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domingo, 12 de janeiro de 2014

E como dói, Belém

Drummond nunca teve pudor de escrever seu amor e seu desgosto por Itabira. Um dos maiores poetas do Brasil - e pra muita gente o maior - não teve receio de ser tachado como provinciano, um poeta menor por falar de sua cidadezinha, um medo que pode de ser visto em pequenos, pequeníssimos, poetas que creem que poetizar suas impressões da terra natal possa torná-los ainda menores. Têm eles o pavor de desaparecer para sempre, de encolher ainda mais. 

Drummond nunca teve. Nunca teve por ser grande.

E falou de Itabira como uma sinceridade tamanha. "O hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana". E parece que o mineiro falava nesse trecho de Belém, nossa pequena e agigantada província que chega aos seus 398 anos. 

Uma cidade azul de tanta nostalgia, cuja fortuna se confunde com o azar. Um lugar com a sorte de ser um dos centros urbanos mais ricos do País, mas que não s
Foto: Tarso Sarraf.
oube lidar com sua perda, sua queda tão robusta quanto o apogeu.

Sofremos. Sofremos. E sofremos. Sem ser itabiranos, sofremos por hábito.

Sofremos com a espera de que os dias gloriosos de fraque e cartola voltem. Temos, na nossa Veneza Amazônica, o triste hábito de sofrer, de sonhar com a imagem no retrovisor.

O hábito se espraia, se multiplica no dia a dia e encontra formas sofisticadas de se reproduzir com a nossa própria ajuda. Como é possível? Como? Por sofrer, guardamos no fundo do inconsciente nosso desejo de vingança ou de aplacar todo o mal praticando o mal. Como um criminoso que cresce ao cuspir sua miséria contra o próximo em forma de violência.

Não é a toa que, se garçons, atendemos pessimamente; que, se motoristas, cometemos atrocidades; que, se turistas, invejamos mais do que admiramos; que, se filhos, damos mais desgosto do que alegrias; que, se amantes, afagamos menos, apedrejamos mais. 

É nossa revanche inconsciente, nossa maneira de chorar sem lágrimas pelo que perdemos. Nossa luta encarniçada para aplacar o próprio sofrimento, quase um autoflagelo.

Um sofrer e agredir que contrasta com a outras vocações da cidade, a tendência para cantoria, para a festa, para a expansão dos gestos, para a hospitalidade. 

É a dor e a alegria de viver em Belém que, diferente de Itabira, não nos torna de ferro, mas criaturas aquosas. 

Orgulhosamente embebidos pela umidade, resultado da água que está em todos os lugares. Nos rios, na chuva, no ar, em cima, ao lado, embaixo, saindo de dentro dos olhos, amolecendo o coração, oxidando nossa alma.

De longe, agora de onde estou, Belém ganha contornos mais bonitos em suas belezas, mas também sombras sinistras ainda maiores nas suas feiuras. 

É hoje uma saudade concreta e não mais aquela que sentia sem tê-la vivido, de fato, e expressava baseado em tudo que se deu antes mesmo de eu nascer.

Nunca tive ouro, gado ou fazendas, tampouco sou funcionário público. Mas, Belém, hoje, é uma fotografia no celular para onde olho volta e meia para rever suas chuvas, duas ruas, meus amores.

E como dói.

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