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terça-feira, 11 de agosto de 2009

Reportagens que não fiz

Não sei quando começou, mas me bloqueio para escrever textos fora do padrão jornalístico no jornal. É aquela história: lead quadradinho + informações complementares abaixo. Me tolho fundamentado em experiências mal sucedidas com editores, princialmente. Dificilmente, eles entendem o espírito da coisa e qualquer ousadia lingüística ou no famoso modelo da pirâmide invertida leva uma tesourada violenta. O que podia ser diferente, acaba virando um desastre. Há anos, alguém grita dentro da cabeça dos repórteres: você é jornalista, não escritor, seu desgraçado. Ok, ok, entendi, não precisa berrar desse jeito.

Domingo tive o desprazer de fazer mais um 'plantão de polícia' - no jargão jornalístico a busca por notícias de crimes e temas relacionados à segurança pública. Aquela modorra danada do fim de semana, as visitas às delegacias, a tradicional e humilhante entrega dos jornais 'de brinde' para os funcionários das seccionais, aquela cordialidade forçada e a tentativa, nem sempre exitosa, de aproximação com os policiais para conseguir alguma informação. Todo esse passo-a-passo desde que Gutenberg inventou o jornal me conduz a um tédio sem igual.


"Trouxeste o jornal aí? Tô a fim da parte da novela".

Nas coberturas, quase nunca enxergo a razão de noticiar certos casos que um repórter policial profissa saberia explorar muito bem. Na última, por exemplo, me deparei com dois presuntos. Afogados. Muita coincidência: dois caras mortos por afogamento, na mesma madrugada, retirados da água quase que na mesma hora, aparentemente de idades semelhantes, ambos de origem não paraense. Tive vontade de escrever qualquer coisa, menos sobre a mortes desses pobres coitados.

Afinal de contas, me respondam, que diferença, qual o interesse público, a quem interessa a morte de um zé nínguem? De dois caras que morreram sem nome? Um chamado só de Zé Buduia, ou Bolachão, e outro de Goiano, tendo este último a infelicidade de não ter confirmação nem do apelido. Só a existência de um caderno especializado em crimes e de um jornal com linha editorial voltada a essa temática justificam tais textos.

Antes que você aí acione as entidades de direitos humanos e diga que eu estou pouco me lixando para vida desses sujeitos, explico: não é desvalorização. Só creio que a morte de ambos não acrescenta em nada para o leitor, a não ser para aquelas duas duzias de pessoas que tiveram contato direto com eles em vida. Não estou menosprezando os dois homens.

Ao contrário, por mim, contaria toda a saga de Zé Buduia. Um camarada de uns 50 anos, sem eira nem beira, errante. Enquanto todo mundo nessa idade pensa que vai estar com a vida ganha, gordo com uma família estruturada, carrão na garagem, tempo pra viajar duas vezes por anos e uma amante gostosa, ele não teve essa oportunidade. Viveu por aí, de subemprego em subemprego, pulando literalmente de barco em barco até acabar de cara pra baixo na parte mais podre da baía de Guajará e servir de espetáculo tétrico para homens, mulheres, velhos e crianças.


Porque crianças têm curiosidade mórbida por corpos saindo da água.

Morreu sem nome, distante de qualquer parente, só e triste, embebido até o talo no álcool, afogado entre os barcos no porto Vasconcelos, da Cidade Velha. Por ironia, no último dia de vida, ganhou R$ 218 no bicho, enfim um pouco de felicidade. Porém, o presente de deus pode ter atraído a morte: suspeita-se de latrocínio. Dificilmente, vão descobrir o fim real do homem que tomou um barco no Oiapoque para perder a vida na lama da capital paraense. Afinal, quem se importa com a morte de um miserável, em um ponto miserável dessa cidade, rodeado de miseráveis. Mata um médico, um advogado, um jornalista pereba que seja, pra você ver o que acontece? Contaria essa história, mas não em 1.500 caracteres.

No outro porto, o da Feira do Açaí, na estrada nova, mais um anônimo e nenhuma vontade de escrever sobre aquele passamento desta para uma melhor. O corpo submerso, só os cabelos para fora, foi retirado d'água lá pelas 10h. Rígido feito plástico, sobre o tablado de madeira, matou a curiosidade de centenas de pessoas que foram ali olhar. E foram elas que me despertaram alguma vontade de escrever. Um inferno aquilo ali. Um passa-passa, uma gritaria, som alto tocando tecnobrega, homens tatuados, de barriga inchada e dentes quebrados, tomando cerveja, mulheres gordas de micro-short, carregadores de paneiros, um pandemônio. Muitos risos, comentários jocosos, galhofa, não parecia que tinha um morto ali perto. Era domingo.

Das poucas perguntas que eu tive vontade de fazer, nenhuma seria direcionada a PM ou o Corpo de Bombeiro, envolvidos na retirada do cadáver do rio. Faria para os moleques, que observavam tudo com atenção, num interesse macabro pela morte. Magros, encardidos, a roupa surrada, a cara suja e com cabelos de todas as cores, com todas as pinturas possíveis de uma farmácia. Perguntaria, especificamente para um deles, um menino de uns 11 anos no máximo, com as melenas de uma puta loira:

- Vem cá, moleque. Quem fez isso no teu cabelo? Tu achas que ficou bonito? Por que essa cor 'madona em início de carreira'? Tu mãe já te viu assim? Tu tens mãe? E pai, tu tens? Responde, filho da puta!

Definitivamente, não sou um bom repórter policial.


"Ah, então quer dizer que vou cobrir POLÍCIA no fim de semana, é?!"

14 comentários:

Carolina Menezes disse...

Por isso que eu só faço ronda usando decote. Facilita, acredita em mim.

Anônimo disse...

Poooo, Carol, acredito que o Anderson não ficará bem de decote. Não achas?

Dedé

Anônimo disse...

Porra Carol, estás depondo contra todo o MMFMT (Movimento de Mulheres feministas que buscam seu lugar no mercado de trabalho)...
Vais levar um advertencia

J.BOSCO disse...

Um bom repórter policial, quer tudo, menos polícia.

J.BOSCO disse...

Anderson,esse cara se matou porque pedriram pra ele cobrir futebol três horas da tarde, no baenão chuvoso...rsss
abs

J.BOSCO disse...

...ou então, deram a missão pra ele diagramar um caderno de debutantes com 42 páginas sem anúncios...rsss
O cara preferiu a morte!!!
abs

Anderson Araújo disse...

Carol, acho que os delegados não vão me curtir de decote. Tenho certeza. Dedé acertou.

Agora J. Bosco, é fato, que essas tarefas inglórias dão realmente uma vontade de morrer. Não sei se é só comigo. Ando meio fatalista ultimamente. rsrsrss

Anônimo disse...

Os cadernos de polícia nos jornalões continuam assustando os bons repórteres. O que não quer dizer que os jornalistas que cobrem polícia no dia-a-dia são ruins. Pelo contrário, acho que são verdadeiros heróis pra conseguir dar um foco jornalístico em matérias, que as vezes, só merecem um pequeno registro.
Mas, Anderson não esquenta: esssa angústia é tua e de todos os plantonistas de fim de semana.

Abraços

Aline Brelaz

Anderson Araújo disse...

É, Brelaz. C'est terrible. Ainda mais quando o gás já acabou faz tempo. Nem uma chacina da candelária te motiva desse jeito. :-P

casso disse...

Agora que eu reparei,o cara morre rindo...
abs

Anderson Araújo disse...

É a felicidade de fugir de um plantão de polícia. hahaha. brincadeirinha, Casso.

Essa imagem é do filme Ken Park, do diretor Larry Clark, o mesmo babaca que fez o filme Kids.

O filme é ruim demais. Mas, a cena impressiona. Clicando nela, dá pra ler uma resenha esculhambando a obra cinematográfica.

Anônimo disse...

Pois eu ia adorar ver os repórteres de polícia e os plantonistas de decote buscando informações na polícia.
Só de imaginar já me afogo em gargalhadas.

Anderson podia fazer uma experiência e relatar no blog, depois,

Ana Marcia

ceará disse...

e depois vc acha que o menino de marituba é feio!!!!!!

Nega disse...

hahahahaha o menino de marituba ainda ta rendendo aqui.

É incrível! Decotes funcionam em todas as manifestações sociais, diria até, nas religiosas. Exemplo? Quem nunca viu um decote quase discreto na transladação e pensou em se ariscar?

E ai de quem negar que vai pra transladação ver a nazica, vai nada, vai pra transladação porque no círio faz um calor da porra e todo mundo sabe que qualquer pessoa fica deselegante suada.


"é a vida, mais que a morte, a que não tem limites"