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segunda-feira, 6 de julho de 2009

Toma aqui os 50 reais

A história reúne seres repugnantes, desprezo à vida do próximo, acessos de fúria e muito asco. Não, ainda não contarei como sobrevivi a uma horda de zumbis comedores de miolo nas ilhas encantadas do Marajó. O papo é outro, com mortos-vivos muito piores.

Refrigerantes custam, em média, R$ 1,50 a garrafa.

Era final do ano em 2007 e as eleições 2006 ainda davam o que falar. Principalmente, nos tribunais eleitorais. Ministério Público afiado na caça aos bobinhos e muito nego sendo enquadrado. Nesse clima, numa sexta-feira perto do Natal, fui acionado para ouvir a versão de um deputado federal, condenado pela Justiça Eleitoral por comprar voto esterilizando mulheres miseráveis no seu curral eleitoral. Cabia recurso.

E ele recorreu e queria expor publicamente para limpar sua barra. Dada a ordem da chefia para fazer a materia, li muito rapidamente o fax com os argumentos da defesa e parti para o hotel onde o entrevistado me aguardava. Com o latinório embolado dos advogados já dava para produzir o texto e com um simples telefonema poderia pegar uma declaração do ilustre. Mas, queria o safardana um repórter para ouvi-lo pessoalmente. Fui, portanto.

Na chegada do hotel, onde o deputado estava hospedado, meu alerta aguçou: um assessor me aguardava, com visível ansiedade, no hall de entrada. Cumprimentos e apresentações formais, o sujeito pede pro fotógrafo e eu subirmos até o apartamento onde o deputado estava hospedado. Alguma coisa estava errada. Pensei na hipótese de pederastia, mas não corriam boatos desse gênero em torno do parlamentar, nem acreditei que pudesse ser vítima de tal proposta. Descartado o risco, entrei no elevador.

Enquanto subia até o décimo andar, continuava com a incômoda sensação: por que ele não desceu pra dar a entrevista? Abriu-se a porta. No quarto, o entrevistado e outro assessor aguardavam. De paletó pra sair bonito na foto, o malandro oficial começou a encenação da sua inocência.

Como era apenas repetição do que já conhecia, não levei um gravador e fiz apenas perguntas básicas. Era somente um complemento. A matéria estava pronta na minha cabeça, bastava ouvir as sabidas mentiras do calhorda, neste caso, asseguradas por um direito de resposta. Fim da conversa enfadonha, um amontoado de desculpas furadas e evasivas. Na matéria deixaria fora meu juízo de valor, mas conclui como merecida a condenação. Um sujeito daqueles com certeza não estava na política por suas boas intenções ou préstimos à sociedade. Pena não ter sido naquela vez o extermínio do verme pela Justiça, pensei.

Na despedida, ele confirmou sua índole, mostrando que o vício do cachimbo realmente entorta a boca. Sem a menor cerimônia, puxou uma nota de 50 reais e disse: “muito obrigado, meu filho. Pegue aqui para tomar um refrigerante”.
Oferta parlamentar a repórter: jornalistas desvalorizados até na tentativa de suborno.

Não acreditei. O fotógrafo, pasmo, virou de costas, numa reação típica de vergonha. Senti um silêncio doído, que só sinto na constatação de uma tragédia, um prenúncio de tristeza irreparável. Respirei. Um segundo pra me recompor, segurar a vontade de mandá-lo pro inferno e de lhe dar um direto no meio da cara safada. Recusei a proposta imunda, mais ou menos nestes termos: “o senhor não me deve nada. Estou fazendo meu trabalho, guarde seu dinheiro”. Então, as vozes dos assessores e do entrevistado se misturaram: “Não, não entenda mal”, “aceita, que isso”, “pega logo, não precisa ficar com vergonha”, "não faça essa desfeita" e até um “que bom, você é honesto”.

Minha reação foi sair o mais rápido possível do recinto e contar o ocorrido na matéria. Queria um computador urgentemente. Mas, não havia provas, não gravei nada, o fotógrafo também não fez nenhum registro. Seria minha palavra contra a do marginal. Me convenci de que não tinha como me vingar. E, pelo visto, comprar briga com um bandido daquele naipe não seria bom pra saúde. Mantive-o fora do registro no jornal, como deste aqui também. Engoli, resignado aquele sapo azul de podre, de terno e gravata, temperado a pus e tapurus.

No elevador, olhei pro meu parceiro de trabalho. Estávamos de jeans, camiseta e tênis. Dois legítimos representantes de uma categoria que ganha mal, dois frutos da periferia que chegara ao jornalismo. Mal vestidos, sim. Me senti um mendigo. Pensei que se estivéssemos elegantemente arrumados, fóssemos brancos de olho azul, a oferta seria maior ou não haveria o contrangimento. Uma coca-cola muito mais cara, pensaria o político pilantra.

No carro, na volta pra redação, comentamos o absurdo. Eu refletia sobre como estamos cercados com a corrupção, como estamos mal representados, como minha profissão esfrega a realidade nua e cruel na minha cara, como infelizmente não esmurrei aquele desgraçado. Alheio ao problema e bem humorado, o motorista soltou a pérola: “porra, 50 reais? Se ainda tivesse oferecido uns cinco mil ou até 500... já aliviada a pindaíba do fim de ano”. Rimos. Pra não chorar.

9 comentários:

edson coelho disse...

anderson, um filho-da-puta também já tentou fazer isso comigo. pior: o cara confundiu com habeas corpus alguma relação que tinha com o ronaldo maiorana. ignorou: ele ofereceu a grana e o mandei enfiar no rabo. uma delícia - para mim e, quem, sabe, também para ele. arrggg.

Fábio Nóvoa disse...

Eu sei como você se sentiu, cara. Quando fui setorizado na Assembléia Legislativa, umas quatro vezes me ofereceram dinheiro para sair matérias. Eu recusei e disse que só precisava de boas informações. O problema é que se você aceita, você fica na mãos desses caras. Eu quero distância dessa gente.

Abraços,

Fábio Nóvoa

Anônimo disse...

De fato, é rir para não chorar. Eu, ao contrário, tive meu dia de não jornalista e de fotógrafa amadora. Fui entrevistar uma deputada em Brasília. Cheguei atrasada, porque esqueci que havia engarrafamento; esbaforida, a Câmara é enorme e até descobrir o gabinete, já viu; sem papel; sem caneta; e, por último, ainda pedi pilha para a máquina de fotografia. Pilha que o assessor tirou do controle remoto da TV. Essa era honesta, não me ofereceu nada além do que pedi. Só não lembro se devolvi as pilhas, caramba. E eu sou honesta, juro, só um pouco atrapalhada, kkkk

Anderson disse...

É, coelho e nóvoa, o lance é sério. essa profissão é um abraço pra quem quer se sujar e um campo minado pra ainda acredita em valores. foi trash isso. demais.

obrigado pela visita, rapazes. anônimo valeu tb.

abraços.

alexandre VT disse...

Um refrigerante de 50reais que nao ia nem pra matar a fome,só ia almentar o "cancer" em que nossa sociedade "vive". Quem são os verdaderos mortos vivos?

Anderson disse...

é meu filho. tem muito zumbi por ai. muito mesmo.

carapira da ceasa disse...

Quandfo comecei aceitei R$20 de um vereador em Marituba pra citar o nome dele numa materia sobre futebol amador. Meu chefe na epoca so faltou me bater por eu aceitar shein com um discurso da moral e honra do jornalista.Resultado, aprendi a lição. Hoje ele e outros politicos e empresarios têm pavor de mim. Não aceito menos de R$500. Viva o shein e as contas pagas. Ah, o fim do aluguel e a troller quitada.

Anderson Araújo disse...

Porra, Carapirá, tu é muito sheinzeiro. hahahahahaha.

Nega disse...

O anormal hoje é você ser honesto.

Triste hein.

Já vi gente tentando subornar a PRF com 50 reais, véi HAUhauHAUhauhUAHuahUAHuahU


MORRI!

x.x