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sexta-feira, 5 de maio de 2017

Era da vida que falávamos

Era da vida que falávamos, justo ela, a bonita e embricada e simples e antipática e cheia de reviravoltas e planos e nenhuma certeza, exceto uma. Era da vida, do que houve e não houve e do que haveria de ser ou, quem sabe, será. Nada muito profundo, como se falar da vida pudesse ter alguma profundidade, apesar do palavrório e interpretações. Uma insatisfação aqui, um vislumbre acolá, um arrependimento, um pouco de esperança e contentamento, certa gratidão de mãos dada com as insatisfações de todo dia e o carro já estava deslizando no espelho d'água em direção de outro carro, num balé ensaiado, numa paixão industrial entre máquinas, no meio da Transamazônica.

Era da vida que falávamos quando, por um átimo de segundo, ela escorregou, esta filha de uma puta. Ou foi o carro? Os pneus perderam a consistência e se deixaram levar num capotamento que não se confirmou. E o tempo se esticou o máximo que pode. Vi o espelho líquido se desfazer em gotas, estilhaçado, e o veículo brigar de foice com o asfalto enquanto o volante me forçava e, de súbito, me tornara seu amante, quase eterno. Vi a colisão também, outra previsão malograda, e os olhos dos dois homens no outro carro. Olhos de pedra diante do imponderável enquanto dançávamos na pista formando espirais já perdidos nos segundos, perdidos e entregues à própria vida. 
Era da vida que falávamos e houve a interrupção da conversa e a suspensão. Máquina, água, estrada, árvores, distância, medo nenhum. Atado ao volante, o pé esquerdo no freio, a vida suspensa e acabou. Um silêncio, uma paz, medo nenhum, estranhamente, nenhum. E pensei: não houve filme, não houve revelação, não houve porra nenhuma, apenas o tempo estirado em camadas e o interesse honesto em acompanhar os fatos, como autor e personagem da cena.
O motor respondeu na segunda batida da chave e carro venceu o mato ganhou a estrada, sem nenhum arranhão. O tempo continuou em baile, música lenta, até pararmos. Os homens de olhos de pedra voltaram mudos e nos olharam de novo, ainda horrorizados. Está tudo bem, coisas da vida. Do outro lado da pista, do nada, um mototaxista roto com um mulher alvíssima e de enormes e curiosos olhos verdes na garupa. Também olharam sem dizer palavra alguma e seguiram e sumiram na estrada como aparições que, de fato, eram.
Era da vida que falávamos e continuamos, como se nada houvesse acontecido, porque nada aconteceu.

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