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sexta-feira, 3 de julho de 2009

Manual do entrevistado

Existem centenas de manuais de redação. Eu mesmo andava com um no bolso logo quando comecei a trabalhar em jornal. Mas, poucos entrevistados tem a sorte de ter orientação na hora de encarar um repórter diante de si. É fácil, por sinal. Basta usar o bom senso.

Vi a atualização do blog da minha sobrinha postiça, amiga e parceira de mesa de bar, Tainaires, o Nécessaire, e numa conversa bem humorada no MSN listamos algumas dicas a quem concede entrevista. Todo mundo pode contribuir com itens nos comentários. Aos "normais" - os não-jornalistas - sugiro aproveitar, porque é de graça. Uma assessoria de comunicação cobraria os olhos da sua cara mais três rins e dois fígados para lhe dizer o que é preciso fazer. Vejam:

1) Não pegue no repórter. (Grifo meu: tirando o lendário poeta e jornalista Raul Tadeu, repórteres ouvem razoavelmente bem. Não precisa usar o tato para se explicar).

2) Apenas fale. Não precisa achar que o repórter não vai anotar o que você está falando. E outra: não adianta falar pausadamente, como se o seu interlocutor fosse retardado. Desista. Suas palavras não serão reproduzidas letra por letra, como você acredita ser melhor.

3) Não fique tentando decifrar os garranchos do repórter, seu enxerido. Quase sempre são anotações mentais incompreensíveis que só ele - e às vezes nem ele - vai entender.

4) Ou confie no repórter ou não dê a entrevista. Se for pra ficar achando que o jornalista na sua frente não vai dar conta do assunto, mande ele embora. Melhor do que tratá-lo como um imbecil.

5) Nunca prometa que vai atender o repórter em determinado horário se você não vai conseguir cumprir. E se ele se atrasar, você não tem o direito de reclamar. Estamos com outras pautas ou então a culpa deve ser do motorista.

6) Não fale demais, apenas o necessário. A gente só quer saber do seu trabalho. Nada de ficar dando detalhes de sua vida pessoal.

7) Nunca queira mostrar ambientes. Se trabalha em um hospital, por exemplo, eu não quero conhecer a enfermaria.

8) Se você tem uma informação importante, traga pra entrevista. Não vá prometer entregar depois. Isso atrapalha muito e atrasa a produção do texto. Desculpas como “mando pro teu email” não colam.

9) Não pergunte quando a matéria vai ser publicada. Ela pode ser publicada hoje, amanhã, daqui a uma semana ou simplesmente ir pro lixo. Quem decide não é o repórter.

10) Nunca. Mas, nunca mesmo, ofereça dinheiro ou qualquer tipo de compensação pro repórter. Isso é deprimente e antiético. O jornalista está apenas fazendo seu trabalho e ganha pra isso no final do mês, embora que uma merreca.

11) Nunca dê em cima das repórteres, principalmente se for velho e ela tiver metade da sua idade.

12) Se tiver mau hálito, mantenha uma boa distância ou use enxaguante bucal antes de começar a falar. Repórteres têm olfato aguçado.

13) Se a matéria foi desfavorável, não ligue para ameaçar o repórter. Ameaça é crime e ele provavelmente tem pouco a ver com a forma que suas palavras foram publicadas. Ameace o dono do jornal ou o editor.

14) Se a matéria foi favorável, não precisa ligar pra elogiar ou mandar presentes (vide o item anterior). O repórter só está fazendo seu trabalho.

15) Se for bandido e estiver sendo registrado em uma matéria policial, esqueça a cara do repórter. Ele, como você, é apenas um profissional fazendo seu trabalho. (vide item sobre ameaças).

16) Se for artista, muito famoso, guarde seu ego no bolso e converse como uma pessoa normal com o repórter. Nada de pitis e agressões gratuitas. Se for artista, pouco famoso ou em ascensão, não encha o saco pedindo um “bom destaque”. Quem dá destaque é o editor. Procure-o e peça.

17) Se for político, minta menos. Em caso de denúncias, mostre provas. Em caso de escândalos, não fuja das perguntas nem mande seus seguranças atirarem contra o repórter nem meter a porrada nele.

18) Em hipótese alguma peça pra ver o texto antes. Primeiro, porque é sinal de que você é um mala desconfiado e segundo é resguardado ao editor da matéria ver a reportagem em primeira mão.

19) Repórteres sempre andam mal arrumados e com sapatos sujos de lama. Não olhe para eles como se fossem bandidos.

20) Não fique com frescura de dar seu celular ao repórter. Ele só quer profissionalmente. Não vai ligar pra saber se você está bem ou quanto foi o jogo do Brasil. O número poder ser útil, inclusive, pra não sair nenhuma informação errada.

21) Se o repórter cometer uma gafe horrenda como trocar seu nome, o veículo em que trabalha, tocar seu peitinho sem querer, cair na sua frente como se estivesse bêbado, releve. Errar é humano. Não parece, mas repórteres são da mesma raça que a sua.

14 comentários:

Anônimo disse...

Adorei
Gente será que vai pegar muito mal eu imprimir váaaarias cópias e entregar no início de todas as entrevistas que fizer daqui por diante?

Rita Soares

Anderson disse...

A gente podia imprimir numa camiseta e usar como uniforme de trabalho, né, não?

Anderson disse...

Iza, acho que burramente exclui teus comentários. :S

Oh, meu deus! (posta de novo? Obrigado pela visita).

wildchild disse...

Sim, senhor, senhor repórter!

Podia chamar os não-jornalistas de trouxas, como os que são não-mágicos.
pelo q se vê, é o q são!
A dica pra bandidagem foi a mais bem bolada> "como você, apenas um profissional!"
heheheh!!
Show!! E pensar q não bastassem as matérias malditas das férias, do círio e as vingativas, o repórter ainda tem q aturar entrevistado mala!
Vcs merecem o próximo nobel da paz!
Fica aqui meu voto de solidariedade!

heheh!!
Bjooo!!

Anderson disse...

Ize, obrigado pela visita. Sou assessor também. Talvez o caso dos o assessores rendam um próximo "manual" do assessorado. quem sabe, né.

Abraços.

Volte sempre.

J.BOSCO disse...

Show de bola o novo cabeçalho do blog...rsss
beleza Anderson!
abraços

Anderson disse...

feito a quatro mãos. Bonito, né. acho que estava faltando beleza. por isso pus uma pin-up. diliça.

Dulcivania Freitas disse...

"Nunca. Mas, nunca mesmo, ofereça dinheiro ou qualquer tipo de compensação pro repórter. Isso é deprimente e antiético"...Nesse item aqui, sugiro explicar bem devagar e com paciência pra o entrevistado o que é ética no jornalismo, mesmo que o próprio repórter não se empenhe em aplicá-la ou defendê-la.

tá massa o manual, esse não deforma..eheehehehehee

Fábio Nóvoa disse...

Hahahaha. muito bacana, Anderson. Eu só discordo da 7. Se quiserem me mostrar a enfermaria, eu topo. Quem sabe o que guarda de interessante para a reportagem alí?

Abraços,

Fábio Nóvoa

Anderson disse...

muito boa as contribuições, minha gente. Essa da enfermaria partiu da tainá. Eu tb não tenho nada contra dar uma olhada nas enfermeiras. ops. na enfermaria, digo.

Anônimo disse...

Como diria Mauro Neto: "poooooo, moleque, e se a manchete do jornal estiver na enfermaria?". Bola fora de Tainares. Visita às enfermarias, celas superlotadas, becos mal afamados e tals. A notícia está lá e não nas salas perfumadas.

Dedé Mesquita

Anderson disse...

o problema é quando não tem nada pra mostrar e mesmo assim o entrevistado faz questão de chamar pra visitinha. acho que era nisso que minha sobrinha pensava na hora que colocou esse item, dedé. heheheehe.

mas, a gente entra sim em enfermarias. as do pronto socorro estão bombando, por sinal.

Anderson disse...

o problema é quando não tem nada pra mostrar e mesmo assim o entrevistado faz questão de chamar pra visitinha. acho que era nisso que minha sobrinha pensava na hora que colocou esse item, dedé. heheheehe.

mas, a gente entra sim em enfermarias. as do pronto socorro estão bombando, por sinal.

Nega disse...

Atrasos são injustificáveis.

Sem mais.