Demorou, mas aconteceu. O melhor seria não acontecer, claro. Porém era meio que esperado acontecer. Tudo sob o nosso empinado, cheio de si, alienado e imponente nariz belenense: o prédio caiu. Mais de 30 andares e caiu. Ora, veja. Enquanto escrevo, sei que uma mulher morreu e dois operários estão desaparecidos embaixo de 40 mil toneladas de entulho. Muito entulho e omissões.
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| Rua Três de Maio: área do desabamento do edifício Real Class. |
Em 1998, ouvi de um conhecedor de Belém da década 60 um desabafo terrível: “eles acabaram com a São Jerônimo (atual Av. Governador José Malcher). Destruíram todos os casarões e construíram esses prédios horríveis. Não sobrou quase nada”. Naquela época, há 13 anos, a febre do concreto já vinha se alastrando faz tempo, fazendo vítimas - não fatais ao que se saber – a torto e à direita.
A especulação, a falta de planejamento, a frouxidão na fiscalização e a conivência de cidadãos ou pouco informados ou boçais o suficiente para ignorar as mudanças foram desenhando uma Belém aérea, de muitos andares, e muito mais feia do que a velha capital térrea de antigamente. Sim, horrenda, embora os arquitetos modernos tenham tentado enfeitá-la com vidro, aço, tendências, texturas e cores tentando imitar o que se tem como bonito do outro lado do mundo.
Não apenas nos bairros coroados a febre do concreto vem se alastrando. Em todas as paragens da pequena, da média e da grande Belém, ela está lá ardendo para todo mundo ver. Olho daqui minha Pedreira (ainda debaixo) e vejo como as coisas mudaram em poucos anos: prédios por todos os lados e a gente mais pobre vendendo suas choupanas e indo morar em lugares que hoje são a Pedreira de ontem. Na ditadura do cimento, são exilados para bem longe os miseráveis e os que não podem pagar 200 mil, 300 mil, 500 mil.
| Belém na década de 70: ainda poucos prédios. (Foto postada originalmente em http://haroldobaleixe.blogspot.com/) |
Nunca entendi como pode prosperar tanto o mercado imobiliário numa cidade em que mais de dois terços da população ganham ente um e um e meio salário mínimo. Quem compra essas unidades vendidas a peso de ouro? Onde eles estão? É claro que tem o financiamento, as “facilidades”, o “a perder de vista”, no entanto ainda é uma discrepância grotesca o volume de oferta dos imóveis e a quantidade de compradores com essa classe média incipiente e reduzida que temos. É uma nítida inversão de uma lei das mais antigas: a da oferta e da procura. Sim, porque eu duvido que você aí tenha essa grana toda ou mesmo crédito para adquirir uma dessas “pechinchas”.
A febre não vai parar tão cedo, dizem os especialistas, deu na novela, prevêem os orixás. E os motivos estão em ingredientes de uma receita desastrosa muito simples: Um poder público relapso, desinteressado e, muitas vezes, conivente não vai perceber que esta elevada temperatura indica uma infecção que precisa ser tratada; órgãos de fiscalização contaminados até o pescoço por um corporativismo doentio e uma de proteção de classe que beira a insanidade; a imprensa que pesa mais o interesse comercial do que informação direta e necessária para os cidadãos que dela usufruem e precisam; uma justiça lenta e favorecedora para quem detém a bufunfa.
E o cidadão? Sim, meu caro, o cidadão é você. Não olhe para o lado fingindo que não tem nada a ver com o peixe. Na minha humildade, mas muito sincera opinião, o cidadão permanece onde está: sentado, lamentando muito, chorando muito. Contudo, mais tarde, vai ler um lindo, colorido e reluzente anúncio da mais nova torre de 50 andares de Belém. Na ponta do lápis, ele fará suas contas, coçará a cabeça, apertará aqui e ali, e dirá que dá para comprar. Claro que sempre pensando na “qualidade de vida” da sua família, como se fosse possível ter uma ilha de qualidade de vida em meio a um oceano de descalabro.
Belém, como sempre, carece. Queria dizer que não, mas nossa cidade é uma carente contumaz. Temos tanto e precisamos de muito. Principalmente – para não dizer apenas – de civilidade, inteligência e de indignação. Não a do choro convulso sobre o leite derramado da tragédia, mas a indignação que ainda pode transformar; a que não entende como natural um apartamento minúsculo custar meio milhão; muito menos um de 30 andares matar quem mora ao lado; a indignação de quem quer conforto, porém não esquece que a ganância dos especuladores está inviabilizando que uma parcela imensa da população tenha uma moradia digna, mesmo sendo a mais humilde imaginada.
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| Belém de hoje: paisagem tomada por prédios. (Foto postada originalmente em http://prvitorhugo.wordpress.com/) |
Os sinais de que Belém não se sustenta neste atual modelo estão cada vez mais claros. Não é possível a queda de um prédio projetado para 35 andares não seja um indicativo evidente. É um bom momento para começar a construir uma nova consciência do que é uma boa cidade, mesmo que tenhamos que partir de ruínas que há muito julgamos não ter mais que presenciar desde o episódio “Raimundo Farias”.
Desculpem o tom, mas não consegui tratar esse assunto com a leveza que esse blog tem tratado outros temas.
Aguardo a opinião de vocês nos comentários.


12 COMENTE AQUI!:
Minha cidade querida está irreconhecível. O que te fizeram?
Concordo com quase tudo exceto com a análise de que não há demanda para esses imóveis. Ninguém constrói apartamentos de 500 mil reais pra ficar à venda eternamente.
"Quem compra essas unidades vendidas a peso de ouro??"
Essa é uma pergunta que não interessa a ninguém responder. Ninguém que saiba bem a resposta.
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Mas, se gritar "pega ladrão!", não fica um mermão...
Infelizmente, a especulação imobiliária não fica só no campo dos corretores e construtoras. Reflete também no proprietário comum que faz venda direta com o comprador.
Os USADOS chegam a valer 'mais' q um novo, na planta em Belém. Estou pesquisando a meses imóvel em RMB e está impossivel. As propostas são absurdas entre 400 a 600 mil! os caras enlouqueceram.
Existe também um esquema fortissimo na própria caixa econõmica, no financiamento. Os espertos ficam com as 'entradas' e aumentam o valor do imóvel nas parcelas. Nós sabemos, tem esquema para tudo, que só prejudica o mercado de imóveis por aqui. Sem contar as lavagens de dinheiro, o tráfico de drogas e influência.
O que temos que fazer então? renunciar as propostas? as espertezas, persistir.. vai que aparece algo bom. Enquanto isso, vou juntando meu dinheiro, gastando e ainda morando na casa da mãe...rs.
Vé.
Adorei o texto, Anderson! Tá na hora de rediscutir o modelo de "desenvolvimento" que Belém adotou à revelia de quem não tem sequer espaço pra opinar.
Essa tragédia impõe uma profunda e irreversível revisão de conceitos e valores no mercado imobiliário de Belém. Impõe limites na irracional e desmedida disputa entre as construtoras, pra saber quem faz o prédio mais alto – seria uma forma de compensar a frustração por ter “aquilo” menor do que gostariam?
Aliás, uma pergunta oportuna: depois disso, SERÁ que o mercado vai continuar aceitando esses prédios altíssimos, fininhos iguais palitos de dente, construídos sobre o frágil solo de gapós de Belém??? SERÁ???
Eu não me arriscaria! Minha vida vale mais...
O poder aquisitivo do belenense mostra claramente que não se justifica a proliferação de lançamentos de altíssimo luxo! Tem coisa errada aí...
Enfim, é hora das “autoridades competentes” mostrarem que são competentes mesmo! O certo, agora, é o CREA iniciar uma vistoria altamente rigorosa em TODAS as obras em curso na RMB. E logo! A coisa é séria demais.
A verdade é que não há limites em Belém como em várias grandes cidades do país. Mas aqui além de enfeiar, os prédios caem sobre nossas cabeças.
Tudo para que a classe média, morando empoleirada, se sinta em Noviorque, não importa na beira de que vala. E também para lavar uns trocadinhos ilegais, que ninguém trafica drogas, empresta dinheiro a juros e derruba floresta ilegalmente sem ter depois uns tantos apartamentos de meio milhão de reais.
Que os valores praticados em Belém no setor imobiliário são um absurdo, disso não tenho a menor duvida.
Moro em um prédio no centro da cidade e dou minha opinião: morava na Marambaia em uma casa, mudei-me da periferia para o centro e passei a morar em um prédio. O porque? Posso colocar como uma das questões principais a segurança. Que Belém não enfrente a mesma onda de invasões de condomínios que vemos no sudeste.
Fora isso, existem cidades na Europa, que se Belém mantivesse a idéia de imitá-la, poderia deixar a cidade mais elegante, como Paris, onde no centro da cidade, não podem ser construídos prédios acima de 6 andares e todos devem manter o mesmo padrão estético deixando a cidade moderna, mas elegante. Cadê a Belle Epoque???
Você falou tudo o que penso a respeito do assunto. Parabéns pela exposição e espero que haja repercursão na mídia e na população pra mudar esse estado de coisas. Infelizmente a imbecilidade campeia nesta nossa querida Belém, quem sabe um dia a razão volte sem necessitar que aconteça tantas mortes...
Interessante que eu já vinha comentando sobres tais questões com meus companheiros. O mercado imobiliário de Belém já está entre um dos maiores do Brasil. Realmente também não entendo, pois a população Belenense ainda não é tão grande comparada à outros centros do Brasil. Isso me indigna muito. Quando falo do poder do capitalismo, não falo com bandeirola esquerdista, mas é por aí mesmo. Ganãncia e dinheiro a qualquer custo. Foda. Fiquei revoltada com o ocorrido. Espero que as empresas imobiliárias revejam isso em Belém. Gostei da postagem, bUnito. Beijoca.
Anna Linhares
e assim a Belém 400 anos se (des)constróem.
Teu blog é legal pra car*****. Uma pena vc não atualizá-lo com frequencia.
Abraços!!!
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