terça-feira, 23 de agosto de 2011

O som e o cheiro impercebíveis da alma da mulher

Era fevereiro de 2004 e eu estava perdido. Depois de uma manhã inteira de entrega de currículos e visitas sem futuro à assessorias de imprensa em busca de uma vaga, resolvi entrar, todo breado e morrendo de medo, no jornal Diário do Pará. Era preciso tentar, afinal. Era o último tiro do dia. Me dirigi a uma moça clara, de sorriso franco, mãos bonitas e os olhos da inteligência que revelou o nome no primeiro contato: Helena Palmquist. Foi ela quem me encaminhou ao "chefe", que me recebeu sem desconfiança e propôs um teste, de imediato. Como não tinha nada a perder, nem a ganhar, aceitei. Escrevi sobre um problema urbano qualquer, notícia velha, sem apurar nada, e no outro dia estava no time. Passei um dia sem estágio, desencantado com o fantasma de não ter mais nem a grana do ônibus, mas saltei para condição de repórter, graças ao "chefe", diretor de Redação naquela época, Paulo Silber.
Silber. Foto: Agência Pará.
O marapaniense com texto elogiado até pelo Élio Gaspari (Vejam só) foi meu chefe também em O Liberal, quando eu atravessei a Almirante Barroso e a 25 de Setembro, um ano e meio depois daquela admissão instantânea para trabalhar com os Barbalho. Hoje é um amigo pelo qual nutro uma admiração profissional e pessoal pelas boas brigas que comprou e por manter a guarda levantada e o estilo em qualquer situação. Nos bate-papos mais recentes, combinamos um texto a quatro mãos que apresento para vocês agora. Vejam se gostam e comentem.

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Primeiro foi o cheiro. Estava aperfeiçoando a técnica quando ela chegou exalando um odor suave que misturava algo como casca de laranja recém cortada, capim-santo, bordel antigo e minha cama quado está limpa. Tudo muito fraquinho, mais difícil ainda de perceber por causa da essência refinada usada por aquela mulher cheia de coragem e recursos para gastar o valor dos meus dois minguados salários em um frasco de perfume. Passou rente deixando um rastro bruto e harmônico em um deslocamento de vento que mexeu com minhas orelhas e desabotoou minha camisa justo no botão que já estava interessado em se livrar da casa devido a pressão da minha camisa. Todo mundo olhou.
Deu instruções ao câmera e ao auxiliar, sorriu para mais alguns ao redor, informou-se com a recepcionista que torceu a boca ao responder, monstrando todo o recalque das mulheres que não sabem envelhecer e espumam ao se deparar com um espécime perfeito e raro como aquele que se apresentava como em curvas, saltos e meneios promovendo um espetáculo hipnótico e angustiante a quem aguardava aquela coletiva de imprensa. Cruzei os olhos no dela e baixei a vista, porém algo familiar e confiável chamou atenção daquela moça que tinha quatro sobrenomes pomposos, todos remetentes à tradição e à frescura e ao entojo natural das boas famílias de Belém, mas que ainda assim escolheu o jornalismo como ilusão para viver. Veio em minha direção se mexendo como uma gata. Não lembro muito bem o conteúdo da frase curta, corriqueira, pronunciada em cadência por ela, porque prestei mais atenção nas duas fileiras de dentes perfeitos e na ponta do rosado daquela língua tecida em poros perfeitos.

O que ela disse, de fato, não teve importância alguma. Mas percebi na hora a modulação na voz. Nesses anos todos, foi a única coisa que aprendi: a perceber o interesse de uma mulher em mim pela frequência empregada na fala, uma diferença sútil, um deslocamento microscópico nas pregas vocais, mas uma indicação precisa do que elas, na realidade, queriam por trás das milhares de defesas erguidas em um aparente muro intransponível entre elas e um homem tão mal ajambrado e pobre de atrativos visuais como eu.

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Não tenha pena de mim. Não faço da feiúra um sofrimento. Existem valores que sobrepujam a beleza física, eu sei que existem.

Eu acredito que existem.

Eu torço, vá lá.

Não acredito que a mamãe tenha mentido pra mim.

Nem adiantaria. Sou feio de nascença. Eu daria uma boa piada de stand-up comedy:

Meu DNA nunca foi um Ácido Desoxirribonucleico. Encafifado com essa sigla, antes de saber o significado, eu perguntei pro médico, numa consulta. Ele me olhou de alto a baixo, com mais nojo do que interesse, e traduziu na bucha, sem piedade: De Nada Adiantou...
Só não sofri, porque lembrei de minha irmã, a caçula.

Diz a sapiência popular que todo bebê nasce com cara de joelho.

Coitados: os sábios do povo não visitaram minha casa nos pós-partos da mamãe.

Nem poderiam, é claro. Cada vez que ela pariu, a rua foi interditada.

Risco de contaminação, alegavam as autoridades sanitárias.

Acho que exageravam, pelo menos na maioria das vezes.

Mas quando minha irmã caçula nasceu eu juro que temi pela interdição da Terra.

Ela também nasceu com cara de joelho – mas do avesso.


E é impressionante – e assustador – como preserva o rosto da infância até hoje. Ainda assim, nunca teve, como eu, dificuldade em namorar.

Tinha sim uma queda por cegos evangélicos - e os cegos evangélicos por ela, quando tocavam seu rosto, à guisa de visão, e liam salmos no braile das espinhas.

Eu te amo! - ouvi um deles sussurrar, no dia do meu primeiro vômito.

Ainda assim, eu a invejava. Nunca tive um amor. Meu envolvimento mais intenso foi a palma de minha mão e muitas vezes eu ahei que ela me rejeitava, desobedecia, como a pálpebra de um velhinho com mal de Parkinson.

Amei em silêncio, esses anos todos.

Aprendi a amar de olhos bem fechados.

Ao ver uma bela mulher e imediatamente apaixonar-me, eu me castigava com a escuridão, mas permitia às minhas narinas o exercício saboroso da inalação. O olfato tornara-se soberano, e assim desenvolvi uma percepçã canina de todos os cheiros – mesmo os puns, que me diverti classificando pela intensidade do odor, o volume do ruído e a volatilidade.

Tornei-me um especialista – esquisito, mas sábio.

Foi nessa circunstância que a vi – na verdade, eu a percebi, primeiro, pelos cheiros recônditos, aqueles que não exalam, mas minhas narinas pescam.

Estava menstruada. Havia hidratante no antebraço. Tomara um gole de vinho no almoço. Já mergulhara o pé numa bacia com Permanganato, talvez um mês atrás.

Com certeza.

As mulheres bonitas também têm frieiras, eu descobri.

Foi como se minhas 20 milhões de células do epitélio olfativo decidissem fazer uma grande suruba.

Eu suguei o ar em torno dela, naquela ginástica de purificá-lo, umedecê-lo e esquentá-lo, como fazem os narizes, mesmo os pequenos, mas na velocidade 5!

Todos os receptores estavam eretos!

Havia doze anos que isso não acontecia. Lembro como se fosse hoje...

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Entre o resfolegar que a colocou dentro de mim nos mais pequeníssimos (e não menores) detalhes daquela cadeia feromônica sublime e singular, o perceber da modulação na voz e a chave codificada que destravou todas as defesas daquela leoa indomável com o brasão da nobreza dos mais longínquos mares do Sul foi um salto, um soluço, um breve sussurrar, como diz o Arantes, um lapso de tempo ínfimo que não contabilizei o quanto foi preciso para chegar até ali ao longo de diálogos travados, encontros casuais, olhares menos acovardados, palavras desconexas recheadas de uma ingenuidade matematicamente elaborada e enviadas pelos mensageiros virtuais, sinais rotundos, pesados, de todo amor que só é possível ser entregue por um homem que já ouviu as abelhas do coração das mulheres expulsas na voz e já dormiu com 1.793 delas o sono da paixão - e, sim, falo mesmo de dormir, o ato de desligar os aparelhos para recuperar a energia vital perdida e ganhada com elas em noites de alucinação, desvendando tantos cheiros que eu pudesse desvendar.
Agora eu a olhava deitada nua, uma pérola, perfeita, muda, impossibilitada de me contar qualquer segredo vocal, oral, sonoro. Mas o que importava se o primeiro som de sua boca havia sido fincado no meu peito como se dissesse "sou tua para sempre"? Os cabelos longos esparramados na cama, a posição do corpo, os olhos fechados davam a ideia de uma Lady Godiva, pintada por Manara manchando de delicadezas a minha pobre colcha remendada, surrada de tantas companhias de antes.


Durante tantos anos procurando um exemplar como ela, de voz modulada na minha frequência e de olor nem forte nem fraco demais, nem ácido nem adocicado em demasia, um primor de equilíbrio, uma obra-prima esculpida no ar... inda bem que não tinha consciência do se desprendia dela e contaminava a todos que, também, inconscientementes, se encantavam com aquela maravilha invisível solta na atmosfera. Se soubesse, ah, se soubesse, quem sabe, já teria dominado, pelo menos, uns quatro continentes sem dar um único tiro, sem nenhum ato de terrorismo de Estado ou banditismo social.

Me curvei próximo do rosto daquele amor em carne para inalar a respiração do anjo de um metro e sententa de voluptuosidade bruta. Foi quando em um espasmo ela arrotou em um movimento simples, um impulso involuntário do sono, tão banal como outros gases em fuga nas horas em que o corpo está guardado pelo manto de Morpheus. Tudo muito comum, menos para mim que fiz o escaneamento olfativo das refeições dos últimos três dias de vida daquela mulher que, mesmo que fosse inodora, poderia fazer qualquer homem na face da terra implorar por uma noite sequer junto com ela.

Foi como uma revelação místicas, ainda acobertada pelo deslumbre inicial e pela falta de contato mais próximo. Minhas ilusões se desfizeram imediatamente. Dentre abóboras cozidas, repolhos refogados, couves cruas, tomates secos, alface hidropônicos, acelgas com vestígios de agrotóxico, queijo Regina, manteiga Aviador, pão frânces, pão doce, nutela, arroz, algas e peixe cru da insossa comida japonesa, café sem açúcar e uma fruta mais tarde identificada como uma iguaria rara da Malásia, nenhum sinal de carne vermelha. Absolutamente, nada. Nenhum naco. Nem uma garfada em um pequeno pedaço de alcatra. Nem sombra de uma minúscula porção de bacon para temperar o feijão.

Deslumbrado com a dor da decepção, só pude lamentar que aquela preciosidade feminina não fosse a mulher que há anos eu esperava. Não era possível encarar sem desencanto aquela fatalidade descrita milimetricamente nos vapores do seu aparelho digestivo. Toquei-lhe a face e comecei a acordá-la suavemente, pronto para mandá-la embora e ver fechar a porta do destino atrás daquelas costas de fábula para nunca mais. Não havia outro jeito: jamais confiei em pessoas que não comem carne vermelha. Nem confiarei. Jamais.

5 COMENTE AQUI!:

Andressa Malcher disse...

bravo! sem mais.

Anônimo disse...

"Perfume, a história de um assassino" rsrs. Pô, que cara exigente!!!E, claro: ótimo texto.

Aline

Loredana disse...

Parabéns, pelo trabalho e arte na escrita!

Franz disse...

PÕ, bicho, e dá pra confiar em quem come carne? Brincadeira, sumano. Excelente texto!! Parabéns.
Paraônicamente, Franz

yasmin Cardoso disse...

eras amei o texto , parabéns !