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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A irmã

Começar o dia com um presunto, não é para qualquer um. Exige certo desprendimento emocional, uma dose de sangue frio e um bom estômago. Todo esse equipamento estava contido na minha carcaça detonada por mais de 30 anos de descuidos e pouca fé. Mas, aquele não era apenas mais um dia de contar corpos na rua e relatar nas folhas impressas.

Foi impressionante. Ainda tentava visualizar o carro batendo no meio fio, atingindo a árvore, girando três vezes no ar, passando por cima da cabeça de um ciclista - sem atingi-lo – e pousando desengonçadamente no chão para cuspir o pobre marceneiro pelo espaço do vidro de trás. A imagem do cadáver embrulhado em papel branco feito um enorme pão ensopado de sangue ainda estava na minha cabeça enquanto saíamos daquela pauta e rumávamos para fazer o desjejum na casa da mãe do fotógrafo e colega de trabalho.

Seria um café da manhã diferente da tradicional parada nas barracas de tapioquinha, freqüentadas nos plantões dominicais e cruéis de sete da manhã. Longe da cena de horror, nos esperava um lauto resto de aniversário infantil, da festinha em homenagem a uma pequena índia, vinda do Oiapoque, adotada pela família do amigo retratista.

Chegamos e fomos muito bem recebidos pela mãe dele. Muito simpática, a cinquentona ofereceu aquele delicioso menu que remetia a memórias antigas de uma infância já distante, quase esquecida, sobretudo, naquele improvável horário. Não era lá muito saudável se empanturrar nos primeiros minutos das oito horas da manhã, mas minha boa e velha mania de não recusar comida e meu apetite de cachorro vadio não desperdiçaram a oportunidade.

Foi entre uma colherada e outra que ela surgiu como uma aparição. Como se o instinto me ordenasse, da cadeira em que estava, olhei para direita evitando encará-la, como sempre fazem os que já foram tímidos. Não deu para disfarçar o estremecimento de enxergar aquela brancura tão bonita passeando dentro de casa tão à vontade, de shorts e camiseta de dormir, sem maquiagem, cabelos de despertar. E não pude deixar de pensar em como mulheres como ela se esmeram para ficarem mais bonitas ainda, perdendo horas na fantástica e delicada arte embelezar o que por si só se fez bonito numa conjunção de coincidências biológicas e ambientais impressionantes. Era a irmã.

Fixei o olhar no centro de gravidade daquela graça perfeita em movimento e os segundos foram poucos para captar tudo que eu queria. Naquela cozinha, onde estive perdido por instantes sentado à mesa, condenado pela geladeira e o fogão, ambos enciumados pelo meu abuso. Na curta passagem dela, prendi os olhos nas coxas, volumosas coxas, de bailado em slow motion e textura delicada. Ela percebeu o estranho em casa e enfim cruzamos os olhos. Sorri. Ela esboçou algo parecido com um sorriso e se foi, sumindo no outro no cômodo da sala.

Terminei a refeição mais rápido que pude com o coração aos solavancos. Convidei meu parceiro para ir embora, me despedi de todos. E já de saída, ela surgiu de novo com a indizinha aniversariante no colo, com a silhueta recortada pela moldura da porta e o sol beirando nove horas. Olhei e sorri. Toquei seu cotovelo direito, sem nenhum jeito, mas levemente, e disse adeus pronunciando o nome da moça, já sabido há tempos, num grunhido de homem das cavernas. A criança se encolheu, talvez por medo, talvez por hábito. Minha paixão instantânea virou as costas e sumiu dentro da casa. Ainda olhei para trás para ver sua natureza linda de fêmea, mas era tarde. A irmã do fotógrafo permaneceu estacionada na minha memória por todo aquele domingo iniciado com tragédia e salvo por ela, uma desconhecida.