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terça-feira, 7 de julho de 2009

Mundo cão particular

O Jornalismo não é engraçado. Até é, mas não na essência. A sisudez vem muito de quem faz o jornalismo. Geralmente, é gente sem senso de humor, que se leva a sério demais e que acredita que seriedade está diretamente ligada a uma cara emburrada e a tratar o semelhante na patada. No núcleo do jornalismo, tem 30% de faro para o erro alheio, 30% de tragédia, 30% de drama e nos 10% restante cabem o êxito, a glória, o sucesso e o heroísmo de alguns poucos eleitos, além das notícias sobre quem está pegando quem.
Gente fina, elegante e sincera: Casoy, ícone do jornalismo sisudo.
Eu rio todos os dias do jornalismo e dos jornalistas, inclusive - e principalmente - de mim mesmo. Dificilmente, dou a honra de alguém me sacanear antes que eu mesmo faça isso. Mas, em suma, o jornalismo não é engraçado.

No dia a dia, se percebe que lidamos com o grave, o extremo, a dor, mais com o choro do que com o riso. É barra. E a ala dos que lidam com assuntos mais leves não é vista com bons olhos: jornalista bom é aquele que engole maldades do café da manhã e vomita uma manchete cabulosa antes do almoço, preconizam os bambambans.

Depois do colunismo social, talvez o editoria de polícia seja a pior área para estômagos sensíveis cumprirem a função, sobretudo, na reportagem, onde o fato se esparrama diante dos seus olhos e o sangue espirra no bloco de anotação. Menciono o tema, porque lembrei da pior "ronda" que fiz.

Hoje cubro assuntos ligados à economia e política, mas já visitei muita delegacia e fiz alguns 'corpos no local', como chamam os cadáveres ainda frescos não recolhidos pelo IML, prontinhos para estampar as capas dos cadernos de sangue do dia seguinte – a Justiça já proibiu, mas ainda acontece. De vez em quando, aos fins de semana, quando o azar me acha na escala de trabalho, retomo a função.

A pior das matérias foi feita na época do Diário do Pará. Não pelo crime em si, nem pela visão do cadáver estirado em uma rua do centro de Ananindeua, na Grande Belém, em um domingo qualquer. Era um taxista, mais de 60 anos. Foi assaltado e morto sem piedade. Um rombo grotesco na nuca. Sinal de morte gratuita, com disparo feito com a arma colada na cabeça da vítima. Estava escanchado, de peito pra cima, perto de um poste de luz. A boca aberta, o sangue empapado, o jornal velho mal cobrindo o rosto. Os assassinos largaram o corpo ali e levaram o veículo.
De vez em quando o azar me chama e tenho que ir pra rua.
Cheguei, vi a multidão de curiosos mórbidos, furei o bloqueio e alcancei o oficial da PM, que tomava as primeiras informações para ajudar a civil na investigação. Perguntei o que houve, o capitão fez um relato curto, constrangido, parecia mal relatando os fatos. Depois entendi. Ele disse: 'os filhos dele estão ali'. Apontou para dois policiais, que eu logo visualizei na multidão.

A expressão dos fardados era única. Nenhuma daquelas mulheres fofoqueiras, nenhum menino sem mãe, nenhum bêbado, nenhum morador da área, nenhum transeunte guardava aquelas feições. Eram duas estátuas de ódio. Cabeça inclinada para frente, apertavam o quepe com toda força e olhavam fixo o corpo do pai, os olhos vermelhos, sem lágrimas, as faces petrificadas e as têmporas retumbando.

O capitão contou que os dois foram apanhados de surpresa. Estavam de serviço fazendo o policiamento da área, quando foram acionados sobre o corpo de um taxista depositado em via pública. Chegando ao local, os dois soldados se depararam com o homem que os criou e mesmo depois de velho trabalhava atrás do volante para se sustentar.

Respeitei aquele silêncio. Eram dois torturados, sem acreditar no que tinha ocorrido. Voltei impressionado com a infeliz coincidência para os filhos-soldados. Escrevi a matéria e ela foi perdida na edição no meio de tantas outras. Três dias depois, encontraram dois corpos mutilados em um ramal, no município de Benfica, uns 60 quilômetros de distância da capital.

Os homens foram esfolados vivos, espancados de todas as formas possíveis, escalpelados e tiveram pés e mãos cortados para dificultar a identificação. Nenhuma informações sobre quem havia cometido o duplo homicídio.

O editor, muito mais velho e mais experiente, sugeriu quando contei a história: teria o crime relação com a morte do taxista? Não seriam os cadáveres dos assassinos do trabalhador agora vingado pelos filhos policiais? Não mencionei na nova matéria as suposições, mas não duvidei da vingança dos PMs. A impressão que tive naquele dia é que tinham ira e força pra matar até os 300 de Esparta se soubessem quem tirara a vida do velho pai.

Post dedicado à minha amiga Taináires, do
Nécessaire.

2 comentários:

Nega disse...

chato isso :/

chato e triste.

. disse...

Durante algum tempo eu gostei muito de cobrir polícia.
Me embruteci.
Depois que a Dalila nasceu, eu jamais conseguiria fazer Polícia de novo...
Sabe, lendo esse texto, lembrei de muita coisa escrota... que dor...
Vida estranha essa nossa, né?