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quinta-feira, 30 de julho de 2009

Adolescência-roubada

Adolescentes são idiotas. Sim, é verdade. Fui adolescente e idiota também. Talvez você esteja dizendo aí "mas, não mudou nada. Você ainda é idiota". Ok, ok. Ou você é adolescente e se sentiu ofendido ou não vai com a minha cara ou ainda as duas coisas juntas. Porém, acredite: como garotinho juvenil, eu era muito pior. E não por ser eu, mas por estar neste maldito período da vida inventado recentemente para segmentar o mercado e gerar emprego para psicólogos. Enquanto tem gente que morre de saudade desta faixa etária, piso e cuspo em cima da minha.

Com toda razão, tudo era muito mais escroto: era muito mais feio, a cara entupida de acne, não tinha um tostão furado nem pra ir ao cinema, era tímido ao extremo, magro e empenado como caibro. E ainda: um perfeito idiota. Não sinto a menor falta dessa época. Por mais maduro que queira ser, por mais informado, politizado, descolado, letrado, viajado, idolatrado, famoso, querido, rico ou bem sucedido, seguro de si, por mais que seus pais tenham PHd em Cambridge e Havard, por mais que tenha sido educado na Suíça, não adianta: a imbecilidade adolescente é universal e irrestrita.

E os modelos de adolescentes estão cada vez piores a cada ano que passa. A televisão, cinema, música, Internet tem vomitado figuras lastimáveis, que vão da trupe do Harry Potter aos Jonas Brochas, pegando o elenco inteiro de Malhação da última década e chegando na Maísa, aquela anã micro-adolescente programada para matar. Que me perdoe o meu irmão que tanto amo e admiro pela postura - ele não é tão idiota assim -, no entanto, somente na adolescência se permite fundar uma banda de punk rock e achar uma iniciativa boa.

Penso que filhos devem ser deportados para qualquer país da América Central ou África Subsaariana aos 12 anos e só voltar quando fizerem 26 anos, formados, com bons empregos, casados e apresentando pelo menos um netinho de dois anos. Casos de adolescência tardia devem ter punição severa com castigos medievais e sessão de esculachos públicos.

Nelson Rodrigues: "Jovens, envelheçam. Ou façam como os rockstar: morram cedo".
Uma das minhas grandes idiotices da adolescência ocorreu quando tinha uns 17 anos e conheci uma moça, mais velha um ano, e me apaixonei. Nem lembro se era paixão, de fato, mas ela era muito gostosa: morena, longos cabelos encaracolados, um pandeiro magnífico, cintura de pilão, coxas firmes, mãos delgadas, lábios de convite e olhinhos de noite serena. Se estivesse em Outeiro, seria chamada de 'mulher-charcuda', sem dúvida.

Fiquei muito surpreso quando aquela cabocla de ilusão se interessou por mim. Quando a esmola é demais, o santo desconfia. Demorei umas três semanas para tascar um beijo na rapariga, até conseguir vencer o travamento natural do meu espírito. Diante da conjuntura, parece que esse fato ocorreu no final do século XXI, mas não: foi um dia desses, em 1996, mais ou menos. Quando vejo nas festinhas modernosas, meninos e meninas se engalfinhando sem pudor, reconheço o quanto era besta nesse hiato entre a infância e a idade adulta.

A conquista merecia uma comemoração. Arrumei umas 50 pilas a duras penas para levá-la ao cinema. Quem sabe no escurinho, os hormônios se imporiam, as mãos encontrariam os becos e as quebradas de acesso mais difícil, a línguas iniciariam uma batalha de morte e minha índole pervertida, finalmente, abandonaria meu aspecto de rapaz que freqüenta a missa das oito aos domingos.

Escolhi aleatoriamente as 'Bruxas de Salém', com Daniel Day Lewis. O ator era bom e já tinha visto o filme 'Meu Pé Esquerdo', com excelente atuação dele como pintor com paralisia cerebral - "nós adoramos, mingau", uma das falas inesquecíveis da película. Winona Rider também estava no elenco também e ainda não tinha virado sinônimo de ladra. Seria perfeito: bom filme e amassos.

De bonde, como sempre, seguimos para o Cinema Palácio, na Av. Presidente Vargas. Do grupo Severiano Ribeiro, era minha sala preferida. Até hoje lamento a venda para Igreja Universal do Reino de Deus e olho torto para os crentes que lotam o espaço em dias de culto com seus ternos horríveis e suas bíblias encardidas e molhadas de suor de suvaco.

Pipoca e refri nas mãos, entramos. Achando que me daria superbem, não entendi nada quando a menina ficou de olho grudado na tela, sem se mover, na defensiva. Ou era a primeira vez que entrara na sala escura ou era apaixonada pelo D. D. Lewis ou estava com medo de que eu fosse um estuprador. Tentei uns beijinhos e nada. Consegui umas bicotas de tia velha. Ó, céus, ó vida, ó azar.

Na saída, o papo meio desanimado, fomos comer. Comer comida mesmo. Sexo era algo que acontecia no Sri-lanka, na Guatemala, na província chinesa de Lig-lig, ou em algum ponto perdido no Pacífico Norte. Em um lugar distante e nunca, nunca jamais, nunca comigo. Antes de deixá-la em casa, mais uma parada em uma sorveteria, mais dinheiro gasto. Não conseguia mais disfarçar minha preocupação com o fim dos recursos. Pensei: vou abandonar esse estômago sem fundo o mais rápido possível, antes que fique sem uma moeda para voltar pra casa. Eu era muito romântico na época.
Este aguenta adolescentes desde 1920.
Frustrado, me despedi e sai andando inocentemente pela baixada do bairro do Marco com a... Terra Firme. Quem mora em Belém sabe que a Terra Firme é um bairro considerado perigoso. Os bandidos impõem o terror naquelas bandas, achacando até os moradores da área. Como já disse outra vez, a década de 90 era tempo de guerra entre gangues na capital paraense. Eu sabia disso. A cidade estava tomada pelos grupos, mas, como já disse, adolescente é idiota.

Ignorei o detalhe de que rapazes se matavam por nada a qualquer momento e segui a pé, umas nove e meia da noite, em direção à Av. 1º de Dezembro. Só comecei a ter medo quando escutei passos em desabalada carreira no asfalto. O vulto passou feito um míssel. Muito adiante percebi o sujeito sem camisa já dobrando a esquina, fugindo de outro cara, logo atrás, armado com um terçado rabo de galo. Pra aumentar o pavor, no encalço dos dois, dois PMs de revólver em punho. Sem correr, me encostei às paredes das casas e segui andando. Abstrai. O mundo não podia ser tão ruim, ora, ora. Afinal, o perigo já tinha passado, o azar não estava comigo e, tinha escapado ileso e... PUTAQUEOPARIUOO!

Na Av. 1º de Dezembro, o mundo estava no fim. Os dois gangueiros corredores tinham se multiplicado em mil. Gente se jogando no chão e se esgueirando para não ser atingida, pedras e paus voando pra todo lado, um grupo de moleques chutavam alguém caído no chão, uns poucos policiais não sabiam o que fazer com tanta desordem. Diante da cena, fiquei na dúvida: espero a morte ou atravesso e sigo para Av. Almirante Barroso para tentar um ponto de ônibus menos Faixa de Gaza. Ouvi dois tiros. Mais correria. Gritos. Respirei e atravessei o tumulto, como quem se joga do abismo esperando criar asas. Cheguei vivo do outro lado. Não era apenas , que tinha o corpo fechado. Vó Manuela estava comigo.

Vó Manuela, em algum lugar, me protege com sua mandinga.


Já longe da confusão, mas ainda muito nervoso, consultei o bolso. Pouco mais de R$ 5. Maldito cinema inútil, maldita comilança desbragada, maldita tentativa frustrada de pegar alguém decentemente. Porém, nem tudo estava perdido. Dava pra apanhar um táxi e descer em algum ponto seguro, longe das balas, das pedradas, das pauladas e da revolta popular. Fiz sinal, o motorista parou.

Entrei no carro de aluguel, mais pobre do que sempre, decepcionado com a gata e certo de que fora um programa de índio. Fiquei de olho no táximetro. Quando passou de R$ 4, pedi pra descer, na Trav. Lomas Valentina, próximo da Av. Marquês de Herval. Nunca salvar minha própria pele foi tão barato. Estava perto de casa novamente. Minha Pedreira me acolheu carinhosa e preocupada, como uma mãe que recebe um filho sobrevivente de um desastre aéreo.

Pus as mãos no bolso, acalmei o coração, olhei em volta familiarizado. Vi conhecidos durante o retorno. Pensei na morena bonita, nos poucos beijos, na falta de reciprocidade. Prometi a mim mesmo não ser mais tão estúpido e cretino. A próxima vez convidaria a presa para um motel. Sem escalas, rodeios, vergonha ou cerimônia. Poderia até receber um não ou, no máximo, um tapa na cara. Melhor do que morrer em um conflito de gangues. Mas, essa valentia toda com as mulheres ficou só na palavra. Ainda faltava um tempinho para findar a adolescência.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Reecontro e a pré-história do Café com Arte

Em 1999, era ainda estudante de cursinho, com alguma esperança de que a graduação de jornalismo fosse coisa que prestasse. As coisas pareciam caminhar bem, afinal, havia voltado aos estudos depois de dois anos parados por falta de dinheiro e estava no melhor pré-vestibular de Belém: o Método, do professor de história e jazzeiro, Brasilino Assaid. E não pense aí que estou ganhando qualquer coisa para promover o estabelecimento. Ele foi extinto faz anos e funcionava onde hoje é epicentro da causação e ponto de encontro de emos, hipsters, pós-pós punk e todo tipo de gente mal vestida que jura ser londrina e não belenense: o Café com arte, na Trav. Rui Barbosa, bairro de Nazaré.




Visual dos atuais frequentadores do prédio do antigo Método: Saudade de 1999.

Digo que o Método era o melhor, não porque tinha os melhores recursos tecnológicos e pedagógicos ou porque tinha 178% de índice de aprovação no vestibular, como alguns colégios anunciam por aí. Era o melhor por causa do Assaid, um cara fabuloso. Muito bom no ensino de história, uma pessoa extremamente generosa e um aglutinador de outros bons profissionais, como Maurício Sombra, um grande mestre na arte de incutir conhecimento e senso crítico na cabeça oca de garotinhos juvenis.


Naquela casa antiga, onde hoje se promovem festas de arromba e os adolescentes fazem de um tudo longe dos olhos do papai e da mamãe, todo mundo meio que se conhecia. Nos intervalos, rolavam papos animados. Gente jovem e inteligente. A maioria vinda de crasse média bacana de se conviver aos olhos de um pedreirense rude e bolsista como eu. Um povo estranho, porém, autêntico, como Felipão, um nissei gordão, cujo visual se assemelhava ao de um pedinte, sempre de sandálias, umas calças que deviam ser de um tio morto há 30 anos, camisetas mais do que esgarçadas e um cabelo rastafari. Realmente, um típico decendente dos samurais. Um camarada que conseguia a façanha de cochilar e, ao mesmo tempo, participar das aulas, com intervenções pertinentes e observações importantes. Não me pergunte como, mas ele conseguia. Por onde anda esta criatura?


Naquela ante-sala das faculdades, tinha sempre um violão rolando nos fundos do prédio, em um quintal de casa de avó, muito familiar. Instrumento tocado quase sempre pelo Toninho, um grisalho boa praça e excelente músico, igualmente aspirante a universitário como a maioria ali. Os educadores também entravam na roda e contavam suas piadas, seus causos, suas opiniões, exercendo o carisma de anos e anos domando burros xucros e jumentos telepáticos nas apinhadas salas de treinamento e disputa por vagas nas universidades.


O ambiente todo era de diálogo, de debates e de confraternização. Obviamente, sem deixar de lado as rusgas juvenis, os pequenos romances, as paixões caladas e as extravagantes, as briguinhas bestas, a tensão da concorrência e o interesse pelo novo, mesmo que o novo estivesse em um conteúdo mais do que batido para uma prova de vestibular. Um microcosmo borbulhante e variado, orquestrado pela simpatia, paciência, irreverência e boa vontade do mestre Assaid.


Certo dia, um dos bons papos do Método rendeu um dos mais inusitados encontros presenciados por mim. Otávio do Canto, geógrafo nascido em Óbidos, começou a contar sobre uma de suas primeiras expedições, ainda na condição de estudante. Foram um parceiro de faculdade e ele parando de município em municípiodo Baixo Amazonas para conhecer em detalhes a região e visitar um dos cartões postais do Estado, a Cidade dos Deuses, formações rochosas antigas localizadas no município de Alenquer.
A frente da cidade: a Alenquer do menino geógrafo.


O professor contou saudoso da dificuldade para chegar a bordo de barcos; do desmantelamento da turma que ia junto – apenas dois integrantes endossaram a aventura; da ajuda de um pastor bondoso que cedeu um jipe e um guia para rodar na Alenquer mítica que eles imaginavam e conheceram de perto. Otávio falou de minúcias da cidade, usando os conhecimentos em Geografia, mas o relato tendeu para o pequeno guia que lhe mostrou na época com competência toda a cidade. Ele dizia ter o menino uma inteligência incrível, uma memória de elefante e uma didática invejável. Um papa-chibé de uns 9 ou 11 anos, conhecedor da história do seu lugar, com consciência da lindeza do que lhe cercava, um pequeno gênio.


A empatia com o garoto foi imediata. Pequenino, pobre de pai e mãe, os olhos vivos e muito esperto. “Fico pensando até hoje naquela criança, naquele lugar. Que futuro ele teve, o que aconteceu com ele? Se tivesse condições, teria estudado, com certeza. Nunca mais tive notícia daquele moleque. Gostaria muito de saber por onde ele anda, que fim deu, o que se tornou depois de adulto. Será que está bem?”, disse Otávio, olhando para um ponto indefinido, provavelmente dentro de sua própria cabeça.


Notei que o outro professor que ouvia tudo atento, junto com o grupo, tinha os olhos molhados. Cara de caboclo, moreno atarracado, um pouco mais velho do que nós estudantes e já com uma pós-graduação nas costas. Reconhecido por também ser um excelente profissional das salas de aula, Enilson Pinheiro, também geógrafo, de Alenquer, comovido com o relato, espantou todo mundo, revelando: “o menino era eu”.


Quase 20 anos depois aqueles dois personagens que um dia se esbarraram ocasionalmente em um grotão paraense estavam ali, de novo, frente a frente. Agora no mesmo nível, nem menino, nem universitário: dois professores. Enilson contou como o encontro da infância o influenciou na escolha pela Geografia. Otávio se maravilhou ao descobrir, enfim, o que acontecera com o curumim que sabia na ponta da língua a trajetória alenquerina ao longo dos séculos: eram colegas de trabalho, sem saber disso. Cessou uma preocupação de longa data do mais velho e a amizade interrompida foi retomada naquele fundo de quintal.


Um reencontro improvável, mas não impossível no lugar que é, sem dúvida, um ponto azulado, de névoas reminiscentes, suaves metáforas daquele final de adolescência e prenúncio de dias melhores pra mim.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Top 7 'monstrumentos' mais feios de Belém

Embora esteja maltratada, Belém é uma cidade bonita, não tenha dúvida. Sempre digo que minha Cidade das Mangueiras é igual aquela gata que mora nas baixadas, na periferia: se ganhasse um trato, um banho de loja, carinho, atenção e um bom plano de saúde, virava Miss Brasil. Não tinha pra ninguém.
Como a gostosona do subúrbio, Belém mantém a lindeza, com muitos pontos alto, como o Teatro da Paz, a Igreja de Santo Alexandre e até o Hangar, para não ficar só em prédios mais antigos. Obviamente, tem os pontos fracos também e, diga-se... como tem gente ajudando a embarangar a mangueirosa.
Da iniciativa privada e do poder público, ao longos dos anos, foram vários atentados para deixar a capital como um canhão, um dragão, um cão do avesso chupando taperebá verde. Mas ela tem resistido bravamente, mesmo sem poder se livrar dos adereços horríveis que lhe incomodam, como faria uma mulher de verdade.
Contra as tentativas de enfeiamento da minha cidade natal, selecionei alguns itens que não fariam nenhuma falta se fossem retirados dos logradouros públicos ou mesmo das propriedades particulares. Veja se concorda comigo, no Top 7 abaixo:Tulipa da Cerpa - Entroncamento - Castanheira: o prédio inteiro é um exemplo lancinante de mau gosto. Parece aquelas maquetes feitas por moleques de 4ª série pra professora solteirona de Educação Artística que teima em passar trabalho difícil. Não bastasse o conjunto da obra, aquele copão coroando o edifício é a cereja que faltava no bolo podre. Quando era pequeno até achava engraçado, mas já deu. E esse tipo de propaganda com neón já caiu em desgraça faz anos. Aliás, nem o neón acende mais. Quem chega avista de longe o ícone da indústria de bebidas paraense. Mal sabe o visitante que tomar duas garrafas te estraga todo o dia seguinte.Boi da Churrascaria Rodeio - Rod. Augusto Montenegro - Marambaia: esse aí é um dos meus preferidos. Me respondam, o que faz este bovino observando o passa-passa de carros na Augusto Montenegro? Ok, ok, vende carne assada no estabelecimento. Mas precisava colocar uma réplica em tamanho natural do bicho. Fora que você olha e ele está com uma expressão triste, como que dizendo: 'entrem, entrem. Meus parentes estão sendo trucidados aí atrás'. A depressão do animal deve ter a ver também com o ambiente urbano, nada apropriado para ele. A decoração é ruim, mas a comida é legal (será que ganho desconto com esse comentário?). Cabeção do Ruy Barata - Complexo Ver-O-Rio - Umarizal: colocaram a 'homenagem' na gestão municipal do Edmilson Rodrigues, uma época de valorização da cultura local e tal e coisa. Nada contra o poeta, mas essa cabeça descomunal parece muito mais uma sacanagem com o Paranatinga. Deve ter mais de um metro de altura e está com cara de quem está fazendo um esforço danado para não cometer uma gafe gasosa. A estátua em que ele está sentado sozinho e abandonado, no Parque da Residência, é um pouco mais simpática. Só um pouco. Memorial Magalhães Barata - AV. Almirante Barroso - São Brás: É ou não é a nave do 'Xou da Xuxa'? Todo mundo diz que sim. Herança de um dos prefeitos mais malucos que já passaram por aqui, o Papudinho, também conhecido como Hélio Gueiros. O camarada que bolou essa joça deveria levar 350 chibatadas no topo do chapéu de concreto que ele arquitetou pra todo mundo ver. Além de ter um formato ridículo, o espaço ficou ocioso e agora abriga os desvalidos que perambulam em torno do Terminal Rodoviário. Outro lindo cartão postal para quem aporta na Belém do Grão Pará.Estátua da Liberdade - Av. Pedro Álvares Cabral - Umarizal: o dono da Belém Importados deve ter pensado, se é importado é dos EUA, mano. E tascou em Belém a réplica mais bisonha do monumento-símbolo dos Estados Unidos. Na foto não dá para ver direito, mas o escultor passou longe das aulas de proporção e perspectiva. Os braços são maiores que as pernas, a cabeça descomunal e a mão que segura o livro é monstruosa. Já a cara uma mistura de pavor e tédio. Mais um item grotesco para deixar nossa cidade só o filé de buniteza. Coluna da Infâmia - Av. Almirante Barroso - São Brás: o escultor dinamarquês Jens Galschiot muito preocupado com as violações contra os direitos humanos bolou o que ele chama de 'Pilar of Shame'. São esculturas em forma de obelisco que representam 50 corpos distorcidos, torturados. Pro nosso azar, houve o Massacre de Eldorado dos Carajás e o monumento caiu aqui na capital, aludindo a tragédia de 1996. Acima você tem somente um detalhe da 'obra de arte', mas olhando o todo parece um grande toro de merda, um cocozão. Além de levar bala, os sem-terra ainda tiveram uma homenagem desse calibre, francamente. Nossa sorte é que este acinte da estética também está em outras cidades. Monumento à Cabanagem - Av. Almirante Barroso - Castanheira: realmente, não temos sorte com os artistas. Niemeyer, que criou Brasília e é mundialmente conhecido, uma referência em arquitetura, deixou esta bomba esculhambando mais ainda a porta de entrada da capital. Já ouvi diversas versões sobre o significado deste pedaço enorme de concreto armado e, confesso, não achei nenhuma plausível ou justificável para colocar um mondrongo gigantescto no lugar que está. Serviria melhor como rampa de skate ou ainda, se fosse retirado, para escoar melhor o tráfego. Outro espaço que serve de abrigo e banheiro aos mendigos da redondeza.
Bônus trash
Monumento do Menino-Deus – BR-316 – município de Marituba: para não dizer que não falei da Região Metropolitana, mostro para vocês o grande Menino Deus. Se esse é o pequeno primogênito do criador, imagina quando fizerem a estátua do Menino-Diabo. Você pode pensar que se trata de uma alegoria de carnaval ou mesmo de um brinquedo de parque de diversões, mas a fofura de cerca de 10 metros de altura (puro chute) é a réplica da pequena imagem do padroeiro da cidade. Mais uma tentativa mal sucedida de algum escultor amador. Dizem que é a cara do prefeito da cidade, Antônio Armando, quando criança, mas não tenho como confirmar a informação. O camarada Rafael Guede, do Ressaca Moral, já chamou de ‘A maldição de Marituba’ .
Cristo Redentor – Av. Major Wilson - município de Castanhal - Por fim, deixo com outra imitação mal feita. Se há o Cristo do Rio de Janeiro, uma das sete maravilhas do mundo, para que mais um? Porém, não é somente a falta de originalidade que depõe contra este equipamento da Cidade Modelo: ele também é desproporcional, tem pernas e pescoço mais curtos, diferente do famoso primo carioca. Já ouvi gente chamando de 'Cristo Anão'. Mais uma bola fora do embelezamento citadino destas bandas de cá do Brasil.

terça-feira, 21 de julho de 2009

O Belo, o Mau e o Feio no Carnaval

A existência humana é precária. O homem está na terra não tem muito tempo e desde o início se bate para permanecer aqui, tropeça em si mesmo, esquece que bom senso deveria ser item de fábrica de todo mundo. Como diz o Tutty Vasquez, temos vocação para meter o pé na jaca. Ainda assim tem gente que jura estar acima dos percalços, teima em ignorar a condição de homo sapiens, faz do próprio umbigo um Grand Canion, do espelho a sua Helena de Tróia e da vida um imenso horário eleitoral gratuito de si mesmo.
Vai me dizer que você não conhece aquele camarada que faz questão de arrotar o Curriculum Vitae em qualquer conversa trivial ou alardear como comeu três ex-Rainhas das Rainhas ao mesmo tempo ou atravessou sozinho o deserto de Atacama ou insistir que leu 250 livros por ano ou propagar que acabou de acabar o curso de PHd sobre a influência do hermetismo alemão na venda de raspa-raspa pelas ruas de Constantinopla ou ainda aquele que diz identificar a safra do vinho apenas cheirando o bafo de quem bebeu?
Procuro me distanciar destes tipos. Não por raiva ou qualquer outro sentimento violento, como o desejo de dar um murro com soco inglês em cima da boca do sujeito quando começa a encher o saco - ok, só de vez em quando. Geralmente, não fico zangado. Apenas salto de uma crise incontrolável de riso para uma tristeza profunda por saber que o mundo está cheio gente assim.
Mas, a vida é uma caixinha de surpresas e quando menos se espera você está cercado. Foi assim no carnaval passado. Queria apenas sossegar com meu amor na ilha do Marajó. Reservei vaga na Pousada Ventania, em Joanes, e partimos. Quase cinco dias de pernas pro ar, contemplando a natureza, fazendo juras de amor e sexo selvagem e enchendo a cara numa boa. Ah, que beleza. Ninguém contava com um grupo de críticos de arte-cineastas-poetas que estava no local refletindo sobre estética, hermenêutica, dialética e sobre quem veio primeiro: o ovo esquerdo ou o ovo direito.

O Marajó não espera o grupo de intelectuais no carnaval 2010.

Alguém já disse que só os chatos são inteligentes no café da manhã. Jurava que todo mundo sabia disso, mas vi que não. No primeiro dia que encontrei o trio, a mulher falava sobre a palavra na copa/cozinha do hotel. Sim, a "palavra como conceito", a “palavra-símbolo”, aquele papo todo de que "no princípio era o caos e o verbo colocou ordem em tudo"; e como era importante a palavra para "construção e desconstrução da civilização ocidental"; como a poesia era a arte pura da palavra; que tudo era palavra, palavra pra lá, palavra pra cá, teleco-teco, balaco-balaco, ziriguidum; o importante era dizer muito com pouco, mais é menos.

Olhei minha namorada nos olhos e me reconheci naquele olhar. Não, não estávamos falando de amor. Estávamos contendo a vontade de mandar aquela maldita calar a boca. Pera lá, mermão. Oito e meia da manhã e a sujeita teorizando. Essa hora não consigo nem decidir se escovo os dentes ou lavo o saco primeiro. Sentei à mesa comum - sim, não tinha jeito, todo mundo no mesmo lugar. Me concentrei na comida e identifiquei o líder. Dava pra confundi-lo com aspirante a cover do Los Hermanos, mendigo de porta de igreja ou mulçumano fundamentalista. O cara tinha mais opinião do que estudante de Jornalismo em debate sobre a obrigatoriedade do diploma.

De camisa hering surrada, calça comprida de sarja; sandálias de dedo; mochila velha; livro propositadamente aberto mesmo enquanto mascava o pão, o raapz se vangloriava : "sim, vejam só, ela era minha fã. Miniha fã! Dizia que adorava meus textos, que colecionava tudo que eu escrevia; que me tinha como um mestre, quase uma paixão platônica, vejam só. Me adorava, sem nunca sequer ter falado comigo; só pelo que lia no meu blog. Tenho centenas de fãs assim". Fiquei intrigado. Sou um cretino mesmo, porque avaliei se, de fato, a figura era alguém conhecido. Sei lá, vai que é um escritor, um ganhador do Nobel. A pousada era conhecida por receber autoridades, príncipes europeus até. Vai que estava diante de uma sumidade. Mas, não era. Era apenas alguém querendo ser uma e seus parceiros fingindo que acreditavam.

A mulher era comprida - e desarrumada, milimetricamente, para parecer despojada - ouvia aquela palestra particular com ar de maravilha. Não tanto quando o outro rapaz, barbado também com o mesmo estilo de roupa. Mão no queixo, sorriso bobo, suspiros e mais suspiros diante do ídolo. Pestanas piscando velozes. Por pouco, não vi os coraçõezinhos acima da cabeça do apaixonado. Sim, o intelectual tinha um séquito. De duas pessoas, mas tinha, ora. Tinham sotaque do Sudeste, talvez fossem paulistas.

Mais tarde vi os três na praia: todo mundo empacotado. Ninguém cogitou a hipótese de vestir roupas mais leves como os reles demais freqüentadores. Livros nas mãos, gestos medidos, interpretando uma cena de filme francês na areia quente marajoara, foram passear. Voltaram pouco depois, com cara de tédio. O clima não ajudou a compor os personagens. Mas, tarde quando minha namorada teve que ir até o quarto buscar o protetor solar, voltou rindo, contando a nova presepada do trio Los Angeles: um micro-sarau com o comandante lendo Clarice Lispector em voz alta para os outros dois que se fingiam de analfabetos debaixo de um sol escaldante.

Na manhã seguinte, novo café da manhã, novas lições ditas em voz alta para que ninguém num raio de 500 metros pudesse se privar de tanta sabedoria. O cabeça soltou a frase que iria marcar todo o ano de 2009: “eu, como artista, busco o belo”. Acho que estava se referindo ao Belo, ex-namorado da Viviane Araújo, preso por envolvimento com drogas mais perigosas do que os pagodes gravados pelo cantor.

"Eu, como artista, busco o belo".

Entre um gole na xícara de café com leite e uma mordida no pão com ovo, o crítico-poeta-cinesta-cientista-social-agitador-cultural-intelectual vomitou, muito excitado, a sentença: "tenho um filme, elaborado por mim mesmo, que tenho certeza que só EU posso executar. Ninguém mais pode. Só eu". Quer dizer, Martin Scorcese, Steven Spielberg, Steven Soderbergh, Francis Ford Copolla, Fernando Meirelles, Danny Boyle, Sam Raimi, Peter Jackson, ninguém, absolutamente ninguém conseguiria dar vida à idéia daquele gênio perdido na Amazônia.

Mas, a cartada final estava por vir. No último dia, por um acaso, reuniram-se na cozinha quase todos os hóspedes, incluindo um lingüista alemão, com a esposa, filho e mais uma família de índios, que acompanhava o estrangeiro pra lá e pra cá.sim, a pousa é muito cosmopolita. Rápido os notáveis começaram um diálogo, uma disputa silenciosa e inconsciente, para ver quem era o mais sábio, o mais Ozymandias, o mais mestre dos magos de todos.

O alemão venceu. Depois de perguntado por uma hóspede quantos idiomas falava, ele sorriu o sorriso da vitória e com um leve sotaque proferiu: “falo o alemão, o português, o inglês, o espanhol, o italiano e o francês. Mas consigo ler e escrever qualquer língua do mundo”. Silêncio. Alguém disse baixo “nossa”. Não estava mais ali o poeta. Uma pena ter partido antes. Finalmente, ali estava um adversário de peso para confrontá-lo.

Depois da declaração, peguei meu amor pelas mãos e sai. Cumprimentamos os mutantes com risadas disfarçadas para parecer cordialidade. Nosso canto não era ali, naquele pedaço mega-povoado de superdotados. Cansados do falatório, fomos namorar. Nada de retórica, nada de disputas cerebrais. Trancamos a porta do quarto e o mundo ficou lá fora, esquecido. Mais uma vez nos entregamos à brincadeira na qual pensar é o que menos importa. O carnaval foi excelente: Marajó, aconchego, minha amada e muitos motivos para rir.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A Lenda de Josefina

Fui um estudante de Jornalismo muito relapso, confesso. Ía pra universidade sem nenhum caderno, só com umas folhas soltas de papel no bolso e, de vez em quando, uma caneta Bic, que teimava em falhar ou ser perdida. Nas aulas, ficava olhando cofrinhos das meninas, me comunicando por bilhetes com os colegas mais chegados, desenhando rabiscos inúteis e observando defeitos físicos, fonaudiológicos e comportamentais dos professores. E tenho a impressão de que não estava sozinho no meu déficit de atenção.

Lá, aprendi mal e porcamente umas noções de redação jornalística; e que a Indústria Cultural é decisiva na formação histórica-política-econômica-cultural-social-cabeça-do-meu-pai do mundo pós-contemporâneo, onde o indivíduo não é único em si mesmo e está fragmentado diante de suas várias funções sociais permeadas por fenômenos midiáticos a todo instante, além de entender que isso não me serviria para porra nenhuma mais tarde.

Percebi ainda que a Vênus Platinada tinha muito mais poder sobre mentes e corações dos brasileiros e Roberto Marinho era mais pilantra do que eu pensava. Saquei ainda que Lúcio Flávio Pinto tem meia dúzias de histórias que ele repete sempre em palestras para o público juvenil, incansavelmente; que a Escola de Frankfut nunca teve um prédio de verdade como sede e Adorno não é somente sinônimo de enfeite, mas sim nome de gente também; e ainda que em viagens para encontros estudantis o que se faz menos é assistir a programação oficial e que as moças bonitas e gostosas do curso de Comunicação não dão confiança para rapazes como eu, isto em qualquer lugar do Brasil.

E compreendi ainda que não havia recursos na universidade para executar projetos experimentais decentes, como documentários e curta-metragens, coisas que me interessam e se tivesse oportunidade me dedicaria profissionalmente a fazê-las. Diante das vicissitudes da vida acadêmica e com um estoque infinito de predisposição para sacanagem gratuita, certa feita bolamos - eu e meus comparsas - um anti-documentário para uma disciplina ministrada pelo professor Otácilio Amaral. Isso lá em 2002.

O resultado são pouco mais de 13 minutos de uma versão alternativa para a lenda da moça do táxi, uma das muitas histórias de fantasma contadas no livro 'Visagens e assombrações de Belém', escrito por Walcyr Monteiro, escritor e jornalista. Muito generoso e com um senso de humor surpreendente, ele nos concedeu entrevistas e aceitou a brincadeira na boa. Hoje em dia faz questão de exibir o filminho em eventos literários quando tem oportunidade.

Deixo para apreciação esta obra de arte da falta de técnica cinematográfica e da vocação para o vexame e o descaramento, feita com orçamento abaixo de zero em um tempo que, se não dava para mudar o mundo, o jeito era avacalhá-lo. Alguns visitantes do blog já até conhecem, mas outros não viram. Portanto, revejam ou vejam 'A Lenda de Josefina', um 'crássico' exibido na TV Cultural local algumas vezes, mas que nunca vai estar em um cinema perto de você.
A versão foi reduzida para caber no Youtube e por isso não possui os devidos créditos. Denuncio abaixo, portanto, os 'irresponsáveis' por esta produção.

Elenco: Jéssica Martineli, Walber Neves e Paulo Nazareno.
Direção, roteiro e produção: Atores + Anderson Araújo, Lucas Damasceno e Flávio D'Oliveira.
Edição: Thiago Conceição
Participação + que especial: Walcyr Monteiro.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Selvagens da noite na Pedreira

A década de 90 foi marcada pela violência no meu bairro, a Pedreira, como em tantas outras periferias de Belém e de outros centros urbanos brasileiros. A maioria dos moleques conhecidos meus rápido se envolveu em confusão pesada, começando com o ingresso nas ‘gangues’. Dizem que a moda de se juntar em um grupo e confrontar com outros começou bem antes, quando a Globo exibiu ‘The Warriors’ (1979).

O título ganhou tradução no Brasil como ‘Selvagens da noite’ e mostrou para os garotos da minha idade que era muita aventura na veia e legal bagaraio delinqüir, dar porrada, se matar e ter parceiros para viver essas loucuras abrigados em um nome qualquer, como os partidos políticos mais ou menos. Associe o bombardeio televisivo, falta de educação e acesso ao lazer mais pobreza extrema e teremos o que os sociólogos podem chamar de fenômeno social, mas eu prefiro chamar de inferno.
Todo mundo bom de porrada, muito style e entrosado. Como ficar de fora de uma gangue? Ainda bem que não vi o filme e sobrevivi à décaca de 90.
Da brincadeira de botar os rivais pra correr a agressões mais graves foi um pulo. Do porradal para espancamentos brutais, com aleijamento e mutilações, outro salto e bem curto. E da guerra de pauladas e pedradas pra morte não demorou nada. Via aquilo tudo com medo e minha mãe mais ainda. Afinal, era só um moleque e todo mundo acreditava, naquele tempo, que morador de outra área era inimigo. Tanto que passar pelo território da União só por muita necessidade – eu morava na parte dos gangueiros da ‘Terror’.

Sim, na minha época, eram essas duas gangues que incorporavam a besta fera e barbarizavam pelas ruas. Porém, existiam muitas outras menores e de outros bairros, como a ‘Turma da Praça’, um povo perigoso lá da Sacramenta, e os ‘Abandonados’, uma gangue menor meio mancomunada com os ‘terroristas’, da qual um dos integrantes principais morreu na esquina da Trav. Alferes Costa com a Av. Marques de Herval, crivado de balas despejadas não se sabe por quem.

O apelido dele? ‘Descartável’. Muito apropriado, por sinal. Ainda recordo do resto de vela que ficou grudado no chão vários dias depois do assassinato. O moleque não gostava de mim e, de vez em quando, me ameaçava, se valendo da minha ausência absoluta de valentia e do meu físico raquítico. Foi tarde, o maldito.
Pedreira do meu coração. Av. Marquês de Herval, palco de porradarias mil em tempos idos.
Mas, a morte de Descartável, era previsível. Pequeno ainda, ele já era um malfeitor, daqueles de roubar pequenas coisas e não ter medo dos mais velhos. Virou cheira-cola e devia fumar maconha escondido também. Tinha um aspecto feio, desnutrido, um sorriso estragado e um brilho de diabo nos olhos que anunciava morte prematura. Partiu com uns 14, 15 anos, no máximo.

Só que o que precipitou mesmo o apocalipse naquela área do meu princípio de adolescência mesmo foi a morte de ‘Monga’. Eu já era um estudante secundarista, quando desci do ônibus, voltando pra casa, e me abriguei numa mercearia - extinta atualmente - pra esperar um toró bíblico passar. Do nada, uma guerra estourou debaixo d’água bem diante de mim e de quem estava aguardando passar a torrente.

A tarde branca de tanta chuva e aqueles moleques se atirando pedaços de pau, pedras e o que tinha pela frente. Alguns corriam com estacas na mão e ameaçam os rivais de longe, gritando palavrões e o nome do seu grupo. Aquilo ali já tinha caído no descrédito, a picuinha durava anos, com poucas vítimas fatais. Ninguém tinha certeza de que Descartável fora morto por rivais ou por vingança, afinal ele era um cara detestado por muitos e já tinha cometido muitos roubos. A morte dele não estava na contabilidade do conflito entre gangues. Aquela espizinhação eterna era coisa de criança ou dos marmanjos mal resolvidos, pensávamos.

Quando a chuva passou e a briga cessou, fui pra casa. Mais tarde descobri que Monga tinha sido morto no conflito, com um golpe certeiro de pernamanca na cabeça. Traumatismo e perda de massa encefálica. Um dos suspeitos era Quedel, meu vizinho e amigo de infância. Um garoto esperto, veloz, ágil, inventivo, mas meio errado. Nunca soube se foi ele mesmo. O fato é que o colega sumiu no mundo. Fiquei triste com a notícia e só o reencontrei anos depois num carnaval de chuvisco na nossa velha Pedreira. Me apareceu calmo, saudoso e os mesmos olhos puros de criança, mas não conversamos. A vida e a morte nos afastaram para sempre.

No tempo em que ocorreu o crime, os boatos eram os piores possíveis. Monga morava na Santo Antônio, uma ruazinha bem próxima da minha. Diziam que as gangues ofendidas com a morte invadiriam a rua e matariam quem se colocasse na frente; tocariam fogo nas casas; estuprariam mulheres; tocariam o terror. Os moradores contavam apavorados que um assassino disfarçado apareceria a qualquer hora para vingar o morto.

À noite, horas depois do homicídio, sentei com um amigo meu na calçada e comentávamos o ocorrido, as suspeitas, o fato em si, os desdobramentos, quando despontou uma silhueta na entrada da rua. Começamos a especular porque o clima era tenso. Poderia ser o vingador. Tinha cara. Cada vez que se aproximava mais, o medo crescia. A uns cem metros, o homem olhou pra nós e estranhamente colocou a mão pra trás das costas, como se fosse sacar uma arma. Ninguém, além de nós dois, estava fora de casa.

Suamos. Meu deus, era o fim. Íamos morrer por causa do Monga? Putaqueopariu. Mas a gente nunca tinha se metido em confusão. Éramos dois covardes, amamãezados, chamados até de Zé Mané pelos marginais. Fugíamos do contato com gangues como os jogadores de futebol fogem de testes de DNA. Porra, não era justo. Levar tiro por nada, findar a vida numa calçada aos 16 anos, na frente de casa? Definitivamente, aquilo era uma injustiça. Além do mais, não tinha comido ninguém e morreria virgem. Que merda!

Outro filme-inspiração. Laranja Mecânica e os drugues: ultraviolência de mentirinha do kubric.
O desconhecido já estava bem perto. Olhei pro meu amigo e ele pra mim. Interpretei depois o olhar com duas hipóteses: ou estávamos nos despedindo entre si e da vida ou estávamos pensando: “BORA, CORREEEEEEEEEEEEEEEERR”. Ficamos parados de pavor. O homem se curvou pra ser ouvido melhor, porque estávamos sentados. E mostrou a mão, escondida todo esse tempo, completando com a frase: “vocês conhecem o seu Raimundo Sapateiro?”.

Vimos o papel com nome e endereço mostrado pelo inofensivo transeunte. O local que não passava uma agulha descontraiu-se. Respiramos. Demos a informação, o homem seguiu para encontrar, na verdade, o seu China, como seu Raimundo era conhecido na redondeza. Passado o susto, rimos muito e prometemos entrar mais cedo enquanto a boataria sobre a morte de Monga não passasse. Rimos, mas não dava pra brincar. O azar dava as primeiras incertas pela Pedreira naqueles tempos de violência.
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Bons tempos aqueles em que a violência se restringia às brigas de gangue. Hoje a maioria dos moleques esqueceu as desavenças e se uniu para meter o bicho e com o dinheiro fazer a cabeça. A Cidade de Deus é aqui.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Entrevista com o além

O bom de ser jornalista é a diversidade de pessoas que temos contato. Já conversei com tipos diversos. Nesse pouco tempo exercendo a função, topei com políticos, artistas, cientistas, ambientalistas, mentirosos de todos os naipes, economistas, pescadores, turistas, escritores, assaltantes, delegados, secretários de Estado, sem-terras, ministros, mendigos. Até o Lula vi de perto em coberturas. Bati papo também com centenas de pessoas "comuns" e até com quem partiu para o outro lado. Sim, isso mesmo. As entidades, os fantasmas, os espíritos zombeteiros, o povo que está agora ao seu redor aí e você não está percebendo. Buuuu!
Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay.
Início de trabalho no Diário do Pará, animado com a condição de repórter, me passaram uma pauta legal pra apurar. Curas milagrosas! Bacana. Era uma matéria especial pra lançar nas duas páginas centrais. Precisava de paciência e alguns personagens. A produção, muito prestativa, arrumou de tudo: pastor que curava bronquite, lepra, calo, barriga d'água, mau olhado, micose, câncer, aids, como se tudo fosse uma simples gripe.
Agendaram ainda com curandeiros especializados em ervas; hipnólogos; charlatões de rua e adeptos de técnicas alternativas de Medicina. Era uma fauna que de tão extensa já tinha bulido o juízo do foca em questão. Perdido no meio de tanta história, eu precisava de um "gancho", como se diz no jargão jornalístico.
Não apareceu o tal gancho, mas sim luz no fim do túnel pra dar sentido aquela misturada que ninguém sabia onde ia chegar. Numa quarta-feira, parti para estrada de Outeiro, distrito de Belém, junto com o fotógrafo Jaime Souzza. Conversaria naquele dia com um pai de santo, muito respeitado, que curava todo tipo de problema de quem se submetia às suas consultas.
Chegamos na casa do médium, uma construção modesta feita de madeira, mas muito confortável, limpa e arrumada. Uma adolescente, bonita e educada nos recebeu. Ofereceu água e foi chamar o entrevistado.
Sem demora, chegou: baixinho, franzino, um bigode das antigas mostrando ser homem de respeito, muito calmo e atento, olhos pequenos de quem sabe com o que está lidando de primeira. Pensei que fosse encontrar um mulato de carapinha branca, expansivo e com jeito efeminado, coberto de contas, miçangas e um modelito branco super-fashion coroado com um turbante. Nada disso. Meu preconceito, se espatifou na primeira impressão.

Seu João tinha 72 anos, mas parecia mais jovem, era discreto e tinha gestos medidos, falava corretamente, em um tom baixo, uma fala mansa. Contou da sua mediunidade revelada aos 12 anos e como foi difícil até entender que tinha uma 'missão'. O pai de santo comentou que era apenas instrumento das entidades que usavam seu corpo para fazer apenas o bem.
O bem significava curas. Para qualquer tipo de doença. Muitas graves, como o câncer. Mas, seu João fez questão de enfatizar que recomendava aos seus clientes nunca largar o tratamento convencional, com médicos de verdade. A equipe do além trabalhava em conjunto com os encarnados. Era uma força-tarefa mista para trazer saúde a quem procurava ajuda de todas as formas. Dinheiro? Hum. Disse que recebia, sim, mas só para se manter. Gente séria, segundo o umbandista, não ficava rico com a atividade. Olhei em volta e constatei que, se valesse o critério, ele realmente era de uma seriedade fecunda.

Interessado no inusitado, perguntei quem lhe usava como "cavalo", o termo usado na umbanda pra denominar as pessoas que incorporam as entidades. E João respondeu "vários". Porém, comentou que seus guias maiores eram "Pai Marinheiro" e "Pai Boiadeiro". Um do mar e outro da terra que desciam para sarar os enfermos. O médium não lembrava quase nada depois que os espiritos o abandonavam, só sentia cansaço e frio.
Lá do além, marinheiros podem ajudar você.
Me sentindo ousado pedi uma audiência com um dos guias, afinal, eles bem que podiam dar uma entrevista e contribuir com a matéria. Por que não? Seu João indicou Pai Marinheiro. Logo mais viria para a visita de toda manhã de quarta-feira. Não demorou muito, o umbandista pediu pra se retirar: era hora da incorporação. "Mas, eu não posso ver?". O homem olhou sério e rebateu: "melhor não". Acreditei. Ele seguiu para o quarto.

Fiquei na espera, junto com a adolescente. Puxei assunto, a moça relatou ser de Pernambuco, ter 19 anos e que seu "marido" era um homem formidável. MARIDO??? Achei que a menina era neta de seu João, com mais do que meio século de vida há mais que ela. A expressão de felicidade da jovem pernambucana e os elogios seguidos não deixavam dúvida de que o médium cumpria suas obrigações não somente com os santos.

Ela se retirou e em seguida me chamou para entrar no quarto, onde Pai Marinheiro já estava esperando. Abriu a porta com cuidado. Entrei e só vi a pequena ilha de claridade no centro do ambiente. Muitas velas e um banquinho defronte ao entrevistado do outro mundo. Cumprimentei como se nunca tivesse visto aquele homem, naturalmente.
Seu João ganhara outra postura, parecia mais forte, a expressão era outra. Estava mais decidido e menos suave. A roupa combinava elementos marítimos, como um gorro ao modo Popeye, e colares e guias da religião africana. O fotógrafo também entrou e começou a registrar discretamente o papo sobrenatural.

Altar típico. Sincretismo rulez.
No breu do dormitório abarrotado de imagens do culto afro e santos católicos, mergulhado num cheiro de alfazema e defumação, Marinheiro falou. Era experiente no mar e de Santos, do litoral paulista, porém, sem sotaque carregado no R. A fala era meio enrolada, mas entendi que quando encarnado ajudava os parceiros tripulantes na embarcação, uma espécie de faz tudo. Ía do bisturi ao mertiolate na maior tranquilidade. Morreu naufragado e no outro lado percebeu o poder de ajudar quem ainda não havia batido as botas.

Marinheiro alertou que já ia 'subir', sinal de tempo esgostando para o repórter. Talvez um assessor invisível tivesse alertado que a conversa estava se estendendo demais. É, porque se existe entidade profissional de saúde é muito provável que exista também de entidades especializadas em assessoria de impressa e comunicação.

Antes de sair, Marinheiro se sacudiu novamente, jogou umas moedas antigas no chão, fez uns movimentos bruscos meio incompreensíveis, segurou meu braço com força e disse que eu era "gente de bem", "de paz". Tipo assim "você é brother, véio. Te considero pra caramba". Não pude ver a alma abandonar a carcaça do velho médium, mas fiquei aliviado com a aprovação. Temia que o marujo não fosse com minha cara. Vai que ele me solta uma praga, uma maldição ou um ebó qualquer que desconheço, mizi fio.

Naquele dia, aprendi: meu ceticismo tem um limite bem mais curto do que eu propagava. Voltei empolgado, mas a matéria ficou uma merda.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Mundo cão particular

O Jornalismo não é engraçado. Até é, mas não na essência. A sisudez vem muito de quem faz o jornalismo. Geralmente, é gente sem senso de humor, que se leva a sério demais e que acredita que seriedade está diretamente ligada a uma cara emburrada e a tratar o semelhante na patada. No núcleo do jornalismo, tem 30% de faro para o erro alheio, 30% de tragédia, 30% de drama e nos 10% restante cabem o êxito, a glória, o sucesso e o heroísmo de alguns poucos eleitos, além das notícias sobre quem está pegando quem.
Gente fina, elegante e sincera: Casoy, ícone do jornalismo sisudo.
Eu rio todos os dias do jornalismo e dos jornalistas, inclusive - e principalmente - de mim mesmo. Dificilmente, dou a honra de alguém me sacanear antes que eu mesmo faça isso. Mas, em suma, o jornalismo não é engraçado.

No dia a dia, se percebe que lidamos com o grave, o extremo, a dor, mais com o choro do que com o riso. É barra. E a ala dos que lidam com assuntos mais leves não é vista com bons olhos: jornalista bom é aquele que engole maldades do café da manhã e vomita uma manchete cabulosa antes do almoço, preconizam os bambambans.

Depois do colunismo social, talvez o editoria de polícia seja a pior área para estômagos sensíveis cumprirem a função, sobretudo, na reportagem, onde o fato se esparrama diante dos seus olhos e o sangue espirra no bloco de anotação. Menciono o tema, porque lembrei da pior "ronda" que fiz.

Hoje cubro assuntos ligados à economia e política, mas já visitei muita delegacia e fiz alguns 'corpos no local', como chamam os cadáveres ainda frescos não recolhidos pelo IML, prontinhos para estampar as capas dos cadernos de sangue do dia seguinte – a Justiça já proibiu, mas ainda acontece. De vez em quando, aos fins de semana, quando o azar me acha na escala de trabalho, retomo a função.

A pior das matérias foi feita na época do Diário do Pará. Não pelo crime em si, nem pela visão do cadáver estirado em uma rua do centro de Ananindeua, na Grande Belém, em um domingo qualquer. Era um taxista, mais de 60 anos. Foi assaltado e morto sem piedade. Um rombo grotesco na nuca. Sinal de morte gratuita, com disparo feito com a arma colada na cabeça da vítima. Estava escanchado, de peito pra cima, perto de um poste de luz. A boca aberta, o sangue empapado, o jornal velho mal cobrindo o rosto. Os assassinos largaram o corpo ali e levaram o veículo.
De vez em quando o azar me chama e tenho que ir pra rua.
Cheguei, vi a multidão de curiosos mórbidos, furei o bloqueio e alcancei o oficial da PM, que tomava as primeiras informações para ajudar a civil na investigação. Perguntei o que houve, o capitão fez um relato curto, constrangido, parecia mal relatando os fatos. Depois entendi. Ele disse: 'os filhos dele estão ali'. Apontou para dois policiais, que eu logo visualizei na multidão.

A expressão dos fardados era única. Nenhuma daquelas mulheres fofoqueiras, nenhum menino sem mãe, nenhum bêbado, nenhum morador da área, nenhum transeunte guardava aquelas feições. Eram duas estátuas de ódio. Cabeça inclinada para frente, apertavam o quepe com toda força e olhavam fixo o corpo do pai, os olhos vermelhos, sem lágrimas, as faces petrificadas e as têmporas retumbando.

O capitão contou que os dois foram apanhados de surpresa. Estavam de serviço fazendo o policiamento da área, quando foram acionados sobre o corpo de um taxista depositado em via pública. Chegando ao local, os dois soldados se depararam com o homem que os criou e mesmo depois de velho trabalhava atrás do volante para se sustentar.

Respeitei aquele silêncio. Eram dois torturados, sem acreditar no que tinha ocorrido. Voltei impressionado com a infeliz coincidência para os filhos-soldados. Escrevi a matéria e ela foi perdida na edição no meio de tantas outras. Três dias depois, encontraram dois corpos mutilados em um ramal, no município de Benfica, uns 60 quilômetros de distância da capital.

Os homens foram esfolados vivos, espancados de todas as formas possíveis, escalpelados e tiveram pés e mãos cortados para dificultar a identificação. Nenhuma informações sobre quem havia cometido o duplo homicídio.

O editor, muito mais velho e mais experiente, sugeriu quando contei a história: teria o crime relação com a morte do taxista? Não seriam os cadáveres dos assassinos do trabalhador agora vingado pelos filhos policiais? Não mencionei na nova matéria as suposições, mas não duvidei da vingança dos PMs. A impressão que tive naquele dia é que tinham ira e força pra matar até os 300 de Esparta se soubessem quem tirara a vida do velho pai.

Post dedicado à minha amiga Taináires, do
Nécessaire.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Toma aqui os 50 reais

A história reúne seres repugnantes, desprezo à vida do próximo, acessos de fúria e muito asco. Não, ainda não contarei como sobrevivi a uma horda de zumbis comedores de miolo nas ilhas encantadas do Marajó. O papo é outro, com mortos-vivos muito piores.

Refrigerantes custam, em média, R$ 1,50 a garrafa.

Era final do ano em 2007 e as eleições 2006 ainda davam o que falar. Principalmente, nos tribunais eleitorais. Ministério Público afiado na caça aos bobinhos e muito nego sendo enquadrado. Nesse clima, numa sexta-feira perto do Natal, fui acionado para ouvir a versão de um deputado federal, condenado pela Justiça Eleitoral por comprar voto esterilizando mulheres miseráveis no seu curral eleitoral. Cabia recurso.

E ele recorreu e queria expor publicamente para limpar sua barra. Dada a ordem da chefia para fazer a materia, li muito rapidamente o fax com os argumentos da defesa e parti para o hotel onde o entrevistado me aguardava. Com o latinório embolado dos advogados já dava para produzir o texto e com um simples telefonema poderia pegar uma declaração do ilustre. Mas, queria o safardana um repórter para ouvi-lo pessoalmente. Fui, portanto.

Na chegada do hotel, onde o deputado estava hospedado, meu alerta aguçou: um assessor me aguardava, com visível ansiedade, no hall de entrada. Cumprimentos e apresentações formais, o sujeito pede pro fotógrafo e eu subirmos até o apartamento onde o deputado estava hospedado. Alguma coisa estava errada. Pensei na hipótese de pederastia, mas não corriam boatos desse gênero em torno do parlamentar, nem acreditei que pudesse ser vítima de tal proposta. Descartado o risco, entrei no elevador.

Enquanto subia até o décimo andar, continuava com a incômoda sensação: por que ele não desceu pra dar a entrevista? Abriu-se a porta. No quarto, o entrevistado e outro assessor aguardavam. De paletó pra sair bonito na foto, o malandro oficial começou a encenação da sua inocência.

Como era apenas repetição do que já conhecia, não levei um gravador e fiz apenas perguntas básicas. Era somente um complemento. A matéria estava pronta na minha cabeça, bastava ouvir as sabidas mentiras do calhorda, neste caso, asseguradas por um direito de resposta. Fim da conversa enfadonha, um amontoado de desculpas furadas e evasivas. Na matéria deixaria fora meu juízo de valor, mas conclui como merecida a condenação. Um sujeito daqueles com certeza não estava na política por suas boas intenções ou préstimos à sociedade. Pena não ter sido naquela vez o extermínio do verme pela Justiça, pensei.

Na despedida, ele confirmou sua índole, mostrando que o vício do cachimbo realmente entorta a boca. Sem a menor cerimônia, puxou uma nota de 50 reais e disse: “muito obrigado, meu filho. Pegue aqui para tomar um refrigerante”.
Oferta parlamentar a repórter: jornalistas desvalorizados até na tentativa de suborno.

Não acreditei. O fotógrafo, pasmo, virou de costas, numa reação típica de vergonha. Senti um silêncio doído, que só sinto na constatação de uma tragédia, um prenúncio de tristeza irreparável. Respirei. Um segundo pra me recompor, segurar a vontade de mandá-lo pro inferno e de lhe dar um direto no meio da cara safada. Recusei a proposta imunda, mais ou menos nestes termos: “o senhor não me deve nada. Estou fazendo meu trabalho, guarde seu dinheiro”. Então, as vozes dos assessores e do entrevistado se misturaram: “Não, não entenda mal”, “aceita, que isso”, “pega logo, não precisa ficar com vergonha”, "não faça essa desfeita" e até um “que bom, você é honesto”.

Minha reação foi sair o mais rápido possível do recinto e contar o ocorrido na matéria. Queria um computador urgentemente. Mas, não havia provas, não gravei nada, o fotógrafo também não fez nenhum registro. Seria minha palavra contra a do marginal. Me convenci de que não tinha como me vingar. E, pelo visto, comprar briga com um bandido daquele naipe não seria bom pra saúde. Mantive-o fora do registro no jornal, como deste aqui também. Engoli, resignado aquele sapo azul de podre, de terno e gravata, temperado a pus e tapurus.

No elevador, olhei pro meu parceiro de trabalho. Estávamos de jeans, camiseta e tênis. Dois legítimos representantes de uma categoria que ganha mal, dois frutos da periferia que chegara ao jornalismo. Mal vestidos, sim. Me senti um mendigo. Pensei que se estivéssemos elegantemente arrumados, fóssemos brancos de olho azul, a oferta seria maior ou não haveria o contrangimento. Uma coca-cola muito mais cara, pensaria o político pilantra.

No carro, na volta pra redação, comentamos o absurdo. Eu refletia sobre como estamos cercados com a corrupção, como estamos mal representados, como minha profissão esfrega a realidade nua e cruel na minha cara, como infelizmente não esmurrei aquele desgraçado. Alheio ao problema e bem humorado, o motorista soltou a pérola: “porra, 50 reais? Se ainda tivesse oferecido uns cinco mil ou até 500... já aliviada a pindaíba do fim de ano”. Rimos. Pra não chorar.