Seguidores

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Adolescência-roubada

Adolescentes são idiotas. Sim, é verdade. Fui adolescente e idiota também. Talvez você esteja dizendo aí "mas, não mudou nada. Você ainda é idiota". Ok, ok. Ou você é adolescente e se sentiu ofendido ou não vai com a minha cara ou ainda as duas coisas juntas. Porém, acredite: como garotinho juvenil, eu era muito pior. E não por ser eu, mas por estar neste maldito período da vida inventado recentemente para segmentar o mercado e gerar emprego para psicólogos. Enquanto tem gente que morre de saudade desta faixa etária, piso e cuspo em cima da minha.

Com toda razão, tudo era muito mais escroto: era muito mais feio, a cara entupida de acne, não tinha um tostão furado nem pra ir ao cinema, era tímido ao extremo, magro e empenado como caibro. E ainda: um perfeito idiota. Não sinto a menor falta dessa época. Por mais maduro que queira ser, por mais informado, politizado, descolado, letrado, viajado, idolatrado, famoso, querido, rico ou bem sucedido, seguro de si, por mais que seus pais tenham PHd em Cambridge e Havard, por mais que tenha sido educado na Suíça, não adianta: a imbecilidade adolescente é universal e irrestrita.

E os modelos de adolescentes estão cada vez piores a cada ano que passa. A televisão, cinema, música, Internet tem vomitado figuras lastimáveis, que vão da trupe do Harry Potter aos Jonas Brochas, pegando o elenco inteiro de Malhação da última década e chegando na Maísa, aquela anã micro-adolescente programada para matar. Que me perdoe o meu irmão que tanto amo e admiro pela postura - ele não é tão idiota assim -, no entanto, somente na adolescência se permite fundar uma banda de punk rock e achar uma iniciativa boa.

Penso que filhos devem ser deportados para qualquer país da América Central ou África Subsaariana aos 12 anos e só voltar quando fizerem 26 anos, formados, com bons empregos, casados e apresentando pelo menos um netinho de dois anos. Casos de adolescência tardia devem ter punição severa com castigos medievais e sessão de esculachos públicos.

Nelson Rodrigues: "Jovens, envelheçam. Ou façam como os rockstar: morram cedo".
Uma das minhas grandes idiotices da adolescência ocorreu quando tinha uns 17 anos e conheci uma moça, mais velha um ano, e me apaixonei. Nem lembro se era paixão, de fato, mas ela era muito gostosa: morena, longos cabelos encaracolados, um pandeiro magnífico, cintura de pilão, coxas firmes, mãos delgadas, lábios de convite e olhinhos de noite serena. Se estivesse em Outeiro, seria chamada de 'mulher-charcuda', sem dúvida.

Fiquei muito surpreso quando aquela cabocla de ilusão se interessou por mim. Quando a esmola é demais, o santo desconfia. Demorei umas três semanas para tascar um beijo na rapariga, até conseguir vencer o travamento natural do meu espírito. Diante da conjuntura, parece que esse fato ocorreu no final do século XXI, mas não: foi um dia desses, em 1996, mais ou menos. Quando vejo nas festinhas modernosas, meninos e meninas se engalfinhando sem pudor, reconheço o quanto era besta nesse hiato entre a infância e a idade adulta.

A conquista merecia uma comemoração. Arrumei umas 50 pilas a duras penas para levá-la ao cinema. Quem sabe no escurinho, os hormônios se imporiam, as mãos encontrariam os becos e as quebradas de acesso mais difícil, a línguas iniciariam uma batalha de morte e minha índole pervertida, finalmente, abandonaria meu aspecto de rapaz que freqüenta a missa das oito aos domingos.

Escolhi aleatoriamente as 'Bruxas de Salém', com Daniel Day Lewis. O ator era bom e já tinha visto o filme 'Meu Pé Esquerdo', com excelente atuação dele como pintor com paralisia cerebral - "nós adoramos, mingau", uma das falas inesquecíveis da película. Winona Rider também estava no elenco também e ainda não tinha virado sinônimo de ladra. Seria perfeito: bom filme e amassos.

De bonde, como sempre, seguimos para o Cinema Palácio, na Av. Presidente Vargas. Do grupo Severiano Ribeiro, era minha sala preferida. Até hoje lamento a venda para Igreja Universal do Reino de Deus e olho torto para os crentes que lotam o espaço em dias de culto com seus ternos horríveis e suas bíblias encardidas e molhadas de suor de suvaco.

Pipoca e refri nas mãos, entramos. Achando que me daria superbem, não entendi nada quando a menina ficou de olho grudado na tela, sem se mover, na defensiva. Ou era a primeira vez que entrara na sala escura ou era apaixonada pelo D. D. Lewis ou estava com medo de que eu fosse um estuprador. Tentei uns beijinhos e nada. Consegui umas bicotas de tia velha. Ó, céus, ó vida, ó azar.

Na saída, o papo meio desanimado, fomos comer. Comer comida mesmo. Sexo era algo que acontecia no Sri-lanka, na Guatemala, na província chinesa de Lig-lig, ou em algum ponto perdido no Pacífico Norte. Em um lugar distante e nunca, nunca jamais, nunca comigo. Antes de deixá-la em casa, mais uma parada em uma sorveteria, mais dinheiro gasto. Não conseguia mais disfarçar minha preocupação com o fim dos recursos. Pensei: vou abandonar esse estômago sem fundo o mais rápido possível, antes que fique sem uma moeda para voltar pra casa. Eu era muito romântico na época.
Este aguenta adolescentes desde 1920.
Frustrado, me despedi e sai andando inocentemente pela baixada do bairro do Marco com a... Terra Firme. Quem mora em Belém sabe que a Terra Firme é um bairro considerado perigoso. Os bandidos impõem o terror naquelas bandas, achacando até os moradores da área. Como já disse outra vez, a década de 90 era tempo de guerra entre gangues na capital paraense. Eu sabia disso. A cidade estava tomada pelos grupos, mas, como já disse, adolescente é idiota.

Ignorei o detalhe de que rapazes se matavam por nada a qualquer momento e segui a pé, umas nove e meia da noite, em direção à Av. 1º de Dezembro. Só comecei a ter medo quando escutei passos em desabalada carreira no asfalto. O vulto passou feito um míssel. Muito adiante percebi o sujeito sem camisa já dobrando a esquina, fugindo de outro cara, logo atrás, armado com um terçado rabo de galo. Pra aumentar o pavor, no encalço dos dois, dois PMs de revólver em punho. Sem correr, me encostei às paredes das casas e segui andando. Abstrai. O mundo não podia ser tão ruim, ora, ora. Afinal, o perigo já tinha passado, o azar não estava comigo e, tinha escapado ileso e... PUTAQUEOPARIUOO!

Na Av. 1º de Dezembro, o mundo estava no fim. Os dois gangueiros corredores tinham se multiplicado em mil. Gente se jogando no chão e se esgueirando para não ser atingida, pedras e paus voando pra todo lado, um grupo de moleques chutavam alguém caído no chão, uns poucos policiais não sabiam o que fazer com tanta desordem. Diante da cena, fiquei na dúvida: espero a morte ou atravesso e sigo para Av. Almirante Barroso para tentar um ponto de ônibus menos Faixa de Gaza. Ouvi dois tiros. Mais correria. Gritos. Respirei e atravessei o tumulto, como quem se joga do abismo esperando criar asas. Cheguei vivo do outro lado. Não era apenas , que tinha o corpo fechado. Vó Manuela estava comigo.

Vó Manuela, em algum lugar, me protege com sua mandinga.


Já longe da confusão, mas ainda muito nervoso, consultei o bolso. Pouco mais de R$ 5. Maldito cinema inútil, maldita comilança desbragada, maldita tentativa frustrada de pegar alguém decentemente. Porém, nem tudo estava perdido. Dava pra apanhar um táxi e descer em algum ponto seguro, longe das balas, das pedradas, das pauladas e da revolta popular. Fiz sinal, o motorista parou.

Entrei no carro de aluguel, mais pobre do que sempre, decepcionado com a gata e certo de que fora um programa de índio. Fiquei de olho no táximetro. Quando passou de R$ 4, pedi pra descer, na Trav. Lomas Valentina, próximo da Av. Marquês de Herval. Nunca salvar minha própria pele foi tão barato. Estava perto de casa novamente. Minha Pedreira me acolheu carinhosa e preocupada, como uma mãe que recebe um filho sobrevivente de um desastre aéreo.

Pus as mãos no bolso, acalmei o coração, olhei em volta familiarizado. Vi conhecidos durante o retorno. Pensei na morena bonita, nos poucos beijos, na falta de reciprocidade. Prometi a mim mesmo não ser mais tão estúpido e cretino. A próxima vez convidaria a presa para um motel. Sem escalas, rodeios, vergonha ou cerimônia. Poderia até receber um não ou, no máximo, um tapa na cara. Melhor do que morrer em um conflito de gangues. Mas, essa valentia toda com as mulheres ficou só na palavra. Ainda faltava um tempinho para findar a adolescência.

10 comentários:

Anônimo disse...

Ó, céus, ó vida, ó azar..
hehehehehehehehe
Tu nunca tem sorte rapá.

Beijos

Anderson Araújo disse...

se não morrer no meio de um conflito de gangues é não ter sorte. quero sempre continuar tendo azar. hahahahahha.

Luciane Fiuza disse...

O blog continua muito legal e gostoso de ler, Anderson. Parabéns!
Sobre o post, tb não tenho muita saudade da minha adolescência. Era muito tímida e sofri com isso. Mas um belo dia, até hoje não sei o motivo, comecei a falar e tagarelarsem parar. Tanto que acabei fazendo jornalismo, talvez para descontar o atraso. Acho que tomei a pílula da Emília... srsrsrs
Abs!
Lu.

jimmy disse...

Ainda lembro das gangues, muitas vezes aconteciam brigas na frente de casa, ainda era mulequinho e essa coisa de gangues ja estava quase acabando, minha unica tristeza e que acabaram as gangues e hoje eles sao ladroes e nao podemos nem sair com o celular mais fulero que tu e assaltado e se não tiver ainda é espancado.

Saudade quando eles queriam apenas matar uns aos outros.

Anônimo disse...

sensacional man! hahahaha texto muito da hora mesmo parabéns... rs

Amanda Paula disse...

hehe muito engraçado. O legal que você escreve de um jeito que faz a gente querer saber o final! Parabéns! Mas você não me engana, os olhos de noite serena é do Chaves, e quem canta é o prof. Girafales para a dona Florinda, garanto que sua adolescência foi marcada também por este seriado. Tem coisas que a gente carrega vida adulta adiante...

Inté

Nega disse...

a imbecilidade adolescente é universal e irrestrita [2]

Um verdadeiro poeta!

andrey disse...

a banda e verdade mas ñ e pq eu sou adolescente(acho isso uma viadagem q os psicologos inventaram pra esses moleque acharem q ser babak e normal)e pq eu só sei fazer trÊs acordes msm!

Anônimo disse...

a imbecilidade adolescente é universal e irrestrita..

nao concordo sua afirmação e generalizada e infundada. mas você tem razão na maioria das coisas que disse, parabéns pelo Blog muito legal.

Anônimo disse...

nossa, otimo blog o seu, vc esta d parabens, muito engraçado essa sua historia, bem eu ainda to na adolescencia, ate q to curtindo bastant ela. xD
tenho um blog e sao materias desse tipo assim como a su q eu me inspiro pra posta lah..
se quiser vista e da uma comentada lah tbm:
http://nerdpensadornp.zip.net

valeu, muito show teu blog