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quarta-feira, 24 de maio de 2017

Entre jabutis e focas velhas

Vez ou outra rola um fight entre jornalistas em Belém e, quando o cara se sente acuado na treta, ele espera encher o especial e dá um meia lua + soco forte + dois toques pra cima e solta o super poder do prêmio-em-jornalismo-pela-minha-super-competência junto com o combo aperta defesa + chute nos ovos e sai outro especial muito usado: o você-tem-uma-carreira-merda-e-não-ganhou-nada-de-prêmio-por-ser-incompetente.
EU ME DIVIRTO.

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Dia desses rolou comigo. 
Meu contendor, um laureado jornalista medalhão dos bons com extensa militância nas grandes e pequenas redações (respeito é pra quem tem), soltou a acusação contra mim para rebater minha impertinência: a matéria mais relevante da minha carreira foi escrever sobre aquela festa da Fiepa que rolou porrada no final. Tomou? 
Pra mim, que sempre achei jornalismo e jornalistas uma bela merda, é um baita elogio, já que jornalistas, que não leem nem placa de trânsito de tão burros que são, se deram o trabalho de ler a porra do meu texto. Numa Belém, em que a tarefa intelectual mais evidente dos colegas é observar a ascensão ou queda financeira dos coleguinhas e apostar quem vai ganhar aquela sinecura marota daquele político que está com tudo, ter audiência de um público tão qualificado é quase ganhar um...Prêmio Esso, um Jabuti, um Pulitzer ou, sendo bem mais modesto, um troféu da Fiepa ou do Sinmineral.

As redes sanearam os embates. Fico imaginando, em um passado nem tão distante, os grandes emblemas da imprensa e focas velhas se engalfinhando nos botecos mequetrefes que frequentam ou, entre uma boca livre e outras, tendo que largar a bandeja de croquetes para dizer umas verdades um pro outro, esfregar títulos e honrarias na fuça do adversário, gastar o precioso latim, que já é minguado, discorrendo sobre o garboso currículo que lhe alçou à fama nacional, no caso de alguns, ou, ainda, soltar o rancor de nunca ter ganhado nada e permanecido na aldeia ciente de todas as tramas e quiproquós da categoria da cidade.
Minha alma periférica daria um braço para assistir de perto esse pugilismo de fracotes, essa briga de galos cegos onde vence o que reduz o pó ao nitrato de peido com nada. O grande problema do computador é que ainda não dá pra enfiar a mão na cara do inimigo depois de uma ofensa gratuita. Mas, creio que a gente atinge os píncaros da tecnologia logo, logo, e veremos o sangue escorrer livre, leve e solto. 
Seja por vírgulas mal colocadas, crítica ao trabalho porco nas páginas do jornal, posição política controversa ou implicância pessoal, Belém segue sendo essa rinha fascinante entre jabutis e focas velhas, como toda minúscula província o é. Afinal, em que metrópole, vamos assistir essa troca pública de afagos entre essa fantástica fauna de tipos tão adoráveis com seus prêmios, seus fracassos, suas queixas, suas pequenas vitórias ampliadas na lupa e suas derrotas escondidas embaixo do tapete. Adoro.
Eu, vira-lata da palavra, perdedor de todos os prêmios que jamais concorri, brigador de bares que não existem mais, falastrão impertinente e bloqueador contumaz de desafetos, sigo com a guarda alta e minhas velhas luvas esfarrapadas, porque sei que a qualquer hora a felicidade bate à nossa porta e a qualquer dia o coração vazio se enche de amor, qualquer dia da semana é primavera.
Agora que fique claro aos espertinhos, que caso um dia queiram me premiar ou me elogiar me dando munição para aplicar os tais golpes especiais durante o combate: ainda prefiro honrarias ou rapapés em dinheiro ou barras de ouro, que sempre valem mais do que dinheiro.

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