Seguidores

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Você não vive num país que presta pra reclamar de greve

Um país que presta tem ricos em pequeno número, uma classe média consolidada e ampla e pouquíssimos pobres. E nele todos que precisam trabalhar têm direito a um trabalho decente. Entenda-se decente como uma atividade regida por leis claras, remunerada de forma justa com horário estabelecido e tempo livre para que cada um não seja apenas trabalhador, mas, antes de tudo, também gente.
O Brasil não tem essa condição desde que existe.
Desde que foi colonizado, por aqui rege a regra do que tem mais: se tenho dinheiro e poder, os outros obedecem e serão explorados por mim. No Brasil, é gente quem detém posses e a voz para mandar. Todo o resto é desumanizado, não é pessoa digna de ser respeitada e essa impressão se entranhou na mentalidade, principalmente, dos que mandam com a escravidão.
Foto: Sebastião Salgado
Os mais de 300 anos de economia baseada na mão de obra escrava trouxeram riqueza fácil para todos os que chegaram ou consolidaram suas fortunas no Brasil. Três séculos onde pessoas eram forçadas a trabalhar sem direito nenhum para enriquecer e dar boa vida a quem detinha o poder da grana e do chicote.
Não tem 130 anos que essa realidade de escravidão e crueldade em prol de privilégios de uma minoria foi legalmente extinta. É, portanto, uma tradição de escravagismo que ainda não se dissolveu na mentalidade do pais. Temos apenas metade do tempo de liberdade e alguma civilidade nas relações de trabalho se comparado com todo o tempo em que os portugueses arrastaram africanos pelo mar para explorá-los em terras brasileiras.
Não pensem que o argumento dos que defendem a reforma trabalhista atual tem algo de partidarizado ou vem de agora.
Não. É saudade da escravidão, saudade de ter servos, saudade de ganhar fácil a partir do sofrimento alheio, saudade de poder tudo e ao outro, nada.
Se pegar as leis trabalhistas da década de 30, não tem 80 anos que há algum respeito pelo trabalhador como gente no Brasil. E olha que são direitos mínimos, não tem nada demais no que está na CLT. Ninguém reparte lucro com empregado, ninguém concede favores: é apenas uma relação estabelecida por regras mínimas: não mate o sujeito de tanto trabalhar, pague por isso, conceda um período de férias e deixe de ser tão ganancioso, pague o décimo.
Um país que presta não abre mão dessas regras para prejudicar o grosso da população. Um país que presta já teria avançado ainda mais para acabar com o ranço escravagista nas relações de trabalho. Teria enterrado a tradição do senhor de escravos de uma vez por todas.
Mas, no Brasil, não.
Essa vontade do rico se diferenciar como gente transformando os miseráveis em coisas perdura sem previsão para acabar.
Não adianta usar palavras difíceis porque conhece a legislação e querer que todo mundo acredite que as mudanças propostas agora são boas para a maioria. Se não é boa para a maioria e apenas alguns que querem ver seus privilégios de volta, não é bom para o país. Isso se ainda estamos em uma democracia.
Não é possível reformar a legislação para que haja ainda mais perdas para quem realmente movimenta o Brasil: nós, os que trabalhamos. Qualquer tentativa que vá nessa direção é uma afronta e um retrocesso.
Quer mudar? Sente com a maioria e estabeleça o que pode e não pode ser modificado. Sem isso, ninguém arreda pé do que já está escrito na lei.
Quer empregado? Pague o justo e garanta direitos. Ah, mas do jeito que está não podemos manter as empresas. Então, feche e busque soluções junto com a maioria. Ninguém é obrigado a ser empresário. Se você não tem competência ou condições, não se estabeleça. Não é essa uma máxima do liberalismo e da livre concorrência? Então.
O que não é possível é voltar no tempo em que os direitos de quem trabalha eram lenda.
Se com a CLT, já existe abuso de todo jeito. Se até hoje há trabalho escravo mesmo com leis que protegem o trabalhador, Imaginem sem a garantia da lei.
Não vivemos em um país que presta. Vivemos em um país em que os direitos não são respeitados e as pessoas precisam ir pra rua berrar, levar porrada dos que detêm poder, brigar e até morrer para não serem transformadas em objetos e serem reconhecidas como gente.
Ninguém gostaria de estar em greve.
O que gostaríamos mesmo é de morar num país que preste com respeito a todos. Mas, não está rolando. Então, o jeito é lutar. Lutar para que não sejamos, de novo, escravizados por quem não entende que só vamos ser um país que presta realmente quando apagar de vez o ranço e a lógica perversa entre a Casa Grande e a Senzala.

#GreveGeral

Nenhum comentário: