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quarta-feira, 1 de junho de 2011

Paixão, uma mulher difícil

A paixão não é fácil. Deveria ser, mas não é. Chega atropelando, carregada de uma nuvem imensa de plumas, de brisas, de suspiros, apertos no peito, vazios tremelicantes no estômago, uma ânsia nas mãos, uma agonia inquieta nos pés e uma venda de chumbo nos olhos. Ela se instala com todos esses apetrechos e começa criar um campo de força imenso de necessidades, de vontades, de pressas, de urgências dantes nunca mencionadas, de pavores que antes sequer eram pequenos medos.... tudo cessado somente com um afago, um afeto, uma palavra, um olhar que seja do objeto da sua imponderável e brutal tentativa de fuga desse animal mitológico, pré-histórico, gosmento e onipresente chamado solidão.
Apaixonar-se velho é pior ainda. É como uma roupa que não lhe cabe mais, é sair à rua de mangas compridas e agasalho quando o dia é de calor infernal e andar sem camisa quando o frio vem furioso lhe trazer a bronquite e a pneumonia. Ser velho e apaixonar-se é incorrer no risco de parecer mais ridículo ainda do que no tempo em que a paixão lhe caia bem como uma roupa sob medida feita no alfaiate. Ser velho e apaixonar-se é quase certeza de acertar a tristeza, é erro, é descaminho, é perder-se ao ir à padaria por causa do esquecimento, da senilidade, é fragilidade dos ossos e opacidade dos olhos que teimam em brilhar.
Por outro lado, apaixonar-se jovem lhe coloca em outro eixo e você não sabe mais caminhar como antes. O mesmo ar que lhe infla e refrigera também afoga, sufoca, lhe falta. E suas mãos não são suas nem seus olhos lhe obedecem mais e a ansiedade lhe põe contra a parede, um muro imenso de êxtase, uma represa gigantesca prestes a estourar um oceano de água e sal. Querer é o seu verbo inconsciente, sua sina, sua meta, sua obsessão e calmaria, sua forma de andar nu pelo mundo sem ser incomodado, rezando baixo para que sua paixão nunca lhe dê as costas e essa ausência, jamais desejada, faça você perceber que está completamente vulnerável a tanta gente cruel e sem razão ao redor.

Na linha da vida, com tantas paixões, você perde a referência de idade, de experiência. Já não sabe se está velho demais para encará-la quando ela chega de supetão, arrasadora, ou novo demais para deixar as resistências do corpo de lado e abraçá-la sem receio em um abraço inédito, terno e estranho para um momento em que só se conhece a linguagem da fúria, da pressa, da sede e da fome de entender ou deixar de entender tudo. De fato, a paixão não fácil, em tempo algum, em lugar algum, para ninguém.

Pode se tornar um mastodonte e sentar em cima dos seus pés e esta besta ser sua prisão, ser um peso intransponível até que a cura chegue lenta e preguiçosa em lombo de burro e a frustração, o desânimo e o acaso façam seu trabalho. Mas, ela pode também ser um balão de ar quente e vivo que lhe alce vôo, que lhe leve ao infinito azul, onde anda perdido, descalço, e louco para ser encontrado, aquele velhíssimo e tão vulgar espírito, conhecido de todos nós.

A paixão não é fácil e talvez seja por toda a dificuldade peculiar e arraigada que ao chegar ninguém quer se desfazer dela, mesmo em casos em que não há nenhuma saída, nem chance de sobreviver impune a esse furacão. É a sua raridade, é o momento preciso e único de invadir a alma, sem qualquer alarme ao hospedeiro, que lhe confere ares de benção, muito embora tenha todos os trejeitos e maneirismos de maldição.

A paixão não é fácil, mas quem a segura pelos cabelos, doma seu ventre e lhe acalma a violência sem controle de dama extraviada se esquece de qualquer dor, qualquer morte, e toda lágrima é comoção, é rejubilo, é felicidade, é encontrar a paz, essa vizinha do lado esquerdo do afeto mais puro, moradora da cobiçada esquina que todos procuram e poucos acham, de fato, o amor.

Um salve para quem foi cooptado pela paixão e está vivo pra viver esse mês em que as paixões estão nas prateleiras das melhores casas do ramo.