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terça-feira, 28 de julho de 2009

Reecontro e a pré-história do Café com Arte

Em 1999, era ainda estudante de cursinho, com alguma esperança de que a graduação de jornalismo fosse coisa que prestasse. As coisas pareciam caminhar bem, afinal, havia voltado aos estudos depois de dois anos parados por falta de dinheiro e estava no melhor pré-vestibular de Belém: o Método, do professor de história e jazzeiro, Brasilino Assaid. E não pense aí que estou ganhando qualquer coisa para promover o estabelecimento. Ele foi extinto faz anos e funcionava onde hoje é epicentro da causação e ponto de encontro de emos, hipsters, pós-pós punk e todo tipo de gente mal vestida que jura ser londrina e não belenense: o Café com arte, na Trav. Rui Barbosa, bairro de Nazaré.




Visual dos atuais frequentadores do prédio do antigo Método: Saudade de 1999.

Digo que o Método era o melhor, não porque tinha os melhores recursos tecnológicos e pedagógicos ou porque tinha 178% de índice de aprovação no vestibular, como alguns colégios anunciam por aí. Era o melhor por causa do Assaid, um cara fabuloso. Muito bom no ensino de história, uma pessoa extremamente generosa e um aglutinador de outros bons profissionais, como Maurício Sombra, um grande mestre na arte de incutir conhecimento e senso crítico na cabeça oca de garotinhos juvenis.


Naquela casa antiga, onde hoje se promovem festas de arromba e os adolescentes fazem de um tudo longe dos olhos do papai e da mamãe, todo mundo meio que se conhecia. Nos intervalos, rolavam papos animados. Gente jovem e inteligente. A maioria vinda de crasse média bacana de se conviver aos olhos de um pedreirense rude e bolsista como eu. Um povo estranho, porém, autêntico, como Felipão, um nissei gordão, cujo visual se assemelhava ao de um pedinte, sempre de sandálias, umas calças que deviam ser de um tio morto há 30 anos, camisetas mais do que esgarçadas e um cabelo rastafari. Realmente, um típico decendente dos samurais. Um camarada que conseguia a façanha de cochilar e, ao mesmo tempo, participar das aulas, com intervenções pertinentes e observações importantes. Não me pergunte como, mas ele conseguia. Por onde anda esta criatura?


Naquela ante-sala das faculdades, tinha sempre um violão rolando nos fundos do prédio, em um quintal de casa de avó, muito familiar. Instrumento tocado quase sempre pelo Toninho, um grisalho boa praça e excelente músico, igualmente aspirante a universitário como a maioria ali. Os educadores também entravam na roda e contavam suas piadas, seus causos, suas opiniões, exercendo o carisma de anos e anos domando burros xucros e jumentos telepáticos nas apinhadas salas de treinamento e disputa por vagas nas universidades.


O ambiente todo era de diálogo, de debates e de confraternização. Obviamente, sem deixar de lado as rusgas juvenis, os pequenos romances, as paixões caladas e as extravagantes, as briguinhas bestas, a tensão da concorrência e o interesse pelo novo, mesmo que o novo estivesse em um conteúdo mais do que batido para uma prova de vestibular. Um microcosmo borbulhante e variado, orquestrado pela simpatia, paciência, irreverência e boa vontade do mestre Assaid.


Certo dia, um dos bons papos do Método rendeu um dos mais inusitados encontros presenciados por mim. Otávio do Canto, geógrafo nascido em Óbidos, começou a contar sobre uma de suas primeiras expedições, ainda na condição de estudante. Foram um parceiro de faculdade e ele parando de município em municípiodo Baixo Amazonas para conhecer em detalhes a região e visitar um dos cartões postais do Estado, a Cidade dos Deuses, formações rochosas antigas localizadas no município de Alenquer.
A frente da cidade: a Alenquer do menino geógrafo.


O professor contou saudoso da dificuldade para chegar a bordo de barcos; do desmantelamento da turma que ia junto – apenas dois integrantes endossaram a aventura; da ajuda de um pastor bondoso que cedeu um jipe e um guia para rodar na Alenquer mítica que eles imaginavam e conheceram de perto. Otávio falou de minúcias da cidade, usando os conhecimentos em Geografia, mas o relato tendeu para o pequeno guia que lhe mostrou na época com competência toda a cidade. Ele dizia ter o menino uma inteligência incrível, uma memória de elefante e uma didática invejável. Um papa-chibé de uns 9 ou 11 anos, conhecedor da história do seu lugar, com consciência da lindeza do que lhe cercava, um pequeno gênio.


A empatia com o garoto foi imediata. Pequenino, pobre de pai e mãe, os olhos vivos e muito esperto. “Fico pensando até hoje naquela criança, naquele lugar. Que futuro ele teve, o que aconteceu com ele? Se tivesse condições, teria estudado, com certeza. Nunca mais tive notícia daquele moleque. Gostaria muito de saber por onde ele anda, que fim deu, o que se tornou depois de adulto. Será que está bem?”, disse Otávio, olhando para um ponto indefinido, provavelmente dentro de sua própria cabeça.


Notei que o outro professor que ouvia tudo atento, junto com o grupo, tinha os olhos molhados. Cara de caboclo, moreno atarracado, um pouco mais velho do que nós estudantes e já com uma pós-graduação nas costas. Reconhecido por também ser um excelente profissional das salas de aula, Enilson Pinheiro, também geógrafo, de Alenquer, comovido com o relato, espantou todo mundo, revelando: “o menino era eu”.


Quase 20 anos depois aqueles dois personagens que um dia se esbarraram ocasionalmente em um grotão paraense estavam ali, de novo, frente a frente. Agora no mesmo nível, nem menino, nem universitário: dois professores. Enilson contou como o encontro da infância o influenciou na escolha pela Geografia. Otávio se maravilhou ao descobrir, enfim, o que acontecera com o curumim que sabia na ponta da língua a trajetória alenquerina ao longo dos séculos: eram colegas de trabalho, sem saber disso. Cessou uma preocupação de longa data do mais velho e a amizade interrompida foi retomada naquele fundo de quintal.


Um reencontro improvável, mas não impossível no lugar que é, sem dúvida, um ponto azulado, de névoas reminiscentes, suaves metáforas daquele final de adolescência e prenúncio de dias melhores pra mim.

8 comentários:

Carol Barata disse...

Primeiro, esqueceste de falar da Mônica que enfim, figura única. Não dá nem pra explicar o que ela era.
Segundo, ... como assim? isso aconteceu na sala? onde eu estava nessa hora? hahahahaha
Saudades do Método. Não consigo ir ao Café e não lembrar da gente lá, naquele antro de gente doida. Não que hoje tmb não seja do mesmo jeito (antro de gente doida ao quadrado), mas no final da festa, sinto saudade daquele sofá que ficava no porão e me ajudou a tirar altos cochilos. Aliás, devia ser lá que eu estava quando ocorreu esse encontro. Só pode.
Queria muito saber do Seu Santana tmb. O Seu Bigode era mt gente boa, cara... o que será que foi feito dele?

Anderson Araújo disse...

É verdade, a Mônica. No texto original ela estava incluída, mas tive que cortar porque não tinha muitos detalhes. Não ficou na minha memória afetiva, apesar de ser mais uma das grandes figuras do Método. Muita gente boa, o Neto, por exemplo, que fez Geografia também, grande chapa. Eu era tímido demais naquela época e interagia muito pouco com todo mundo. Esse relato é bem coisa de quem fica só olhando e ouvindo.
Aconteceu lá no quintal. Naquele começo da escada, onde todo mundo ficava sentado nos intervalos. Realmente, não lembro se tu estavas presente. Acho que não.

A Mõnica estava.

Lembra do Pantera? Um magrinho que fumava uns cinco maços de cigarro só no turno da tarde? Me disseram que ele bateu as botas! Será que é verdade?

Anderson Araújo disse...

Caramba. Lembrei daquela locadora, a Rock. que ficava ao lado. Muito filme bacana, em VHS ainda. Tinha de tudo. Bons tempos.

mauro disse...

Bicho, eu quase chorei ao lere este teu texto. Dava para encher uns dez vidros de Melkatoss com ele. Cara, já foste mais escroto pedreirense. Tu não és tão doce assim. Não força a barra meu....

Tainá Aires disse...

lembrei agora do rapaz homossexual pegando duas menininhas que pareciam ter metade da minha idade. detalhe: ao mesmo tempo. esse é o café com arte!

irna cavalcante disse...

nossa, to até emocionada. O que andam fazendo com o coração deste pedreirense?!?!?!
Todo romantico...hahahaha
Beijos

Anderson Araújo disse...

Gentem, to sensível. Não pode não, é? hahahaha.

Vocês estão desatentos. O texto é só mais uma maneira de falar mal do Café com Arte. Aliás, percebam que eu falo mal de três coisas apenas neste Blog: 1) do pessoal que se fantasia e vai pro café com arte e afins pagando de moderno; 2) do jornalismo e dos jornalistas; 3) e de todo o resto do mundo.

Aproveitem pra me xingar que os comentários não estão moderados hoje. huhuhuhu

Nega disse...

Esse teu texto ta doce, gay, bem por aí... Mas quase me emocionou, repito: quase. Não sou de emoções baratas [mentira] Trocadilho, hã hã? HAUhauHAU


Aiii

sempre tive vontade de ir ao café com arte, mas sempre mudo de idéia quando vejo as fotos postadas por uma amiga emamor.

Bjs,

Nega.