Seguidores

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Sorvete de creme com calda de morango


Era Páscoa e eu estourei a cabeça do Cara de Aborto na parede chapiscada da escola. Nunca fui de briga, mas ele lambuzou minha camisa novinha de lama e ainda tripudiou. Decidi meter a porrada nele enquanto dávamos volta nos blocos de sala de aula, Bebeto e eu. Éramos da sétima série e bem comportados, eu principalmente.
No retorno, segurei Cara de Aborto numa gravata e o ameacei. Ele reagiu e, enfezado, empurrei a cabeça do moleque contra a parede. Quando soltei, ele estava como um sorvete de creme com calda de morango: lívido e com a cara cheia de sangue. Todo mundo pra Diretoria.

Fomos lá.
Bebeto, apelido do Alan que viva com a camisa 7 do Vasco, levou a culpa também, sem ter movido um músculo. A escola se revolveu. Foi um alvoroço. Na salinha, ouvindo o rugido exterior, contei a história para diretora e ela, apesar de me recriminar, me deu razão. Mas, se a crítica estava satisfeita com minha performance de violência, o público não.
Quando saíamos da sala. Lia, Josie e outras meninas, alertaram: eles estão lá fora e querem matar vocês. Era a gangue de Cara de Aborto sedenta por sangue, o nosso sangue.
Tratei de fugir. Pulei o muro e fiquei escondido no mato, na área da Aeronáutica. Mas, a culpa por deixar Bebeto morrer sozinho a pauladas me consumiu: pulei de volta para escola.
Combinei uma estratégia para enfrentar as feras: um de costas pro outro contra todos. Não iria dar certo, claro. Me fiz de valente e cruzei o portão guardado por Stalone, o porteiro. Ao ver a horda de facínoras, armados de pernamancas e chicotes, pensei: fudeu! Tentei voltar, mas Stalone, o perverso, disse: saiu não entra mais. Bebeto, tremendo, me acompanhou. Éramos dois contra uns 50, as três sextas séries reunidas.
Eles começaram a se movimentar para o massacre, balançando as armas e berrando, como numa guerra medieval. É o fim, pensei. Lembrei de todos os filmes de porrada que assisti. Nenhum poderia me salvar. Eu não era nem o Rambo, nem o Van Dame, nem o Chuck Norris.
Mas a diretora Ruth surgiu e pôs os bárbaros para correr. Quando os moleques viram a autoridade máxima da escola, tremeram na base. Fosse hoje a teriam ignorado ou dado uma coça nela também.
No outro lado da tela, Bebeto e eu corríamos para Duque de Caxias para pegar o Aeroclube, que passou certinho quando alcançamos o ponto de ônibus. Era um milagre do senhor. Subimos e respiramos.
Chegamos à casa do Bebeto, no Curió. Conversamos um pouco, tomei uma água e voltei pra casa incólume da surra.
Deu tempo de pegar o mesmo Aeroclube, que havia dado a volta no centro e retornado pela Almirante Barroso. Em frente ao Lauro Sodré, subi, paranoico, no veículo: eles poderiam estar em qualquer lugar.
Que nada! Cheguei em casa ressuscitado da Silva.
Era Páscoa, afinal, e eu ainda acreditava em Deus.

Nenhum comentário: