sexta-feira, 11 de março de 2011

Cleide e outras perguntas mais antigas


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O blog estava de férias, mas ressuscitou. Quem sabe agora vai de vez. Não sei se pro buraco ou para frente. Abraços e deixem seus comentários. Ando carente. 

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O nome era Cleide. Ela era mais velha do que todos nós e tinha todos os atributos que todos nós achávamos necessário para perder horas e horas no banheiro naquela época de muito trabalho mental em que o máximo que conseguíamos chegar perto de uma buceta era amarrando espelhos em cima do sapato e enfiando o pé entre as pernas das meninas de saia para tentar atingir a visão que supúnhamos ser o paraíso. Estávamos certos, claro. Mas a constatação estava muito longe de chegar, pelo menos, para mim, um vara-pau com a cara deformada pela acne aos 13 anos de idade.

Na sétima série do primeiro grau, da minha segunda casa - meu saudoso Alzira Pernambuco - minha memória fisionômica para mulheres bonitas já era muito apurada. Enxergava um rosto bonito na multidão, o coração palpitava e rápido a imagem estava naquele cesto enorme e desorganizado de paixões pueris que era e sempre será a minha cabeça. Logo que soube que Cleide estaria no elenco, os neurônios me apresentaram a primeira imagem dela captada três anos antes.

Me perturbou de novo a visão nítida dela encostada na porta de uma das casas da vila militar, no caminho da escola. Estava entretido olhando as mangas amarelas no pé e na conversa besta de Marcelinho, colega de sala e da minha rua, no momento em que meus olhos pousaram naquela adolescente de shorts e blusa clara. Uma ostentação sem tamanho de coxas, peitos, umbigo, cabelos e sorriso. Tudo naquele conjunto de formosura estava no tempo e espaço certos como uma profecia anatômica conjurada em uma mulher antes dos 15 anos.

Lembro que ela ria um riso cínico, debochado, na nossa direção, mas que de forma alguma devia ser para nós, moleques de dez anos com uniformes encardidos e livros encapados com papel de embrulhar pão. No dia em que Gilmara desistiu do papel principal e de pronto arrumaram a substituta na peça sobre o aborto, depois de devidamente identificada a nova “atriz” na minha memória, achei uma boa troca, embora preferisse a primeira garota por questões sentimentais não resolvidas em uma quinta-série extraviada para meu pobre coração.

Os ensaios daquele arremedo de espetáculo teatral cuja história repetia a saga das meninas que emprenham cedo e tiram os filhos na marra eram sempre às segundas. A primeira apresentação tinha sido sucesso de público e de crítica com professores e alunos tocados pela sina da pobre moça que cometeu o mau passo e foi obrigada pelo pai a procurar os métodos mais obscuros para extração do feto. Metido em um terno emprestado não sei de quem e com os cabelos cheios de talco para parecer grisalho, fiz o vilão que obrigava a filha a cometer tal pecado mortal. Gilmara chorava e sofria com as palavras duras que meu personagem lhe sapecava na cara como se fossem cacos de tijolo.

No dia em que Cleide surgiu na primeira reunião na casa da Andréia daquele elenco escolar mais voltado para as questões prementes à idade do que para os resultados pedagógicos daquele trabalho, a especulação começou. Eli, o magrelo mais velho, repetente contumaz e egresso de uma escola particular, decretou solene, baseado na sua vastíssima experiência de quem tem 16 anos: “ela está a fim de alguém”.

A informação relampejou nos olhos de Alan, meu amigo mais próximo na época, tido como uma espécie de galã na escola, bom de matemática e transformador galanteios pelo corredor em amassos próximos à quadra. Não se sabe como ele conseguia, mas sempre se via o pequeno Casanova atracado em uma estudante sempre da melhor estirpe, das criadas com leite Ninho. Dizem as màs línguas que a tática dele era arrebanhar as vítimas nas séries anteriores se gabando de não ser um mobral, além de pagar as coxinhas gordurosas e o chope de ki-suco na dona Irene para as escolhidas. Ele e Eli começaram então um jogo de adivinhação que incluía o destaque para suas próprias qualidades e, obviamente, a encarnação contra quem não poderia sequer entrar na brincadeira devido à feiúra e falta de jeito, no caso, eu.

Eli, curtido pelos anos a mais, já vislumbrava a sacanagem e se gabava de como faria quando chegasse com suas mãos nervosas à sublime novidade de pernas roliças e peitinhos de bicos salientes quase furando a blusa. Sim, porque pela sua lógica de líder natural do pequeno trio a beldade seria sua devido à proximidade das idades e todo seu charme de rapaz de boa família vindo de uma escola de abastados. Na verdade, nosso ‘chefe’ em aparência não parecia ter três anos a mais do que Alan e eu e sua vinda para o Alzira era parte do baque nas milhares de famílias de classe média que perderam renda com o confisco nas poupanças anunciado pela ministra da Economia Zélia Cardoso a mando do presidente Collor, no ano anterior. No entanto, nosso mais maduro colega achava que Cleide lhe lançava olhares apaixonados e suspirava coraçõezinhos quando via sua cara de índio misturado com Alien, o oitavo passageiro, grande sucesso na Tela Quente dos nossos tenros anos.

Já Alan jurava ser o escolhido por aquela que nas duas primeiras semanas me fez perder horas e horas em masturbações que não acabavam nunca mais no pequeno cúbico do quintal com dois abieiros da minha antiga casa. Sonhava acordado com a bunda e aqueles seios redondos de Cleide, meio culpado por ainda manter Gilmara na minha lista de paixões. Na minha inocência, aquela simples punheta era uma traição despudorada com meus amores mais puros, guardados sob o silêncio de Platão.

Alheio às minhas bestices, Alan já traçava o plano e se via exibindo seu troféu na hora do recreio. Com enumeras conquistas, inclusive algumas da meu rol extenso de admiradas secretamente. Não esqueço de Miriam, da quarta série, cabelos pretos e pele clara a quem escrevi um poema e guardei na carteira esperando a coragem me arrebatar. Meu mundo caiu quando o moleque vestido com a camisa de número sete do Vasco foi mais rápido do que eu. Antes de saber o nome e me tornar amigo dele, só chamava de “Bebeto filho de uma puta”, uma referência ao atacante vascaíno que vestia aquela numeração e seria herói da Copa de 1994. Alan/Bebeto já dava como certo ser o dono daquele troféu de pura gostosura desenhado em curvas perigosas de hormônios e feromônios em transbordância.

Na laterna daquele campeonato surdo de punheteiros juvenis, vinha eu, a grande zebra. Não falava absolutamente nada sobre pretensões e me limitava a fazer comentários sobre a nítida vantagem corporal daquele fenômeno humano em relação a outras mocinhas do entorno. Nenhuma era páreo para aquele espetáculo adolescente em andamento, um show milimetricamente calculado de exibicionismo para aquela pequena platéia de machos imberbes: agachadas estratégicas para apanhar objetos que teimavam em cair no chão com a bunda bem posicionada propositalmente; decotes prestes a explodir em músculos e gorduras de mamas super bem feitas; esquecimentos de sutiã somados a camisetas claras praticamente perfuradas por mamilos indóceis; e mini-saias que davam amostras grátis, muito de vez em quando, de um micro-triângulo sempre branco de uma calcinha que nos meus pensamentos tinha cheiro de limpeza, de sabão em pó, e, obviamente, era minúscula.

Meus comparsas paravam para ouvir as minhas observações sempre pertinentes sobre nosso alvo amoroso, mas terminavam a conversa deixando claro que, se houvesse um interesse de Cleide em alguém, essa possibilidade estaria voltada para os dois apenas. Ela tinha quase 17 e não perderia tempo com um raquítico, desengonçado, espinhento e mal acabado projeto de homem como eu. Voltava para casa com os risos e o sarro dos colegas ressoando na cabeça, mas quando olhava o espelho percebia que toda aquela encarnação era a mais pura verdade. A feiúra era, de fato, minha grande rival naqueles anos em que tudo que se quer é ser aceito.

A brincadeira de ensaiar começou a minguar quase um mês depois que Cleide chegou. A promessa de apresentar em uma espécie de mini-festival de teatro de escolas municipais foi perdendo espaço para evasivas da professora Rita, responsável por supervisionar o trabalho. Não demorou a percebermos que a dedicação fora em inútil, mas a gostosa arte do ócio coletivo não. Mesmo com tudo implícito de que era o fim, continuamos os ensaios apenas pela diversão e para, um dia, saber se Cleide cederia àquela paixão coletiva mais do que estampada na cara de nós três.

Para azar de todos e decepção de alguns, o dia da revelação chegou como a confirmação de um mau presságio atingido em cheio a coletividade. Li o último sermão como pai da filha extraviada pelo rebento indesejado e terminamos a parte obrigatória da reunião. Foi quando Marília, uma das meninas do grupo e narradora da peça, propôs o “jogo da verdade”, a brincadeira sempre usada para descobrir quem preferia quem, quem pegaria quem, quem poderia ou não se dar bem trocando saliva e dando buzinadas em seios recém-chegados. Eli se prontificou a fazer um acordo com a ala feminina, para que uma das sorteadas a responder as perguntas fosse Cleide. Seria a hora em que ela diria de uma vez por todas se queria realmente algum dos imprestáveis que ali estavam.

A primeira resposta foi ouvida por todos nós e sucedida por um disparo agudo no peito de cada um. “Sim, eu estou a fim de alguém aqui”. Eli me olhou e olhou para Alan; Alan sorriu para ela e depois nos olhou. Involuntariamente, balancei o pé, e cutuquei Eli, o mais confiante de todos. O prêmio realmente era dele pela cara de vencedor que ele fazia. O magrelo ajeitou o cabelo e endireitou a coluna, não ficando mais elegante, pareceu apenas mais delicado do que antes, quase uma garota quando recebe um elogio.

Demorou umas três rodadas para que Cleide fosse sorteada novamente e provacada com a pergunta mais esperada daquela tarde de sol escaldante e muitas tensões: “quem? Quem é o felizardo?”. A interrogação ficou no ar enquanto todos esperavam. Eu olhava para o joelho daquela adolescente de sonho postada a duas pessoas no meu flanco direito. “Fala logo”, alguém exigiu, depois de uma risada nervosa. Alan estava hipnotizado como quem acompanha os penalts em um campeonato mundial. Eli, absorto em seu meio sorriso, também estava impávido. E todos ouviram ela pronunciar o meu nome. “Quem?!”, repetiram, com um ranço de desespero na voz. E mais uma vez as sílabas que minha mãe escolheu para me batizar jorraram vagarosa e sensualmente da boca de Cleide.

Fiquei sem entender até que Eli me puxou pelo braço e Alan nos acompanhou para fora da casa. Eles perguntaram: e agora? E agora? E agora o que? E agora, seu filho da puta? E agora nada, ora, ora. Como nada? Nada. Não quero nada com essa mulher, eu disse. Eli cresceu, violento, furioso: vai ter que querer. Vai entrar lá e dizer que está a fim também, seu merda. Alan também exigiu o mesmo. Estava pressionado, acuado, não sabia o que fazer. Porém, concordei. Tinha que ter atitude de homem, afinal, eu tinha 13 anos, porra. Depois de um tempo, a pequena conferência se desfez com o acordo de que eu entraria na casa resoluto, com a disposição dos que tem o destino do mundo nas mãos.

Entrei. As meninas estavam em silêncio. Cleide estava sentada em posição de lótus e a coluna vertebral recolhida, apontando o rabo para trás e os peitos para frente, com o pescoço como de uma bailarina destacado pelo cabelo preso em coque. Era uma diaba, de fato. O jogo estava desfeito com a polêmica implantada. A bela queria a fera. A zebra tinha tirado a sorte grande. Diante da platéia, fui inquirido sobre o que fazer, ou melhor, o que faria diante daquele inusitado presente de Deus. Não quero, foi o que todos ouviram eu dizer, inclusive Cleide, que arregalou os olhos, torceu a boca e não disse mais nada depois de tamanha ofensa. Mas, por que? Porque eu não quero e pronto. Não tenho que querer, eu disse meio titubeante. Aaaah, viadinho, aaaah. Beija, beija, beija. Alguns levantaram essas bandeiras, no entanto, o clima não estava para brincadeiras.

A reunião terminou sob o alvoroço após a revelação de Cleide sucedido da minha negativa. Saímos dali certos de que nunca mais haveria ensaios. Em boa parte do caminho fui levando pescoções, chutes, empurrões e xingamentos dos meus confrades. Eles não sabiam se riam ou brigavam comigo por eu ter sido sorteado no lugar dos favoritos e idiotamente recusado a mulher mais gostosa daquele 1992. Naquele dia estanho, o improvável e o prazer de contrariar expectativas se apresentaram de vez na minha vida que estava apenas começando. Em casa, lamentei ter sido vencido pela timidez e não aproveitar a delícia em forma de mulher cujo mistério em preferir aquele adolescente magro e sem graça que um dia fui não desvendei até hoje. Será que ainda dava pra mudar de idéia no dia seguinte?

13 COMENTE AQUI!:

Andrey Araújo disse...

Hoje tá mais fácil de mudar de idéia,o problema é tu querer! kkkkkkkkkkk

Amanda disse...

Que história maneira! Foi verdade né?

Muito muito bom, cunhado, gostei de verdade! parabéns!

amandita.

Anônimo disse...

Parabéns, meu noivo. História muuito legal. Aconteceu contigo? Eu acho que sim! Parabéns cara. Manu

macro-cefalo disse...

Tu eras retardado ou o quê, CARÁLEO??

(mas comigo aconteceria provavelmente o mesmo... timidez era -, digo, é- foda)

auheauueoiioiuae!

fantástica narrativa

Anderson Araújo. disse...

A todos os comentaristas.

Este espaço não está reservado a denúncia, fofoca ou a merda que vocês acham que podem comentar aqui.

Vão encher o saco em outro lugar.

Ass.: A DIRETORIA.

Marco Santos disse...

Tu é doido é Carai, mas não foi assim em Muaná né com a miss do festival do camarão kkkkk sabes quém sou né?!

Adriano disse...

Essa crônica da juventude transviada belenense é um pedaço de nós moleques magrelos espinhentos da década de 90, hoje barrigudos ainda feios. Muito da hora! Tu sabe que sô teu fã!

Anderson Araújo. disse...

Égua, Adriano, pode crer. Eu fico olhando essa molecada de hoje. Parece que eles já nasceram prontos, né. Todos cheio de marra.

Ser adolescente nessa época era um sacrifício. Nem tenho saudade. hahahaaha

Marcos Santos, não espalhe esses virais por ai. haahahhaha



Andrey, Amandinha e Manu, minha noiva, aprendam com o tio Anderson que a vida era dura quando vocês eram apenas gametas.

Macro... porra, cara, minha timidez era foda. Me curei na vida adulta sendo um filho da puta sem vergonha.

Abraços a todos vocês que fazer deste blog um blog mais legal com comentários pra lá de legais (tudo falsidade).

Snake disse...

Ei, ele é doentinho é? Hahaha..só pude pensar nisso Dedé..me desculpe! Só de lembrar choro de rir...

fllaviasantanna disse...

Olhaaa ele...meu pançudo!!
Tenho até medo de imaginar essa história nos tempos atuais...peitões dançando na sua frente e vc piscando pronto para dizer Não. Anderson Araujo já está treinado para pegar.kk

julicruz disse...

Legal,bela narrativa.Acho que conheço vc.

Wilson Frazão disse...

kkk Muito legal essa história, conheci o blog a pouco, mas já virei leitor.

Anônimo disse...

CARA PASSEI POR SITUAÇÃO SEMELHANTE EM 1999 ERA A GAROTA DOS MEUS SONHOS LOIRA OLHOS AZÚIS BRANQUINHA LEITE NINHO BUMBUM IMPINADINHO PEITÃO DURINHO E REDONDINHO ARREBITADINHO ERA UMA PRINCEZA! ERA MINHA AMIGA A PRINCÍPIO MAS AS INTIMIDADES FORAM AUMENTANDO LEVEI ELA NO CINEMA TOMAMOS SORVETE JUNTOS SAIAMOS COM OS AMIGOS ANDÁVAMOS DE MÃOS DADAS ELA ERA MEIGA E DOÇE UM DIA BRINCÁVAMOS DE VERDADE E DESAFIO ERA DIA DOS NAMORADOS 12/06 ATÉ DEI UM PRESENTE A ELA MAIS NEM LEMBREI QUE ERA DIA DOS NAMORADOS, ENTÃO VERDADE E DESAFIO EU ERA O SORTEADO E ENTÃO NÃO QUIZ PAGAR A GAFE E ME PROPORAM UM CASTIGO E QUE CASTIGO, BEIJÁ-LA MEU CARO.
EU ME APROXIMEI E A BEIJEI SÓ QUE NO ROSTO. PUTA QUE PARIU TIMIDEZ É MUITO FODA!!!! DEPOIS ELA PENSOU QUE EU QUERIA SÓ AMIZADE E COMO FIQUEI SABENDO DEPOIS QUE ELA ERA AFIM DE MIM ELA DEVE TER PENSADO QUE EU NÃO QUERIA NADA. SÓ QUE EU À AMAVA MEU SONHO ERA CASARME COM ELA UM DIA.
QUE VACILO HEIN NERDS ATÉ HOJE SOFRO POIS A MINA ERA PERFEITA.
HOJE EM DIA VIREI SAFADO DE CARTEIRINHA JÁ FIZ SURUBA COM 3.
E PENSAR QUE FUI AQUELE FRANGO UM DIA É FODA!!!!!

MAX.