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quinta-feira, 9 de julho de 2009

Entrevista com o além

O bom de ser jornalista é a diversidade de pessoas que temos contato. Já conversei com tipos diversos. Nesse pouco tempo exercendo a função, topei com políticos, artistas, cientistas, ambientalistas, mentirosos de todos os naipes, economistas, pescadores, turistas, escritores, assaltantes, delegados, secretários de Estado, sem-terras, ministros, mendigos. Até o Lula vi de perto em coberturas. Bati papo também com centenas de pessoas "comuns" e até com quem partiu para o outro lado. Sim, isso mesmo. As entidades, os fantasmas, os espíritos zombeteiros, o povo que está agora ao seu redor aí e você não está percebendo. Buuuu!
Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay.
Início de trabalho no Diário do Pará, animado com a condição de repórter, me passaram uma pauta legal pra apurar. Curas milagrosas! Bacana. Era uma matéria especial pra lançar nas duas páginas centrais. Precisava de paciência e alguns personagens. A produção, muito prestativa, arrumou de tudo: pastor que curava bronquite, lepra, calo, barriga d'água, mau olhado, micose, câncer, aids, como se tudo fosse uma simples gripe.
Agendaram ainda com curandeiros especializados em ervas; hipnólogos; charlatões de rua e adeptos de técnicas alternativas de Medicina. Era uma fauna que de tão extensa já tinha bulido o juízo do foca em questão. Perdido no meio de tanta história, eu precisava de um "gancho", como se diz no jargão jornalístico.
Não apareceu o tal gancho, mas sim luz no fim do túnel pra dar sentido aquela misturada que ninguém sabia onde ia chegar. Numa quarta-feira, parti para estrada de Outeiro, distrito de Belém, junto com o fotógrafo Jaime Souzza. Conversaria naquele dia com um pai de santo, muito respeitado, que curava todo tipo de problema de quem se submetia às suas consultas.
Chegamos na casa do médium, uma construção modesta feita de madeira, mas muito confortável, limpa e arrumada. Uma adolescente, bonita e educada nos recebeu. Ofereceu água e foi chamar o entrevistado.
Sem demora, chegou: baixinho, franzino, um bigode das antigas mostrando ser homem de respeito, muito calmo e atento, olhos pequenos de quem sabe com o que está lidando de primeira. Pensei que fosse encontrar um mulato de carapinha branca, expansivo e com jeito efeminado, coberto de contas, miçangas e um modelito branco super-fashion coroado com um turbante. Nada disso. Meu preconceito, se espatifou na primeira impressão.

Seu João tinha 72 anos, mas parecia mais jovem, era discreto e tinha gestos medidos, falava corretamente, em um tom baixo, uma fala mansa. Contou da sua mediunidade revelada aos 12 anos e como foi difícil até entender que tinha uma 'missão'. O pai de santo comentou que era apenas instrumento das entidades que usavam seu corpo para fazer apenas o bem.
O bem significava curas. Para qualquer tipo de doença. Muitas graves, como o câncer. Mas, seu João fez questão de enfatizar que recomendava aos seus clientes nunca largar o tratamento convencional, com médicos de verdade. A equipe do além trabalhava em conjunto com os encarnados. Era uma força-tarefa mista para trazer saúde a quem procurava ajuda de todas as formas. Dinheiro? Hum. Disse que recebia, sim, mas só para se manter. Gente séria, segundo o umbandista, não ficava rico com a atividade. Olhei em volta e constatei que, se valesse o critério, ele realmente era de uma seriedade fecunda.

Interessado no inusitado, perguntei quem lhe usava como "cavalo", o termo usado na umbanda pra denominar as pessoas que incorporam as entidades. E João respondeu "vários". Porém, comentou que seus guias maiores eram "Pai Marinheiro" e "Pai Boiadeiro". Um do mar e outro da terra que desciam para sarar os enfermos. O médium não lembrava quase nada depois que os espiritos o abandonavam, só sentia cansaço e frio.
Lá do além, marinheiros podem ajudar você.
Me sentindo ousado pedi uma audiência com um dos guias, afinal, eles bem que podiam dar uma entrevista e contribuir com a matéria. Por que não? Seu João indicou Pai Marinheiro. Logo mais viria para a visita de toda manhã de quarta-feira. Não demorou muito, o umbandista pediu pra se retirar: era hora da incorporação. "Mas, eu não posso ver?". O homem olhou sério e rebateu: "melhor não". Acreditei. Ele seguiu para o quarto.

Fiquei na espera, junto com a adolescente. Puxei assunto, a moça relatou ser de Pernambuco, ter 19 anos e que seu "marido" era um homem formidável. MARIDO??? Achei que a menina era neta de seu João, com mais do que meio século de vida há mais que ela. A expressão de felicidade da jovem pernambucana e os elogios seguidos não deixavam dúvida de que o médium cumpria suas obrigações não somente com os santos.

Ela se retirou e em seguida me chamou para entrar no quarto, onde Pai Marinheiro já estava esperando. Abriu a porta com cuidado. Entrei e só vi a pequena ilha de claridade no centro do ambiente. Muitas velas e um banquinho defronte ao entrevistado do outro mundo. Cumprimentei como se nunca tivesse visto aquele homem, naturalmente.
Seu João ganhara outra postura, parecia mais forte, a expressão era outra. Estava mais decidido e menos suave. A roupa combinava elementos marítimos, como um gorro ao modo Popeye, e colares e guias da religião africana. O fotógrafo também entrou e começou a registrar discretamente o papo sobrenatural.

Altar típico. Sincretismo rulez.
No breu do dormitório abarrotado de imagens do culto afro e santos católicos, mergulhado num cheiro de alfazema e defumação, Marinheiro falou. Era experiente no mar e de Santos, do litoral paulista, porém, sem sotaque carregado no R. A fala era meio enrolada, mas entendi que quando encarnado ajudava os parceiros tripulantes na embarcação, uma espécie de faz tudo. Ía do bisturi ao mertiolate na maior tranquilidade. Morreu naufragado e no outro lado percebeu o poder de ajudar quem ainda não havia batido as botas.

Marinheiro alertou que já ia 'subir', sinal de tempo esgostando para o repórter. Talvez um assessor invisível tivesse alertado que a conversa estava se estendendo demais. É, porque se existe entidade profissional de saúde é muito provável que exista também de entidades especializadas em assessoria de impressa e comunicação.

Antes de sair, Marinheiro se sacudiu novamente, jogou umas moedas antigas no chão, fez uns movimentos bruscos meio incompreensíveis, segurou meu braço com força e disse que eu era "gente de bem", "de paz". Tipo assim "você é brother, véio. Te considero pra caramba". Não pude ver a alma abandonar a carcaça do velho médium, mas fiquei aliviado com a aprovação. Temia que o marujo não fosse com minha cara. Vai que ele me solta uma praga, uma maldição ou um ebó qualquer que desconheço, mizi fio.

Naquele dia, aprendi: meu ceticismo tem um limite bem mais curto do que eu propagava. Voltei empolgado, mas a matéria ficou uma merda.

11 comentários:

wildchild disse...

buuuu!!

Anônimo disse...

Égua da experiência. Acho que não teria essa coragem. Morro de medo de médium...

Ei, Anderson, como é a primeira vez que comento, queria te dizer que adoro teu blog. Leio todos os dias. Fico só na espera de uma atualização sua. Nota mais que 1000 pra ti.

Beijos grandes.

Anônimo disse...

ah.. avisa para a Tainá atualizar o dela que tbém adoro ler.

Beijos grandes.
Sucesso sempre.

Anderson disse...

Aviso, sim anônimo. Mas, ela é preguiçosa (ela quem disse)rsrsrsrs.

Obrigado pela visita e pelo incentivo.

beijão também.

Anônimo disse...

Me divirto tb com os posts. Claudia

J.BOSCO disse...

os fantasmas se divertem...rsss

erikaoikawa disse...

Anderson!!! E aí, td bem??? Morri de rir do post. Queria muito ter acompanhado a apuração dessa pauta.. Tu e o Jaime entrevistando o marinheiro! kkkkkkk Sinto que o vídeo da Josefina rendeu boas inspirações. :)

Abraços,

Erika

Anderson Araújo disse...

Eeee, Japa. Onde tu anda, mulhé?

Valeu pela visita no blog.

Beijo.

carapira da ceasa disse...

EGUA DA EXPERIENCIA, PAI ANDERSON DER OGUM DA VELA PRETA

Anderson Araújo disse...

E carapirá, se liga, mermão. hahahahahahahaha. o sino da igrejinha faz belém, blein, blein, deu meia-noite o galo já cantou. hahahahahahhaha.

Nega disse...

Tenho vontade de ir numa parada dessa, mas só saio acreditando se ouvir coisas que quero ouvir.

Quero quase nada né?

Tenho uma curiosidade extremamente curiosa a respeito duma parada aí, mas outro dia eu divido contigo.

Bjs,

Nega