segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Terra Firme

Havia quase dois meses ele dava uma desculpa qualquer e não aparecia nas noites sextas-feiras. A ausência a deixava, antes de qualquer coisa, desconsolada e, com o avançar das horas, furiosa. A fúria iniciava com lembranças de pequenos destemperos, como a recusa brusca ao almoço dominical na casa da mãe dela. Por que não?, ela indagava, chorosa, enrolada no edredon, protegida do frio sulista espargido pela central de ar do amplo quarto.
Foto: Thiago Araújo
A ira fervia ao percorrer caminhos lamacentos das lembranças do início da relação: telefonemas das ex e, principalmente, a não declaração do namoro nas redes sociais. Como podia? Para ela, não escancarar o amor no mundo virtual correspondia à atitude de pais que não davam festa de 15 anos para esconder a filha feia da sociedade. Ele não me ama, lamentava.

Chegava ao extremo, muito perto do ódio, ao pensar no jeito do namorado com todas as mulheres. Com certa malemolência, ele tratava todas muito bem. Da mãe às desconhecidas, todas ganhavam um afago, um elogio, uma atenção própria dos amantes congênitos, mesmos os amansados por mulher tão exuberante como ela, noiva linda que era. Porém, a futura esposa encarava como uma descompostura, um acinte. Era um galinha, isso sim, rangia no ponto alto de sua dor.

Naquela sexta, não foi diferente. Ele ligou com o “oi, amor da minha vida” de sempre e emendou: “não vai dar. Estou muito enrolado. Devo sair tarde e exausto daqui. Amanhã a gente almoça junto, ta bom?”.

Sentindo a estocada no peito, ela apertou os molares superiores contra os inferiores, fingiu o sorriso e mandou um “tudo bem” chocho, perfeito para esconder o desespero. “Tchau, amor da minha vida”. “Tchauzinho”.

Ele tem outra. Só pode. Não é possível. Uma sexta, vá lá. Mas, duas, três, quatro, cinco, sei lá quantas? Ele tem outra, repetia sozinha. Minutos após a conclusão, ligou para a melhor amiga. “Vamos lá amanhã de manhã. Cedinho. Estou decidida. No almoço, já saberei tudo, meu Deus”, soluçou para outra que ouvia sem atenção: “vamos sim, amiga, vamos, sim”.

Não dormiu. Levantou um bagaço. Tomou banho e às seis da manhã a maquiagem tinha corrigido o rosto devastado pela insônia. Desceu ao saguão do prédio, aparvalhada, ignorou o porteiro e foi tomar café na padaria da esquina. Comeu sem pressa, mastigando a cisma da noite passada. Mandou mensagem para ele: “chegou muito tarde?”. Sem resposta. Ligou para a parceira em seguida.

- Já estou pronta.
- Eu nem levantei. Vamos mais tarde?
- Não. Quanto mais cedo melhor. Em meia hora estou aí.
- Ai, não.
-Ai, sim. Não demora.

Partiram para o destino quase oito e meia da manhã. Pegaram um táxi na Padre Eutíquio, defronte ao shopping, e rumaram para o desconhecido. Chegaram ao endereço, sem muita certeza. Uma casinha de madeira de três cômodos, encravada junto com outras similares, em uma passagem do bairro de Montese, que todo mundo conhecia por Terra Firme.

Os malandros do lugar arregalaram os olhos na primeira avaliação. Quando entraram na rua, Boca de Sacola achou fácil e começou a imaginar, com a pouca Matemática que sabia, o quanto podiam render: na bolsa uns 300, já incluso o celular; os óculos uns 50; os sapatos dariam para Arlene. Achou os pés do mesmo tamanho. Já ia meter o bicho, mas parou quando as donzelas estancaram no número 23.

- Melhor jogar no bicho. Hoje é borboleta na cabeça.

Adentro uns 20 metros da beira do canal, o casebre ainda estava fechado quando elas bateram na porta. Depois de certa insistência, atendeu o chamado um adolescente macilento, acinzentado, sem camisa, com aos cabelos sarapintados de loiro em várias partes do cocoruto, ainda com remela nos olhos. Entra, convidou o rapazola.

Quando a porta se arreganhou, o cheiro impactou os nobres narizes acostumados a ambientes mais cleans. Erguida no alto para amenizar os transtornos dos aguaceiros de sempre, a choupana guardava um lodaçal embaixo do assoalho. De lá desprendia homogêneo o odor fresco do capim nascido na várzea, a acidez da merda e urina de toda a vizinhança, a exalação industrial de sabão em pó das lavadeiras e o sebo dos restos de comida que escorria dos jiraus. Invadia pelas frestas das tábuas do piso, um vapor suave guardado, sem discrição, embaixo de uma capa de lixo plástico movimentada pela correnteza sutil do igapó, antes moradia de jacarés enormes e fonte de água pura e serventia para o pouco lazer dos leprosos mandados para lá como exilados no passado, havia mais de cem anos.

A dupla sentou no único sofá da pequena sala, coberto com uma capa floral presa por elásticos encardidos. O chão bem varrido, as flores de plásticos na mesinha de centro, a CCE de 29 polegadas, os bibelôs de gesso na estante improvisada com tijolo e compensado tranqüilizaram as visitantes. Elas cochichavam admiradas com o zelo com que tudo fora organizado. Nas paredes, lado a lado um cartaz do Círio de número 200 de Nossa Senhora de Nazaré e um calendário de 1992 com um Jader Barbalho mais jovem, sorrindo. Num canto, o pequeno altar sincrético casava a imagens do Sagrado Coração de Jesus e outros santos católicos com Iemanjá, Exu e demais entidades da umbanda e do candomblé. Da cozinha, veio a voz, como ordem para as duas: venham para cá.

João estava sentado à pequena mesa de tábua crua. Um pedaço de pão massa fina na mão direita e o copo de café preto na esquerda compunham a imagem do mulato forte, vestido apenas de calça caqui, cabelos engrisalhando, tatuagens indecifráveis no seu couro engrossado por cimento na época em que serviu de besta nas construções.

- Só dá daqui a pouco. Demora um tanto, mas a senhora não vai se arrepender. Já, já ela vem - Ele disse, mastigando.

Levantou do banco e chamou, Clayton, que estava encostado na soleira da porta que dava para o quintal alagado. O rapazote entendeu e foi preparar figurino e adereços no pequeno quarto. Pouco depois, João deixou as moças e entrou na alcova. Lá, encontrou a escuridão, imperfeita por causa das brechas no telhado. Despiu-se e começou um murmúrio surdo, um rodopiar de cabeça, uma viração de olhos, tudo sumido de repente. O cessar era deixa para o auxiliar que sem demora acendeu as velas e correu até João para entregar as roupas. Dois minutos e ele estava pronto, incluindo a pintura de ruge nas bochechas e batom nos lábios. Sentou na cadeira de espaldar grande e pediu, em voz anasalada, para que ela entrasse sozinha.

Com medo, a mocinha mergulhou no reino de Benedita Tigre, quem emprestava o corpo de João para dar as mais variadas consultas. Surpresa, a cliente encontrou outra pessoa: o homem estava acomodado no trono, de pernas cruzadas, cachimbo pendente na boca, paramentado com cordão de contas brancas e azuis, brinco nas orelhas, tudo combinando com um xale de cetim anil e o turbante alvo. O ex-servente de pedreiro se movimentava com a suavidade e a elegância de uma ex-bailarina idosa.

- Então suncê acha que ele te mete cifre? Não to boa pr’essas coisa hoje, não, mizifia. Mas nós dá um jeito.

A mulher arregalou os olhos com a adivinhação do motivo de sua visita.

Benedita bafurou o tabaco e olhou para Clayton. Ele, de pronto, entregou a garrafa de 51 e a lâmpada à dama de azul. A feiticeira tirou um lenço branco do bolso e, em passe de mágica, envolveu o objeto no tecido e o esmagou em seguida com uma pisada. Abriu o pano para a cliente ver o estrago na lâmpada e levou os cacos de vidro à boca para mastigar em um croc-croc-croc-croc de impressionar a quem assistia. Deu um gole enorme no marafo e vaticinou: “agora, sim”.

Sem parar, a entidade disse: “suncê pregna muito, suncê tende ciúme, suncê devia confiá, mas galego né frô que se cheire, né? Galego ta comendo fora do terreiro de suncê, mizifia, bem na cara de suncê, com caboca do seu bem-querê, se era isso que mizifia vem saber. Suncê dá confiança demais. Abre olho, faz bem. Suncê só conta suncê mermo nessa estrada, mizifia”.

Ela começou a chorar, deixando o nariz escorrer. Benedita Tigre segurou-lhe as mãos e quando a freguesa achou que vinha um consolo, acostumada com mimo, a bruxa ralhou entrovoando a voz: “suncê num vem chorá no meu terreiro, não. Olha pra frente que galego num te qué e num volta aqui pra chorá, que hoje num to em dia bão, mizifia. Deixa chororô pra velório e mancebação”.

Depois disso, Benedita subiu. Restou o cavalo João, cansado, na cadeira da velha tigresa. Ele acordou do transe, pediu para que a moça aguardasse lá fora. Voltou recomposto como homem que era. Cobrou 500 reais pela consulta, receitou uns banhos. Clayton encaminhou as visitas à saída. Lá, fora Boca de Sacola cutucou Amendoim e Fala Fino. O trio estava agoniado para ver as duas mulheres.

- Nem mexe que é da Benedita. Deixa quieto, moleque - Disse o mais velho deles.

As duas passaram de cabeça baixa rumo ao táxi chamado pouco antes do fim dos procedimentos de João.

- E aí? O que ela disse? O que ela disse? Perguntou a acompanhante.

- Nada, não. Falou que tu és meu anjo da guarda. E só confirmou o que eu já sabia dele, querida. Tudo bobagem da minha cabeça - respondeu ela, mostrando os dentes perfeitos, pouco antes de atender o telefonema do noivo para confirmar o almoço naquele sábado singular.

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