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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A mulher nua

Olá, crianças.

A primeira postagem do ano fala de coisa boa.

Espero que o ano seja bonito para vocês e que gostem da crônica.

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A mulher nua se despetala crua na cama. E amacia o sentido, escancara o despudor, revira olhos. Os seus, que fique claro. Os dela são duas pedras escuras no meio do mar.
Nu rosa, de Matisse.
A mulher nua perturba. Não importa o tempo de exposição, muito menos o espaço. Basta a ela a fresta, o milésimo de segundo. Basta a ela a chance qualquer (a de ouro é você quem precisa). Basta o levantar do vestido. Ou despencar - não importa a lei da gravidade.

Magnetiza a mulher nua. E a tantos atrai que se replica em milhões por aí, na Internet, nas velhas páginas coladas de revista, nas lembranças mornas dos banheiros.

Já cara a cara, a mulher nua se torna única. A primeira. Nossa Eva. E não importa se o cenário é paraíso ou inferno. Ela é o mundo inteiro ali, às mãos, nu, primitivo, belo, azul, a comandar a dominação da galáxia inteira.

A mulher nua não rivaliza. Um homem pode ter visto durante a vida um bilhão delas desnudas, lascivas, querentes, encharcadas, desesperadas, mas diante de uma - uma não, diante de A - é sempre fatal o ineditismo e o deslumbramento uma doença incurável.

A mulher nua é o mapa nada secreto para todas as quase-mortes que já sofremos, nós, os amantes reverentes das fêmeas em pelo. É percorrê-las com as retinas em flecha - e o corpo todo em flecha tesa, maciça e ligeira - para entender que, enfim, cruzamos a linha de chegada e nada importa, não há racionalização alguma: ali é o lugar.

À mulher nua cabe a paz. A paz em curvas, em pequenas protuberâncias, em fluídos cálidos, perfumes tantos na ampla geografia do corpo, em texturas diversas na frente e atrás, nas axilas, nas virilhas, na nuca, na dobra entre a coxa e a panturrilha, em uma brutalidade contida, não usada de propósito.

A mulher nua ironiza em silêncio o varão coberto dos pés a cabeça. A ela, ternos, armaduras, gravatas, coletes balísticos, coturnos, camisas de seda são nossa covardia, nossa ridícula pretensão de tomar o poder pelo que se aparenta. De nada servem para mostrar quem manda no pedaço. A mulher nua, sim, ela manda. E desmanda.

A mulher nua não se comove com a quase lágrima a escorrer pela constatação da força que dela desprende e rebate em ondas na cara do seu espectador particular a um palmo, que, embasbacado, aturdido, aflito, incrédulo, tonto e consciente de sua sorte, só pode agradecer contrito o presente do Criador. Mesmo que seja ateu inveterado, ainda que tenha rogado no topo mais alto da cidade o abandono total de Deus.

A mulher nua é o encontro; é o oposto da solidão; é a manhã de domingo de sol em músculos, ossos, cabelos, olhos, seios, lábios e ventre; é irmã siamesa do que o homem ignora, na contradição infame do abismo de ser homem, pelo prazer que a mulher nua entrega: a substância primeira do amor.

Sem artifícios, sem metáforas, frescuras, cadeados, fronteiras, regrinhas, mentiras, blasfêmias, bazófias, apelos, pudores, escândalos, segredos - embora tomada de mistério:

a mulher nua é o próprio amor.

Um comentário:

Anônimo disse...

Mano mas que bosta é essa?