A Avenida Marquês de Herval está pronta, finalmente. Desde novembro de 2007, a rua de 2,9 quilômetros estava sendo bulida e rebulida, quebrada, remendada e quebrada de novo até chegar ao que temos hoje. Dizem as más línguas que a obra deveria custar apenas R$ 1,3 milhão, mas com o abandono de empreiteiras no meio do trabalho e os vários aditamentos no orçamento inicial foram consumidos na via mais de R$ 5 milhões (me corrijam, se eu estiver enganado). Procurei no site da prefeitura e em matérias da grande imprensa, mas ninguém fez o favor de perguntar quando custou para o cidadão o asfaltamento, a ciclovia, o espaço de lazer para crianças, o paisagismo e as famigeradas academias ao ar livre - tudo em cores berrantes e com o ‘bom gosto’ que marca o grupo político que agora ocupa o Palácio Antônio Lemos.
![]() |
| Marquês, finalmente, inaugurada. - Foto de Eli Pamplona. |
Como conheço a Marquês e nela habito desde que me entendo por gente, vi todo o périplo para a conclusão dessa empreitada que mais pareceu uma aventura urbana de fábula para encontrar seu término. Vi os canteiros serem destruídos e refeitos mil vezes, retornos surgirem e sumirem de uma hora para outra, trabalhadores acelerarem o ritmo perto da eleição de 2008 e depois evaporarem como passe de mágica, por fim, testemunhei a progressão geométrica da descrença dos moradores que duvidavam mais do que São Tomé sobre a veracidade e o final feliz para a reforma.
Quem hoje passa pela Marquês aprova o feito. Enfim, uma bola dentro do nosso nem tão querido prefeito. Porém, há controvérsias. Na chuva mais fina, já se percebe os estragos de uma via feita as três porradas: ciclovia alagada, pontos de inundação, enfim, falhas feias de drenagem das águas pluviais muito comum nas ruas belenenses. Tão comuns que parecem ser um traço peculiar e insistentemente ensinado nas faculdades onde estudaram os engenheiros que fazem e refazem nossos caminhos.
A rua da minha infância teve sua última reforma marcada por longos e estranhos três anos e cinco meses. Quer dizer, nem tão estranhos assim. Quem acompanhou de perto percebe as nuances e o movimento feito para tocar os trabalhos. Para se ter noção, embora tenha iniciado em 2007, grande parte do que está posto nos quase três quilômetros de asfalto, calçadas e equipamentos começou a tomar forma somente no final de novembro do ano passado.
Este processo ganhou contornos de realidade apenas nos primeiros dias de janeiro deste ano, sob a expectativa de entregar a obra no aniversário da cidade, no dia 12 do primeiro mês de 2011. Todo mundo sabe que a epopéia da última reforma só terminou com a inauguração no último dia 2 de abril. Inauguração essa feita com rebuliço, pompa e circunstância e muito tecnobrega e poluição sonora em quatro pontos da rua reformada. Tudo feito um dia depois do Dia da Mentira, porque se fosse marcada para a data folclórica dos que faltam com a verdade quase ninguém ia acreditar que naquela sexta-feira esquisita (em que até o Iron Maiden tocou aqui) o alcaide fosse, de fato, descerrar a fita da Via Parque.
![]() |
| Um desses bonecos é o prefeito. Foto de Eli Pamplona. |
Três anos e cinco meses para fazer uma rua de dois quilômetros e novecentos metros gastando mais de R$ 5 milhões. Números risíveis em uma época em que o mundo inteiro soube que o Japão refez uma de suas principais estradas em seis dias depois do terremoto que devastou o país do sol nascente. Mas, pense bem, vamos reclamar para quem? Para os vereadores? Aqueles que recebem mais de R$ 7 mil de vale-alimentação? Eles estão super preocupados em como super gastar essa super montanha de dinheiro no supermercado. Nem dá para pensar nos problemas da cidade ou fazer o básico, determinado por lei: a simples fiscalização do que o Executivo Municipal está fazendo com o meu, o seu, o nosso rico e suado dinheirinho.
A rua ficou o que podemos chamar de bonita. Obviamente, bonita dentro das escolhas estéticas bizarras feitas pela prefeitura para adornar a cidade - antes da banda ‘Restart’ lançar moda, nosso prefeito decidiu que a capital do Pará ficaria linda toda pintada de laranja berrante. As alterações na sinalização e no fluxo colocam a Marquês agora como uma das principais vias de escoamento da tumultuada Belém, com seu trânsito maluco de motoristas psicóticos educados nas auto-escolas de Nova Deli.
Tudo isso dá o ponta-pé inicial de uma nova fase na vida a Pedreira, bairro que me viu crescer e que eu testemunho sua expansão cotidianamente. Chega o tempo de intensificar ainda mais o tráfego e o barulho típico dos carros e da especulação imobiliária, dos caminhões de mudança dos novos vizinhos, refugiados decadentes da velha classe média alta e os emergentes da nova classe média, que vem se juntar ao resquício dos mais pobres que ainda insistem em morar por essas bandas.
![]() |
| Pela cara, o Marquês não curtiu a reforma nem no Face Book. |
Fica para trás a Marquês de quando fui moleque, uma imensa rua de piçarra, fim da linha dos ônibus da linha ‘Vileta’ e marcada pela morte de uma menina da Passagem Alegre, cujo nome não recordo, mas foi a primeira vítima fatal depois da primeira camada de asfalto jogada na Avenida. Vai se perdendo na lembrança a Marques do bar Pedra 90, na esquina da Lomas Valentinas, referência para dezenas de nordestinos que chegavam na cidade, na década de 1970, para tentar a sorte, dentre eles meu pai, piauiense de Piri-piri. E mais distante ainda ficam as reminiscências rurais de uma área tomada por mato e ocupada por diversas vacarias, onde, ao final de tanta brenha, corria o límpido Igarapé dos Três Tubos, hoje limite da Av. Doutor Freitas, local em que ‘um cego matou um são’, conforme me contou o velho taxista Sebastião, testemunha desses tempos imemoriais.
Que fique claro que não são saudades. São apenas os fios azuis da minha memória, misturados com a memória alheia, tecendo um lugar que não existe mais, que só existe para quem o viu, para quem o vivenciou. Hoje temos a via parque, mais enfeitada do que tia velha em festa de 15 anos da sobrinha, uma Marquês de Herval com outra função no cenário urbano belenense, usada por outras pessoas, vista de outra ótica. Comemoremos, pelo menos, nossa pequena vitória de vê-la refeita, mesmo a custa de tanto tempo, de tanto dinheiro e de tantas lacunas e inexplicações administrativas que dão forma (ou deformam) a recente gestão da nossa cidade.



8 COMENTE AQUI!:
É, Anderson. Temos mais uma rua "bonitinha" e vários motivos pra refletir. O "laranja" deve ser uma homenagem ao eleitor.
Como se essa obra não f obrigação dos Governantes.
O laranja tem tom de Luto.
Em algum momento, quem está irá, e nos lembraremos do luto que vivemos daquilo que queremos.
Se a esperança é última que morre a a muito já morri.
Acredito nos atos, iniciado apartir dos fatos.
Na atitude daqueles que enxergam com um olho que possuem guiando os que almejam dois.
Eu que faço minhas caminhadas matinais na Marquês vejo tanta coisa engraçada...da Lomas até Angustura a ciclovia é uma piscina, depois vem um monte de merda de cachorro( e olha que tem placa informando para os donos recolherem os cocôs de seus cachorrinhos fresquinhos), passando a Barão vem a macacada da academia ao ar livre(nunca parei lá e nem vou parar. Moooorro de vergonha de alguém passar no ônibus e me ver naquela situação ridícula. rsrsrs). Depois da Mauriti tem o espaço do idoso, que claro, vai ser mesa de reunião de papudinhos. Depois da Humaitá, quanto mais vou me aproximando da Antônio Baena vou escondendo o mp4. Enfim, antes isso do que nada. Quanto mais a gente reclama, mais somos chamados de chatos. E não adianta falar nada agora porque o povo tá feliz, suas insatisfações com o prefeito foram camufladas por essa "nova" avenida.
Mas vamos aproveitar né? Quem não tem dinheiro pra frequentar academia, usa a avenida.
HAHAHAHAHAHAHA
Beijos, querido. Saudade de ti.
Vamos pegar leve galera,pensei nos sábios-cults papudinhos da mangueirinha que agora tem mesas pra degustar maravilhosas buchudinhas ao fim da tarde.
Ha ha ha.. o mais engraçado é o Duciomar, entre os bonecos... sou do tempo que ele era ridicularizado.. perdeu p Edmilsom Rodrigues.. senão me engano ficou em terceiro lugar.. ele tinha uns onibus velhos.. credo.. e agora é prefeito.kkkkkkk
Excelente post. A Marquês também faz parte da minha rotina e vê-la (finalmente) pronta me dá um misto de alegria e tristeza.
Alegria porque de longe ficou bonitinha e de um jeito ou de outro traz benefícios aos moradores com as áreas de lazer e convivência.
Tristeza porque vejo tantas mancadas em uma obra relativamente simples. Acessos com contornos estranhos, pistas de entrada e saída dos retornos tratadas com estacionamento e por aí vai. Tantos detalhes que (penso que) aprendi nas disciplinas de Urbanismo da faculdade e que não vejo ali. Não sei se o pessoal do Dudu faltou essa aula - os mesmos problemas podem ser vistos na tão nova Duque. Ou se eu sou a chata que vê defeito em tudo (que a prefeitura faz). Deve ser isso.
Bom, vida longa à Marquês. Que o povo possa conservá-la, porque outra dessa só daqui uns 30 anos!
A Pedreira cresce e se desenvolve, mas ainda está longe de se tornar um novo Umarizal, sem batuques, igapós e vacarias...
Igor.
Postar um comentário