sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Guia prático de produção jornalística

Enquanto não sabemos pra onde vai o jornalismo com a desobrigação do diploma para exercer a profissão e a circulação infinita de dados em tempo real na rede, um pequeno exército sobrevive ainda da segunda profissão mais antiga do mundo – segunda, sim, porque logo que surgiu a primeira prostituta, em seguida alguém saiu dando a notícia do serviço.

Este pequeno contingente de gente de ego inflado e sofredora de prisão de ventre trava batalhas diárias dentro das redações. Claro que para buscar a melhor informação. Mas, deixo esta luta para depois. Me importa aqui as batalhas travadas no tapete da hierarquia dos jornais, sempre evidenciada por uma rixa antiga e besta: repórteres versus editores.

Por trás daquela cordialidade laboral toda, tem sempre um repórter amaldiçoando um editor. Para o soldado raso (o povo da reportagem), os editores são uns malditos destruidores de texto, usando técnicas e motivos cada vez mais absurdos. “Idiotas”, o prejudicados dizem. Já os do andar de cima (da casta da edição) tem sempre uma queixa de má apuração, de erros ortográficos, de falta de boa vontade e preguiça contra seus arqui-inimigos. “Jegues”, reclamam os superiores.

Mas, existe o meio-termo entre os dois rivais: os produtores. São eles a lâmpada da idéia e o primeiro peteleco na aventura de parir um periódico diário. Porém, os pobres coitados, por estarem no meio do fogo cruzado, sofrem pressões de todo gênero...e aí, meu filho, merdas homéricas são inevitáveis. Foi pensando nessas criaturas que bolei cinco pontos importantes para que uma pauta funcione. Coisas óbvias, mas que – não sei por que até hoje – dificilmente pontuam o trabalho destes cristos, que são chamados de idiotas e de jegues, tantos pelos editores, quanto pelos repórteres.

Saquem só e contribuam com outros itens nos comentários (ou não).

1) Diga o que você quer, desgraçado! Não tenha medo. Aponte o que o jornal quer da pauta. Não adianta por um quilo de texto na pauta se não existe orientação sobre qual a intenção, o objetivo da matéria. É preciso clareza e especificidade nela. Não encha o saco com textos enorme copiados do Google. Todo mundo está sacando que é pra encher lingüiça. Põe a massaroca em algum arquivo na rede e cita como referência. O repórter pode até não ler, mas você fez sua parte, sem enrolar, o que é melhor.
2) Cadê o número de telefone, maldito!? Coloque, pelo menos, um contato de um entrevistado. Unzinho. Não dá trabalho e garante um direcionamento para a matéria. Se você conseguiu bolar e pensar no assunto, não custar colocar o número de telefone. Com este contato é possível começar, ter um ponto de partida para investigar o tema e buscar novas informações. Em qualquer jornal do Brasil funciona assim, pelo menos nos meus sonhos.
3) Ei, mermão, não viaja! Nunca, nunca mesmo, invente uma pauta do nada. Acordou, olhou para o espelho e viu remela nos olhos: boa. Vamos fazer uma matéria sobre o que define a coloração da remela!!! O exemplo é absurdo, mas vale para mostrar que nem sempre seu insight rende uma matéria para jornal. Antes de ter um rompante do gênero ou ouvir a prima da irmã da sua vizinha contando um problema (‘nossa! pode ser uma matéria ma-ra-vi-lho-sa’), pense em duas coisas: o interesse público e a viabilidade dessa reportagem. Porque no jornalismo, nem tudo é possível. Os veículos de comunicação deveriam publicar assuntos de interesse de uma fatia considerável de leitores, telespectadores ou ouvintes e não apenas coisas que interessam só a você e à prima da irmã da cunhada... etc, etc, etc. Se não é assim, pelo menos deveria.
4) Você não vai mudar o mundo, porra! Não invente pautas que seu veículo não vai endossar. Daquelas contra os grandes anunciantes ou contra administrações públicas que derramam dinheiro no jornal com propaganda. É triste, mas é uma realidade. Então, seu jegota (mistura de jegue com idiota), saiba que o seu esforço e do repórter vão por água abaixo, porque muito provavelmente a edição não vai aproveitar o material apurado e escrito. E não venha com esta idéia cretina de que repórteres são pagos apenas para escrever, não para decidir o que entra na edição. Ninguém quer trabalhar e ver o fruto do seu suor no lixo. É ruim pra quem fez a matéria e é péssimo pra empresa, que gastou tempo, energia, combustível por uma reportagem jogada fora.
5) Reinvente a roda, pelo amor de Deus! Use a criatividade. Sei que não é não é todo mundo que tem isso. Porém, com uma forcinha dá pra chegar lá. Nem precisa muito. Só evite aquelas pautas do tipo vendedoras de erva do Ver-O-Peso no dia de São João, profissões masculinas exercidas por mulheres no Dia Internacional da Mulher; pais exemplos pros filhos nos Dias dos Pais; o que fazem os papais nóeis que trabalham no shopping nos outros meses do anos... a lista é imensa. E INTEIRA enfadonha. Ninguém agüenta mais escrever essas merdas, muito menos lê-las.
Nota: imagens meramente ilustrativas. (mas bem que alguns produtores merecem um catiripapo pelas pautas que "produzem").

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A Caixa

Vergonha. Eu sei o que é isso. Passei muitas vezes. Principalmente, por ser tímido – sim, um dia eu fiz esse tipo. Com as mulheres, então, nem se fala. Na adolescência, a era das trevas de minha vida, mais ainda. Lembro que era apaixonado por uma moça que parecia mais velha do que eu. Só parecia. As meninas sempre crescem, amadurecem e ficam gostosas na velocidade da luz. Enquanto aos 15 anos, quase todos os rapazes são uns arremedos, elas estão no esplendor da formosura. Com G. era assim: linda, os olhos de sono, a pele lustrosa, uma castanha perfeita, ancas largas de reprodutora, alta para uma paraense, cabelos emoldurando um sorriso de lagarta maliciosa.
Eu fazia uma cara, mais ou menos, assim quando ela aparecia.
Claro, claro, aos 16 anos – em toda idade, na verdade – homens nutrem essas paixões à distância. Daquelas que você cumprimenta e quando ela vai embora solta um suspiro disfarçado e, simultânea e instintivamente, olha pra bunda, agradecendo por Deus existir. Ela me provocava esse frisson. E eu era um loser total. Ficava na minha, só urubuservando aquela lindeza florescer a cada dia mais e mais.

Mas, o destino, este grande cretino, não queria o anonimato para mim. Não bastasse ficar com cara de besta quando a encontrava, a sorte me premiaria com um king-kong sem tamanho numa dessas situações que não há como fugir. Apenas lamentar e rezar pra que os ponteiros do relógio virem hélice de ventilador e o tempo voe. Eu, uma vítima contumaz das circunstâncias, saberia o que é envergonhar-se de verdade em pouco tempo.

Era mais uma tarde fervente dessas insuportáveis de Belém. Voltava na antiga linha Aero Club pra casa, depois de uma aula extra irritante de físico-química. Naquele momento já tinha certeza de que cursos superiores que exigissem além das quatro operações matemáticas não seriam a minha praia. Estava à paisana, sem uniforme escolar, como gostava de andar, apesar dos cadernos denunciarem minha condição de aluno. Usava uma camisa xadrez de botão, uma das poucas que tinha pra ocasiões especiais. Mas, naquele dia me sentia mais feio do que o normal. Um cansaço, uma morrinha, uma certeza profunda da inutilidade da vida. Nada de bom. Nada.

Na altura do Terminal Rodoviário, no bairro de São Brás, G. sobe no ônibus. Ah, a tarde ficou mais bonita, o peso do próprio corpo magro ficou mais leve ainda. Quase decolo. Por pouco coraçõezinhos não rodearam minha cabeça. O veiculo não estava apinhado de gente, como de costume. No meu campo de visão, sentado próximo à porta traseira, por onde entravam os passageiros, não havia uma vaga sequer. Todas ocupadas e algumas poucas pessoas de pé. Quando vi a moça com uma caixa grande nas mãos, pensei: serei cavalheiro e vou me oferecer pra carregar o trambolho.

Assim que a amada, idolatrada, salve, salve, pôs os pés no busão, me viu. E abriu um sorriso cheio de esperança. Parecia mesmo uma música do Roberto Carlos. Do meu humilde assento, retribui com a boca arreganhada. E automática e idiotamente ergui as duas mãos pra que ela me entregasse seu sobrepeso, sua caixa, seu estorvo e seu amor. A belezoca foi abrindo caminho no vento, me olhando, os cabelos molhados, aquele short clarinho, coxas à mostra, lindo pescoço, eu com os braços pra cima, esperando, esperando, aquela tensão juvenil toda e... ela desviou de mim e sentou em um banco atrás do meu lugar, no único espaço vago, o único que não tinha visto vazio.

Fiquei ali, com os braços levantados por três segundos. Os três segundos mais longos da historia. Pra mim, foram umas três semanas. Uma espera, um congelamento, uma oração sem palavras, um esquentamento de orelhas, um fogo tomando conta da minha cara, um constrangimento só. Jogue suas mãos para o céu e agradeça se tiver uma caixa pra segurar entre elas. Eu não tinha. Tinha somente uma moça rindo daquele momento patético, bem atrás de mim. Não tive coragem de olhar, mas na minha memória ela vai estar lá, sempre me avacalhando, junto com os demais passageiros que tinham visto todo o lance.

Rezei pro tempo passar rápido e chegar a minha parada pra descer. Lamentei profundamente o piso do ônibus ser de alumínio e não ter nenhum buraco pra me enterrar ou mesmo escorregar pro asfalto. As pessoas foram descendo, a viagem terminando, sem antes G. sentar ao meu lado e puxar assunto. Travei. De vergonha mesmo. Falei quase nada. Resmunguei uns “é”, “verdade”, “anrãm”, “quem sabe, não é”. Me despedi. Agradeci ao senhor, minha casa ser antes da dela.

Pena o assoalho do bonde não ser de areia.
Meses depois, no dia 2 de setembro de 1995, nos reencontramos. Lembro da data, porque neste dia morreu um garoto na minha rua. Marley, cerca de 10 anos, atropelado. Participávamos da mesma quadrilha junina, quando mais novos. Apesar da tristeza, da negativas da mãe, fui à festa, marcada desde muito antes. Uma dessas reuniõzinhas suburbanas de garotos e garotas, meio carta marcada, onde todo mundo já sabe com quem vai se agarrar.

Eu sabia de uma coisa: a probabilidade de pegar alguém nessa vibe nada modernosa era mínima, por N motivos e um deles era minha introspecção misturada à feiúra congênita. Lembrando agora, o evento parecia um baile dos anos 50, com direito à espera para música romântica. A hora do bote para os rapazes mais espertos, um grupo muito distante da minha personalidade esquiva e reticente.

Lá, encontrei a musa, mais linda ainda. Vestido preto, maquiagem e um copo na mão. Nada de álcool. Pra minha surpresa, ela foi receptiva comigo, reclamou não ter mais me visto, contou as novidades, falou do irmão amigo meu, do fulano que não estava lá, da beltrana mal trajada, do vestibular, da novela, do diabo a quatro. Sacolejou com os hits do momento na minha frente. Dançamos. Ou melhor, ela dançou e eu tentei. Lembro de uma sequência impressionante de carimbó em que meu cansaço já era visível de tanto mancar na tentativa de marcar o passo.

Aquela alegria toda, os amigos, música, gente jovem reunida. De repente, ela pede licença e sai para ir ao banheiro. Fiquei ali pensando: esta mulher está me dando bola? Não é possível. Mas, por que? Sou um idiota. O idiota do braço levantado no ônibus. Um imbecil que não consegue remexer e começa a perder a coordenação motora com umas três músicas do pinduca. Essa moça deve ter algum problema. Só pode.

Sem demora chega a hora H: a música lenta. Aaah, mermão, cadê o par? Não é possível! Puta mundo injusto, meu. Onde ela se meteu? E esse mijo que não acaba mais!? Fiquei ali desolado, olhando os casaizinhos se formarem, os primeiros beijos se apresentarem, os primeiros afoitos procurarem um canto mais escuro.

Demorou um pouco, mas ela apareceu, cruzando a sala, na penumbra, iluminada pelos flashs de um estroboscópio e um globo espelhado, tudo improvisado na casa do anfitrião. Um grandalhão, metido a galã, interpelou a boneca. Pensei: merda. Já era! Pega no cabelo aqui, um gracejo ali, se enclina, fala no ouvido, a mão desce para cintura. Maldito.

Vi quando minha flor de laranjeira recusou o convite delicadamente, se desvencilhou do bruto e veio em minha direção. Sorriu, mostrou os braços. Lembrei do ônibus, da caixa, mas não teve tempo para lamentações ou rubores. Já era seu par. Tentamos uns passos. Ainda estava no ritmo carimbolesco, rápido de mais para um sucesso do Roxette, daqueles bem melosos. Não consegui sincronia. Sorrimos da minha falta de jeito. Olhei-a me sentindo o débil mental mais sortudo do mundo e recebi um beijo que errou a boca, mas foi corrigido em seguida.
De vez em quando, eu me dava vem. De vez em quando.
Voltei de manhãzinha pra casa pensando em como a vida é estranha. Antes passei pra me despedir de Marley, que já estava sendo velado na sala da sua casa, pobrezinho. O rosto machucado, a urna frágil e barata, os irmãos chorando, a mãe calada olhando o corpo do anjinho. Fiquei em silencio, fiz uma prece rápida, de tristeza, sem esquecer a felicidade da noite anterior. Voltei pra casa chorando um chorinho fino, constrangido. Ainda era tímido.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Genésio, o pai do Menino-Deus de Marituba

Você muito provavelmente não deve conhecer Genésio Gomes Moura, o Ceará, mas com certeza já viu um dos seus trabalhos se mora ou morou na Região Metropolitana de Belém. É dele a escultura do Menino Deus de Marituba. E foi ele também que esculpiu a Estátua da Liberdade da Belém Importados, duas obras incluídas no post ‘Top 7 Monstrumentos de Belém” e nas duas primeiras enquetes do Bêbado Gonzo.
Genésio, o culpado pelo Menino-Deus de Marituba.
Casado, pai de cinco filhos, sendo que dois seguem a mesma profissão de escultor, o cearense de Fortaleza, de 53 anos, concedeu entrevista ao blog por e-mail e contou detalhes de como foi trabalhar em Mary Table City. E assegura: não é apenas em Belém e Marituba que tem trabalhos. Muitas cidades brasileiras possuem estátuas em tamanho extra large super ultra mega GG feitas por Ceará.
O artista achou o Blog e mandou um comentário desfazendo uma injustiça: a de tê-lo chamado de amador. E então travou-se uma conversa, amistosa, inclusive. Muito simpático e bem humorado, Genésio - que é a cara do Luiz Ayrão - contou que já trabalha há muitos anos como escultor, mas antes tentou jogar futebol, lançando-se à sorte em um de Santarém, o clube São Francisco. Mas, ele mesmo admite a perna-de-pau: ‘futebol não é só querer’.

No comecinho da carreira de escultor, Genésio acompanhou o irmão, que já fazia entalhes em madeiras. Treinava futebol à tarde e pela manhã aprendia o oficio de entalhador. “Fui pegando o gosto pela arte e, como eu era melhor artista que goleiro, tratei de me especializar no que eu sabia”, conta.

“Trabalhei em Fortaleza durante muito tempo para os atravessadores. Até hoje existe isso: são os comerciantes que ganham ate dez vezes mais que o artista em um trabalho em madeira ou rendas. Não sei se você já visitou a cidade, mas se for lá e quiser adquirir algum produto, procure na fonte, vai economizar até 90%”, aconselha o escultor.

Depois, juntou as tralhas e foi pra Londrina, no Paraná. Lá, a primeira encomenda de Genésio foi uma girafa. Daí, não parou mais até fazer a primeira estátua de grande porte ma cidade de Brusque, em Santa Catarina, uma obra de dez metros de altura. Depois foi pela loja de departamentos Havan, ‘A Casa Branca Brasileira’, para fazer adivinha o que? Uma Estátua da Liberdade, claro. Em seguida veio um convite para fazer um Cristo de 33 metros em Balneário Camboriu. Dentre os trabalhos profissionais, ele foi contratado pelo Parque temático Beto Carreiro, onde esculpiu por quatro anos.

Em Curitiba, parece que a Estátua da Liberdade deu certo.
'Ao longo da minha carreira, foram surgindo convites de varias cidades, principalmente, de Minas Gerais, o Estado que moro agora, na cidade de Elói Mendes, onde construímos uma escultura de 41 metros, até agora o maior ‘monstrumento’ do Brasil’, detalha Genésio, mencionando a expressão usada no Blog e mostrando um senso de humor acima da média.

Menino-Deus custaria hoje uns R$ 300 mil.
Todos seus trabalhos de Genésio são feitos a partir das encomendas e com modelos servindo de base para fazer a estátuas maiores, criadas com barras de ferro e arame, telas de viveiros de pássaros, muito cimento, além de técnicas de engenharia para manter tudo de pé. Em Belém, ele fez a Estátua da Liberdade sem um modelo, em apenas dois meses. E deu no que deu. O artista mesmo reconhece: “Nesse pouco tempo de prazo e sem um modelo, fica impossível haver qualidade”.

Sobre o Chuck... ops... sobre o Menino Deus de Marituba, ele afirma que tem 16 metros de altura e foi concluída em 1999. Hoje, somando mão de obra e gasto com material, o bonecão consumiria fácil uns R$ 300 mil, avalia o escultor. Sem contar quanto lhe rendeu, o Genésio garante: quem ganha menos e um percentual muito pequeno do total é o artista. E conta ainda que os possíveis erros na obra são culpa de um auxiliar que, na época, se equivocou nas medições. “O auxiliar pediu demissão e hoje está rico”, brinca o escultor.

'A estátua em si saiu dentro da expectativa. Muitos gostam, outros não...uns precisam criticá-la, senao o blog fica sem graça (risos). Vai do gosto das pessoas. Só detesto quando os hipócritas condenam no sentido religioso, acredito que o Dr. (prefeito de Marituba, Antônio) Armando não teve a intenção de fazê-la para ser adorada, apenas fez', relata Ceará.

Estrutura de 41 metros do Cristo da cidade mineira Elói Mendes: equivalente a um prédio de 13 andares, 'o maior monstrumento do Brasil' também foi feito por Genésio.
Dando pouca bola às críticas, Genésio é mais um brasileiro ganhando o pão de cada dia com o que sabe fazer. É sempre convidado para construir grandes estátuas de santos, mas o que pintar ele esculpe. Atualmente, por exemplo, está produzindo escorregadores de piscinas para crianças com o formato de animais, na AABB, na cidade de Rolim de Moura, em Rondônia.

Saudoso do Pará, ele recorda do Tucunaré recheado e apreciado com a cachaça Ypioca, dos balneários de Mosqueiro e do centro noturno de lazer ‘A Locomotiva’. Pensa em voltar, quem sabe para fazer mais uma estátua gigante, esperançoso de que não hajam tantas críticas e reclamações. Até o momento não houve um convite. Termina o e-mail acreditando em um retorno a essas bandas, na promessa de “tomar umas e comer um pirarucu frito” com este blogueiro.

Será muito bem-vindo e bem recebido o artista, mas devo lhe informar de cara que nas enquetes do Blog o povo escolheu a Estátua da Liberdade como ‘monstrumento’ mais feio de Belém, com 34% dos votos, entre os sete concorrentes. E sobre o que fazer com o Menino Deus de Marituba, 93% dos votantes optaram por explodi-lo. Genésio, pelo menos, nesse caso, a culpa não é minha. A voz do povo é a voz de Deus, afinal.

O escultor talhando a cabeça de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé: estátua gigante na cidade do Rei do Futebol.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Reportagens que não fiz

Não sei quando começou, mas me bloqueio para escrever textos fora do padrão jornalístico no jornal. É aquela história: lead quadradinho + informações complementares abaixo. Me tolho fundamentado em experiências mal sucedidas com editores, princialmente. Dificilmente, eles entendem o espírito da coisa e qualquer ousadia lingüística ou no famoso modelo da pirâmide invertida leva uma tesourada violenta. O que podia ser diferente, acaba virando um desastre. Há anos, alguém grita dentro da cabeça dos repórteres: você é jornalista, não escritor, seu desgraçado. Ok, ok, entendi, não precisa berrar desse jeito.

Domingo tive o desprazer de fazer mais um 'plantão de polícia' - no jargão jornalístico a busca por notícias de crimes e temas relacionados à segurança pública. Aquela modorra danada do fim de semana, as visitas às delegacias, a tradicional e humilhante entrega dos jornais 'de brinde' para os funcionários das seccionais, aquela cordialidade forçada e a tentativa, nem sempre exitosa, de aproximação com os policiais para conseguir alguma informação. Todo esse passo-a-passo desde que Gutenberg inventou o jornal me conduz a um tédio sem igual.


"Trouxeste o jornal aí? Tô a fim da parte da novela".

Nas coberturas, quase nunca enxergo a razão de noticiar certos casos que um repórter policial profissa saberia explorar muito bem. Na última, por exemplo, me deparei com dois presuntos. Afogados. Muita coincidência: dois caras mortos por afogamento, na mesma madrugada, retirados da água quase que na mesma hora, aparentemente de idades semelhantes, ambos de origem não paraense. Tive vontade de escrever qualquer coisa, menos sobre a mortes desses pobres coitados.

Afinal de contas, me respondam, que diferença, qual o interesse público, a quem interessa a morte de um zé nínguem? De dois caras que morreram sem nome? Um chamado só de Zé Buduia, ou Bolachão, e outro de Goiano, tendo este último a infelicidade de não ter confirmação nem do apelido. Só a existência de um caderno especializado em crimes e de um jornal com linha editorial voltada a essa temática justificam tais textos.

Antes que você aí acione as entidades de direitos humanos e diga que eu estou pouco me lixando para vida desses sujeitos, explico: não é desvalorização. Só creio que a morte de ambos não acrescenta em nada para o leitor, a não ser para aquelas duas duzias de pessoas que tiveram contato direto com eles em vida. Não estou menosprezando os dois homens.

Ao contrário, por mim, contaria toda a saga de Zé Buduia. Um camarada de uns 50 anos, sem eira nem beira, errante. Enquanto todo mundo nessa idade pensa que vai estar com a vida ganha, gordo com uma família estruturada, carrão na garagem, tempo pra viajar duas vezes por anos e uma amante gostosa, ele não teve essa oportunidade. Viveu por aí, de subemprego em subemprego, pulando literalmente de barco em barco até acabar de cara pra baixo na parte mais podre da baía de Guajará e servir de espetáculo tétrico para homens, mulheres, velhos e crianças.


Porque crianças têm curiosidade mórbida por corpos saindo da água.

Morreu sem nome, distante de qualquer parente, só e triste, embebido até o talo no álcool, afogado entre os barcos no porto Vasconcelos, da Cidade Velha. Por ironia, no último dia de vida, ganhou R$ 218 no bicho, enfim um pouco de felicidade. Porém, o presente de deus pode ter atraído a morte: suspeita-se de latrocínio. Dificilmente, vão descobrir o fim real do homem que tomou um barco no Oiapoque para perder a vida na lama da capital paraense. Afinal, quem se importa com a morte de um miserável, em um ponto miserável dessa cidade, rodeado de miseráveis. Mata um médico, um advogado, um jornalista pereba que seja, pra você ver o que acontece? Contaria essa história, mas não em 1.500 caracteres.

No outro porto, o da Feira do Açaí, na estrada nova, mais um anônimo e nenhuma vontade de escrever sobre aquele passamento desta para uma melhor. O corpo submerso, só os cabelos para fora, foi retirado d'água lá pelas 10h. Rígido feito plástico, sobre o tablado de madeira, matou a curiosidade de centenas de pessoas que foram ali olhar. E foram elas que me despertaram alguma vontade de escrever. Um inferno aquilo ali. Um passa-passa, uma gritaria, som alto tocando tecnobrega, homens tatuados, de barriga inchada e dentes quebrados, tomando cerveja, mulheres gordas de micro-short, carregadores de paneiros, um pandemônio. Muitos risos, comentários jocosos, galhofa, não parecia que tinha um morto ali perto. Era domingo.

Das poucas perguntas que eu tive vontade de fazer, nenhuma seria direcionada a PM ou o Corpo de Bombeiro, envolvidos na retirada do cadáver do rio. Faria para os moleques, que observavam tudo com atenção, num interesse macabro pela morte. Magros, encardidos, a roupa surrada, a cara suja e com cabelos de todas as cores, com todas as pinturas possíveis de uma farmácia. Perguntaria, especificamente para um deles, um menino de uns 11 anos no máximo, com as melenas de uma puta loira:

- Vem cá, moleque. Quem fez isso no teu cabelo? Tu achas que ficou bonito? Por que essa cor 'madona em início de carreira'? Tu mãe já te viu assim? Tu tens mãe? E pai, tu tens? Responde, filho da puta!

Definitivamente, não sou um bom repórter policial.


"Ah, então quer dizer que vou cobrir POLÍCIA no fim de semana, é?!"

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Adelsinho, o paraense

Uma ficçãozinha não faz mal pra ninguem.

Era paraense até a caveira. Não deixava ninguém falar mal da terra onde nascera e cultivara amigos para sempre. Para ele, era ‘princesa louçã’, ‘sentinela do Norte’. Muito mais do que o “impávido colosso”, maior que o “deitado eternamente em berço esplêndido”. Mesmo na casa dos 60 anos, sentia um arrebatamento quando ouvia ‘Belém, Pará, Brasil’, composição de uma época em que não era mais moço e já não dava bola pra novidades musicais. Porém, ainda assim seu Adelsinho lagrimava no “Norte não é com M”.

Engana-se quem pensa que o bruto ficava só na poeira superficial dos adoradores de Nilson Chaves, dos amantes do maestro Waldemar Henrique, dos fãs de Lucinha Bastos, dos balançantes de Mahrco Monteiro, dos seguidores do Arraial do Pavulagem, dos consumidores de ervas no Ver-o-peso, dos freqüentadores da Praça da República aos domingos, dos apaixonados por João de Jesus Paes Loureiro, dos leitores de Dalcídio Jurandir. Seu Adelsinho surpreendia, ia além, era puro coração para aqueles mais de 1,2 milhão de quilômetros quadrados de floresta e água.

Conhecia a razão de ser de cada rua da Cidade Velha. De cada casarão antigo, caindo aos pedaços, guardava uma informação peculiar da família tradicional que ali morara e sabia até o nome do idealizador da construção, não ficando na mesmice de falar de Antonio Landi. No porto, maravilhado com a Baía de Guajará cercando Belém, o paraense lamentava a decadência dos casarios e remetia aos tempos da Borracha. Enchia a própria bola, citando o caso de seu avô cametaense, comerciante de látex que gozou da Belle Époque, metido nos fraques holandeses, nos calçados do Reino Unido e no vuco-vuco com caras putas parisienses. Paraense que é paraense tem sempre uma boa referência lá fora, nem que seja no Rio ou São Paulo. Melhor ainda se for no estrangeiro, pensava nosso herói.

Adelsinho cuspia Pará, cagava Pará, respirava Pará, engolia Pará, regorgitava, ruminava, bebia, arrotava, merendava, suava, perfumava-se, arrepiava-se, embriagava-se, ria, sofria, amava, amava, sentia Pará. Ai de quem falasse em divisão de território. “Nonca, jamais. Tás brencando?” iniciava assim o retruco e partia às bordoadas pra cima de quem se atrevesse a bafejar tal heresia. Certa feita foi à Marabá e se meteu em um porradal interminável com um separatista de braço longo com quem esbarrou por lá.

Roliço e parrudo, moreno roxo, cabelo ruim e poucos pêlos, Adelsinho dizia ser o legítimo paraense, nas palavras dele: feio de pai e mãe, mas cordato, hospitaleiro, festivo e bom de conversa na hora da prosa e de porrada na hora da peia. Seguia feliz, elogiando Magalhães Barata e acreditando em todos os herdeiros políticos do interventor, sem contar ser devoto de Antônio Lemos e conhecer a fundo cada obra do velho intendente. Mas, sabia de cor também as realizações do Lauro Sodré. “Grande nome, grande nome”, pavoneava.
Seu Adelsinho não perdia a chance de contar quem foram todos os grandes vultos do Estado, hoje transformados em nomes de rua, monumentos, praças, estátuas e até denominação de bairro miserável. O paraense sabia tudo, tinha sempre a informação bem calculada e redondinha em discurso pronto. Enchia os ouvidos e o saco dos que ousavam aceitar as primeiras divagações sobre história oficial. Incluía os vultos históricos mais recentes, quando deitava falação, cuidando para não ofender este ou aquele partido, afinal, todo mundo tinha contribuído para chegar no nível de grandeza e desenvolvimento atual.

Tão fanático pela terra natal, o papa-chibé só usava duas cores nas roupas: camisas vermelhas, calças brancas e sapatos azuis. Tudo inspirado na bandeira tricolor do querido Estado. Na rua, não era raro lhe chamarem de ‘merengueiro’, quando voltava da missa na basílica, de manga longa meio bufante e pantalonas apertadinhas à moda Pinduca, outro cantor preferido, junto com Verequete, Lucindo, Cupijó, todos mestres do que ele considerava a oitava maravilha musical, o carimbó.

Para se manter e encher o bucho, o ufanista também radicalizava e só comia o típico: açaí sem açúcar, mapará, vatapá de camarão, maniçoba, caruru, pato no tucupi. Tudo com farinha, da grossa, da baguda, porque a fina era coisa de quem renegava a identidade. Não adiantava nutricionista nem ninguém ameaçar que a repetição poderia fazer mal. Havia 30 anos, Adelsinho insistia na dieta paraense. ‘Enquanto, só prestigiam nossa culinária em festa grande, eu faço questão de dizer que no Pará é tudo gostoso todo dia’, bradava.

Para beber só sucos de cupuaçu, bacuri, manga, muruci e taperebá. E que não chamassem o taperebá de mangaba! Ele enraivecia, jogava o líquido fora e partia pisando forte. A Cerpinha era a única pedida no Bar do Parque, porque era só lá que ele se dava o desfrute para contemplar o Teatro da Paz, o primor de arquitetura erguida para ser morada dos melhores cantores, atores, músicos, artistas do mundo - os paraenses, claro.
Na geladeira de casa, substituía a água por uma mistura adocicada de tucupi, sidreira e capim-marinho. Obsessivo, ele ofertava às visitas como um revigorante sem igual e um hidratante mais potente que H2O. Todo mundo engolia rápido, sem fazer cara feia, para não desagradar o tranqüilo Adelsinho, que se enervava se contrariassem seu amor pelas coisas da terrinha.

Nunca deixou de acompanhar o Círio de Nazaré. Pagou promessa no cangote da mãe vestido de anjo logo no primeiro aninho. Era um predestinado. Católico de várias gerações, de rezar terço, ir em novena, e beijar os pés de cada arcebispo novo que surgia para conduzir o rebanho mais ordeiro, mais obediente, mais temente a Deus do mundo apostólico romano. Ovelhinhas parauaras.

Na véspera do segundo domingo de outubro daquele ano, seu Adelsinho vira a Trasladação bem cedo e voltara pra casa. Descansaria para participar da grande procissão à Nossa Senhora de Nazaré, na corda, puxando a berlinda, como todos os anos. Motivo? E seu Adelsinho precisava de uma causa? Não. Era seu momento. Sofrendo, imprensado com seus iguais, as mãos feridas pelas fibras de cizal, os pés em carne viva com as pisadas dos irmãos e o contato com o asfalto, o paraense era mais paraense. Recriminava quem ali estava para agradecer graça alcançada. Nada disso! Pelo Pará, pela Santinha protetora do Estado, faria tudo, sem pedir nada em troca. Reclamar do calor, do aperto, do sufoco? Coisa de mocinhas frívolas. Paraense de garbo é homem e agüenta calado, sem beicinho e chateação.

Levantou, tomou banho, se perfumou de patchouli, se benzeu antes de sair e lá pelas três já estava com lugar garantido entre os 15 mil promesseiros da corda. Puxou assunto com a turba, defendeu a terra, elogiou tudo que podia, falou da santinha como filho que fala da mãe, reclamou dos romeiros e pagadores de promessa já bêbados, rindo e falando palavrões misturando o que não podia com o esforço de fé. Um acinte!

Começou o cortejo, ruas tomadas. Era a alegria de Adelsinho, multiplicadas em dois milhões de corações. Era Pará aquilo. Puro. Sem retoques, lindo, lindo, lindo. Pai d’égua demais. Velhos, crianças, mulheres, vendedores, negros, pardos, brancos, encardidos. O miserável sujo e descalço e a dondoca de chapelão e raiban andando lado a lado. O caboco interiorano tostado e o padre italiano vermelhão, quase irmãos, rezando o mesmo credo. O paraense era feliz, mergulhado naquela multidão de iguais. ‘Viva o Círio de Nazaré!’. Respondiam levantando a corda. Adelsinho, nos seus 1,60 de altura, levantava mais alto. Viva!

Na subida da Av. Presidente Vargas o velho paraense, começou a pensar na infância, no Marajó, nos búfalos, na morena de seu encanto, na pracinha de Soure, na vinda para Belém, na recusa de sair da capital e partir para outras paragens, na revolta com quem falava mal do seu pedaço de mundo, na aposentadoria próxima, na morte da esposa, tão amada, mas tão resistente ao seu amor no começo e tão reclamona na velhice, pensava no cheiro do tacacá da tarde, no camarão seco, no quanto gostava de tudo aquilo, daquela multidão comprimida rezando e chorando, naquela voz metalizada ordenando “andem, andem, andem, estamos chegando, andem, andem, andem, em breve Nossa Senhora estará na Praça Santuário, andem, andem, andem”, sem sentir que os pés já lhe faltavam, sem perceber o coração enfraquecendo, sem imaginar seu ser último Círio.
Adelsinho caiu já massacrado pelos milhares de pés. Não sentiu o osso do tornozelo partindo, o primeiro, nem percebeu a pressão no rim direito com o peso de uma obesa que estava a duas braçadas atrás. Via a massa lhe fazendo de tapete olhando pro céu e escutando os fogos da homenagem do Banco do Brasil. O vapor, o calor, o zunido de tantos sons embriagavam e confundiam ainda mais naquele delírio real. A primeira dor forte percebida foi de três costelas quebrando com mais um pisão, agora de um morador do Jurunas, ex-presidiário eternamente grato à padroeira pela redenção. Sem seguida, um magrinho lhe pisara o escroto, desviando o pisoteado da alucinação a que se prestava. Soltou um “ai caralho”, já se culpando pela ofensa à Santa. Sem demora, ficou espremido entre o chão e um branquelo corpulento que também caíra.

Adelsinho se confundia com o solo daquele lugar que tanto amava. Dois metros acima, a romaria seguia, sempre em frente, ignorando a despedida patética do seu filho mais amoroso. Viva Nossa Senhora de Nazaré. Viva! Faltava-lhe o ar, a cara já desfigurada, a vertebral partida em três, emitia um breve sorriso, daqueles dados só por quem está vendo os braços da morte. Morreria na glória, tragado pela sua paixão mais fecunda. De certa forma, foi como sempre sonhou. Tentou respirar fundo, sentir a poesia do fim, quando o pescoço partiu nos pés de um trabalhador honrado e católico vindo de Zé Doca , cidade do Maranhão. Por ironia, Adelsinho morreu sem saber que a indesejada das gentes lhe impunha um último algoz da raça que mais detestava. ‘Maranhense só vem pra estragar o Pará’, repetia mil vezes, em vida.