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terça-feira, 21 de julho de 2009

O Belo, o Mau e o Feio no Carnaval

A existência humana é precária. O homem está na terra não tem muito tempo e desde o início se bate para permanecer aqui, tropeça em si mesmo, esquece que bom senso deveria ser item de fábrica de todo mundo. Como diz o Tutty Vasquez, temos vocação para meter o pé na jaca. Ainda assim tem gente que jura estar acima dos percalços, teima em ignorar a condição de homo sapiens, faz do próprio umbigo um Grand Canion, do espelho a sua Helena de Tróia e da vida um imenso horário eleitoral gratuito de si mesmo.
Vai me dizer que você não conhece aquele camarada que faz questão de arrotar o Curriculum Vitae em qualquer conversa trivial ou alardear como comeu três ex-Rainhas das Rainhas ao mesmo tempo ou atravessou sozinho o deserto de Atacama ou insistir que leu 250 livros por ano ou propagar que acabou de acabar o curso de PHd sobre a influência do hermetismo alemão na venda de raspa-raspa pelas ruas de Constantinopla ou ainda aquele que diz identificar a safra do vinho apenas cheirando o bafo de quem bebeu?
Procuro me distanciar destes tipos. Não por raiva ou qualquer outro sentimento violento, como o desejo de dar um murro com soco inglês em cima da boca do sujeito quando começa a encher o saco - ok, só de vez em quando. Geralmente, não fico zangado. Apenas salto de uma crise incontrolável de riso para uma tristeza profunda por saber que o mundo está cheio gente assim.
Mas, a vida é uma caixinha de surpresas e quando menos se espera você está cercado. Foi assim no carnaval passado. Queria apenas sossegar com meu amor na ilha do Marajó. Reservei vaga na Pousada Ventania, em Joanes, e partimos. Quase cinco dias de pernas pro ar, contemplando a natureza, fazendo juras de amor e sexo selvagem e enchendo a cara numa boa. Ah, que beleza. Ninguém contava com um grupo de críticos de arte-cineastas-poetas que estava no local refletindo sobre estética, hermenêutica, dialética e sobre quem veio primeiro: o ovo esquerdo ou o ovo direito.

O Marajó não espera o grupo de intelectuais no carnaval 2010.

Alguém já disse que só os chatos são inteligentes no café da manhã. Jurava que todo mundo sabia disso, mas vi que não. No primeiro dia que encontrei o trio, a mulher falava sobre a palavra na copa/cozinha do hotel. Sim, a "palavra como conceito", a “palavra-símbolo”, aquele papo todo de que "no princípio era o caos e o verbo colocou ordem em tudo"; e como era importante a palavra para "construção e desconstrução da civilização ocidental"; como a poesia era a arte pura da palavra; que tudo era palavra, palavra pra lá, palavra pra cá, teleco-teco, balaco-balaco, ziriguidum; o importante era dizer muito com pouco, mais é menos.

Olhei minha namorada nos olhos e me reconheci naquele olhar. Não, não estávamos falando de amor. Estávamos contendo a vontade de mandar aquela maldita calar a boca. Pera lá, mermão. Oito e meia da manhã e a sujeita teorizando. Essa hora não consigo nem decidir se escovo os dentes ou lavo o saco primeiro. Sentei à mesa comum - sim, não tinha jeito, todo mundo no mesmo lugar. Me concentrei na comida e identifiquei o líder. Dava pra confundi-lo com aspirante a cover do Los Hermanos, mendigo de porta de igreja ou mulçumano fundamentalista. O cara tinha mais opinião do que estudante de Jornalismo em debate sobre a obrigatoriedade do diploma.

De camisa hering surrada, calça comprida de sarja; sandálias de dedo; mochila velha; livro propositadamente aberto mesmo enquanto mascava o pão, o raapz se vangloriava : "sim, vejam só, ela era minha fã. Miniha fã! Dizia que adorava meus textos, que colecionava tudo que eu escrevia; que me tinha como um mestre, quase uma paixão platônica, vejam só. Me adorava, sem nunca sequer ter falado comigo; só pelo que lia no meu blog. Tenho centenas de fãs assim". Fiquei intrigado. Sou um cretino mesmo, porque avaliei se, de fato, a figura era alguém conhecido. Sei lá, vai que é um escritor, um ganhador do Nobel. A pousada era conhecida por receber autoridades, príncipes europeus até. Vai que estava diante de uma sumidade. Mas, não era. Era apenas alguém querendo ser uma e seus parceiros fingindo que acreditavam.

A mulher era comprida - e desarrumada, milimetricamente, para parecer despojada - ouvia aquela palestra particular com ar de maravilha. Não tanto quando o outro rapaz, barbado também com o mesmo estilo de roupa. Mão no queixo, sorriso bobo, suspiros e mais suspiros diante do ídolo. Pestanas piscando velozes. Por pouco, não vi os coraçõezinhos acima da cabeça do apaixonado. Sim, o intelectual tinha um séquito. De duas pessoas, mas tinha, ora. Tinham sotaque do Sudeste, talvez fossem paulistas.

Mais tarde vi os três na praia: todo mundo empacotado. Ninguém cogitou a hipótese de vestir roupas mais leves como os reles demais freqüentadores. Livros nas mãos, gestos medidos, interpretando uma cena de filme francês na areia quente marajoara, foram passear. Voltaram pouco depois, com cara de tédio. O clima não ajudou a compor os personagens. Mas, tarde quando minha namorada teve que ir até o quarto buscar o protetor solar, voltou rindo, contando a nova presepada do trio Los Angeles: um micro-sarau com o comandante lendo Clarice Lispector em voz alta para os outros dois que se fingiam de analfabetos debaixo de um sol escaldante.

Na manhã seguinte, novo café da manhã, novas lições ditas em voz alta para que ninguém num raio de 500 metros pudesse se privar de tanta sabedoria. O cabeça soltou a frase que iria marcar todo o ano de 2009: “eu, como artista, busco o belo”. Acho que estava se referindo ao Belo, ex-namorado da Viviane Araújo, preso por envolvimento com drogas mais perigosas do que os pagodes gravados pelo cantor.

"Eu, como artista, busco o belo".

Entre um gole na xícara de café com leite e uma mordida no pão com ovo, o crítico-poeta-cinesta-cientista-social-agitador-cultural-intelectual vomitou, muito excitado, a sentença: "tenho um filme, elaborado por mim mesmo, que tenho certeza que só EU posso executar. Ninguém mais pode. Só eu". Quer dizer, Martin Scorcese, Steven Spielberg, Steven Soderbergh, Francis Ford Copolla, Fernando Meirelles, Danny Boyle, Sam Raimi, Peter Jackson, ninguém, absolutamente ninguém conseguiria dar vida à idéia daquele gênio perdido na Amazônia.

Mas, a cartada final estava por vir. No último dia, por um acaso, reuniram-se na cozinha quase todos os hóspedes, incluindo um lingüista alemão, com a esposa, filho e mais uma família de índios, que acompanhava o estrangeiro pra lá e pra cá.sim, a pousa é muito cosmopolita. Rápido os notáveis começaram um diálogo, uma disputa silenciosa e inconsciente, para ver quem era o mais sábio, o mais Ozymandias, o mais mestre dos magos de todos.

O alemão venceu. Depois de perguntado por uma hóspede quantos idiomas falava, ele sorriu o sorriso da vitória e com um leve sotaque proferiu: “falo o alemão, o português, o inglês, o espanhol, o italiano e o francês. Mas consigo ler e escrever qualquer língua do mundo”. Silêncio. Alguém disse baixo “nossa”. Não estava mais ali o poeta. Uma pena ter partido antes. Finalmente, ali estava um adversário de peso para confrontá-lo.

Depois da declaração, peguei meu amor pelas mãos e sai. Cumprimentamos os mutantes com risadas disfarçadas para parecer cordialidade. Nosso canto não era ali, naquele pedaço mega-povoado de superdotados. Cansados do falatório, fomos namorar. Nada de retórica, nada de disputas cerebrais. Trancamos a porta do quarto e o mundo ficou lá fora, esquecido. Mais uma vez nos entregamos à brincadeira na qual pensar é o que menos importa. O carnaval foi excelente: Marajó, aconchego, minha amada e muitos motivos para rir.

3 comentários:

Érika disse...

o post mais encantadoramente apaixonante e divertido!!
Pelo menos dessa vez nos demos bem no Marajó! Nem eu me quebrei nem tu tiveste revertérios!!
Tudo foi perfeito! Sem nem titubear, foi uma das melhores viagens q já fiz! Primeiro pelo fato de ter ido contigo, ter tua companhia e teu amor comigo e segundo pq foi divertido pra caramba e os poetas paulistas paus no c* só fizeram ficar mais divertido!! Eles mal sabem, mas fazem parte da nossa história!!
Amo você!!

Anderson Araújo disse...

Ai, ai. isso que eu chamo de comédia romântica, baby. rsrsrs. Te i love tou demais.

Nega disse...

Ah, *suspiros* os paulistas.

Marajó é um encanto. Quero casar lá.