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sexta-feira, 18 de abril de 2014

García Márquez: borboletas no estômago, minhocas na cabeça

É muito mais fácil gritar o que odeia do que sussurrar sobre o que ama.

Gabriel García Márquez morreu ontem e desde então li tanta depreciação sobre sua pessoa e sua obra que me questiono agora se quem ganhou o Nobel de Literatura, em 1982, foi o colombiano ou seus detratores.
O caso não são os prêmios. Literatura como qualquer outra atividade artística não se move por prêmios. O artista continua sendo apenas um catalisador do sentimento do mundo e, por essa qualidade ao mesmo tempo vulgar e sobre-humana, tem os poderes da comoção e da provocação e, entre um e outro se eternizam.

No caso dos escritores, como Gabo - agora não se pode mais usar o apelido porque os detratores ditaram que não -, entram na cabeça, na alma e no coração de quem os lê. Reviram tudo, instigam, exasperam, plantam pulgas atrás das orelhas, injetam ninhos de minhocas no cérebro e soltam milhares de borboletas nos estômagos.

São eles vozes do além que nos acompanharão vida afora quando fizermos comparações das mais simplistas até metáforas complexas, quando formos escrever um poema ou até um recado para deixar na porta da geladeira. Pelas palavras deles, contaminamos os olhos para nunca mais nos descontaminar. Cada um deles, seus livros, manias, pensamentos, é culpado pela cegueira ou pela amplitude da visão que temos do mundo.

Sem medo digo que amo Garcia Márquez, a quem não tive intimidade que quis para lhe chamar Gabito, tomar uma cerveja ou um café na mesa da cozinha ou lhe fazer companhia em silêncio sobre as amendoeiras. Me assusto com as declarações de ódio ou desdém a um homem que alçou um continente inteiro ao centro do mundo exortando e exaltando os próprios fantasmas, tornando o particular e o corriqueiro em algo incrível e surpreendentemente universal. 

Nunca vou deixar de acreditar que ódio, desdém ou escárnio refletem desconhecimento. Ao desconhecido, o medo e a agressividade. Ao que se conhece, empatia e amor. Só é possível falar com propriedade do que se conhece e para conhecer se leva tempo, dedicação, uma vida inteira.

Se gastamos tempo, dedicação, a vida em si, com o que odiamos, estamos vivendo mal, para dizer o 
mínimo.

Prefiro acreditar que as comparações esdrúxulas entre Gabriel e outros autores, as acusações por suas posturas políticas e, principalmente, o desdém à sua obra seja ignorância. No amplo sentido da palavra ignorância, o desconhecimento, senão completo, mas próximo de uma superficialidade extrema sobre um dos gigantes do século XX que acabamos de perder.

Aos detratores, comparadores, patrulheiros do luto alheio, meus sentimentos. De comiseração.

Vocês perdem uma oportunidade brutal de conhecer tanto da humanidade e de refrescar a alma em obras como Cem anos de Solidão, O amor e outros demônios, O amor nos tempo do cólera, Relatos de náufrago, Crônica de uma morte anunciada, Doze contos peregrinos e outros tantos.

E como sabia escrever o velho! E como sabia contar! E como tinha consciência de suas habilidades que a essa hora deve estar rindo da mediocridade dos que tentam, sem sucesso nenhum, reduzi-lo.
García sempre será um dos melhores a quem teve o privilégio de lê-lo de verdade.

Aos que não tiveram, será apenas mais um motivo para falar sobre o que jamais ousaram saber. Sempre com a profundidade de um pires que lhes é peculiar. 

2 comentários:

Marcus Pessoa disse...

Tempos cínicos os nossos, onde a morte de um dos gigantes da humanidade gera esse tipo de conversa mesquinha a que você se referiu. Nessa hora uma ode como a sua faz muito bem ao espírito.

Parabéns, bela homenagem.

Nega disse...

Confesso que li apenas um comentário depreciativo, o chamavam de "merda comunista que se foi". Bem lastimável, não fiquei frustrada, sou uma privilegiada, Gabo é o doutrinador da minha vida, o amo de forma sublime e já gritei aos quatro cantos do mundo que vou amá-lo em quantas vidas nossos espíritos se cruzarem. Já li 15 obras traduzidas do Gabo, possuo 11 delas e posso dizer com plena autoridade que o conhecia e que a recíproca também era verdadeira, Gabo conhecia toda e qualquer alma latina americana e negar isso é negar a sua própria existência. Ontem eu chorei, como uma fã, como filha, como amiga, o amava de verdade. Com o blog parado há alguns tantos de meses, retornei só por ele.

Beijos, meu querido
:***