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terça-feira, 25 de abril de 2017

Não vou publicar no seu muro

Não tem jeito nem fórmula: escrever é aprender a contar a própria vida e para tanto é preciso viver, o que parece muito óbvio, porém, não é. E quem não gosta de escrever ou não gosta desse papo sobre escrever ou que não tem interesse sobre escrever que vá pro inferno procurar outra freguesia, amolar o diabo. Caia fora, você não é bem-vindo.
O fato é que para escrever é preciso levar umas boas porradas por aí. Cair de joelhos e se esfolar, porque vitórias até podem ser bonitas, mas os fracassos, ah, os fracassos, possuem descrições tão lindas e tantas formas de poder narrá-los e entram pelas narinas e todos os poros de quem os lê/ouve/sente com a força humana que nenhuma vitória de herói em tempo algum consegue. Não se trata de louvar a derrota, no entanto, saber que ela virá, como sempre vem, e não a descartar como vergonha, como mal em si.
Claro que é necessário ganhar também e, sobretudo, olhar as entrelinhas de cada fim de jogada, de cada ciclo encerrado, observar as encruzilhadas e as esquinas, os meios-fios, e, mesmo nas quedas, ainda que de cara na poeira, saber que todas as coisas servirão para moldá-lo e influenciarão no modo de contar, vão estar em cada linha avançada na tela em branco.
Para escrever é preciso ainda ouvir. Ouvir com amor de uma concubina e os ouvidos de um tuberculoso ou ainda com a preocupação de quem recebe as ordens do rei. Ver, experimentar e, principalmente, ouvir. Ouvir com interesse real, ouvir como quem escuta o barulho das ondas depois de um expediente exaustivo e horrível, ouvir como quem escuta aos sussurros preciso de contar uma coisa.
Escrever é ainda envelhecer. Tem muito de verdade o que é velho, o que é mastigado e remastigado, digerido e recomido, guardado, apodrecido, germinado, renascido e revisitado, recontado a cada ruga e dor que surge com a idade, a cada fio de cabelo a menos.
O tempo serve ainda como depurativo: o que não presta se esvai e fica o que, de fato, vale alguma coisa, nem que seja o mínimo. É raro escrever com fluência e verdade quando muito jovem, exceto os casos em que o escrevente já nasce idoso, engelhado, conhecedor das próprias mágoas, ressentimentos, brios, habilidade, incapacidades, tristezas, alegrias, virtudes, iras e suspiros. É raríssimo.
Não adianta nada perseguir a escrita. É uma gata, um animalzinho minúsculo, de sentimentos sofisticado que ama quem a ama, mas só se enrosca quando sente vontade real, na hora em que percebe no outro com seu faro um lugar seguro para se manifestar em plenitude. Não adianta vontade, ansiedade, necessidade, compulsão, não adianta evocar os deuses e pedir compaixão, não adianta porra nenhuma.
Se ela perceber que é usada por pura vaidade, então, é muito pior: foge para nunca mais, porque vaidade é importante para exibi-la como prêmio e musa que é, mas péssima para encontrá-la livre e pronta para se entregar por inteira. Não sabe muito bem sobre esse estado e as pistas são poucas. É, talvez, em um palpite torto, uma manifestação de verdade que atinge quem lê e dispara outras verdades nesse que lê.
Escrever é insistência, é solidão, é odioso, ás vezes. Quantos ódios cabem no que foi escrito e no que não foi? Escrever é andar nu e tênis e, saber-se, nu e de tênis e ainda assim continuar. Contar a própria vida contando a alheia ou parir a dos outros a partir da sua ou das vidas captadas
pelo olho, pela pele, pelo ouvido e pela cabeça ao longo dessa experiência que é escrever a existência, que a gente insiste em resumir como vida.
Escrever, às vezes enche o saco, mas a gente continua, porque, como foi dito, não tem outro jeito.

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