quarta-feira, 6 de julho de 2011

A inescapável maldição da feiura

Dois anos de BG. Ok, dois anos irregulares de BG. Mais ok ainda: dois anos de muitas postagens no começo e depois postagens cada vez mais raras, mas parece que é o modus operandis da vida. Ciclos, ciclos, afinal. Mas, vamos falar de coisa boa, vamos falar de feiura.
Javier, um feio que deu certo.
Li recentemente bonitas reflexões sobre a feiura, feitas pelos craques Xico Sá e Helio De La Penã, dois desprovidos de beleza física, assim como eu. Pensei que um tratado sobre as vantagens de ser um homem feio é preciso nesses tempos em que a indústria, o cinema, a moda, a publicidade e até a tia Maricota suspiram e exigem espécimes do gênero masculino com apenas 13% de teor de gordura no corpo, músculos bem definidos, peeling em dia e sobrancelhas feitas.

Ninguém pensa que é bonito ser feio, como questiona o filósofo Batoré. Nem toda cara feia é sinal de fome. Muito menos é fácil não ter aquele sorriso cinematográfico, aqueles olhos sensuais ou a postura de Gregory Peck. Agora, meu amigo cão-chupando-manga-com-febre, não adianta reclamar ou recorrer a artifícios para disfarçar sua descompensação estética. Plásticas, implantes, musculação, acessórios, penteados esdrúxulos e práticas femininas como maquiagem e remoção de pelos só vão causar uma impressão pior.

Quase sempre o efeito é igual a enfeitar carro velho: rodas de liga leve, faróis de xenón, bancos de couro, película espelhada, maçanetas cromadas, motor possante. Porém, não adianta, todo mundo sabe que não passa de uma Brasília tentando esconder a ferrugem de 1973.

Para os empenhados atletas disfarçadores da má sorte no fenótipo, a volta do anzol é catastrófica: descobrem que por baixo da redondice da obesidade ou do fiapo humano da magreza morava um homem mais horroroso ainda só que agora cheio de músculos inchados e todo embonecado.

Pois então, meu jovem filhote de cruz-credo, não tem como fugir. A feiura é um sinal de Deus, uma prova material de que Ele tem senso de humor e é muito otimista em relação à sagacidade dos seus filhos agraciados com a desgraçada da assimetria. Portanto, não disfarce: assuma. É o melhor a fazer. Depois de “use filtro solar”, talvez esse seja o melhor conselho. A não ser que você queira passar a vida inteira com a cara amarrada e, por tabela, mais horrendo ainda.
Este feio até usou da ironia para se batizar: Belo.
Somos uma legião, sabemos. Os feios estão por toda parte. São eles a maioria absoluta, no entanto, sem articulação política nem vontade nenhuma para implantar a “Ditaiúra”, a Ditadura da Feiura. Enfraquecidos, embora com uma bancada majoritária, os feiosos acabam sendo cooptados à tentativa de se igualar aos bonitões ou simplesmente calam, fingem que não é com eles a sacanagem de ter os olhos vesgos, a cara de areia mijada, a careca de calota de Kombi, os dentes de hipódromo de tão encavalados, o nariz exótico pra não usar adjetivo pior, a boca de sacola, as pernas de alicate e o bucho quebrado, dentre outros defeitinhos suaves.

Calma, campeão. Não é o fim do mundo, apesar da nossa estampa de Apocalipse. Esqueça a parte externa por alguns momentos. Mantenha-se limpo, claro, e com roupas condizentes - nada de acompanhar a moda, meu chapa. A moda é feita para pessoas bonitas e não para nós. Com o banho em dia e as roupas sem chamar mais atenção do que o déficit de beleza, concentre-se no que ainda lhe resta: a parte de dentro.

Leia, meu velho. Leia. Ah, não gosta de ler? Complicou. Além de feio, burro. Pra que ler?, você pergunta. Para aprender a falar, Mané. Para ter o que dizer, para ter parâmetros que ajudam a compreender outras realidades. Para que você... espera aí... não sabe o que é parâmetro. É, meu filho, está difícil. Volte dez casas, fique duas rodadas sem jogar, escondido embaixo da cama chorando.

Ok, deixe os livros para lá, pedaço de asno atropelado. Aprimore seus gostos, conheça, desenvolva outras habilidades. Beleza não está no lado de fora apenas, ainda que uma fachada boa facilite muita coisa. Seja agradável - e ser agradável não é ser um mordomo, um serviçal submisso, mas alguém que pode praticar a bondade sem esperar nada em troca, sem avaliar o que pode lucrar com uma simples gentileza. E, definitivamente, não seja um estúpido. Não ache que pode jogar sua revolta ou sua falta de tato com violência para quem quer que seja.
E o Lázaro Ramos dando uma de José Mayer na novela?
No final, queríamos ser mais bonitos por elas. Há inúmeros motivos que envolvem esse “por elas”, obviamente. Alguns queriam comer todas as mulheres do mundo ou só a lindas; há ainda os que queiram ostentar o maior número delas perfiladas como suas e outros que simplesmente querem uma única alma para entregar o amor. Mas, no fundo, o feio queria ser bonito para uma ou várias mulheres, até porque ele não se enxerga o tempo todo e, como todo bom monstrinho, tem poucos espelhos em casa.

Embora as péssimas línguas digam que quem gosta de homem bonito é gay e mulher gosta mesmo é de dinheiro, prefiro me render a uma lógica simples e cotidiana: se fosse verdade, mendigos morreriam solteiros e eu nunca teria deixado de ser virgem. Mulheres são generosas, meu caro. Mais do que a sua vã filosofia pode captar, adorado mestre.

É evidente que elas vão suspirar pela beleza. Está descrito nos livros de Biologia que as fêmeas querem filhotes bonitinhos e não bebês que tenham caras como a minha. Isso é óbvio. Mas, a natureza é sábia e deu de lambuja outras características para explorar, abrindo uma pequena viela, um caminho estreito, para você feio se esgueirar e tentar achar a felicidade.

As possibilidades são infinitas e você tem provas irrefutáveis todos os dias de que nossos co-irmãos vencem o estatus quo e burlam a lógica de mercado, emplacando gols incríveis, garfando mulheres lindas, inteligentes, interessantes, para todos os fins e deleites, se é que vocês me entendem.

Ainda que a indústria, o cinema, a moda, a publicidade e até a tia Maricota torçam a boca para seus traços pessimamente desenhados, feitos quando Deus estava de ovo virado, é possível viver sem tropeços sob o signo obscuro dos mal ajambrados. Como num passe de mágica, você pode fazer com que alguém, quem você queira que realmente veja, enxergue algo que ultrapasse os limites desse amontoado de imperfeições que o tempo vem piorando sem perdão.
Será???
Você, minha prezada criatura do avessso, tem a vantagem de manter por perto só quem lhe sente o real valor. Esqueça quem não consegue vislumbrar nada além do que o olho enxerga. A essas pessoas o tempo vai se encarregar de explicar implacável e dramaticamente que o que está fora vale quase nada ou muito pouco diante da inexorável e irretocável essência perfeita do que você é, acalentada, escondida e forjada dentro da sua velha e nada feia alma.