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terça-feira, 4 de agosto de 2009

Adelsinho, o paraense

Uma ficçãozinha não faz mal pra ninguem.

Era paraense até a caveira. Não deixava ninguém falar mal da terra onde nascera e cultivara amigos para sempre. Para ele, era ‘princesa louçã’, ‘sentinela do Norte’. Muito mais do que o “impávido colosso”, maior que o “deitado eternamente em berço esplêndido”. Mesmo na casa dos 60 anos, sentia um arrebatamento quando ouvia ‘Belém, Pará, Brasil’, composição de uma época em que não era mais moço e já não dava bola pra novidades musicais. Porém, ainda assim seu Adelsinho lagrimava no “Norte não é com M”.

Engana-se quem pensa que o bruto ficava só na poeira superficial dos adoradores de Nilson Chaves, dos amantes do maestro Waldemar Henrique, dos fãs de Lucinha Bastos, dos balançantes de Mahrco Monteiro, dos seguidores do Arraial do Pavulagem, dos consumidores de ervas no Ver-o-peso, dos freqüentadores da Praça da República aos domingos, dos apaixonados por João de Jesus Paes Loureiro, dos leitores de Dalcídio Jurandir. Seu Adelsinho surpreendia, ia além, era puro coração para aqueles mais de 1,2 milhão de quilômetros quadrados de floresta e água.

Conhecia a razão de ser de cada rua da Cidade Velha. De cada casarão antigo, caindo aos pedaços, guardava uma informação peculiar da família tradicional que ali morara e sabia até o nome do idealizador da construção, não ficando na mesmice de falar de Antonio Landi. No porto, maravilhado com a Baía de Guajará cercando Belém, o paraense lamentava a decadência dos casarios e remetia aos tempos da Borracha. Enchia a própria bola, citando o caso de seu avô cametaense, comerciante de látex que gozou da Belle Époque, metido nos fraques holandeses, nos calçados do Reino Unido e no vuco-vuco com caras putas parisienses. Paraense que é paraense tem sempre uma boa referência lá fora, nem que seja no Rio ou São Paulo. Melhor ainda se for no estrangeiro, pensava nosso herói.

Adelsinho cuspia Pará, cagava Pará, respirava Pará, engolia Pará, regorgitava, ruminava, bebia, arrotava, merendava, suava, perfumava-se, arrepiava-se, embriagava-se, ria, sofria, amava, amava, sentia Pará. Ai de quem falasse em divisão de território. “Nonca, jamais. Tás brencando?” iniciava assim o retruco e partia às bordoadas pra cima de quem se atrevesse a bafejar tal heresia. Certa feita foi à Marabá e se meteu em um porradal interminável com um separatista de braço longo com quem esbarrou por lá.

Roliço e parrudo, moreno roxo, cabelo ruim e poucos pêlos, Adelsinho dizia ser o legítimo paraense, nas palavras dele: feio de pai e mãe, mas cordato, hospitaleiro, festivo e bom de conversa na hora da prosa e de porrada na hora da peia. Seguia feliz, elogiando Magalhães Barata e acreditando em todos os herdeiros políticos do interventor, sem contar ser devoto de Antônio Lemos e conhecer a fundo cada obra do velho intendente. Mas, sabia de cor também as realizações do Lauro Sodré. “Grande nome, grande nome”, pavoneava.
Seu Adelsinho não perdia a chance de contar quem foram todos os grandes vultos do Estado, hoje transformados em nomes de rua, monumentos, praças, estátuas e até denominação de bairro miserável. O paraense sabia tudo, tinha sempre a informação bem calculada e redondinha em discurso pronto. Enchia os ouvidos e o saco dos que ousavam aceitar as primeiras divagações sobre história oficial. Incluía os vultos históricos mais recentes, quando deitava falação, cuidando para não ofender este ou aquele partido, afinal, todo mundo tinha contribuído para chegar no nível de grandeza e desenvolvimento atual.

Tão fanático pela terra natal, o papa-chibé só usava duas cores nas roupas: camisas vermelhas, calças brancas e sapatos azuis. Tudo inspirado na bandeira tricolor do querido Estado. Na rua, não era raro lhe chamarem de ‘merengueiro’, quando voltava da missa na basílica, de manga longa meio bufante e pantalonas apertadinhas à moda Pinduca, outro cantor preferido, junto com Verequete, Lucindo, Cupijó, todos mestres do que ele considerava a oitava maravilha musical, o carimbó.

Para se manter e encher o bucho, o ufanista também radicalizava e só comia o típico: açaí sem açúcar, mapará, vatapá de camarão, maniçoba, caruru, pato no tucupi. Tudo com farinha, da grossa, da baguda, porque a fina era coisa de quem renegava a identidade. Não adiantava nutricionista nem ninguém ameaçar que a repetição poderia fazer mal. Havia 30 anos, Adelsinho insistia na dieta paraense. ‘Enquanto, só prestigiam nossa culinária em festa grande, eu faço questão de dizer que no Pará é tudo gostoso todo dia’, bradava.

Para beber só sucos de cupuaçu, bacuri, manga, muruci e taperebá. E que não chamassem o taperebá de mangaba! Ele enraivecia, jogava o líquido fora e partia pisando forte. A Cerpinha era a única pedida no Bar do Parque, porque era só lá que ele se dava o desfrute para contemplar o Teatro da Paz, o primor de arquitetura erguida para ser morada dos melhores cantores, atores, músicos, artistas do mundo - os paraenses, claro.
Na geladeira de casa, substituía a água por uma mistura adocicada de tucupi, sidreira e capim-marinho. Obsessivo, ele ofertava às visitas como um revigorante sem igual e um hidratante mais potente que H2O. Todo mundo engolia rápido, sem fazer cara feia, para não desagradar o tranqüilo Adelsinho, que se enervava se contrariassem seu amor pelas coisas da terrinha.

Nunca deixou de acompanhar o Círio de Nazaré. Pagou promessa no cangote da mãe vestido de anjo logo no primeiro aninho. Era um predestinado. Católico de várias gerações, de rezar terço, ir em novena, e beijar os pés de cada arcebispo novo que surgia para conduzir o rebanho mais ordeiro, mais obediente, mais temente a Deus do mundo apostólico romano. Ovelhinhas parauaras.

Na véspera do segundo domingo de outubro daquele ano, seu Adelsinho vira a Trasladação bem cedo e voltara pra casa. Descansaria para participar da grande procissão à Nossa Senhora de Nazaré, na corda, puxando a berlinda, como todos os anos. Motivo? E seu Adelsinho precisava de uma causa? Não. Era seu momento. Sofrendo, imprensado com seus iguais, as mãos feridas pelas fibras de cizal, os pés em carne viva com as pisadas dos irmãos e o contato com o asfalto, o paraense era mais paraense. Recriminava quem ali estava para agradecer graça alcançada. Nada disso! Pelo Pará, pela Santinha protetora do Estado, faria tudo, sem pedir nada em troca. Reclamar do calor, do aperto, do sufoco? Coisa de mocinhas frívolas. Paraense de garbo é homem e agüenta calado, sem beicinho e chateação.

Levantou, tomou banho, se perfumou de patchouli, se benzeu antes de sair e lá pelas três já estava com lugar garantido entre os 15 mil promesseiros da corda. Puxou assunto com a turba, defendeu a terra, elogiou tudo que podia, falou da santinha como filho que fala da mãe, reclamou dos romeiros e pagadores de promessa já bêbados, rindo e falando palavrões misturando o que não podia com o esforço de fé. Um acinte!

Começou o cortejo, ruas tomadas. Era a alegria de Adelsinho, multiplicadas em dois milhões de corações. Era Pará aquilo. Puro. Sem retoques, lindo, lindo, lindo. Pai d’égua demais. Velhos, crianças, mulheres, vendedores, negros, pardos, brancos, encardidos. O miserável sujo e descalço e a dondoca de chapelão e raiban andando lado a lado. O caboco interiorano tostado e o padre italiano vermelhão, quase irmãos, rezando o mesmo credo. O paraense era feliz, mergulhado naquela multidão de iguais. ‘Viva o Círio de Nazaré!’. Respondiam levantando a corda. Adelsinho, nos seus 1,60 de altura, levantava mais alto. Viva!

Na subida da Av. Presidente Vargas o velho paraense, começou a pensar na infância, no Marajó, nos búfalos, na morena de seu encanto, na pracinha de Soure, na vinda para Belém, na recusa de sair da capital e partir para outras paragens, na revolta com quem falava mal do seu pedaço de mundo, na aposentadoria próxima, na morte da esposa, tão amada, mas tão resistente ao seu amor no começo e tão reclamona na velhice, pensava no cheiro do tacacá da tarde, no camarão seco, no quanto gostava de tudo aquilo, daquela multidão comprimida rezando e chorando, naquela voz metalizada ordenando “andem, andem, andem, estamos chegando, andem, andem, andem, em breve Nossa Senhora estará na Praça Santuário, andem, andem, andem”, sem sentir que os pés já lhe faltavam, sem perceber o coração enfraquecendo, sem imaginar seu ser último Círio.
Adelsinho caiu já massacrado pelos milhares de pés. Não sentiu o osso do tornozelo partindo, o primeiro, nem percebeu a pressão no rim direito com o peso de uma obesa que estava a duas braçadas atrás. Via a massa lhe fazendo de tapete olhando pro céu e escutando os fogos da homenagem do Banco do Brasil. O vapor, o calor, o zunido de tantos sons embriagavam e confundiam ainda mais naquele delírio real. A primeira dor forte percebida foi de três costelas quebrando com mais um pisão, agora de um morador do Jurunas, ex-presidiário eternamente grato à padroeira pela redenção. Sem seguida, um magrinho lhe pisara o escroto, desviando o pisoteado da alucinação a que se prestava. Soltou um “ai caralho”, já se culpando pela ofensa à Santa. Sem demora, ficou espremido entre o chão e um branquelo corpulento que também caíra.

Adelsinho se confundia com o solo daquele lugar que tanto amava. Dois metros acima, a romaria seguia, sempre em frente, ignorando a despedida patética do seu filho mais amoroso. Viva Nossa Senhora de Nazaré. Viva! Faltava-lhe o ar, a cara já desfigurada, a vertebral partida em três, emitia um breve sorriso, daqueles dados só por quem está vendo os braços da morte. Morreria na glória, tragado pela sua paixão mais fecunda. De certa forma, foi como sempre sonhou. Tentou respirar fundo, sentir a poesia do fim, quando o pescoço partiu nos pés de um trabalhador honrado e católico vindo de Zé Doca , cidade do Maranhão. Por ironia, Adelsinho morreu sem saber que a indesejada das gentes lhe impunha um último algoz da raça que mais detestava. ‘Maranhense só vem pra estragar o Pará’, repetia mil vezes, em vida.

7 comentários:

Repórter de Sandálias disse...

Fantástico!! Estás ficando bom nisso! Quase deu pra ouvir o estalar do pescoço do Adelsinho. Coitado! Mas, paraense que é paraense odeia mesmo é manauara. Experiência própria. Nasci em Manaus. Rsrsrs!!

Anônimo disse...

Anderson, desconfio que a culpa da morte do Adelsinho é da Cléo ou da Rita Soares, as duas maranhenses mais paraenses que eu conheço.

Adorei o conto, fantástico. Tu tás demais hein garoto!

Aline Brelaz

Anderson Araújo disse...

Meninas, valeu por terem paciência de ler até o fim. Esse paraensismo do adelsinho me irritou. por isso que ele morreu feio desse jeito. hahahaha.

Vou postar mais mentiras por aqui. ou não. o que acham?

paulo nazareno disse...

rapaz, apesar do twitter, dos hai-kai, dos cobra-kai, e outros mecanismos para testar nosso pode de síntese, eu também li o conto. se ele não morresse, eu mesmo mataria este velho maldito.

Nanda Melonio disse...

adorei a morte dele. tava merecendo! rsrsrsrs...

Toni Antonio disse...

todo sujeito de sunga no círio é patife

Esfinge de Giz disse...

Desisti de ler [sério mesmo]. Muito longo e paraense demais pro meu gosto. E olha que gosto de paraenses e das paraensices [sou uma, afinal].
Repensei e dei uma segunda chance ao adelsinho [talvez porque eu tenha um amigo com esse nome, vai que é sobre ele hehe].

De fato deveria ter sido um manauara a pisar em seu pescoçinho de miriti, deveriam também ter espremido seus baguinhos de açaí até que toda polpa encarnada fosse retirada e só por despeito jogar o vinho na baía do guajará. Desejei muito isso. MUITO.

Mas agora já passou. =)
[ah, as vezes eu minto]