sábado, 10 de maio de 2014

Não diga eu te amo

Não diga eu te amo.
Faça piadas sem graça com cabras de três patas.
E mostre as rugas ao redor dos olhos num riso aberto.
Não diga eu te amo.
Compre um falso brilhante e faça um pedido de casamento sob o temporal.
Não diga eu te amo.
Corra riscos condenáveis e peça perdão com a cara deslavada.
Não diga eu te amo.
Acorde com vontade de morrer, mas finja que há um fiapo de sentido entre os dentes da vida. 
Não diga eu te amo.
Beije com a ternura de uma criança e a malícia de uma puta no fim da jornada sem nenhum freguês.
Não diga eu te amo. 
Guarde a frase para um poema no futuro sem rima, sem lírio, sem datas especiais.
Não diga eu te amo.
Pule no rio com roupa e tudo para impressionar e saia como se nada tivesse acontecido.
Não diga eu te amo.
Seja fabuloso uma vez no dia, busque o brilho soterrado na rotina.
Não diga eu te amo.
Vá para cozinha dar o seu melhor.
Não diga eu te amo.
Não se obrigue a ser o herói na cama.
Não diga eu te amo.
Segure nas mãos com a candura de quem leva o filho ao primeiro dia de aula.
Não diga eu te amo.
Não se reduza, limite-se, traduza-se com tão pouco. 
Tampouco superestime a frase.
Não diga eu te amo. 
Escreva uma carta à mão, como nossos avós.
Não diga eu te amo.
Converse com interesse honesto por horas sem tédio ou desvio.
Não diga eu te amo.
Viaje junto para o interior do interior do interior.
Não diga eu te amo.
Esteja por perto sempre.
Não diga eu te amo.
Saiba a distância para que haja dois e haja um sem prejuízos.
Não diga eu te amo.
Enfrente os terremotos com galhardia e algum humor.
Faça listas de compras rimadas.
Piche paredes.
Faça uma canção.
Use dialetos inventados. 
Não diga eu te amo.
Os olhos dizem tudo.
Não diga eu te amo.
Essa frase desbotada no anúncio da revista.
Não diga eu te amo, porque o amor está fora de moda faz tantos anos.
Não diga eu te amo.
Ninguém vai ouvi-lo de dentro do fosso.
Não diga eu te amo porque, no fundo, nunca é preciso dizê-lo.
Não diga eu te amo, porque há cansaço no verbo e no sujeito da sentença.
Não diga eu te amo, porque tanto já foi dito e repisado para outros amores, hoje fracassados.
Não diga eu te amo para agradar a literatura.
Não diga eu te amo sem que as palavras rasguem a garganta sem piedade.
Não diga eu te amo se o peito não arder em gelo suave da primavera.
Não diga eu te amo se o juízo permitir alternativas.
Não diga eu te amo, evite repetições desnecessárias.
Não diga eu te amo.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Cidades e sonhos



Há cidades nos meus sonhos.
Recortes inéditos, trechos vívidos
Prédios carcomidos, portos imensos,
praças por onde não andei.

Há cidades nos meus sonhos.
Até onde sei, quando sei,
há cidades no breu, paraísos perdidos.
Automóveis, lixo, moças, cacos de vidros.

Há cidades misturadas nos meus sonhos:
os lugares que não irei; a esquina recorrente;
a claridade da memória; a falta de asfalto,
as estivas de onde caí; espaços vazios;
ruas guiadas pelas mãos de minha mãe.

Há cidades espremidas entre o muro e paixão.
(o torpor da tarde inclemente)
Há cidades e cidades e cidades
emaranhadas, solapadas, inseparáveis.
Há saudades de dia, iluminadas nas noites
em que as cidades aparecem em meus sonhos.