sábado, 16 de julho de 2011

Cidade Velha

Tentou levantar as pálpebras, mas o esforço foi inútil. Permaneceu imóvel sentindo o apito de mil turbinas de avião dentro da cabeça e a boca travosa, seca, murcha e ressentida exalando os últimos vapores e denunciando a noite passada. Passou a língua cheia de ranço e percebeu a falta de um dente, precioso incisivo da arcada superior. Não se assustou com a ausência ou o mau efeito provocado pelo vazio. Apenas pensou em como seu corpo, suas coisas, sua vida, ao se desfazer em pequenos pedaços sempre davam previsões taciturnas tão palpáveis de que algo estaria muito fora do prumo em breve. Gemeu.

Abriu os olhos evitando a luz das brechas do telhado. Pensou numa chuva torrencial e nas cachoeiras escorrendo pelas telhas, mas o dia era de sol, muito sol, e um calor violento que o fez jurar estar dormindo perto de um forno à lenha. A camisa empapada de suor e os cabelos encharcados denunciavam a inutilidade do ventilador gasto, de hélices vermelhas e imundas, perto do colchão fino, quase psicológico, perdido em uma dança troncha e horária mais empenhada em se confundir com ronco de leitoa da parceira ao lado do que promover alguma frescura de qualquer gênero.

Sentiu a presença volumosa, esparramada ao redor, de ventosas enormes de animal mitológico, dorso amontanhado, coxas roliças com cicatrizes redondas e estranhos desenhos feitos pelas varizes, muito parecidos com mapas hidrográficos. A cabeleira loira, as axilas manchadas e um tufo pré-histórico de pelos entres as pernas confirmavam: era uma mulher. Em um movimento de balé, ela se revirou e o guardou em seu colo, como um menino, um menino bem pequeno e vulnerável.

A pressão e o cheiro azedo fizeram o estômago desprender, dar uma volta completa e voltar ao lugar original, sem antes exigir um salto desesperado, uma corrida urgente para um lugar fora dali, bloqueado pelo corpanzil de cetáceo. Prendeu o gofo com sucesso, sem que antes quantidade suficiente lhe inundasse de leve as narinas. Acordou de vez, sufocado, rogando que a morte lhe levasse ou que tudo não passasse de um sonho ruim, o que dava no mesmo.

O laço apertou e a mulher colou os seios, embrulhados em um sutiã encardido, no rosto do quase esmagado companheiro. Antes de iniciar o curtametragem sobre sua vida antes da chegada na eternidade, ele questionou quem seria aquela entidade rotunda que agora lhe entregava as chaves do inferno em um abraço de estivador. Me solta, suspirou ele, em um quase derradeiro esforço: “me larga”. Do profundo onde estava guardada de todo mal, ela ouviu a solicitação sem se afastar um centímetro do reino dos sonhos e, sem consciência de qualquer bondade, virou inteira para longe, bufando como desde o início do adormecer. Livre, finalmente, pensou ele.

Sentou lívido no catre. Não reconheceu o lugar em que havia assentado leito de amor com aquela figura inacreditável. Viu as paredes sujas, o cheiro de comida passada, o fedor de merda, uréia e colônia de alfazema, lembrou da avó por instantes, levantou e procurou a porta, com um trinco enorme de madeira, muito fácil de abrir. Torceu o mecanismo mastigando o alívio, quando ouviu: 15 reais. Entendeu tudo e numa velocidade de ônibus desgovernado vieram os flashes, as cenas, a coragem de ter feito tudo o que fez. Pagou e ganhou a rua.

2 COMENTE AQUI!:

Pandora disse...

Nao me surpreende que seja bom. Muito bom. Fico orgulhosa pela tua escrita. Bjs. Karla Albuquerque

Anônimo disse...

hahahahahahahaha
sensacional!
real, como o passado.
irreal, como um arrependimento.
vou fazer o seguinte, só para brincar.
pego o primeiro parágrafo teu e dou outro rumo meu.
me autorizas?
agora é tarde. curti tanto, que já fiz.
tô te mandando por e-mail.
abraco, amigo.
você me enche de orgulho (hetero!)

silber