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sexta-feira, 12 de maio de 2017

Braçadas tóxicas

A água, o cloro, a quase ardência nos olhos , o esforço físico, o cansaço que chega como um tóxico depois da piscina. Saio da aula e imediatamente me lembro. Do Cassazum nas primeiras braçadas e de umas pessoas que, é muito provável, sequer saibam da minha existência, como o professor Valdo com cara de alcoólatra; um carinha que casou com uma amiga também de infância e eu o reconheci dessa época, sem ser reconhecido, obviamente; uma adolescente linda chamada Raquel que massageou meus cabelos num dia de treino pré-competição e eu nunca entendi aquele movimento, porque ela não sabia nem meu nome, mas me deixei levar por aquelas mãos em movimentos suaves na minha cabeça; e também um menino que identifiquei, anos depois, como policial militar e que tinha uma irmã, também muito bonita, que certa vez perguntou meu nome e eu encarei aquilo como uma ponta de interesse por mim, porque àquela altura da vida eu, menino macilento das estivas da Pedreira, achava que era invisível e esquecível a outros seres humanos. Como era mesmo o nome dela? Lidiane?
Volto encharcado pra casa, dentro de um carro, ouvindo as velhas canções do Tom, naquele ritmo lento e sincopado que transporta a algo antiquado e eterno e lembro da Tuna e as águas escuras, a profundidade de quatro metros e das medalhas que perdi, do rapazote comprido que me tornei e a primeira namorada que me afastou em definitivo do esporte para aproveitar as tardes em uma praça minúsculas e secreta para trocar beijos cheios de baba, fizesse chuva ou sol, ela muito branca, de cabelos amarelos de verdade e sem um dente da frente, os olhos castanhos que escondiam a tristeza com o suicídio do pai, mas, o que mais perturbava era aquela aquela brecha a me espreitar, o incisivo partido exposto pela metade. Os seios inacessíveis, as coxas como as coxas da mulher do português rico de O Cortiço, de Aluísio Azevedo, a calcinha que, já naquela época aos 14, eu sonhava em ver como a vestia. Mas, antes houve Josi e o magnetismo insuportável e o desdém, os olhos pequenos negros, os lábios finos de mais, a antipatia, os cabelos encaracolados pré-chapinha e como ela desviava das súplicas masculinas que a cercavam, da voz aguda e irritante que me encantava. E junto com ela, Lia, que me beijou do nada, na boca, como quem provoca e sabe que não haveria nenhuma reação de minha e me deixou em suspense muitos anos, como se pudesse chegar a qualquer momento e completar o serviço. A respiração e o hálito próximo ainda sinto e os olhos verdes vivos ainda os vejo semi-cerrados me olhando de dentro de um torpor medido, curioso, acintoso, cruel. Tínhamos 13, mas ela parecia, miúda, ter apenas 12, o que me colocava em uma situação difícil em termos de dispensar qualquer afeto a uma criança, ora veja. Deus me livre de me chamarem papa-anjo.
Cruzo a cidade entorpecido de endorfina e repleto de lembranças aleatórias, como a vez que um dos moleques, mais velhos, de nome César, viu um homem deixar cair uma nota de dez numa padaria, depois da natação na Escola Superior, e resolveu pegar o dinheiro e não devolver. Pisou na nota para que o distraído não percebesse o descuido com a cédula. Depois dividiu o butim com os comparsas, eu no meio, comprando pão com manteiga e fanta pra todo mundo, gabando-se do feito, o riso de hiena. Só percebi o crime na volta pra casa, já dentro do ônibus. Anos depois, o mentor do delito seria preso por estupro, mas já não éramos colegas de mais nada. 
Dessa época, lembro ainda da paixão do Alan por uma menina muito branca que apelidávamos de Cara de Cebola por causa do cabelo sempre em coque (talvez, a lembrança aqui se misture com uma ex-namorada do amigo que tinha as mesmas características. O passado relembrado se molda do jeito que acha melhor e trai a verdade) e de Kathlen (ou algo assim), uma beleza que estava acima de tudo e de todos, principalmente, daqueles molecotes de escola pública, como nós, que empesteavam o ambiente com suas sungas desbotadas, seus óculos baratos e suas tocas quase rasgando de tão velhas e camisetas sintéticas fluorescentes, modas na época. 
Volto pra casa, ligado, como um bêbado das braçadas. Estou em conexão com minha nova cidade, como estive com a que nasci, o que pode ser muito temerário. As três medalhas da infância flutuam e meu pai ri das parcas vitórias - a de prata em disputa com apenas um menino e as de bronze com três competidores contando comigo. As ruas vazias, a músicas, as imagens quase esmaecidas, o tempo úmido, os músculos em descontração, uma sensação líquida dentro da máquina, a infância presente no cheiro químico impregnado no corpo, a solidão temporária, o ruído do motor, Belém a quilômetros sem me fazer mais tanta falta, as coisas fazem certo sentido.
Nadar tem dessas coisas.

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