terça-feira, 25 de abril de 2017

Não vou publicar no seu muro

Não tem jeito nem fórmula: escrever é aprender a contar a própria vida e para tanto é preciso viver, o que parece muito óbvio, porém, não é. E quem não gosta de escrever ou não gosta desse papo sobre escrever ou que não tem interesse sobre escrever que vá pro inferno procurar outra freguesia, amolar o diabo. Caia fora, você não é bem-vindo.
O fato é que para escrever é preciso levar umas boas porradas por aí. Cair de joelhos e se esfolar, porque vitórias até podem ser bonitas, mas os fracassos, ah, os fracassos, possuem descrições tão lindas e tantas formas de poder narrá-los e entram pelas narinas e todos os poros de quem os lê/ouve/sente com a força humana que nenhuma vitória de herói em tempo algum consegue. Não se trata de louvar a derrota, no entanto, saber que ela virá, como sempre vem, e não a descartar como vergonha, como mal em si.
Claro que é necessário ganhar também e, sobretudo, olhar as entrelinhas de cada fim de jogada, de cada ciclo encerrado, observar as encruzilhadas e as esquinas, os meios-fios, e, mesmo nas quedas, ainda que de cara na poeira, saber que todas as coisas servirão para moldá-lo e influenciarão no modo de contar, vão estar em cada linha avançada na tela em branco.
Para escrever é preciso ainda ouvir. Ouvir com amor de uma concubina e os ouvidos de um tuberculoso ou ainda com a preocupação de quem recebe as ordens do rei. Ver, experimentar e, principalmente, ouvir. Ouvir com interesse real, ouvir como quem escuta o barulho das ondas depois de um expediente exaustivo e horrível, ouvir como quem escuta aos sussurros preciso de contar uma coisa.
Escrever é ainda envelhecer. Tem muito de verdade o que é velho, o que é mastigado e remastigado, digerido e recomido, guardado, apodrecido, germinado, renascido e revisitado, recontado a cada ruga e dor que surge com a idade, a cada fio de cabelo a menos.
O tempo serve ainda como depurativo: o que não presta se esvai e fica o que, de fato, vale alguma coisa, nem que seja o mínimo. É raro escrever com fluência e verdade quando muito jovem, exceto os casos em que o escrevente já nasce idoso, engelhado, conhecedor das próprias mágoas, ressentimentos, brios, habilidade, incapacidades, tristezas, alegrias, virtudes, iras e suspiros. É raríssimo.
Não adianta nada perseguir a escrita. É uma gata, um animalzinho minúsculo, de sentimentos sofisticado que ama quem a ama, mas só se enrosca quando sente vontade real, na hora em que percebe no outro com seu faro um lugar seguro para se manifestar em plenitude. Não adianta vontade, ansiedade, necessidade, compulsão, não adianta evocar os deuses e pedir compaixão, não adianta porra nenhuma.
Se ela perceber que é usada por pura vaidade, então, é muito pior: foge para nunca mais, porque vaidade é importante para exibi-la como prêmio e musa que é, mas péssima para encontrá-la livre e pronta para se entregar por inteira. Não sabe muito bem sobre esse estado e as pistas são poucas. É, talvez, em um palpite torto, uma manifestação de verdade que atinge quem lê e dispara outras verdades nesse que lê.
Escrever é insistência, é solidão, é odioso, ás vezes. Quantos ódios cabem no que foi escrito e no que não foi? Escrever é andar nu e tênis e, saber-se, nu e de tênis e ainda assim continuar. Contar a própria vida contando a alheia ou parir a dos outros a partir da sua ou das vidas captadas
pelo olho, pela pele, pelo ouvido e pela cabeça ao longo dessa experiência que é escrever a existência, que a gente insiste em resumir como vida.
Escrever, às vezes enche o saco, mas a gente continua, porque, como foi dito, não tem outro jeito.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Belém, entreposto sentimental

Às vezes bate uma saudade da família e dos amigos e penso: opa, tem feriado chegando, dá pra ir pra Belém de carro, a chuva deu uma trégua, o trecho entre Novo Repartimento e Tucuruí já melhorou, pé na estrada já que de avião é mais barato ir pra qualquer cidade da América Latina e até pra Europa.
Clique do Rogério Uchôa
Mas, depois paro e reflito: vou ter que enfrentar aquela selvageria do trânsito depois que sair da Alça Viária pra BR-316, engarrafamento na Almirante Barroso, falta de educação de tudo que é motorista, um malaco a cada semáforo e, mais tarde, medo de andar na rua ser vítima de sequestro relâmpago ou refém de assaltante fugindo da polícia ou ter uma arma apontada pra minha cara ou ser assassinado por causa de um celular, olhar tudo e ver a quantidade de lixo nas ruas e incivilidade pra todo lado.
Penso, repenso, penso de novo, calculo o gasto e entro nos sites das companhias aéreas. Quanto está uma passagem pra Lima ou Bogotá mesmo? Hum, Lisboa também não deve ter tanta diferença de preço.... Ligo pra galera, ouço a voz, acalmo o coração, bisbilhoto o Facebook de alguém e me agasalho por aqui mesmo.
Belém vai ficando como em segundo posto, entreposto sentimental, lugar de passagem, tão longe e tão perto, o incômodo pro viajante que para por algumas horas no aeroporto e suspira despedaçado ao constatar que a felicidade está em qualquer paragem, menos ali, na cidade Natal, hostil, violenta, confusa, difícil, onerosa.
Chegar não é mais o bom retorno pra nada, muito menos aventura. Aportar onde nasceu virou sacrifício, pavor, martírio, um mal estar que não passa, uma nostalgia do avesso.
É foda.

domingo, 23 de abril de 2017

Noel bêbado de novo

Os tempos são outros, mas, apesar da leitura e do culto boboca e exaustivo ao Bukowski e aos beatniks, as fotos nas redes sociais da galera beijando garrafa de Absolut e Jack Daniels e participando de orgias, da força de todos os movimentos de minorias em marcha civilizatória por todo o mundo ocidental, Willie Cook ainda tem alguma força narrativa e arranca boas risadas.

A figura do vigarista beberrão derrotado pela vida, tarado sexual e despraguejador de tudo e de todos continua seduzindo por aí, porque nos provoca riso, repulsa e medo também. Medo das rasteiras que podem colocar qualquer um de nós no lugar dele. Todos acham engraçado, mas ninguém quer ser o homem exaustos e apaixonado pelas derrotas, cheio de traumas e marcas, vivendo miseravelmente á margem, apegado apenas ao que o corpo pode captar fácil e de imediato: o álcool e o sexo.
Quanto ao cunho politicamente incorreto, treze anos se passaram e reduziram a carga, principalmente, do machismo e da homofobia, por motivos óbvios. Mas, o que fica mais visível é o moralismo crescente nesses anos: o corpo é um incômodo em 2016, mas não em 2003 com seios, bundas e um tiquinho de púbis à mostra. Em ambos, o ato sexual é despido de sensualidade e se torna só um adereço para o humor.
Vi Bad Santa 1 e 2 e ainda acho graça do personagem escroto do Billy Bob Thornton. Continua sendo meu filme de Natal preferido, talvez por eu também não acreditar nessas merdas todas próprias da época e querer dar uns cascudos nesses demônios que as pessoas teimam em chamar de crianças.
Me desculpem.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Um buda resplandecente


Estava tudo programado. Não para o fim em si, que nunca acreditei que abreviar a vida fosse saída para coisa alguma. Fui pego de surpresa, como a grande maioria. Ninguém acorda lamentando ou exultando que “lindo dia para morrer”. Alguns, sim, mas não era meu caso. Quando morri deixei, na verdade, tudo pronto para o depois. Como se a minha finitude fosse inconcebível e alguém possuísse desejo sincero em me manter por aqui, mesmo depois do derradeiro suspiro.




Me empenhei pensando que os meus não aceitassem a partida e me quisessem nas mesas de bares, nas rodadas para contar mentira ou na invenção de histórias entre o intervalo de uma tarefa e outra no trabalho ou na mesa da cozinha diante do café posto e na reclamação de algo fora do lugar ou na pressa para aprontar a comida. Vai que alguma antiga namorada ou, ora veja, minha mulher me almeje como amante eterno, se não físico, mas o conversador de sempre, o galanteador e fazedor de poemas ruins. Nunca se sabe, há gostos e gostos e, cada qual, cabe muito bem no vasto mundo que agora deixo, em parte. Em Parte. Parte porque a chave da imortalidade nunca esteve no cálice sagrado, na fonte da juventude ou nas páginas de São Cipriano. Passei os últimos anos empenhado no sonho de tantos que o sonharam do avesso, quando sua realização estava ao alcance das mãos, a um clique, a meio segundo da startup mais rentosa do Japão. Sim, é no Japão entre peixes crus e homens esgotados que surgem as ideias mais rentáveis. Foi fácil, afinal.

Lancei a ideia e me pus como cobaia para caber num aplicativo. E eles, ágeis, catalogaram os movimentos de cabeça durante dois anos, sete meses e 17 dias. Chegaram à conclusão que eram 789 meneios diferentes, dentre afirmativas, negativas, dúvidas, choros, gargalhadas, reflexões, inflexões, defesas, ataques, repousos, correrias, ternuras e agressividades. Armazena. No mesmo período, acompanharam os olhos e seus 9.876 nuances de olhar, que inclusive, me assustei ao saber de tamanha quantidade. Armazena. Os franzidos da testa, as reações da boca, os andares, os deitares, sentares, fugires. Armazena. As posturas. Armazena. As reações. Armazena. Os cansaços, os ânimos - perceberam fácil que eu era uma pessoa cansada. Depois da leitura corporal, debruçaram-se no meu intricado jogo de comunicar, modulações de voz de acordo com as emoções, cada uma dividida em graduações de zero a mil, os graves e agudos da voz, e em como eu raciocinava estimulado por 10.987.943 temas que abrangiam coisas rasteiras, como atravessar a rua em uma avenida movimentada até juízo de valores e percepções acerca de perdas e ganhos diante da vida e do mundo. Escarafuncharam sobre meus gostos, meus medos, sustos, surpresas. Varreram cada canto da minha memória desde as primeiras décadas até o dia antes de minha morte. Daí foi tudo muito fácil: inserir os dados em um aplicativo para baixar em qualquer celular acoplado à holografia. Em um comando de voz, estava eu, falastrão, pronto para uma conversa, um embate, uma ideia, qualquer coisa, conforme quem me quisesse acionar para me ter por perto, celebrar em memória de mim (tomai todas e comei todos vós), com a vantagem de eu estar inteiramente disponível o tempo todo, sem nenhum desânimo ou traço de preguiça social, tão comum no original.
Quando descobriram o tal aplicativo associado à holografia foi, antes de tudo, uma festa, e, tempo depois, um escândalo, e, mais tarde, uma febre.
Meus queridos amigos podiam me ter a qualquer momento para opinar sobre tudo e sobre todos e contar todas as piadas sem graça e histórias que, muitas vezes, só a mim interessava, mas como era doce o prazer da convivência. Era como se eu fosse a criança prodígio ou o cachorro amestrado que eles possuíam e gostariam que todos vissem. Exibiam a invenção com um orgulho exagerado, como uma glória. Repetiam um comportamento que eu execrava: o exibicionismo barato, a exposição do que tinham como sinal de status. Eram uns filhos da puta mesmo. Sabiam que, se vivo estivesse, não deixaria passar.
Meu holograma estava sempre por aí nos bares, nas mesas de boteco, nas praças, nos bancos de carona, espremido nos ônibus, na beira da cama. Até em quarto de motel eu entrava, sem participar de nada, porque minha insubstanciabilidade luminosa não permitia, mas minha imagem se excitava como se pudesse materializar a carne, furar as calças e gozar das putarias que, antes, em minha presença material, nunca os malditos dos amigos permitiram que eu sequer testemunhasse.
Do pequeno ciclo, passou-se o aplicativo a amigos dos amigos e amigos dos amigos dos amigos dos amigos. Logo a imprensa especializada em nada com nada cobriu o grande achado sem explicar, óbvio, nada. Foi uma sensação, um desbunde em um setor de notícias que há muito não trazia grandes novidades desde a morte do Orkut e o lançamento de Pokemon Go.
Me vi inserido em grandes debates sobre ética humana e valorização da vida e inteligência artificial, ainda que toda aquela burrice despejada pelo meu eu holográfico em qualquer parte do mundo viesse de fonte pura e natural, condensada e relida nos labirintos terabyticos da nova nanotecnologia. Era eu mesmo, com todos os defeitos e ínfimas qualidades, circulando por aí, vivo, dinâmico, possível, múltiplo e ainda assim único, eu mesmo, a me relacionar e me movimentar por combinações matemáticas infinitas ordenadas a cada estímulo dentro da máquina milagrosa dos terríveis sócios orientais, que a esta altura do campeonato estavam trilhardários, uma vez que eu superei em cem vezes a soma de downloads dos 50 aplicativos mais populares nos cinco continentes. Fui capa da Times, New York Times, The Guardin e fizeram um documentário na BBC sobre o homem que ressuscitou não uma vez, que isso era coisa de gente ultrapassada, mas milhões de vezes em qualquer lugar.
Todos me possuíam e eu estava em toda parte e começaram a implantar extensões, inventar jogos, novas interfaces, roupas, acessórios, novos penteados. Mudaram a cor da pele para agradar o mercado europeu e disponibilizaram cabelos mais crespos para entrar o mercado africano. Havia versões com voz mais grave e mais aguda em uns 90 idiomas. Um hacker criou um modo fora dos padrões heteronormativos com gírias da moda que fez muito sucessos nas boates. Crianças andavam com o holograma em todos os lugares e eu lhes falava como foi complicado aquele Natal da supermáquina menor do que eu esperava. Idosos me ligavam nos cafés e permaneciam calados apenas usufruindo do vazio ótico que eu lhes proporcionava. Mulheres treinavam declarações de amor e de ódio comigo. Eu era o novo espelho. Amigos falsificados me levavam para as festas mais caras para impressionar os amigos falsificados de verdade que eles possuíam. Em pouco tempo cai no desuso, não coincidentemente quando esses caras começaram a me expor nos seus camarotes elegantes com espumante e música ruim – que todo mundo adorava me ver criticando, era uma das graças da noite.
Eu era muito melhor do que a Barbie até que as versões mais novas de celulares passaram a não aceitar meu aplicativo. Os japoneses venderam a star up em um surto da bolsa da Coréia e ficaram mais ricos ainda. As ações perderam o rumo e a nova empresa não segurou, porque a onda eram hologramas tácteis de garotas suecas ou russas ou latinas, conforme o gosto do freguês. As crianças abandonaram a brincadeira e fui desbotando na memória recente do consumo desenfreado dos apepês. As máquinas de holograma se aposentaram em pouco mais de dois anos. O tempo voa! Alguns dos meus, os amigos e parentes, usavam ainda. Pouco, mas usavam. A superexposição enjoou a todos e, no final, preferiram lembrar da maneira convencional, ainda que as lembranças estivessem pichadas pela lambança do grande público, pelas deturpações e exibicionismos. Quem melhor lembrava sequer ouvira falar de tecnologia ou imortalidade.
Uma ex arrumou um cubículo, que antes era dispensa, e deixou um celular antiquado eternamente ligado em uma tomada e, para o desespero de um dos tantos eus que viviam em segredo como brinquedo luminoso de quase ninguém, deixou o display do holograma ligado. Era um dos prédios mais caros da cidade, nessa época. De quando em vez, a mulher abria a porta do quartinho e, pela fresta, me via sentado na cama posta para que minha imagem projetada em cinco dimensões descansasse. Era comum me encontrar sentado, reclamando sozinho das mesmas coisas que eu tartamunhava em vida. A conferência se repetiu seguidas vezes até desacontecer. Nunca mais a fresta.
Soube-se que, depois do casamento, ela mudou para um condomínio horizontal com marido e filhos. Deixou o apartamento vazio por apego à matéria, como sempre. Preferia o imóvel desocupado a ter que alugar para alguém que maculasse seu ar. Sempre fora uma acumuladora, com exceção do quartinho, com a solitária cama de solteiro e a holografia, os demais espaços eram atulhados de objetos que ela jamais conseguia se desfazer: centenas de pares sapatos, entulhos de vestido de festa, caixas de joias, cristais, chapéus e bolsas suficientes para abrir umas cinco lojas, coleções de suvenires, louças encaixotadas e nunca usadas, presentes diversos, bonecas da infâncias, artigos de decorações e milhares de embalagens de cacarecos comprados por onde ela passava em viagens. Não se desfazer do lugar onde morou por anos era mais uma etapa na saga cumulativa daquela tigresa. Tão extremado foi o ato que os anos se passaram e o bairro, antes nobre, foi depreciado e a área, outrora valorizada, tornou-se primeiro popular, depois um cortiço e, já no século seguinte, uma zona de guerra, onde os viciados arrombavam os cadeados para se abrigar da chuva e do frio e aspirar a fumaça e injetar os venenos sem incômodo. Eu, ou melhor, meu derradeiro holograma não tolerava mais a solidão e com os anos comecei a ter falhas de comunicação, ainda que a obsolência programada para o aplicativo fosse longa. Repetia frases desconexas. Às vezes, ficava emotivo. Dei para meditar. E foi em uma meditação automática, posição de lótus, olhos cerrados e tudo mais, que me assustei com o estrondo. Arrombaram a porta.
Um homem de barba longa, os olhos baços, os dentes em petição de miséria, a roupa em farrapos conseguiu entrar no único cômodo da casa até então inviolado. Olhei o invasor e, em um átimo de segundo, consultei meu calendário interior para constatar que tantas décadas depois, o que há cem anos chamávamos de futuro em vida, nada mudou. Os mendigos continuavam a usar o mesmo figurino. Era a prova de que o mundo continuava a mesma merda de sempre, apesar de tantos anos passados.

Ele me viu com seu olhar de cachorro triste. Estava eu sentado com as pernas entrecruzadas, o pé direito sobre a joelho esquerdo, o pé esquerdo sobre o joelho direito. Um buda resplandecente, impávido, pacífico, algo inspirado num passado imemorial. Ele se ajoelhou e o aplicativo percebeu a comoção e, em silêncio, manteve a imagem. O estranho chorou por longo tempo e murmurou de mãos unidas até cansar. Dormiu no chão e, pela manhã, levantou-se e saiu, com o cuidado de trancar a porta. Voltou à noite com velas e uma mulher no mesmo estado de espírito e nas mesmas paupérrimas condições de vestimenta. Os dois se mantiveram reverentes, quase sempre os olhos cerrados, as sibilações. Noutro dia, mais velas e agora flores. Mais duas pessoas. Mais três. Mais oito. Mais dez. Um grupo grande. Uma multidão. Trouxeram um cachorro doente, que ficou mais alegre na presença da luz, no caso, eu. Depois veio um velho que pediu para que sarasse a dor e a dor sarou. Outra manhã, uma criança foi posta em uma cesta. Mais um pedido. E um chorinho miúdo em seguida. Gritos de comemoração. Logo, uns brutamontes se puseram diante da porta, isolaram a área e só entrava um por vez. E, eu, bestificado com o desfile, ativei o modo pavor do meu dispositivo e estático fiquei, com exceção de movimentos de cumprimento muito tímidos e lentos, que os visitantes interpretavam como bênçãos.
Em uma noite, houve um tumulto na porta. Berro, estrondo, estampido, fumaça, correria, desespero. Estouros seguidos, flashes de pólvora, gemidos, choros, ranger de dentes. Uma mulher entrou no cubículo. Com habilidade de um macaco, trancou a porta e se jogou embaixo do meu catre. Ficou lá quieta por horas. Eu, melhor, meu holograma, estava deitado em posição fetal, quase morto, como se fosse possível, de medo, o rosto em direção à parede. Ficaram imóveis por horas, ela e eu. A respiração dela era abafada, pesada. Foi crescendo até se transformar em um fungado curto no princípio até se transformar em choro convulso e, mais adiante, em imensos soluços esparsos, como se tivesse bebido cinco garrafas de vinho sozinha.
Os barulhos esmaeceram aos poucos. Quando o silêncio retornou ao cubículo, ela saiu debaixo da cama como uma serpente e sentou ao meu lado. O rosto estava devastado pelas horas sem dormir. A mulher perguntou se eu estava bem. Depois se corrigiu, cheio de reverência e numa linguagem que ela julgava ser da minha época: oh, como podeis eu ser tão ingênua, se vós és santo e indelével em sua imensa grandeza, oh. Perguntei com raiva medida o motivo da fala tão empolada e ela explicou que havia sido uma das pessoas agraciadas com um milagre meu, que eu salvara sua vida miserável. Contive o riso.
Tinha 30 anos no máximo. Formosa, lindos olhos diáfanos de um verde água. Muito branca e sarapintada de sardas marrons, alaranjadas, rosas e algumas levemente vermelhas. Os cabelos tinham a cor do cobre desbotado e estavam soltos, lindamente, soltos. Os seios se escondiam no vestido simples que usava, o qual cobria as pernas abaixo dos joelhos. Os tornozelos indicavam que ela havia praticado algum esporte na infância e na adolescência. Natação, talvez. Os ombros eram quase que imperceptivelmente mais largos do que o normal para uma mulher. Em algumas vezes, enquanto falava e gesticulava, era possível ver as clavículas salientes se encontrando no centro da base de um pescoço alongado de bailarina. Tinha voz firme cujo som se dividia muito bem entre a cavidade bucal e a nasal com o ar dos pulmões aspirado de forma bem controlada. Meu holograma se considerou naquele instante um cara de sorte.
Ela contou a sua angústia. Um tumor no útero, o desengano da Medicina, a notícia da energia do novo buda, as romarias no velho prédio arruinado, a dificuldade para chegar, o pedido sincero e o milagre comprovado nos mais modernos exames radiológicos. Mas, ela não estava ali para agradecer. Não somente. Veio salvar o que ela considerava um novo santo. Salvá-lo da destruição e da maldade dos homens.
Interpretei o personagem que ela gostaria de ver e falei com voz branda, em certo modo sobrenatural, o que não era nenhuma dificuldade para um holograma movido por Inteligência artificial. Em gestos longos e lentos, no entanto, contei a verdade. Minha ideia para permanecer vivo depois do fim de tudo, o sucesso de vendas, meu ocaso, o aprisionamento, os anos no quartinho, a descoberta e as inúteis ladainhas diante de mim em romarias infindáveis. Não era eu, minha querida. Era você ou vocês, sua fé, sua força interior a mover o impossível, disse eu, como se fosse um Moisés. Um sorriso extasiado me tomava a face, numa interpretação digna de prêmio, pena que para uma única espectadora.
Ela estendeu as mãos e chorou sem acreditar. Para a devota, a transformação de sua vida, a dissolução do tumor, a cura e a nova oportunidade, tudo, era oriundo de minha luz e poder. Estendeu as mãos, as duas, como se eu pudesse tocá-la. Lembrei de Patrick Swayze e Demi Moore, em um filme velho que ela jamais viu. Vamos, venha comigo, ainda há tempo. O motivo era plausível, mas recusei com elegância e bons argumentos. Ela explicou que faltavam poucas horas e prometeu ficar até os últimos minutos. Antes de sair, quando o dia raiou, segurou a fluidez do que era minha fronte, me deu um beijo em direção à minha testa e depois à minha boca e deixou o espaço, fechando a porta como eu havia lhe pedido.
Me pus em lótus novamente e lamentei as impossibilidades da minha precária imortalidade vinculada a um dispositivo ultrapassado com a bateria viciada. Cortaram a energia, como estava previsto, e em meia hora o prédio foi ao chão depois das implosões. Com alguma ironia, minha vida, as duas, não passaram como um filme em minha cabeça antes da desconexão total. Lá fora, os fiéis ao buda que eu nunca fui lacrimejavam e tentavam agredir os policiais que cercavam o local. De resto, ninguém ouvira falar da minha história holográfica, menos ainda a real.

Sorvete de creme com calda de morango


Era Páscoa e eu estourei a cabeça do Cara de Aborto na parede chapiscada da escola. Nunca fui de briga, mas ele lambuzou minha camisa novinha de lama e ainda tripudiou. Decidi meter a porrada nele enquanto dávamos volta nos blocos de sala de aula, Bebeto e eu. Éramos da sétima série e bem comportados, eu principalmente.
No retorno, segurei Cara de Aborto numa gravata e o ameacei. Ele reagiu e, enfezado, empurrei a cabeça do moleque contra a parede. Quando soltei, ele estava como um sorvete de creme com calda de morango: lívido e com a cara cheia de sangue. Todo mundo pra Diretoria.

Fomos lá.
Bebeto, apelido do Alan que viva com a camisa 7 do Vasco, levou a culpa também, sem ter movido um músculo. A escola se revolveu. Foi um alvoroço. Na salinha, ouvindo o rugido exterior, contei a história para diretora e ela, apesar de me recriminar, me deu razão. Mas, se a crítica estava satisfeita com minha performance de violência, o público não.
Quando saíamos da sala. Lia, Josie e outras meninas, alertaram: eles estão lá fora e querem matar vocês. Era a gangue de Cara de Aborto sedenta por sangue, o nosso sangue.
Tratei de fugir. Pulei o muro e fiquei escondido no mato, na área da Aeronáutica. Mas, a culpa por deixar Bebeto morrer sozinho a pauladas me consumiu: pulei de volta para escola.
Combinei uma estratégia para enfrentar as feras: um de costas pro outro contra todos. Não iria dar certo, claro. Me fiz de valente e cruzei o portão guardado por Stalone, o porteiro. Ao ver a horda de facínoras, armados de pernamancas e chicotes, pensei: fudeu! Tentei voltar, mas Stalone, o perverso, disse: saiu não entra mais. Bebeto, tremendo, me acompanhou. Éramos dois contra uns 50, as três sextas séries reunidas.
Eles começaram a se movimentar para o massacre, balançando as armas e berrando, como numa guerra medieval. É o fim, pensei. Lembrei de todos os filmes de porrada que assisti. Nenhum poderia me salvar. Eu não era nem o Rambo, nem o Van Dame, nem o Chuck Norris.
Mas a diretora Ruth surgiu e pôs os bárbaros para correr. Quando os moleques viram a autoridade máxima da escola, tremeram na base. Fosse hoje a teriam ignorado ou dado uma coça nela também.
No outro lado da tela, Bebeto e eu corríamos para Duque de Caxias para pegar o Aeroclube, que passou certinho quando alcançamos o ponto de ônibus. Era um milagre do senhor. Subimos e respiramos.
Chegamos à casa do Bebeto, no Curió. Conversamos um pouco, tomei uma água e voltei pra casa incólume da surra.
Deu tempo de pegar o mesmo Aeroclube, que havia dado a volta no centro e retornado pela Almirante Barroso. Em frente ao Lauro Sodré, subi, paranoico, no veículo: eles poderiam estar em qualquer lugar.
Que nada! Cheguei em casa ressuscitado da Silva.
Era Páscoa, afinal, e eu ainda acreditava em Deus.