terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Belém, construções e ruínas

Demorou, mas aconteceu. O melhor seria não acontecer, claro. Porém era meio que esperado acontecer. Tudo sob o nosso empinado, cheio de si, alienado e imponente nariz belenense: o prédio caiu. Mais de 30 andares e caiu. Ora, veja. Enquanto escrevo, sei que uma mulher morreu e dois operários estão desaparecidos embaixo de 40 mil toneladas de entulho. Muito entulho e omissões.
Rua Três de Maio: área do desabamento do edifício Real Class.
Em 1998, ouvi de um conhecedor de Belém da década 60 um desabafo terrível: “eles acabaram com a São Jerônimo (atual Av. Governador José Malcher). Destruíram todos os casarões e construíram esses prédios horríveis. Não sobrou quase nada”. Naquela época, há 13 anos, a febre do concreto já vinha se alastrando faz tempo, fazendo vítimas - não fatais ao que se saber – a torto e à direita.

A especulação, a falta de planejamento, a frouxidão na fiscalização e a conivência de cidadãos ou pouco informados ou boçais o suficiente para ignorar as mudanças foram desenhando uma Belém aérea, de muitos andares, e muito mais feia do que a velha capital térrea de antigamente. Sim, horrenda, embora os arquitetos modernos tenham tentado enfeitá-la com vidro, aço, tendências, texturas e cores tentando imitar o que se tem como bonito do outro lado do mundo.

Não apenas nos bairros coroados a febre do concreto vem se alastrando. Em todas as paragens da pequena, da média e da grande Belém, ela está lá ardendo para todo mundo ver. Olho daqui minha Pedreira (ainda debaixo) e vejo como as coisas mudaram em poucos anos: prédios por todos os lados e a gente mais pobre vendendo suas choupanas e indo morar em lugares que hoje são a Pedreira de ontem. Na ditadura do cimento, são exilados para bem longe os miseráveis e os que não podem pagar 200 mil, 300 mil, 500 mil.
Belém na década de 70: ainda poucos prédios. (Foto postada originalmente em http://haroldobaleixe.blogspot.com/)
Nunca entendi como pode prosperar tanto o mercado imobiliário numa cidade em que mais de dois terços da população ganham ente um e um e meio salário mínimo. Quem compra essas unidades vendidas a peso de ouro? Onde eles estão? É claro que tem o financiamento, as “facilidades”, o “a perder de vista”, no entanto ainda é uma discrepância grotesca o volume de oferta dos imóveis e a quantidade de compradores com essa classe média incipiente e reduzida que temos. É uma nítida inversão de uma lei das mais antigas: a da oferta e da procura. Sim, porque eu duvido que você aí tenha essa grana toda ou mesmo crédito para adquirir uma dessas “pechinchas”.

A febre não vai parar tão cedo, dizem os especialistas, deu na novela, prevêem os orixás. E os motivos estão em ingredientes de uma receita desastrosa muito simples: Um poder público relapso, desinteressado e, muitas vezes, conivente não vai perceber que esta elevada temperatura indica uma infecção que precisa ser tratada; órgãos de fiscalização contaminados até o pescoço por um corporativismo doentio e uma de proteção de classe que beira a insanidade; a imprensa que pesa mais o interesse comercial do que informação direta e necessária para os cidadãos que dela usufruem e precisam; uma justiça lenta e favorecedora para quem detém a bufunfa.

E o cidadão? Sim, meu caro, o cidadão é você. Não olhe para o lado fingindo que não tem nada a ver com o peixe. Na minha humildade, mas muito sincera opinião, o cidadão permanece onde está: sentado, lamentando muito, chorando muito. Contudo, mais tarde, vai ler um lindo, colorido e reluzente anúncio da mais nova torre de 50 andares de Belém. Na ponta do lápis, ele fará suas contas, coçará a cabeça, apertará aqui e ali, e dirá que dá para comprar. Claro que sempre pensando na “qualidade de vida” da sua família, como se fosse possível ter uma ilha de qualidade de vida em meio a um oceano de descalabro.

Belém, como sempre, carece. Queria dizer que não, mas nossa cidade é uma carente contumaz. Temos tanto e precisamos de muito. Principalmente – para não dizer apenas – de civilidade, inteligência e de indignação. Não a do choro convulso sobre o leite derramado da tragédia, mas a indignação que ainda pode transformar; a que não entende como natural um apartamento minúsculo custar meio milhão; muito menos um de 30 andares matar quem mora ao lado; a indignação de quem quer conforto, porém não esquece que a ganância dos especuladores está inviabilizando que uma parcela imensa da população tenha uma moradia digna, mesmo sendo a mais humilde imaginada.
Belém de hoje: paisagem tomada por prédios. (Foto postada originalmente em http://prvitorhugo.wordpress.com/)
Os sinais de que Belém não se sustenta neste atual modelo estão cada vez mais claros. Não é possível a queda de um prédio projetado para 35 andares não seja um indicativo evidente. É um bom momento para começar a construir uma nova consciência do que é uma boa cidade, mesmo que tenhamos que partir de ruínas que há muito julgamos não ter mais que presenciar desde o episódio “Raimundo Farias”.

Desculpem o tom, mas não consegui tratar esse assunto com a leveza que esse blog tem tratado outros temas.

Aguardo a opinião de vocês nos comentários.

12 COMENTE AQUI!:

zacamartins disse...

Minha cidade querida está irreconhecível. O que te fizeram?

Emerson disse...

Concordo com quase tudo exceto com a análise de que não há demanda para esses imóveis. Ninguém constrói apartamentos de 500 mil reais pra ficar à venda eternamente.

Ettiene disse...

"Quem compra essas unidades vendidas a peso de ouro??"
Essa é uma pergunta que não interessa a ninguém responder. Ninguém que saiba bem a resposta.
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Mas, se gritar "pega ladrão!", não fica um mermão...

Anônimo disse...

Infelizmente, a especulação imobiliária não fica só no campo dos corretores e construtoras. Reflete também no proprietário comum que faz venda direta com o comprador.

Os USADOS chegam a valer 'mais' q um novo, na planta em Belém. Estou pesquisando a meses imóvel em RMB e está impossivel. As propostas são absurdas entre 400 a 600 mil! os caras enlouqueceram.

Existe também um esquema fortissimo na própria caixa econõmica, no financiamento. Os espertos ficam com as 'entradas' e aumentam o valor do imóvel nas parcelas. Nós sabemos, tem esquema para tudo, que só prejudica o mercado de imóveis por aqui. Sem contar as lavagens de dinheiro, o tráfico de drogas e influência.

O que temos que fazer então? renunciar as propostas? as espertezas, persistir.. vai que aparece algo bom. Enquanto isso, vou juntando meu dinheiro, gastando e ainda morando na casa da mãe...rs.

Vé.

Tatianajor disse...

Adorei o texto, Anderson! Tá na hora de rediscutir o modelo de "desenvolvimento" que Belém adotou à revelia de quem não tem sequer espaço pra opinar.

Anônimo disse...

Essa tragédia impõe uma profunda e irreversível revisão de conceitos e valores no mercado imobiliário de Belém. Impõe limites na irracional e desmedida disputa entre as construtoras, pra saber quem faz o prédio mais alto – seria uma forma de compensar a frustração por ter “aquilo” menor do que gostariam?

Aliás, uma pergunta oportuna: depois disso, SERÁ que o mercado vai continuar aceitando esses prédios altíssimos, fininhos iguais palitos de dente, construídos sobre o frágil solo de gapós de Belém??? SERÁ???

Eu não me arriscaria! Minha vida vale mais...

O poder aquisitivo do belenense mostra claramente que não se justifica a proliferação de lançamentos de altíssimo luxo! Tem coisa errada aí...

Enfim, é hora das “autoridades competentes” mostrarem que são competentes mesmo! O certo, agora, é o CREA iniciar uma vistoria altamente rigorosa em TODAS as obras em curso na RMB. E logo! A coisa é séria demais.

Anônimo disse...

A verdade é que não há limites em Belém como em várias grandes cidades do país. Mas aqui além de enfeiar, os prédios caem sobre nossas cabeças.
Tudo para que a classe média, morando empoleirada, se sinta em Noviorque, não importa na beira de que vala. E também para lavar uns trocadinhos ilegais, que ninguém trafica drogas, empresta dinheiro a juros e derruba floresta ilegalmente sem ter depois uns tantos apartamentos de meio milhão de reais.

Maick William O. Costa disse...

Que os valores praticados em Belém no setor imobiliário são um absurdo, disso não tenho a menor duvida.

Moro em um prédio no centro da cidade e dou minha opinião: morava na Marambaia em uma casa, mudei-me da periferia para o centro e passei a morar em um prédio. O porque? Posso colocar como uma das questões principais a segurança. Que Belém não enfrente a mesma onda de invasões de condomínios que vemos no sudeste.

Fora isso, existem cidades na Europa, que se Belém mantivesse a idéia de imitá-la, poderia deixar a cidade mais elegante, como Paris, onde no centro da cidade, não podem ser construídos prédios acima de 6 andares e todos devem manter o mesmo padrão estético deixando a cidade moderna, mas elegante. Cadê a Belle Epoque???

Carlos Sacramenta disse...

Você falou tudo o que penso a respeito do assunto. Parabéns pela exposição e espero que haja repercursão na mídia e na população pra mudar esse estado de coisas. Infelizmente a imbecilidade campeia nesta nossa querida Belém, quem sabe um dia a razão volte sem necessitar que aconteça tantas mortes...

Anna Linhares disse...

Interessante que eu já vinha comentando sobres tais questões com meus companheiros. O mercado imobiliário de Belém já está entre um dos maiores do Brasil. Realmente também não entendo, pois a população Belenense ainda não é tão grande comparada à outros centros do Brasil. Isso me indigna muito. Quando falo do poder do capitalismo, não falo com bandeirola esquerdista, mas é por aí mesmo. Ganãncia e dinheiro a qualquer custo. Foda. Fiquei revoltada com o ocorrido. Espero que as empresas imobiliárias revejam isso em Belém. Gostei da postagem, bUnito. Beijoca.
Anna Linhares

Denilson D'Almeida disse...

e assim a Belém 400 anos se (des)constróem.

Anônimo disse...

Teu blog é legal pra car*****. Uma pena vc não atualizá-lo com frequencia.

Abraços!!!