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quarta-feira, 28 de março de 2012

Amores modestos

Ah, o amor. Digo amor e talvez a imagem que lhe vem à cabeça é um jantar à luz de velas em um restaurante belíssimo de Paris, um bom vinho, depois uma volta pela noite da Cidade Luz e por fim um hotel elegante, às margens do rio Sena, com a torre ao fundo servindo de cenário para uma noite quente de ternura, beijos, sussurros em lençóis de seda e cama de dossel. Deixe de ser besta e acabe com isso.
Ai, amor, cuidado com os argelinos.
As imagens não deixam mentir e o mundo consagrou: nas redes sociais estão espalhadas fotos de casais pelos quatro cantos do planeta. É neve em Bariloche, dunas no Cairo, safári na África do Sul, elegância em Londres, exotismo em Tóquio, espiritualidade em Bangladesh, a babaquice moderna em Manhattan, as taras em Amsterdã, as praias de Natal. Tudo enfeitado com lindos sorrisos dizendo “nossas passagens nem foram tão caras assim”.

A mensagem está lá: o amor se perpetua na fartura, no bem bom, em camas macias, no requinte, em quartos limpos, em aromas de flores, com boa comida, música sofisticada, pessoas civilizadas, aquela conversa saudável digna da sala de estar. Resumindo: o amor é coxinha e cobra caro. Não tem uma graninha no bolso? Não pode amar. Não pode. Não insista. Passa fora. Rapa daqui, cão sarnento.

Fico pensando na Amélia do Mário Lago. Sim, aquela injustiçada, transformada pelas feministas com buço em símbolo da submissão da mulher, embora fosse apenas compreensiva e companheira a pobrezinha. Agora Mário reclamaria muito mais: “você só pensa em luxo e riqueza, tudo que você vê você quer e ainda quer mostrar pra todo mundo no Facebook. Ai, meu deus, que saudade da Amélia”.

Os padrões de consumo do brasileiro mudaram muito nos últimos anos e a mudança atingiu a todos. Se ontem a voltinha na praça contentava a pequena, agora encanta mesmo uma esticada até o Rio para ver o show da última celebridade internacional em fim de carreira. Se antes valia a chopinho sincero no bar, agora deslumbra o jantar equivalente a três parcelas do Novo Uno. Se o cineminha no fim de semana de quando em vez satisfazia, hoje mais de um mês sem uma ida à Buenos Aires já põe o casal na zona mortífera do tédio. Um convite ao passeiozinho a pé por aí, como quem não quer nada, resulta em uma crise de proporções dramáticas.
"Meu queijinho!" "Meu azeitonão".
Disseram por aí que o amor é caro, dura pouco e pode ser substituído por álcool. Tenho cá minhas dúvidas nas três assertivas. Mas vamos nos ater ao custo, já que o tema de hoje é economia doméstica. Você que anda pensando que é preciso juntar moedas no porquinho para ter um amor, largue mão disso, pegue os trocados que já tem e vá comprar jujubas ou uma pinga, caso lhe apeteça.

Desista, meu caro. Se ficar esperando chegar o dinheiro para viver um amor vai abdicar de um dos sentimentos mais nobres e mais dolorosos (mas nada desprezível) da humanidade. De fato, nem precisa da Deusa da Fortuna no colo para ofertar a sua cabrocha o afeto que se encerra em vosso peito juvenil, meu caro. Olha as calçadas, os mendigos também amam. Estão lá com suas mulheres repartindo com seus morenas o pão que o diabo amassou.

Olhe ao redor: estamos abarrotados de amores baratinhos. Observe nas ruas de Belém os casais em bicicletas. Antes mesmo da moda das bikes compradas no Netshoes, os belenenses mostravam todo cavalheirismo e sustentabilidade levando duas damas no varal para cima e para baixo. Embora exale conotação sexual, é apenas um dos bons exemplos que o amor não se reproduz somente nos Honda Civics e nas pick-ups com tração nas quatro rodas, mas também na bicicletinha fajuta comprada à prestação na Y.Yamada.

Sempre disse que o amor verdadeiro está às onze e meia da noite, nas paradas de ônibus, quando, em quase desespero comum, namorados se entrelaçam à espera do coletivo, o último, o derradeiro, que os levará para seus ninhos de paixão e carinho. Enquanto pares passam brigando, entediados, carrancudos, velozes e furiosos em seus carrões, os dois ali em solidariedade mútua se amando, abraçados, e torcendo para que o motorista desgraçado não passe direto.

Vá até o restaurante mais caro que conhecer e olhe o ambiente lá dentro: gestos medidos, alguns risos abafados, casaizinhos anódinos trocando afagos de leve, troço sem sal, sem cheiro, sem cor. Um verdadeiro mastigar de isopor afetivo. Alguns canalhas levam suas pequenas a esses locais para findar a relação e garantir com o ambiente neutro um fim limpo, sem sangue, sem choro, sem emoção, sem o peso merecedor e justo dos pontos finais.

Depois do exercício para reconhecer a apatia sentimental típica dos endinheirados, vá a um forrobodó, a um barzinho copo sujo, um terreiro onde viceje as paixões suburbanas. Lá, observe a felicidade dos pombinhos diante das suas mesinhas, com a cerveja regrada, com o pratinho de azeitona Mariza e queijo Regina. Entretidos em suas ilusões do coração, nada os incomoda, nada é feio, nada é roto. Nem a toalha de mesa manchada do cliente anterior, nem a parede suja, nem o chão mal varrido, muito menos a falta de dentes do garçom com o guardanapo encardido nas mãos. Ali prospera o mais profundo e real bem-querer, despido dos brilhos falsos, do luxo e da felicidade comprada à vista em espécie.
Tá confortável, tesouro?

É perfeitamente possível ser feliz em uma noite ou mesmo em uma vida inteira sem rios de dinheiro como combustível. Ser cavalheiro é de graça. Ser agradável é de graça. Uma boa conversa é de graça. Atenção ao objeto amado também não custa nada. O desejo sincero só pede energia e a dedicação ao prazer, tudo sem custo. É óbvio que a arte do amor modesto nem sempre pode ser aplicada. É necessário ter a complacência dos dois integrantes do par. Caso esteja diante de uma mercenária enfrescurada, qualquer desvio à gastança será mal visto, será sinal de avareza ou pior: de pobreza extrema, o que para ela será o pecado definitivo para se manter a uma China distante daquele mendigo que lhe convidou para sair e ela teve a infelicidade de aceitar.

Amar não é caro. Não me venha com essa desculpa esfarrapada para justificar a solidão, o desamor. Não carece o amor de tesouros perdidos no fundo do mar. Não o real, o que desperta o interesse e a generosidade verdadeira em se doar, mesmo quando o que se tem é muito pouco ou quase nada. Sem desmerecer ou jogar água no Chandon dos enamorados nascidos em berço de ouro, mas o amor nunca precisou de grife e se faz, somando, subtraindo, multiplicando e sumindo-se em si mesmo, nu, sem roupa alguma.

Quem ostenta o amor em penduricalhos, badulaques, pompas e meneios de reis nunca conhecerá a cara deste ente abstrato perseguido por todos. Nunca saberá de seu descanso proletário ao fim do dia, da sua luta em se desvencilhar do fardo do interesse vil, da sua vontade de andar esquecido dos sapatos com os pés na terra, nem terá sabido jamais o quanto tem de precioso em um amor modesto.

E, você, quanto custa o seu amor?

12 comentários:

Paula Portilho disse...

can't buy me love

Camila Barbalho disse...

lembrei do verso da Vanessa da Mata: "príncipes sem um tostão". Bem bonito, meu bem, parabéns.

Tássia Almeida disse...

O amor custa um leitão no Bar Salvador. Um pastel de jambu no Bar do Mário. Um espetão na Pedreira. Um vatapá na Duque. Um petit gateau no posto de gasolina. Um passeio de carro velho. Um livro com marcas do tempo. Uma gargalhada barata. Uma coleção de lembranças

Sra. Viegas disse...

A vida a dois é bem mais do que escolher um lugar pra jantar ou viajar. Ou se a garota tem silicone ou se o cara depende de transporte público pra se locomover. É óbvio que em tempos de consumo desenfreado ostententar se tornou mais importante que sentir. É um assunto pertinente a qualquer relacionamento mas não é o mais importante.

Quanto a mim, tenho um amor bem baratinho, é quase uma liquidação da Makel. Um sanduba na esquina, rachar a conta do motel ou vagar a pé pela noite com uma garrafa de bebida embaixo do braço, fazem de mim uma parceira (não gosto do rótulo de namorada) bem feliz. Uma pena que nas relações o importante é o quanto cobres pelo teu amor. Pra mim, quanto meos cobranças, mais amor há. Besitos.

Natalia Resende disse...

"Ser cavalheiro é de graça" <3 <3 <3

texto lindo, como sempre =)

Telma Christiane disse...

O meu amor custa um "Bom dia, flor do dia" todas as manhãs. :)

E.Gregório disse...

um de seus melhores textos. mto bom. parabéns. sem mais.

Tereza Jardim disse...

Meu amor eu entrego em um carro popular com prestações já quitadas (avaliem), ao som de um cafa-romântico tentando acompanhar Wanderley Andrade em suas declarações rasgadas.

Não se enganem com o carro, eu também já peguei carona no varão de uma magrelinha.

Anderson Araújo. disse...

Valeu pela visita, meus zamô.

Amor em promoção é isso aí.

Sra. Viegas. É esse o espírito mesmo. parceiras, companheiras, são mais legais que namoradas. Parabéns pra ti e pro teu amor que vivem essa felicidade baratinha.

Abraço nos manos, beijo nas minas.

Mila disse...

Lavei a alma. É isso que quero, é isso que tenho...o que vier daqui por diante, é supérfluo! Adorei...

Pâmela Coelho disse...

Parabéns meu querido! Arrasou... Adorei o texto e viva o amor modesto!

Anônimo disse...

Gostei, Anderson. Penso assim. A maioria dos amantes que tive (que nem foram tantos :P :P :P) conheci enquanto voltava descabelada de um supermercado, enquanto escutava ou lia um livro num ônibus lotado (o cara chegava e perguntava: pode levar pra mim?) e até mesmo depois de uma ressaca desgraçada do mormaço anterior (foi assim que meu atual cia me achou). Prezo pela simplicidade da vida. Sem demagogia nenhuma. Já tem tanta merda no mundo que não me cabe tanta "chiqueza". E, gosto de você. Você é assim. Simples, mesmo parecendo mega boçal. :P Beijos chiques. E vou ali tomar cachaça num bar no canto de casa chamado "Mão branca". Tchau.
Ass: Anna Linhares.