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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A Caixa

Vergonha. Eu sei o que é isso. Passei muitas vezes. Principalmente, por ser tímido – sim, um dia eu fiz esse tipo. Com as mulheres, então, nem se fala. Na adolescência, a era das trevas de minha vida, mais ainda. Lembro que era apaixonado por uma moça que parecia mais velha do que eu. Só parecia. As meninas sempre crescem, amadurecem e ficam gostosas na velocidade da luz. Enquanto aos 15 anos, quase todos os rapazes são uns arremedos, elas estão no esplendor da formosura. Com G. era assim: linda, os olhos de sono, a pele lustrosa, uma castanha perfeita, ancas largas de reprodutora, alta para uma paraense, cabelos emoldurando um sorriso de lagarta maliciosa.
Eu fazia uma cara, mais ou menos, assim quando ela aparecia.
Claro, claro, aos 16 anos – em toda idade, na verdade – homens nutrem essas paixões à distância. Daquelas que você cumprimenta e quando ela vai embora solta um suspiro disfarçado e, simultânea e instintivamente, olha pra bunda, agradecendo por Deus existir. Ela me provocava esse frisson. E eu era um loser total. Ficava na minha, só urubuservando aquela lindeza florescer a cada dia mais e mais.

Mas, o destino, este grande cretino, não queria o anonimato para mim. Não bastasse ficar com cara de besta quando a encontrava, a sorte me premiaria com um king-kong sem tamanho numa dessas situações que não há como fugir. Apenas lamentar e rezar pra que os ponteiros do relógio virem hélice de ventilador e o tempo voe. Eu, uma vítima contumaz das circunstâncias, saberia o que é envergonhar-se de verdade em pouco tempo.

Era mais uma tarde fervente dessas insuportáveis de Belém. Voltava na antiga linha Aero Club pra casa, depois de uma aula extra irritante de físico-química. Naquele momento já tinha certeza de que cursos superiores que exigissem além das quatro operações matemáticas não seriam a minha praia. Estava à paisana, sem uniforme escolar, como gostava de andar, apesar dos cadernos denunciarem minha condição de aluno. Usava uma camisa xadrez de botão, uma das poucas que tinha pra ocasiões especiais. Mas, naquele dia me sentia mais feio do que o normal. Um cansaço, uma morrinha, uma certeza profunda da inutilidade da vida. Nada de bom. Nada.

Na altura do Terminal Rodoviário, no bairro de São Brás, G. sobe no ônibus. Ah, a tarde ficou mais bonita, o peso do próprio corpo magro ficou mais leve ainda. Quase decolo. Por pouco coraçõezinhos não rodearam minha cabeça. O veiculo não estava apinhado de gente, como de costume. No meu campo de visão, sentado próximo à porta traseira, por onde entravam os passageiros, não havia uma vaga sequer. Todas ocupadas e algumas poucas pessoas de pé. Quando vi a moça com uma caixa grande nas mãos, pensei: serei cavalheiro e vou me oferecer pra carregar o trambolho.

Assim que a amada, idolatrada, salve, salve, pôs os pés no busão, me viu. E abriu um sorriso cheio de esperança. Parecia mesmo uma música do Roberto Carlos. Do meu humilde assento, retribui com a boca arreganhada. E automática e idiotamente ergui as duas mãos pra que ela me entregasse seu sobrepeso, sua caixa, seu estorvo e seu amor. A belezoca foi abrindo caminho no vento, me olhando, os cabelos molhados, aquele short clarinho, coxas à mostra, lindo pescoço, eu com os braços pra cima, esperando, esperando, aquela tensão juvenil toda e... ela desviou de mim e sentou em um banco atrás do meu lugar, no único espaço vago, o único que não tinha visto vazio.

Fiquei ali, com os braços levantados por três segundos. Os três segundos mais longos da historia. Pra mim, foram umas três semanas. Uma espera, um congelamento, uma oração sem palavras, um esquentamento de orelhas, um fogo tomando conta da minha cara, um constrangimento só. Jogue suas mãos para o céu e agradeça se tiver uma caixa pra segurar entre elas. Eu não tinha. Tinha somente uma moça rindo daquele momento patético, bem atrás de mim. Não tive coragem de olhar, mas na minha memória ela vai estar lá, sempre me avacalhando, junto com os demais passageiros que tinham visto todo o lance.

Rezei pro tempo passar rápido e chegar a minha parada pra descer. Lamentei profundamente o piso do ônibus ser de alumínio e não ter nenhum buraco pra me enterrar ou mesmo escorregar pro asfalto. As pessoas foram descendo, a viagem terminando, sem antes G. sentar ao meu lado e puxar assunto. Travei. De vergonha mesmo. Falei quase nada. Resmunguei uns “é”, “verdade”, “anrãm”, “quem sabe, não é”. Me despedi. Agradeci ao senhor, minha casa ser antes da dela.

Pena o assoalho do bonde não ser de areia.
Meses depois, no dia 2 de setembro de 1995, nos reencontramos. Lembro da data, porque neste dia morreu um garoto na minha rua. Marley, cerca de 10 anos, atropelado. Participávamos da mesma quadrilha junina, quando mais novos. Apesar da tristeza, da negativas da mãe, fui à festa, marcada desde muito antes. Uma dessas reuniõzinhas suburbanas de garotos e garotas, meio carta marcada, onde todo mundo já sabe com quem vai se agarrar.

Eu sabia de uma coisa: a probabilidade de pegar alguém nessa vibe nada modernosa era mínima, por N motivos e um deles era minha introspecção misturada à feiúra congênita. Lembrando agora, o evento parecia um baile dos anos 50, com direito à espera para música romântica. A hora do bote para os rapazes mais espertos, um grupo muito distante da minha personalidade esquiva e reticente.

Lá, encontrei a musa, mais linda ainda. Vestido preto, maquiagem e um copo na mão. Nada de álcool. Pra minha surpresa, ela foi receptiva comigo, reclamou não ter mais me visto, contou as novidades, falou do irmão amigo meu, do fulano que não estava lá, da beltrana mal trajada, do vestibular, da novela, do diabo a quatro. Sacolejou com os hits do momento na minha frente. Dançamos. Ou melhor, ela dançou e eu tentei. Lembro de uma sequência impressionante de carimbó em que meu cansaço já era visível de tanto mancar na tentativa de marcar o passo.

Aquela alegria toda, os amigos, música, gente jovem reunida. De repente, ela pede licença e sai para ir ao banheiro. Fiquei ali pensando: esta mulher está me dando bola? Não é possível. Mas, por que? Sou um idiota. O idiota do braço levantado no ônibus. Um imbecil que não consegue remexer e começa a perder a coordenação motora com umas três músicas do pinduca. Essa moça deve ter algum problema. Só pode.

Sem demora chega a hora H: a música lenta. Aaah, mermão, cadê o par? Não é possível! Puta mundo injusto, meu. Onde ela se meteu? E esse mijo que não acaba mais!? Fiquei ali desolado, olhando os casaizinhos se formarem, os primeiros beijos se apresentarem, os primeiros afoitos procurarem um canto mais escuro.

Demorou um pouco, mas ela apareceu, cruzando a sala, na penumbra, iluminada pelos flashs de um estroboscópio e um globo espelhado, tudo improvisado na casa do anfitrião. Um grandalhão, metido a galã, interpelou a boneca. Pensei: merda. Já era! Pega no cabelo aqui, um gracejo ali, se enclina, fala no ouvido, a mão desce para cintura. Maldito.

Vi quando minha flor de laranjeira recusou o convite delicadamente, se desvencilhou do bruto e veio em minha direção. Sorriu, mostrou os braços. Lembrei do ônibus, da caixa, mas não teve tempo para lamentações ou rubores. Já era seu par. Tentamos uns passos. Ainda estava no ritmo carimbolesco, rápido de mais para um sucesso do Roxette, daqueles bem melosos. Não consegui sincronia. Sorrimos da minha falta de jeito. Olhei-a me sentindo o débil mental mais sortudo do mundo e recebi um beijo que errou a boca, mas foi corrigido em seguida.
De vez em quando, eu me dava vem. De vez em quando.
Voltei de manhãzinha pra casa pensando em como a vida é estranha. Antes passei pra me despedir de Marley, que já estava sendo velado na sala da sua casa, pobrezinho. O rosto machucado, a urna frágil e barata, os irmãos chorando, a mãe calada olhando o corpo do anjinho. Fiquei em silencio, fiz uma prece rápida, de tristeza, sem esquecer a felicidade da noite anterior. Voltei pra casa chorando um chorinho fino, constrangido. Ainda era tímido.

11 comentários:

Amanda Paula disse...

Olá,
Eu achei seu blog sem querer, estava procurando uma foto de xícara de café e apareceu o seu blog no google imagens! E comecei a ler e achei bacana como vcoê escreve! Apesar deu não ser feminista, gosto de tratamento "delicado" para as mulheres, e confesso que fico um pouco chateada quando você usa termos considerados "machistas", mas eu relevo pelo seu enredo da história... Isso não é uma crítica, mas uma sugestão =)

Até.

Anônimo disse...

Será mesmo se tu era tão feio como dizes?? Humm, não sei, não!

Beijos Anderson :)

Anderson Araújo disse...

Ah, Amanda, valeu. hehehhe. Os termos são os termos mesmo. As vezes, eu exagero. hehehehe


Quanto ao anônimo ou anônima. Eu ERA não. Eu SOU. Mas, antes era bem mais. Parece um caibro. Maaagro e todo empenado.

Agora eu sou apenas empenado. rsrsrsrs.

Leo Aquino disse...

Porra, sósia, somos parecidos até mesmo nos relatos perdedores de adolescência. Me fodi muitas vezes como na história da caixa. A diferença é que nunca me dei bem com a minha musa dos tempos de colégio. A história está neste post: http://vidassonoras.wordpress.com/2007/07/30/sobre-deborahs-e-emily-kanes/

Abs!

Vereador Carlos Augusto disse...

Diferente o teu blog, gostei do estilo, passarei sempre por aki, parabéns!

Loro da Doca disse...

olha o marley lembra muito meu pai, ele também morreu atropelado com dez anos

Daniella disse...

Toda vez que venho aqui me divirto com esses teu relatos...huauhauahuahau...já passei por umas vergonhas assim...beijos Andissú!

genesio(ceara) disse...

gostei dessa gata ai, ela já sabia o que queria... foi conhecer o lado ruim da vida,kkkkk

Nega disse...

Ancas largas - bem estilo jorge amado :)

Puta mundo injusto, meu! - Casaria com o boça!

Quanto a mim, e a minha adolescencia: MUITO DESGRAÇADA! A adolescencia é a pior fase da vida de um ser humano, acho que é o castigo que Deus envia antecipadamente prevendo nossos pecados hediondos.

Diferentemente de minhas coleguinhas assanhadas, eu sempre me interessava pelo Nerd da turma e sempre o nerd era o magrinho, tosco, empenado e usava óculos. São características que considero até os dias atuais indispensáveis, mesmo porque, me tornei um pouco assanhada e ainda continuo me interessando por nerds...









sarados, vagabundos, calhordas, bebados... Homem, no geral.

Anônimo disse...

Anderson!!!!!! Que lindo! Adorei teu texto, escreves muito bem cara! Quando eu crescer, quero escrever como você!
Tá lindo, adorei tudo! Os mínimos detalhes...está perfeito! Não tem uma linha que eu não tenha gostado!

Parabéns!
XD

Amanda Murta(@MandyMcDowell)

Anônimo disse...

simplesment d+
to rindo ja faz uns 10 minutos
vc manda bem cara