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quinta-feira, 27 de abril de 2017

Comportamento Geral

Essa aprovação da reforma trabalhista me lembrou o ano de 2004, quando eu tive que "negociar" com a empresa em que trabalhava minhas condições. Não por coincidência, era o Diário do Pará, um jornal de um político do PMDB.

Entrei para cobrir férias, se não me engano, da Fabíola Batista. Eu era foca e precisava de trabalho. Era o que tinha, não tinha escolha. Fiquei na condição de temporário com uma remuneração, pasmem, de R$ 660. Na época, o mínimo era R$ 260.
Acabaram as férias da Fabíola e eu continuei. Eu precisava trabalhar e fui ficando. Sem nenhum contrato, sem nenhuma formalização. Três meses se passaram e sempre perguntava ao Gerson Nogueira, diretor de redação da época: quando vão assinar minha carteira? Hoje entendo que ele era tão empregado quanto eu: ele respondia de forma evasiva que na próxima leva de contratados eu estava dentro. "Paciência, companheiro".
Passou-se um ano e meio. E eu não tive minha carteira assinada. Em compensação, eles aumentaram meu salário pra... R$ 779! Ora, eu merecia essa fortuna. Eu não reclamava de mudarem meu horário a qualquer momento, eu fazia todas as pautas e gastava a maior parte do meu tempo do dia na redação. Às vezes, chegava de manhã e saía nove, dez, até onze da noite. Quando acabaram com as equipes de polícia e propuseram um único repórter pra fazer tudo, os dois turnos, quem foi? Eu, claro. Eu precisava do trabalho e do dinheiro.
No Diário, não havia carro pra apanhar todo mundo em suas pautas. Era uma confusão e, enquanto estive setorizado na Assembleia Legislativa, não raro, eu dispensava a condução do jornal e pegava um ônibus pra ir pra casa almoçar, lá pela uma e meia da tarde, e entregar minha matéria lá pelas três, quatro horas.
O que eu ganhava em troca do esforço era mais trabalho e só o salário mesmo, benefício nenhum. De vez em quando, eu perguntava sobre a carteira assinada. Gerson, coitado, já sem graça com a minha chatice, pedia mais paciência.
Resumo: em agosto de 2005 , apareceu outro trabalho. Desta vez com carteira assinada e uma remuneração melhor. Comuniquei a empresa sobre esse chamado e, como contrapartida, ela me ofereceu, vejam só, carteira assinada! e uma remuneração menor do que a proposta do outro emprego com a vantagem de não estar na escala todos os fins de semana nos plantões. Baita vantagem! Isto porque eu era um repórter esforçado e pau pra toda obra.
Em um ano e meio, eu tentei que a empresa me garantisse algum benefício, mas era demais pro Diário do Pará. Não dava pra eles pagarem nada mais do que pagavam. Nas páginas do jornal, ao lado das minhas matérias, os números de crescimento de assinante e liderança no mercado. Aos domingos, um jornal gordo entupido de anúncios.
Sabe como eu consegui que a empresa respeitasse o mínimo dos meus direitos? Indo à Justiça do Trabalho. Uma medida extrema, afinal, diante de tantos pedidos para que apenas respeitassem a lei.
Eu segui minha vida profissional e o Diário continua essa empresa forte e respeitada no mercado, líder na comercialização de notícias.
A história é apenas para mostrar qual o nosso poder de negociação diante de quem detém a vaga de emprego e decide se você tem um emprego, em qualquer condição, ou fica desempregado se ficar nessa de exigir alguma coisa.
As críticas contra a Justiça do Trabalho estão surgindo a cada dia mais fortes. O presidente da Câmara dos Deputados já disse que é um "poder desnecessário". Anotem: o próximo passo é extingui-la.
E, pelo andar da carruagem, vamos deixar. A não ser que essa votação de ontem seja o estopim pra alguma reação e a greve de amanhã agregue o máximo de pessoas e categorias.
Está na hora de levantar a cabeça e reagir a esses ataques e ir pra rua.


#grevegeral

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