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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Manual de sobrevivência para 'focas' no Círio

Estava tentando escrever outro texto para o BG, mas a falta de tempo e compromissos sexuais profissionais me tiraram de rota. Portanto, vamos a outra listinha (in)útil, como tantas outras que apareceram aqui. Para não dizerem que apenas cuspo as minhas frustrações e escarneço de Deus e o mundo neste espaço, vou ser bonzinho e liberar (uie!) dicas importantes para você estudante de Jornalismo ou repórter novato.

Pra quem não é jornalista, vale prestar atenção também. Primeiro para perceber como o "foca", este ser bobo e tapado, carece de orientação; e para reter estas parcas informações e tirar proveito delas um dia. Afinal, depois da desobrigação do diploma para exercer a profissão, reportagem é como guerra: nunca se sabe quando será convocado para uma. Já os veteranos, vão torcer a boca e dizer que só escrevo merdas. Pra eles, uma morte dolorosa e vexativa (ou seria vexatória? Tanto faz).

Pensando em todas as minhas agruras em sete coberturas cirianas, elaborei seis tópicos para você, pobre coitado, que vai acordar antes de cinco da manhã para acompanhar profissionalmente a procissão mesmo sendo macumbeiro, xintoísta, budista ou ateu. Quem mandou achar que Jornalismo é glamour. Dona Nazaré vai te mostrar de uma vez por todas, seu besta empolgado, que esta porcaria se faz com suor, calos, sangue, sofrimento, paciência e muita lamentação. Fica atento, porque o que vou dizer pode salvar a sua vida.
Pertences
Você, garotinho juvenil, estudante das faculdades particulares e morador de condomínio fechado, te digo: o mundo não é bão, Sebastião. Isso é liga torta do Nando Reis. Portanto, se você acha que todos que vão ao Círio, vão lá para rezar, engana-se. Frenquentam a romaria todo tipo de gente, incluindo lanceiros, assaltantes, assassinos e estupradores. E não vão lá para adorar a Virgem, com exceção dos estupradores. Os gatunos estão infiltrados e doidos para um descuido seu. Então, mané, leve apenas um documento, o crachá de imprensa devidamente plastificado, o troco para a água e um lanchinho rápido. Se for levar o celular, entoque-o. Guarde tudo no bolso mais seguro que tiver. NO bolsa, NO relógio, NO MP3, NO Micro-ondas para esquentar a merenda feita pela mamãe antes de sair de casa. Nada disso. Deixa tudo em sua residência e ganhe pontos com os veteranos voltando da sua primeira batalha sem prejuízos.
Deslocamento
Nego, são mais de dois milhões de pessoas no Círio. Em muitos momentos o sufoco vai ser tanto que você não vai saber se aquele incômodo na região nadegal vem do negão que estava chorando emocionado com a Santa ou a velha que lhe inquire insistentemente com o olhar "o que este filho da puta faz com um papel e uma caneta na mão?". Munido desta informação, não desafie as leis da física: dois corpos não ocupam o mesmo lugar. Não lute contra o mar de gente, você pode se foder bonito. Saia bem orientado sobre sua área de cobertura e quando for despejado pelo motorista, puto e de ressaca por causa da festa da Chiquita, tente encontrar espaços para se movimentar. É díficil, mas use o senso de observação. Uma dica importante: para se movimentar com rapidez prefira as ruas paralelas ao invés das vias principais do trajeto. Por elas, o fluxo de devotos é menor. Dá pra correr de uma ponta a outra e emergir nas transversais quando for necessário entrevistar algum personagem ou checar alguma cagada.
Fontes
São 4,5 quilômetros de procissão e aquela multidão de gente. Então, meu filho, se sua missão é entrevistar fulano de tal não vá ficar longe dele. Se fizer isso, vai ser complicado vencer os trocentos promesseiros que foram lá só pra atrapalhar o trabalho da imprensa. Dê um jeito de se aproximar de quem vai ser entrevistado ou dos locais em que essas pessoas estarão posicionadas. Algumas figuras são clássicas, como diretor da festa, o padre que puxa a procissão, o coordenador da Cruz Vermelha, o comandante da operação de segurança, os líderes de outras religiões que também acompanham o Círio e por aí vai. Fique atento nas figuras e cole neles pra não se perder por aí. Agora tem os que vão entrevistar os promesseiros que estão espalhados em todo os cantos. Neste caso é mais fácil. Levanta as mãos pro céu, garoto, sua tarefa é moleza. Basta olhar pro lado.
Corda
Este é um capítulo à parte. Você é a reencarnação do soldado que espetou a lança no filho do Senhor ou ainda de Nero que tocou fogo em tudo, comeu a mãe e gostava de rechear suas coxinhas com tripas de menino gordo. Por isso, está pagando seus pecados e ficou responsável para acompanhar "A corda". Quem não é paraense não sabe muito bem do que se trata. Explico: é uma maneira que os devotos de Nossa Senhora de Nazaré encontraram para sofre e agradecer suas graças. Não bastava passar aquele calor todo na procissão. Tinha ainda que ter o esforço sobreumano de puxar a berlinda e a possibilidade de morrer pisoteado depois de um desmaio. Pois sim, amiguinho, você vai cobrir jornalisticamente um dos símbolos do Círio. Então, prepare-se: a) vista-se confortavelmente: se der pra ir com roupas mais leves, vá. Ao final do trabalho, estará esgotado, amassado e molhado. Quanto mais pesado o tecido do seu traje, pior será sua volta para a redação. b) Atenção nos pontos críticos: todas as curvas são complicadas. Pessoas se machucam, há possiblidade de rompimento, outros tchananans e até morte. Não vá perder a notícia. c) Seja cara de pau: é complicado entrevistar alguém morto de cansaço, mas não se importe. Dê um jeito de encostar no desgraçado e faça as perguntas. Se ele se chatear, procure outro. Tem milhares. Um vai falar. d) Preserve-se: seja ousado, mas não vai morrer esmagado. Leve a notícia pra redação, mas em hipótese alguma se ponha em alto risco ou vai querer ler do além na segunda: "Repórter morre ao tentar manobra arriscada na corda". e) Apretechos: leve uma caneta extra e um bloco que não vai se esfacelar na primeira água na cara que você levar.
Texto
A menos que te peçam, não viaje. Redações sobre o Círio tem aos montes. É uma manifestação amplamente divulgada, falada, televisionada, cantada em verso e prosa. Então, foquinha querido do meu coração, atenha-se ao que sua pauta manda. Nada de exaltações. apenas Informar com riqueza de detalhes e veracida sobre um episódio ou uma cena é muito mais forte do que tentar enfeitá-los com adjetivos e rococós. Vale para o pessoal da televisão ou do rádio. Nada pior do que tentar provocar emoção forçando uma barra. Seja claro e direto, como qualquer texto de jornalismo deve ser. De poetas, já estamos bem servidos. Basta olhar a imagem da Patrícia acima.
Organismo
Alimente-se bem e não encha a cara no dia anterior. Parece piada e sei que muitos não vão acatar este item. Bom, se é sua primeira vez, recomendo não entornar todas. Vá lá, uns golinhos não farão mal, mas se não tem controle sobre o primeiro copo, mantenha a distância. E coma, meu amigo, porque o sol é forte, o calor infernal e você não vai querer pagar o mico de ser conduzido em uma maca da Cruz Vermelha desacordado. Se ocorrer, isso será lembrado para o resto de sua desgraçada carreira nas redações.

19 comentários:

Nega disse...

Acho o círio, a transladação e toda aquela festança muito bonita, de arrupiar qualquer um. Porém, venhamos e convenhamos, acompanhar aquela loucura não é das coisas mais saudáveis e nem das idéias mais geniais. E antes que me perguntem, sou católica, mas não precisa ser de outra religião para reconhecer que o sol infernal, os promesseiros, os meliantes, os vendedores ambulantes, as musicas da procissão e a cara do padre, tudo tudo, só com muita promessa mesmo!

E que me perdoe a nazica,
bjs,

Nega Profana.

Filiblog disse...

Sinteticamente: Círio é a pauta mais chata do ano. E olha que toma quase metade de um ano inteiro.

A prévia eu tiro de letra. O ruim é estar no dia da procissao.

Fausto Suzuki disse...

De círio, o mais perto que cheguei foi quando o vi, do quarto andar do prédio de uma ex namorada que morava praticamante em frente ao CAN (preça que fica diante da Basílica, ponto final do círio). Maniçoba, coca-cola, beijos e tesão reprimido.
Depois, quando tudo acabou, fomos dar uma volta pra falar mal da sujeira que fica. Fomos (quase) assaltados. Digo o (quase), porque eu só tinha R$0,60 e o cara me devolveu. Foi o Espírito Santo, eu acho, baixando no caboco.
Passei a ter uma relação contrária ao amor quanto ao círio: eu não queria que a tal ex namorada soubesse que eu tava tão fodido de grana.
Andy, seu tosco. Me colocaste mais perto dele, e mais longe. Isto é: lendo essa tua recomendação, eu já se que o melhor é ficar longe. Bem longe.
Depois dá pra comprar um pedaço da corda.

irmamorfina disse...

eu tenho um amigo, macaco velho, que no círio volta com um bloquinho em branco. fica tudo na memória e por conta da imaginação.
esse sim já se desencantou com o jornalismo há muiiitoooo tempo, haha!
tô começando e ainda tenho esperança no jornalismo (vejo um certo glamour nele, acredite), por isso, seguirei tuas dicas =)

wildchild disse...

não bastassem todos os infortúnios pelos quais passam os mancebos jornalistas que anseiam em encontrar glamour no fogo e suor q é o círio, o deste ano será considerado o "círio da gripe suína"!!
Ehh, laiá!!
Sugiro uma manchete pra edição do domingo do círio: 2 milhões de pessoas enganaaadas!!
A pretensão religiosa do círio acabou qdo viram que isso dá grana. Os patrocinadores (cervejarias, bancos, lojas e jornais) que o digam! E os padres rosados, rechonchudos e milionários da basílica também.

Carla disse...

Posso parecer o que for na cabeça de qualquer cético, mas o sol, o calor, a sujeira e outras coisas mais que você encontra no Círio; tudo isso é muito pouco para quem "paga" por uma graça que conseguiu alcançar. Eu, como acredito muito e presenciei a cura do meu avô de um câncer,não me abalo com essas pequenas coisas que duram apenas poucas horas.
Criticar e criar obstáculos é característica do ser humano, mas ultrapassá-los não é pra qualquer um.

pedrocfernandes disse...

Realmente, a galera deve estar bem atenta aos pertences. Meu tio já inventou de levar a câmera pro Círio, preciso nem contar o fim da história.

andersonjor disse...

Carla, você leu direito o post?

Melhor reler.

Pois é, Pedro. Tem gente que insiste em cometer esses erros mesmo. Ao repórter NÃO levar, porque você precisa estar a atento às outras coisas e vira alvo fácil. Mas, pra quem vai rezar e só participar pode, só que precisa redobrar os cuidados.


Juliana... glamour e jornalismo são palavras excludentes.


A todos, obrigado pelas visitas. E que o catolicismo desta cidade um dia transforme Belém em algo melhor. Por enquanto, é só promessa.


Abraços.

irna cavalcante disse...

Adorei o texto, mas faço ainda uma consideração: se o motorista ficou de passar na sua casa às 5h, que o foca não deixe para se arrumar quando for 4h55, porque isso faz com que toda equipe fique esperando junto. Afinal vai todo mundo no mesmo comboio. O mesmo se aplica ao local combinado de sair.

Ah Anderson, já ia esquecendo como temos poucos homens na redação atualmente, logo, para quem vai sobrar a corda??????

huahauaha

Claudia disse...

Uma dica de quem assiste/lê as matérias sobre o Círio: por favor NÃO PERGUNTEM AO CARA QUE ESTÁ CHEGANDO NO CAN, DE JOELHO, CARREGANDO UMA JAMANTA NA CABEÇA, SE ELE ESTÁ PAGANDO PROMESSA!! Obrigada!

Tereza Jardim disse...

acompanhei o auto e a trasladação ano passado. a trabalho. nunca mais... admiro a fé do momento, acho profundamente tocante, mas não é pra mim. acho que, se fosse católica, preferiria pagar promessa fazendo caridade do que acompanhando o círio...


ah, dicas maneiras, como sempre.

Antonio disse...

Fora o dia da procissão, temos outras pautas chatas no Círio como o preço do pato, a chega dos romeiros e uma deliciosa receita de tucupi (da Eliete).

E reforço a dica da Irna, que isso já aconteceu comigo!

Marina Chiari disse...

Faltou lembrar (principalmente pra quem vai trabalhar numa certa empresa que te obriga a usar uma camisa verde lhenda)de nunca acreditar no conto do "não recebe extra mas a empresa garante alimentação". o máximo que se ganha é pão com queijo.

Yáskara disse...

Já te disse, mas vu dizer de novo. A meia rosa da bonitona da imagem do blog tá um luxtotal, viu?
Agora, sobre o post...fico m imaginando seguindo a dica "a" do ítem "Corda". Minha escova marroquina ia pra pra Marte, minha unhas feitas com esmalte Dior cairiam, minha make Lancôme (com FPS 50, claro) ia escorrer pro pé e com toda certeza ia voltar pra redaçã chorando pq levariam meus brincos drag...

Texto escândalo, como sempre...

Carolina Menezes disse...

Concordo com o Filipe, Círio é a pauta mais chata do ano. Nem o peru e as cerpas compensam.

MEDO: como é a cobertura para quem trabalha em Polícia? =////

Carla disse...

Anderson
Eu sei que o post é sobre os jornalistas novatos. Eu apenas quis expor minha opinião sobre as dificuldades que muita gente coloca sem nunca ter acompanhado o Círio no sentido real dele. Se alguns vão trabalhar, azar o deles, pq deve ser realmente difícil trabalhar num momento como esse. E se vc prestar atenção, em nenhum momento critiquei teu post, pelo contrário. Se eu soubesse que era só opinião de jornalistas que você queria aqui...

andersonjor disse...

Ó, Carla.

"Pra quem não é jornalista, vale prestar atenção também. Primeiro para perceber como o "foca", este ser bobo e tapado, carece de orientação; e para reter estas parcas informações e tirar proveito delas um dia."


É isso, retorne sempre. Se eu escrever só pra jornalistas aqui, isso aqui vai ficar às moscas.


Volte sempre.

Agora entendi a tua liga.


Beijos.

Denilson D'Almeida disse...

hahahaha

muito boa! muito boa!

Gabriella Dias disse...

Vou na corda e nem é pra pagar promessa, é pra escrever sobre em um artigo ou tcc hahahhaha.
Estou ferrada ou muito ferrada?
Se servir de alguma base, já fui câmera no auto. Experiência maravilhosa de ter que subir na armação do palco pra pegar uma imagem boa! hahaha
Bom texto. Típico.
Beijo.