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sexta-feira, 21 de abril de 2017

Um buda resplandecente


Estava tudo programado. Não para o fim em si, que nunca acreditei que abreviar a vida fosse saída para coisa alguma. Fui pego de surpresa, como a grande maioria. Ninguém acorda lamentando ou exultando que “lindo dia para morrer”. Alguns, sim, mas não era meu caso. Quando morri deixei, na verdade, tudo pronto para o depois. Como se a minha finitude fosse inconcebível e alguém possuísse desejo sincero em me manter por aqui, mesmo depois do derradeiro suspiro.




Me empenhei pensando que os meus não aceitassem a partida e me quisessem nas mesas de bares, nas rodadas para contar mentira ou na invenção de histórias entre o intervalo de uma tarefa e outra no trabalho ou na mesa da cozinha diante do café posto e na reclamação de algo fora do lugar ou na pressa para aprontar a comida. Vai que alguma antiga namorada ou, ora veja, minha mulher me almeje como amante eterno, se não físico, mas o conversador de sempre, o galanteador e fazedor de poemas ruins. Nunca se sabe, há gostos e gostos e, cada qual, cabe muito bem no vasto mundo que agora deixo, em parte. Em Parte. Parte porque a chave da imortalidade nunca esteve no cálice sagrado, na fonte da juventude ou nas páginas de São Cipriano. Passei os últimos anos empenhado no sonho de tantos que o sonharam do avesso, quando sua realização estava ao alcance das mãos, a um clique, a meio segundo da startup mais rentosa do Japão. Sim, é no Japão entre peixes crus e homens esgotados que surgem as ideias mais rentáveis. Foi fácil, afinal.

Lancei a ideia e me pus como cobaia para caber num aplicativo. E eles, ágeis, catalogaram os movimentos de cabeça durante dois anos, sete meses e 17 dias. Chegaram à conclusão que eram 789 meneios diferentes, dentre afirmativas, negativas, dúvidas, choros, gargalhadas, reflexões, inflexões, defesas, ataques, repousos, correrias, ternuras e agressividades. Armazena. No mesmo período, acompanharam os olhos e seus 9.876 nuances de olhar, que inclusive, me assustei ao saber de tamanha quantidade. Armazena. Os franzidos da testa, as reações da boca, os andares, os deitares, sentares, fugires. Armazena. As posturas. Armazena. As reações. Armazena. Os cansaços, os ânimos - perceberam fácil que eu era uma pessoa cansada. Depois da leitura corporal, debruçaram-se no meu intricado jogo de comunicar, modulações de voz de acordo com as emoções, cada uma dividida em graduações de zero a mil, os graves e agudos da voz, e em como eu raciocinava estimulado por 10.987.943 temas que abrangiam coisas rasteiras, como atravessar a rua em uma avenida movimentada até juízo de valores e percepções acerca de perdas e ganhos diante da vida e do mundo. Escarafuncharam sobre meus gostos, meus medos, sustos, surpresas. Varreram cada canto da minha memória desde as primeiras décadas até o dia antes de minha morte. Daí foi tudo muito fácil: inserir os dados em um aplicativo para baixar em qualquer celular acoplado à holografia. Em um comando de voz, estava eu, falastrão, pronto para uma conversa, um embate, uma ideia, qualquer coisa, conforme quem me quisesse acionar para me ter por perto, celebrar em memória de mim (tomai todas e comei todos vós), com a vantagem de eu estar inteiramente disponível o tempo todo, sem nenhum desânimo ou traço de preguiça social, tão comum no original.
Quando descobriram o tal aplicativo associado à holografia foi, antes de tudo, uma festa, e, tempo depois, um escândalo, e, mais tarde, uma febre.
Meus queridos amigos podiam me ter a qualquer momento para opinar sobre tudo e sobre todos e contar todas as piadas sem graça e histórias que, muitas vezes, só a mim interessava, mas como era doce o prazer da convivência. Era como se eu fosse a criança prodígio ou o cachorro amestrado que eles possuíam e gostariam que todos vissem. Exibiam a invenção com um orgulho exagerado, como uma glória. Repetiam um comportamento que eu execrava: o exibicionismo barato, a exposição do que tinham como sinal de status. Eram uns filhos da puta mesmo. Sabiam que, se vivo estivesse, não deixaria passar.
Meu holograma estava sempre por aí nos bares, nas mesas de boteco, nas praças, nos bancos de carona, espremido nos ônibus, na beira da cama. Até em quarto de motel eu entrava, sem participar de nada, porque minha insubstanciabilidade luminosa não permitia, mas minha imagem se excitava como se pudesse materializar a carne, furar as calças e gozar das putarias que, antes, em minha presença material, nunca os malditos dos amigos permitiram que eu sequer testemunhasse.
Do pequeno ciclo, passou-se o aplicativo a amigos dos amigos e amigos dos amigos dos amigos dos amigos. Logo a imprensa especializada em nada com nada cobriu o grande achado sem explicar, óbvio, nada. Foi uma sensação, um desbunde em um setor de notícias que há muito não trazia grandes novidades desde a morte do Orkut e o lançamento de Pokemon Go.
Me vi inserido em grandes debates sobre ética humana e valorização da vida e inteligência artificial, ainda que toda aquela burrice despejada pelo meu eu holográfico em qualquer parte do mundo viesse de fonte pura e natural, condensada e relida nos labirintos terabyticos da nova nanotecnologia. Era eu mesmo, com todos os defeitos e ínfimas qualidades, circulando por aí, vivo, dinâmico, possível, múltiplo e ainda assim único, eu mesmo, a me relacionar e me movimentar por combinações matemáticas infinitas ordenadas a cada estímulo dentro da máquina milagrosa dos terríveis sócios orientais, que a esta altura do campeonato estavam trilhardários, uma vez que eu superei em cem vezes a soma de downloads dos 50 aplicativos mais populares nos cinco continentes. Fui capa da Times, New York Times, The Guardin e fizeram um documentário na BBC sobre o homem que ressuscitou não uma vez, que isso era coisa de gente ultrapassada, mas milhões de vezes em qualquer lugar.
Todos me possuíam e eu estava em toda parte e começaram a implantar extensões, inventar jogos, novas interfaces, roupas, acessórios, novos penteados. Mudaram a cor da pele para agradar o mercado europeu e disponibilizaram cabelos mais crespos para entrar o mercado africano. Havia versões com voz mais grave e mais aguda em uns 90 idiomas. Um hacker criou um modo fora dos padrões heteronormativos com gírias da moda que fez muito sucessos nas boates. Crianças andavam com o holograma em todos os lugares e eu lhes falava como foi complicado aquele Natal da supermáquina menor do que eu esperava. Idosos me ligavam nos cafés e permaneciam calados apenas usufruindo do vazio ótico que eu lhes proporcionava. Mulheres treinavam declarações de amor e de ódio comigo. Eu era o novo espelho. Amigos falsificados me levavam para as festas mais caras para impressionar os amigos falsificados de verdade que eles possuíam. Em pouco tempo cai no desuso, não coincidentemente quando esses caras começaram a me expor nos seus camarotes elegantes com espumante e música ruim – que todo mundo adorava me ver criticando, era uma das graças da noite.
Eu era muito melhor do que a Barbie até que as versões mais novas de celulares passaram a não aceitar meu aplicativo. Os japoneses venderam a star up em um surto da bolsa da Coréia e ficaram mais ricos ainda. As ações perderam o rumo e a nova empresa não segurou, porque a onda eram hologramas tácteis de garotas suecas ou russas ou latinas, conforme o gosto do freguês. As crianças abandonaram a brincadeira e fui desbotando na memória recente do consumo desenfreado dos apepês. As máquinas de holograma se aposentaram em pouco mais de dois anos. O tempo voa! Alguns dos meus, os amigos e parentes, usavam ainda. Pouco, mas usavam. A superexposição enjoou a todos e, no final, preferiram lembrar da maneira convencional, ainda que as lembranças estivessem pichadas pela lambança do grande público, pelas deturpações e exibicionismos. Quem melhor lembrava sequer ouvira falar de tecnologia ou imortalidade.
Uma ex arrumou um cubículo, que antes era dispensa, e deixou um celular antiquado eternamente ligado em uma tomada e, para o desespero de um dos tantos eus que viviam em segredo como brinquedo luminoso de quase ninguém, deixou o display do holograma ligado. Era um dos prédios mais caros da cidade, nessa época. De quando em vez, a mulher abria a porta do quartinho e, pela fresta, me via sentado na cama posta para que minha imagem projetada em cinco dimensões descansasse. Era comum me encontrar sentado, reclamando sozinho das mesmas coisas que eu tartamunhava em vida. A conferência se repetiu seguidas vezes até desacontecer. Nunca mais a fresta.
Soube-se que, depois do casamento, ela mudou para um condomínio horizontal com marido e filhos. Deixou o apartamento vazio por apego à matéria, como sempre. Preferia o imóvel desocupado a ter que alugar para alguém que maculasse seu ar. Sempre fora uma acumuladora, com exceção do quartinho, com a solitária cama de solteiro e a holografia, os demais espaços eram atulhados de objetos que ela jamais conseguia se desfazer: centenas de pares sapatos, entulhos de vestido de festa, caixas de joias, cristais, chapéus e bolsas suficientes para abrir umas cinco lojas, coleções de suvenires, louças encaixotadas e nunca usadas, presentes diversos, bonecas da infâncias, artigos de decorações e milhares de embalagens de cacarecos comprados por onde ela passava em viagens. Não se desfazer do lugar onde morou por anos era mais uma etapa na saga cumulativa daquela tigresa. Tão extremado foi o ato que os anos se passaram e o bairro, antes nobre, foi depreciado e a área, outrora valorizada, tornou-se primeiro popular, depois um cortiço e, já no século seguinte, uma zona de guerra, onde os viciados arrombavam os cadeados para se abrigar da chuva e do frio e aspirar a fumaça e injetar os venenos sem incômodo. Eu, ou melhor, meu derradeiro holograma não tolerava mais a solidão e com os anos comecei a ter falhas de comunicação, ainda que a obsolência programada para o aplicativo fosse longa. Repetia frases desconexas. Às vezes, ficava emotivo. Dei para meditar. E foi em uma meditação automática, posição de lótus, olhos cerrados e tudo mais, que me assustei com o estrondo. Arrombaram a porta.
Um homem de barba longa, os olhos baços, os dentes em petição de miséria, a roupa em farrapos conseguiu entrar no único cômodo da casa até então inviolado. Olhei o invasor e, em um átimo de segundo, consultei meu calendário interior para constatar que tantas décadas depois, o que há cem anos chamávamos de futuro em vida, nada mudou. Os mendigos continuavam a usar o mesmo figurino. Era a prova de que o mundo continuava a mesma merda de sempre, apesar de tantos anos passados.

Ele me viu com seu olhar de cachorro triste. Estava eu sentado com as pernas entrecruzadas, o pé direito sobre a joelho esquerdo, o pé esquerdo sobre o joelho direito. Um buda resplandecente, impávido, pacífico, algo inspirado num passado imemorial. Ele se ajoelhou e o aplicativo percebeu a comoção e, em silêncio, manteve a imagem. O estranho chorou por longo tempo e murmurou de mãos unidas até cansar. Dormiu no chão e, pela manhã, levantou-se e saiu, com o cuidado de trancar a porta. Voltou à noite com velas e uma mulher no mesmo estado de espírito e nas mesmas paupérrimas condições de vestimenta. Os dois se mantiveram reverentes, quase sempre os olhos cerrados, as sibilações. Noutro dia, mais velas e agora flores. Mais duas pessoas. Mais três. Mais oito. Mais dez. Um grupo grande. Uma multidão. Trouxeram um cachorro doente, que ficou mais alegre na presença da luz, no caso, eu. Depois veio um velho que pediu para que sarasse a dor e a dor sarou. Outra manhã, uma criança foi posta em uma cesta. Mais um pedido. E um chorinho miúdo em seguida. Gritos de comemoração. Logo, uns brutamontes se puseram diante da porta, isolaram a área e só entrava um por vez. E, eu, bestificado com o desfile, ativei o modo pavor do meu dispositivo e estático fiquei, com exceção de movimentos de cumprimento muito tímidos e lentos, que os visitantes interpretavam como bênçãos.
Em uma noite, houve um tumulto na porta. Berro, estrondo, estampido, fumaça, correria, desespero. Estouros seguidos, flashes de pólvora, gemidos, choros, ranger de dentes. Uma mulher entrou no cubículo. Com habilidade de um macaco, trancou a porta e se jogou embaixo do meu catre. Ficou lá quieta por horas. Eu, melhor, meu holograma, estava deitado em posição fetal, quase morto, como se fosse possível, de medo, o rosto em direção à parede. Ficaram imóveis por horas, ela e eu. A respiração dela era abafada, pesada. Foi crescendo até se transformar em um fungado curto no princípio até se transformar em choro convulso e, mais adiante, em imensos soluços esparsos, como se tivesse bebido cinco garrafas de vinho sozinha.
Os barulhos esmaeceram aos poucos. Quando o silêncio retornou ao cubículo, ela saiu debaixo da cama como uma serpente e sentou ao meu lado. O rosto estava devastado pelas horas sem dormir. A mulher perguntou se eu estava bem. Depois se corrigiu, cheio de reverência e numa linguagem que ela julgava ser da minha época: oh, como podeis eu ser tão ingênua, se vós és santo e indelével em sua imensa grandeza, oh. Perguntei com raiva medida o motivo da fala tão empolada e ela explicou que havia sido uma das pessoas agraciadas com um milagre meu, que eu salvara sua vida miserável. Contive o riso.
Tinha 30 anos no máximo. Formosa, lindos olhos diáfanos de um verde água. Muito branca e sarapintada de sardas marrons, alaranjadas, rosas e algumas levemente vermelhas. Os cabelos tinham a cor do cobre desbotado e estavam soltos, lindamente, soltos. Os seios se escondiam no vestido simples que usava, o qual cobria as pernas abaixo dos joelhos. Os tornozelos indicavam que ela havia praticado algum esporte na infância e na adolescência. Natação, talvez. Os ombros eram quase que imperceptivelmente mais largos do que o normal para uma mulher. Em algumas vezes, enquanto falava e gesticulava, era possível ver as clavículas salientes se encontrando no centro da base de um pescoço alongado de bailarina. Tinha voz firme cujo som se dividia muito bem entre a cavidade bucal e a nasal com o ar dos pulmões aspirado de forma bem controlada. Meu holograma se considerou naquele instante um cara de sorte.
Ela contou a sua angústia. Um tumor no útero, o desengano da Medicina, a notícia da energia do novo buda, as romarias no velho prédio arruinado, a dificuldade para chegar, o pedido sincero e o milagre comprovado nos mais modernos exames radiológicos. Mas, ela não estava ali para agradecer. Não somente. Veio salvar o que ela considerava um novo santo. Salvá-lo da destruição e da maldade dos homens.
Interpretei o personagem que ela gostaria de ver e falei com voz branda, em certo modo sobrenatural, o que não era nenhuma dificuldade para um holograma movido por Inteligência artificial. Em gestos longos e lentos, no entanto, contei a verdade. Minha ideia para permanecer vivo depois do fim de tudo, o sucesso de vendas, meu ocaso, o aprisionamento, os anos no quartinho, a descoberta e as inúteis ladainhas diante de mim em romarias infindáveis. Não era eu, minha querida. Era você ou vocês, sua fé, sua força interior a mover o impossível, disse eu, como se fosse um Moisés. Um sorriso extasiado me tomava a face, numa interpretação digna de prêmio, pena que para uma única espectadora.
Ela estendeu as mãos e chorou sem acreditar. Para a devota, a transformação de sua vida, a dissolução do tumor, a cura e a nova oportunidade, tudo, era oriundo de minha luz e poder. Estendeu as mãos, as duas, como se eu pudesse tocá-la. Lembrei de Patrick Swayze e Demi Moore, em um filme velho que ela jamais viu. Vamos, venha comigo, ainda há tempo. O motivo era plausível, mas recusei com elegância e bons argumentos. Ela explicou que faltavam poucas horas e prometeu ficar até os últimos minutos. Antes de sair, quando o dia raiou, segurou a fluidez do que era minha fronte, me deu um beijo em direção à minha testa e depois à minha boca e deixou o espaço, fechando a porta como eu havia lhe pedido.
Me pus em lótus novamente e lamentei as impossibilidades da minha precária imortalidade vinculada a um dispositivo ultrapassado com a bateria viciada. Cortaram a energia, como estava previsto, e em meia hora o prédio foi ao chão depois das implosões. Com alguma ironia, minha vida, as duas, não passaram como um filme em minha cabeça antes da desconexão total. Lá fora, os fiéis ao buda que eu nunca fui lacrimejavam e tentavam agredir os policiais que cercavam o local. De resto, ninguém ouvira falar da minha história holográfica, menos ainda a real.

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