, os velhões de sempre estavam lá para julgar o que eles criam como abominação. Um pastor-vereador soltou pérolas como sempre sobre gays, lésbicas, travestis. Olhei o quadro e, ao final, sai sem nem me despedir. Não voltei mais, nem atendi as ligações do patrão evangélico.

Não demorou muito, uma colega sairia de férias do seu estágio e me pediria para substitui-la por um mês. Que maravilha! Era uma redação, afinal! Um jornal! Impresso! Mas, católico. Era eu saindo de uma roubada neo-pentecostal para cair nas armadilhas da Santa Inquisição. Fui. 

Primeira pauta: café de aniversário para um dos sacerdotes barnabitas mais antigos e festejados na Basílica de Nazaré. Só ali descobri que eram os barnabitas que comandavam a paróquia mais suntuosa da cidade. O café estava divino e cai matando com a minha fome ancestral de pobre vindo dos rincões da Pedreira. 

No primeiro ataque, já fui no pão de rosas. Imediatamente, fui fulminado pelo olhar de uma beata: "esse pão é especial para o padre". Ok, me encolhi. Fui para outra especiaria: umas tapioquinhas. Outra carola: "não pode! Essas são para o padre!". Ok, já meio acanhado e menos afoito peguei um pãozinho de queijo e um café com leite e sai para um canto. Ninguém reclamou. Fiz uma pergunta idiota ao aniversariante e voltei para escrever.

Minha chefa era Andreza Gomes que, com toda a paciência do mundo, corrigia meus erros gritantes de português, tipo escrever "estão" como "estam". Minhas redações eram sofríveis e eu não tinha muita esperança que melhorassem. O ambiente era tranquilo, mas as pautas repetitivas e desimportantes, que, alías, combinavam comigo, ser repetitivo e desimportante, sem saber muito da minha natureza naquela época. 

Uma das pautas a cobrir foi uma igreja precisando de reforma no bairro do Satélite. Longe, hein? Bem longe! Tudo bem que era considerado no cu do Judas, sem problemas, mas ir de ônibus? "Toma aqui os vales-transportes". A redação não tinha carro para minha surpresa. O fotógrafo olhou com cara de "quem esse cara pensa que é para querer um carro para cobrir uma pauta requenguela dessas?". Fomos e quase não acho a tal igreja caindo as pedaços e necessitando de donativos. Daí comecei a questionar a equação trabalho + energia = (remuneração + contentamento) x sobrevivência. O resultado é sempre difícil. 

Sei que entre evento da juventude cristã e sua cara de regozijo diante dos padrecos e procissões de tudo que é santo padroeiro, meu saco já estava estourado. Quando minha colega voltou de férias, eu agradeci a deus e a oportunidade e deixei o trabalho ainda no meio do expediente. Nesse dia, teve romaria em homenagem a São Cristóvão, padroeiro dos motoristas - aprendi lá.

Mais tarde, eu teria estágios regulares e o bagulho de redações e o corre para conseguir sobreviver seria muito mais frenético, mas aí é outra história. O importante é não perder o fio da meada nem deixar os traumas do começo pelo caminho, cada um é importante.

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