Há um circo na cidade. Há um risco de desabamento também. Há crianças uniformizadas e velhos perdidos em filas. Há malas de dinheiro aguardando sua hora em gabinetes. Há pavores escondidos e bálsamos escancarados em promessas. Há amores gastos, paixões intocadas, ódios espumantes e cheiro de gasolina no ar. Há um ressonar às dez da manhã e uma desistência ainda às cinco. Há aflição na espera do ônibus que não chega e aborrecimento na fila de carros que não anda. Há uma adolescente caminhando displicente e um olho atento a esses passos. Há planos frustrados, dietas desfeitas, fins de caso, jogos de azar, expectativas de pagamento, atropelamentos, noivados, demissões, alegrias, mãos em súplica, apatia, enterros, choradeira, nascimentos, cartórios, mentiras nas esquinas, verdades embaixo de pedras. Há um rio enorme a contemplar o movimento sem compreender quem lhe contempla parado, solitário, na beira do cais. Há muito barulho, incompreensão e homens de peito vazio. Há perdas e ganhos, peões nas obras, mulheres de saia em rebolados incríveis. Há uma mãe aos prantos pelo filho morto no chão de terra. Há uma comemoração particular, um brinde, uma viagem pra longe, há gente chegando, gente abrindo as lojas, taxistas conversando, assaltantes acordando, esperanças na manhã, desesperos ao meio dia, melancolias no fim de tarde. Há ressacados, doentes, aposentados, viúvas e vagabundos de boa saúde. Há muito que fazer, há pouca disposição, nenhuma chance. Há uma lista de supermercado, uma desculpa na ponta da língua, flores a entregar, há o desejo de morrer, há de mudar de emprego, de sair de casa, de perder a hora de propósito, de esquecer alguém e a si mesmo, mas há, sobretudo, o fim do mês a nos morder os calcanhares, a nos arrastar como um trator pela cidade onde há um circo e um risco de desabamento.
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Contei nesse post(eclético e abrangente) alguns "há" em me incluo, porém só comigo ficarão.
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