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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Qualquer desamor

Ela confere o dinheiro atenta, olhos semicerrados fixos nas cédulas. Atrás da maquiagem tem um cansaço antigo, uma viagem não feita. O gesto mecânico atrás do caixa esconde uma ausência na manicure, uma ligação não feita para a melhor amiga, um suspiro qualquer na hora do almoço, a ida adiada ao ginecologista, um esquecimento vulgar de um favor para a mãe, a faculdade trancada. Acomoda-se melhor na cadeira. Com delicadeza arruma um único feixe de cabelos teimoso em cair sobre a testa. Ao comando segue obediente para trás da orelha direita. Uma orelha pequena, de lóbulos macios, brincos discretos.
 Ela retira o papel da máquina. Rasque. Coloca dentro do saco plástico e entrega o volume. Sem olhar. Nenhuma olhadela. Sem resvalar nenhuma gota do verde profundo embaixo daquelas pálpebras. Ela está sozinha diante da multidão a passar comprando venenos, bugigangas, guloseimas, preservativos, inutilidades a granel. A boca pronuncia. Uma boca média. Batom vermelho de encontro à pele bege claro. Acima um nariz pontiagudo, narinas equilibradas, separadas harmonicamente. Vinte? Vinte cinco anos? O que importa, afinal? Próximo, por favor. Saio devagar. Olho de novo. Paro sem motivo no meio da farmácia, depois de uns passinhos curtos, tolos.

Continuo o passeio disfarçado com os olhos. O uniforme destoa de todo resto. Um amarelo horrível para fazer fundo ao emblema da empresa. Mal se vê o colo, mas o pescoço de bailarina está lá, sustentando aquela cabeça bonita, ornada de fios negros reluzentes, armados em coque, exibindo-lhe a nuca, voltada para a parede onde estão quinquilharias à mão. Uma pena. A má postura realça o quadril de reprodutora e lembro Luciana, da sétima série. O mesmo jeito de sentar e apesar dos treze todos diziam “parece dezessete”. Mais um cliente. Sai em silêncio o velhote. Muito cabelo para um sexagenário. Uma linha tremida no lugar dos lábios. Um saquinho de remédio. Parecido com o meu. Penso em entrar na fila de novo. Para que? Para nada. Desisto e continuo parado. Sinto-me um aposentado sentado na praça, daqueles que não gostam de conversa.

Vislumbro os braços, lindos pêlos aloirados com blondô dentro do banheiro de casa. Com certo pudor avalio os seios sufocados em um sutiã torturante, cujos contornos não escondem uma renda insossa, mas saliente. Imagino um almoço de domingo. O sorriso luminoso a cumprimentar a minha mãe. Oi, sogrinha. Descrevo rápido uma viagem à praia. O café da manhã na estrada. Ela saindo do carro de saia. Ela muito puta comigo por alguma bobagem ou atada à lógica feminina que nunca me favoreceu. Penso em aborrecimentos típicos de sábado entre casais. Os mesmos lugares de sempre para comer. A enorme fila do cinema. A modorra da tarde. O filme água com açúcar que ela quer ver. Enxergo o corpo nu dela, em noites de sexta, malicioso. Pêlos ásperos. Quase ouço juras de amor na segunda de manhã antes do trabalho. Antevejo términos às quartas. Prevejo reconciliações nas quintas. Já abuso a normalidade da terça, igual aos sábados à tarde, de novo. Teço uma rotina enfadonha que vai desaguar em um divórcio ou em dois idosos cercados de netos bonitos de filhos problemáticos.

Ela não me vê. Nem pensa nada. Está absorta no troco. Na vida que passa por ela, em fila. Nem percebe o quase um minuto de devaneio perdido por mim entre a prateleira das escovas de dente e a dos utensílios para bebês. Ninguém percebe, aliás. Qual o nome dessa moça? Não há crachás. Nem nela. Nem no segurança negro. Nem na senhora de óculos que me entregou os remédios no balcão. Anônimos. Todos eles. Ela deveria ter um crachá. Só ela.

Subo na balança para ter mais um tempinho. Sobrepeso. O de sempre. Minha saúde vai mal. Antes de sair vejo minha imagem refletida na porta de vidro. Camiseta, bermuda, sandálias. A barba desigual de sempre.  O cabelo em desalinho. Um estômago pronunciado. Longe de um galã, de um alto executivo, de um sujeito com alguma distinção ou dinheiro no bolso. Trinta? Quarenta anos? O que importa? Ganho a rua. Entro no carrinho cinza. O tom combina. Em segundos estou no semáforo. Olho para o lado. Mais uma. Morena. Não tenho tempo. O sinal abre. Verde. Piso no acelerador e deslizo fácil no asfalto. Abro a janela. As luzes à noite me fazem bem. O pouco trânsito anestesia. Ligo o rádio. Uma canção do Roberto. Que tudo mais vá pro inferno. Vou para casa. Chega de desamor.

3 comentários:

Karine disse...

Anderson,

Geralmente leria a primeira linha e fecharia a aba, está acontecendo muito por onde entro, é texto grande, argh, mas hoje dei a sorte (?) de cair aqui, 6:19h da manhã, li até o final. Uma pena não descobrir o nome da moça de olhos verdes e ombro de bailarina, faltou coragem pro moço, confiança pra moço, mas a tua boa visão/escrita não faltou.

Karine ( @kaholthausen )

Tereza disse...

Os textos do Anderson me compelem à eterna dúvida da existência de tal sentimento em um ser movido por testosterona. Vejo nos textos, vejo nos poemas, nos versos cantados de mpb e brega. Mas a experiência só contradiz.

Anderson Araújo. disse...

Ei, meninas, obrigado pela visita.

Tereza, não sei se a existência contradiz. A maioria dos textos aqui são lembranças ou coisas que nunca aconteceram mas eu imaginei, refiz, inventei. Está tudo aqui dentro e sai de vez em quanto.

Valeu por acompanhar. :)