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terça-feira, 14 de julho de 2009

Selvagens da noite na Pedreira

A década de 90 foi marcada pela violência no meu bairro, a Pedreira, como em tantas outras periferias de Belém e de outros centros urbanos brasileiros. A maioria dos moleques conhecidos meus rápido se envolveu em confusão pesada, começando com o ingresso nas ‘gangues’. Dizem que a moda de se juntar em um grupo e confrontar com outros começou bem antes, quando a Globo exibiu ‘The Warriors’ (1979).

O título ganhou tradução no Brasil como ‘Selvagens da noite’ e mostrou para os garotos da minha idade que era muita aventura na veia e legal bagaraio delinqüir, dar porrada, se matar e ter parceiros para viver essas loucuras abrigados em um nome qualquer, como os partidos políticos mais ou menos. Associe o bombardeio televisivo, falta de educação e acesso ao lazer mais pobreza extrema e teremos o que os sociólogos podem chamar de fenômeno social, mas eu prefiro chamar de inferno.
Todo mundo bom de porrada, muito style e entrosado. Como ficar de fora de uma gangue? Ainda bem que não vi o filme e sobrevivi à décaca de 90.
Da brincadeira de botar os rivais pra correr a agressões mais graves foi um pulo. Do porradal para espancamentos brutais, com aleijamento e mutilações, outro salto e bem curto. E da guerra de pauladas e pedradas pra morte não demorou nada. Via aquilo tudo com medo e minha mãe mais ainda. Afinal, era só um moleque e todo mundo acreditava, naquele tempo, que morador de outra área era inimigo. Tanto que passar pelo território da União só por muita necessidade – eu morava na parte dos gangueiros da ‘Terror’.

Sim, na minha época, eram essas duas gangues que incorporavam a besta fera e barbarizavam pelas ruas. Porém, existiam muitas outras menores e de outros bairros, como a ‘Turma da Praça’, um povo perigoso lá da Sacramenta, e os ‘Abandonados’, uma gangue menor meio mancomunada com os ‘terroristas’, da qual um dos integrantes principais morreu na esquina da Trav. Alferes Costa com a Av. Marques de Herval, crivado de balas despejadas não se sabe por quem.

O apelido dele? ‘Descartável’. Muito apropriado, por sinal. Ainda recordo do resto de vela que ficou grudado no chão vários dias depois do assassinato. O moleque não gostava de mim e, de vez em quando, me ameaçava, se valendo da minha ausência absoluta de valentia e do meu físico raquítico. Foi tarde, o maldito.
Pedreira do meu coração. Av. Marquês de Herval, palco de porradarias mil em tempos idos.
Mas, a morte de Descartável, era previsível. Pequeno ainda, ele já era um malfeitor, daqueles de roubar pequenas coisas e não ter medo dos mais velhos. Virou cheira-cola e devia fumar maconha escondido também. Tinha um aspecto feio, desnutrido, um sorriso estragado e um brilho de diabo nos olhos que anunciava morte prematura. Partiu com uns 14, 15 anos, no máximo.

Só que o que precipitou mesmo o apocalipse naquela área do meu princípio de adolescência mesmo foi a morte de ‘Monga’. Eu já era um estudante secundarista, quando desci do ônibus, voltando pra casa, e me abriguei numa mercearia - extinta atualmente - pra esperar um toró bíblico passar. Do nada, uma guerra estourou debaixo d’água bem diante de mim e de quem estava aguardando passar a torrente.

A tarde branca de tanta chuva e aqueles moleques se atirando pedaços de pau, pedras e o que tinha pela frente. Alguns corriam com estacas na mão e ameaçam os rivais de longe, gritando palavrões e o nome do seu grupo. Aquilo ali já tinha caído no descrédito, a picuinha durava anos, com poucas vítimas fatais. Ninguém tinha certeza de que Descartável fora morto por rivais ou por vingança, afinal ele era um cara detestado por muitos e já tinha cometido muitos roubos. A morte dele não estava na contabilidade do conflito entre gangues. Aquela espizinhação eterna era coisa de criança ou dos marmanjos mal resolvidos, pensávamos.

Quando a chuva passou e a briga cessou, fui pra casa. Mais tarde descobri que Monga tinha sido morto no conflito, com um golpe certeiro de pernamanca na cabeça. Traumatismo e perda de massa encefálica. Um dos suspeitos era Quedel, meu vizinho e amigo de infância. Um garoto esperto, veloz, ágil, inventivo, mas meio errado. Nunca soube se foi ele mesmo. O fato é que o colega sumiu no mundo. Fiquei triste com a notícia e só o reencontrei anos depois num carnaval de chuvisco na nossa velha Pedreira. Me apareceu calmo, saudoso e os mesmos olhos puros de criança, mas não conversamos. A vida e a morte nos afastaram para sempre.

No tempo em que ocorreu o crime, os boatos eram os piores possíveis. Monga morava na Santo Antônio, uma ruazinha bem próxima da minha. Diziam que as gangues ofendidas com a morte invadiriam a rua e matariam quem se colocasse na frente; tocariam fogo nas casas; estuprariam mulheres; tocariam o terror. Os moradores contavam apavorados que um assassino disfarçado apareceria a qualquer hora para vingar o morto.

À noite, horas depois do homicídio, sentei com um amigo meu na calçada e comentávamos o ocorrido, as suspeitas, o fato em si, os desdobramentos, quando despontou uma silhueta na entrada da rua. Começamos a especular porque o clima era tenso. Poderia ser o vingador. Tinha cara. Cada vez que se aproximava mais, o medo crescia. A uns cem metros, o homem olhou pra nós e estranhamente colocou a mão pra trás das costas, como se fosse sacar uma arma. Ninguém, além de nós dois, estava fora de casa.

Suamos. Meu deus, era o fim. Íamos morrer por causa do Monga? Putaqueopariu. Mas a gente nunca tinha se metido em confusão. Éramos dois covardes, amamãezados, chamados até de Zé Mané pelos marginais. Fugíamos do contato com gangues como os jogadores de futebol fogem de testes de DNA. Porra, não era justo. Levar tiro por nada, findar a vida numa calçada aos 16 anos, na frente de casa? Definitivamente, aquilo era uma injustiça. Além do mais, não tinha comido ninguém e morreria virgem. Que merda!

Outro filme-inspiração. Laranja Mecânica e os drugues: ultraviolência de mentirinha do kubric.
O desconhecido já estava bem perto. Olhei pro meu amigo e ele pra mim. Interpretei depois o olhar com duas hipóteses: ou estávamos nos despedindo entre si e da vida ou estávamos pensando: “BORA, CORREEEEEEEEEEEEEEEERR”. Ficamos parados de pavor. O homem se curvou pra ser ouvido melhor, porque estávamos sentados. E mostrou a mão, escondida todo esse tempo, completando com a frase: “vocês conhecem o seu Raimundo Sapateiro?”.

Vimos o papel com nome e endereço mostrado pelo inofensivo transeunte. O local que não passava uma agulha descontraiu-se. Respiramos. Demos a informação, o homem seguiu para encontrar, na verdade, o seu China, como seu Raimundo era conhecido na redondeza. Passado o susto, rimos muito e prometemos entrar mais cedo enquanto a boataria sobre a morte de Monga não passasse. Rimos, mas não dava pra brincar. O azar dava as primeiras incertas pela Pedreira naqueles tempos de violência.
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Bons tempos aqueles em que a violência se restringia às brigas de gangue. Hoje a maioria dos moleques esqueceu as desavenças e se uniu para meter o bicho e com o dinheiro fazer a cabeça. A Cidade de Deus é aqui.

13 comentários:

Dani Fadul disse...

Isso rolava aqui na minha rua também,e olha que é no bairro do Umarizal(dito como uns dos melhores de Belém)as galeras que se matavam eram da SV(sindicato da violência) aqui da baixa da 14 de março e a galera da DM(demônios da matinha) que saiam daquele canal ali do lado da Unama...menino essa praça Eneida de Moraes virava um palco de guerra...e quando esse povo voltava da Spectron(putz faz muito tempo), a onda rolava aqui na frente de casa onde os marginais se encontravam...hoje todo mundo virou ladrão e não que mais saber disso, a onda agora é meter o bicho em nós assalariados,pedestres e fumados...hauahuahua...beijomeliga

Anônimo disse...

Na cidade nova o cenário não é diferente.
hehehehehehehe
Tenho pavor quando uma moto ou uma bicicleta encosta perto de mim. Meu coração vem na mão.
=(
Beijos Derson..
Caraca, vejo que tens muitas hitórias de vida engraçada. Além de aprender com teus textos, me acabo de tanto ri.
hehehehehehehe

Nanda Melonio disse...

Menino, e eu que morava na Augusto Montenegro, antes do Tapanã? Tinha um colega que nunca se meteu em gangue, total paz e amor, e foi pego de laranja de noite por uma delas. Morreu espancado de graça. =(

Enfim, mas lembro da gurizada da escola, nos idos da 5ª/6ª série, imitando letras de pichação nos cadernos e dizendo que fazia parte desta ou daquela gangue, achando que estava com a maior moral por causa disso. Tsc tsc...

Anderson Araújo disse...

Muito sangue e porrada na city.

1) Porra, Dani me lembraste da Spectrum. hahahahahahaha. Virou Zodiac depois, né? (Ou era esse nome antes?).

2) Anônimo, valeu pela visita. Volte sempre. Se der, divulgue a outras pessoas o blog. hehehe Que bom que você tem senso de humor. Nem são histórias engraçadas. São tristes. mas eu reclamando da vida rindo. é mais divertido.

3) Rolava mesmo essa identificação com as gangues, Nanda. Na escola era assim. A gente identificava essa galera como pixadores. Sempre eram pegos pela PA (Policia da Aeronautica), perto da escola. Levavam bolo dos guardas e voltavam pra casa tudo pintado. hahahaha. Bem feito.

Anônimo disse...

Pode deixar que vou divulgar. De certeza. E continue postandoo. Já tô aqui na espera.
hehehehehe
Adorooooooooooooooo...

Nanda Melonio disse...

Sim, os pixadores! Que merda, cara, pq adolescente costuma ser um bicho tão idiota? Pior, a gente só percebe isso qd saiu da adolescência! Bem, pelo menos percebe... Isso quando!

Dani Fadul disse...

Isso mesmo, era spectron e virou zodiac...depois virou spectron de novo...huahauahua...

Carapirá da Ceasa disse...

Cara, eu lembro, ale´m de muita briga, tinha muita pichação emporcalhando o bairro. Eu até pichei algumas vezes antes de um amigo meu se apanhado e pintado pela comunidade e obrigado a limpar os muros. Aí encerrou minha carreira de pichador de muro para pichar a honra dos outros e agredi-las através dos meios de comunicação.

Nega disse...

"Além do mais, não tinha comido ninguém e morreria virgem. Que merda!"

Muito injusto né?!

"Bons tempos aqueles em que a violência se restringia às brigas de gangue. Hoje a maioria dos moleques esqueceu as desavenças e se uniu para meter o bicho e com o dinheiro fazer a cabeça."

Quando eu comecei a ler o texto, pensei exatamente igual. Bons tempos em que as gangues se resumiam a isso. Também moro em bairro de periferia, coqueiro-una, e eu ja vi 2 amigos meus serem enterrados em menos de 1 ano. Média de 20-24 anos. Juvenis, ladrões, drogados, a vida virou uma grande banalidade, ou para eles nunca deixou de ser.

Bjs,
Nega

Rodolfo Moura disse...

hahahahah pior que isso ocorria em toda Belém...

CE cãe de Elite X Elite era um exemplo disso td láaaaaaaaa no Tapanã..


gostei do blog..

abraço!

Rodolfo Moura disse...

isso era em td Belém

CE cãe de Elie X elite.. por exemplo.. láaaa no tapanã...


gostei doblog

Anônimo disse...

QUANDO COMECEI A PICHAR,EU CONHECI ALGUMAS PESSOADE LÁ DA PEDREIRA COMO O JUCA,PIF,FOGO,BALA,MANO,A PÉ,CAPETA,NO COMEÇO ERA MUITA AMIZADE,UMAS HORAS EU ESTAVA LÁ NA PEDREIRA,NO RALF,ALI ER4A NOSSO PONTO DE ENCONTRO,ROLAVA DE TUDO,NA MAIOR CARA DE PAU,PARTINDO DAI,EU LOGO ENVENTEI UMA TURMA Q POR SINAL FORAM RIVAIS POR MUITO TEMPO,GANG DA C.P,CARAS DE PAU,TUDO ERA FEITO NA MAIOR CARA DE PAU MESMO,MEU NOME ERA SHOW DA BAN,FUI MUITO CONSIDERADO NO MEIO DELES POR PICHAR MUROS DESPINTADO,FUI LIDER DESTA GALERA POR ALGUM TEMPO,DEPOIS PASSEI O CARGO PRA OUTROS COMO BRIZA E FAQUI,COM A ARRUAÇA DESSES 2,ALGUNS DE NÓS SOFRIAMOS QUANDO IAMOS PARA O COLÉGIO IDEAL,MODERNO,PARAENSE,O PESSOAL DA TERROR ERA MESMO RIVAL DA CP,GRAÇAS A DEUS QUE NÃO MORREU NINGUÉM EM CONFRONTO COM ELES,A NÃO SER NO T-1 NA MARACANGALHA,ESSE CLUBE FOI PALCO DE MUITAS DESAVENSAS ENTRE NOS,PORQ ERA FRONTEIRA COM SACRAMENTA E PEDREIRA,GRAÇAS A DEUS QUE HOJE ESTAMOS VIVO,E EM PÉ PAQRA CONTARMOS GRANDES VITORIAS,GRANDES AMIGOS NÓS NÃO ESQUECEMOS NUNCA,COMO PIF,JUCA BADMIC,PÔMEU,VANDALO,TALVEZ VC DEVE CONHECER ESSE JUCA DA TERROR,SE VC SABE POR ONDE ELE ANDA,OQ ELE ESTA FAZENDO DA VDA,VC SABE ALGUMA COISA,PODE MANDAR UM RECADO PRO MEU ORKUT,PANTOJAO360@HOTMAIL.COM,EU ACEITAREI COM MUITO CARINHO,MUITO OBRIGADO.

Anônimo disse...

Aki na pedreira também nos anos 90 tinha mta rivalidade entre duas gangues a B.i (bandidos do inferno) e a T.B (turma dos brutos)a visconde fou um palco de mtas guerras.