terça-feira, 17 de novembro de 2009

Ameaça renal


Ando chato, amargo e mais mal humorado do que o normal. Junto com toda essa zica anda uma maldita tristeza do meu lado, parece um vira-lata que acaba de reconhecer o dono no meio da rua. Toda essa situação deixou o blog de castigo esses dias todos, sem nenhuma atualização. Não sei se vocês ainda estão aí lendo essas parcas linhas que, de vez em quando, tentam provocar, seja riso ou raiva em quem lê. Espero que não tenham ido embora. Estou na área, enfraquecido e relapso, mas estou.

O fato é que este blog é muito querido por mim, sobretudo, pelo contato com quem visita aqui, deixa ou não seu comentário ou me encontra na nossa minúscula Belém dizendo que gostou de tal texto ou tal gracejo. É uma satisfação que suplanta o pensamento cretino que tenho quando digo que esta página não me rende nada.

Realmente, não ganho uma moeda furada e até paguei caro pelo que já escrevi neste espaço devido a achar que tudo pode ser encarado com o humor que pretensamente tenho. Perdi o que acreditava ser minha jóia mais rara. A única por sinal, porque não tenho essas viadagens de ficar me enfeitando – mais piadas inúteis. Sim, eu não aprendo!

A questão é que repensei sobre ser mais leve. Não que seja pesado o que escrevo aqui. Se fosse colocar para fora a revolta que tenho de algumas pessoas e situações, a Justiça já tinha mandado interditar esse lugar e eu precisaria de proteção de capangas contratados, porque até a polícia me procuraria para me ensinar quem está certo.

Mas, em momento como este você reflete, fazendo uma ameaça renal em si mesmo (canivete apontado para os próprios rins, na quase-agressão mais incômoda da face da terra): [liga voz de vilão de filme policial]“ei, mermão, tu estás fazendo merda. Tu já te ferraste uma vez. Vai querer de novo, éé?”[desliga voz de vilão de filme policial]. Quem nunca recebeu uma ameaça renal não sabe o quanto é terrível. De si mesmo, então, é bem pior. Quando encontrá-los na rua, me peçam pra simular uma contra vocês que farei com todo prazer. É angustiante. Chega a ser pior do que o cálculo que precisa ser tratado com chá de quebra-pedra e muitas consultas ao nefrologista.

Exemplo de ameaça renal na infância.

Pois, então, voltarei a postar nesta nova fase. Agora menos ácido, sem apontar o que o mundo tem de mais risível e... Claro que isso é uma mentira sem tamanho. Até porque não consigo me livrar do encosto de sátiro que se apossou de mim faz anos. O post é uma maneira apenas de falar do meu sumiço e deixar mensagens nas entrelinhas pra quem eu quero deixar. Rá!

Porém, você que me acha um chato de galocha (essa expressão sim só é usada por gente chata) não vai ficar na mão. Vou ser legal bagarai e deixar uma dica de blog muito bacana. Já conhecia, mas li mais o Agridoce esses dias e recomendo. É de um azedo-açucarado na medida. Nada muito carregado como o tal Bêbado Gonzo. Aproveitem os textos da blogueira Luciana e visitem outros links do portal Dialética, onde o blog da minha amiga Taináires também está linkado.

Até meu próximo disparo.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Badalados Inglórios 2










sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Cinco dicas para uma formatura supimpa

Um mercado tem crescido no Brasil nos últimos anos, pendurado em um fenômeno que une ações de políticas públicas de dois presidentes: a criação e regularização indiscriminada de cursos superiores, coisa do FHC, e possibilidade real dos pobres chegarem a essas faculdades, arte do Lula. Não sei se vocês perceberam, mas, nos últimos tempos ficou mais fácil alcançar uma das fases humanas mais absurdas, a de universitário. Sim, eles estão por toda parte.

São eles, rapazes e moças, boiando em um dos períodos mais escrotos de suas vidas (perdendo apenas para adolescência) e ainda assim achando muito dugaralhion. Orgulhosos, eles zanzam nesta etapa infeliz em que você não tem um puto no bolso, tempo é raro até para trocar a cueca e se alimenta porcamente por não ter dinheiro nem uns míseros minutos pra perder com coisas sem importância alguma como um almoço.

Ficou mais fácil pra todo mundo pegar o canudo.

Os iludidos, na sua condição de estudantes do ensino superior, vão a festas terríveis com uns nomes asombrosos, como Forró da “Picotinha”, com música da pior qualidade e gente chata entrando por todas as frestas incessantemente. Os acadêmicos estão obrigados ainda a ler uns livros insuportáveis até para o autor e ainda a passar pela prova de fogo final: parir um trabalho extenso cheio de regras nojentas justamente no momento em que ninguém mais sequer agüenta ouvir falar em universidade.

Pois é, não sei as estatísticas atuais, porém o que antes era o status da prole das famílias abastadas se popularizou e o filho do seu Mundinho e da dona Jacira já ostenta orgulhosamente seu título de universitário. E isso é excelente, diga-se de passagem, em um País em que o analfabetismo ainda é um problema sério. E, como não poderia deixar de ser, alguém tinha que lucrar com isso. Fica fácil de entender, desta forma, a quantidade de empresas especializadas pipocando por aí mais do que vídeo de estudantes fazendo atos libidinosos com a boca em banheiro de escola pública.

É do lucrativo negócio da organização de formaturas que falo. Os espertos sacaram o nicho e inventaram uma brilhante forma de rentabilizar o sonho dessa multidão que está prestes a pegar o canudo. Perceberam os pequenos gênios do capitalismo que não se pode pegar simplesmente o canudo. É preciso pegar, mas também mordiscar, apalpar, acariciar, lamber, beijar, cheirar, babar, fazê-lo parecer maior do que é e mostrar para todo mundo. Não, meus amigos, esqueçam os vídeos nos celulares. Estamos falando do diploma, caramba.

As empresas de festas de formatura estão trabalhando pesado para convencer que apenas terminar o curso e começar a trabalhar não está com nada. Eles evitam até falar no nome de certo cantor que morreu de Aids, na década de 90, devido a um grande sucesso popular, que desprestigia o negócio: “Por você eu largo tudo. Carreira, dinheiro, canudo... até as coisas mais banais, pra mim é tudo ou nunca mais”. Exagero da parte deles, claro.

Alvo do ódio das empresas organizadoras de formatura.

Não sei aí na sua cidade, mas na nossa Belém, onde até o prefeito já foi acusado de comprar canudo, prosperam as empresas das festas de formatura. E tem pra todos os tipos de mau gosto e de carteiras, desde as magrinhas até as rechonchudas dos papais lavadores de dinheiro. Claro, que nem todo mundo sabe escolher qual a melhor, a mais adequada para a megalomania dos nossos queridos futuros do Brasil e ocupantes de celas especiais nas cadeias. A equipe do BG também não tem esse poder, mas sabemos item por item o que deve ter em uma festa de formatura atual para ser ultra-mega-plus-super-infinitamente supimpa, até porque esse negócio de vestir beca, pôr chapeuzinho de badeja, dar dois beijinhos no coordenador do curso, pegar o diploma e sair não está mais com nada.

Vale mesmo é fazer um escândalo social para comemorar mais uma vitória do filhão que entrou falando grosso na faculdade e agora chega em casa dizendo “mãe, estou moooorta de cansaço” ou daquela antes exemplar pequerrucha que agora some na quarta e só aparece na segunda-feira, cheia de marcas de chupões, dizendo que estava estudando com as amigas. Vamos então à bendita lista:
Local


Este é um dos cinco itens fundamentais para ter um fim de graduação digno. Nem pense em usar o auditório da sua universidade. Se ela for pública, menos ainda. Sabemos que as instituições por mais investimentos governamentais aplicados sempre estarão estigmatizadas com aquela palavra horrenda: SUCATEAMENTO. Invenção dos xiitas do PSTU (desculpem o pleonasmo vicioso) ou não, a expressão remete à velharia, à sucata mesmo. E você não vai querer de jeito algum ver seu título de bacharel, licenciado ou doutor misturado a coisas degradantes. Jamais, não é? Então, arrume aí um jeito de levar sua solenidade para o Hangar - Centro de Convenções da Amazônia. Só o nome gigantesco e com determinante geográfico da região mais cobiçada do mundo deste lugar já traz uma pompa a mais para o evento. Não tinha mais vaga? Eu disse que era pra se apressar. Então, vá de Assembléia Paraense mesmo. Está ultrapassado e meio cafona, mas ainda vale muito. É o templo da elite belenense, desfrutadores das melhores escolas, visitadores dos lugares mais chiques do mundo e os jecas mais bizarros da cidade. Se não mora em Belém adote os dois modelos: grande centro de convenção inaugurado recentemente e clube dos ricaços que vivem de aparência. Não esqueça de um detalhe, se não houver como fazer a festa nesses dois locais, procure algum semelhante sem esquecer que quanto pior e mais fuleira for a sua faculdade melhor tem que ser o ambiente em que a comemoração vai se realizar. Não esqueça disso.
Divulgação

Você passou quatro anos indo a um lugar que não queria, encontrando colegas insuportáveis e ouvindo inutilidades de professores detestáveis. Agora acabou, nego. O pesadelo está no final e, em breve, a liberdade será real, embora estejam apenas lhe transferindo para uma pior, o mercado de trabalho. Mas, não importa. As únicas duas alegrias de uma universidade é entrar e sair. E o volume de felicidade da última não tem comparação com a primeira, é muito melhor. Então, futuro profissional, você tem o dever e o direito de espalhar a notícia, tipo o Roupa Nova: “eu te aaaaaaâmo e vou gritar pra todo mundo ouvir”. Beleza, está fácil. Faça sua parte, heim? Não vá deixar só nas mãos da empresa que organizará a festa. Use as redes sociais, porra. Não sabe o que é rede social? Twitter, Orkut, Face Book,. Google Wave, rádio cipó, o programa Carlos Santos. Isso tudo aí é a tal da rede social. Para aquela tia velha que mora em Jacareacanga ou Cabrobó do Mato Dentro, envie um telegrama ou uma carta escrita à mão, contando a maravilha em estilo romântico. Pega bem. Agora se concentre também na divulgação que vai ser feita pela empresa. Afinal, é sua imagem que está em jogo. Você ganhou 27 quilos nos últimos quatro anos? Dá teu jeito, doido. Mas trate de emagrecer. Costura a boca, toma só água por dois meses, compra 300 latas de Herbalife, mas te vira. Não vais querer parecer uma porca na foto do jornal e queimar o filme. Quanto menos parecido com o seu eu original e mais bonito ficar, mais falarão: “nossa, o filho do doutor Ataulfo se forma hoje. Mas, ta bunitão, não é?”. Frases do tipo contam ponto no céu e os anjos enviam energias positivas para aquele seu currículo furreca, sempre recusado por aí. Nunca esqueça de pedir o providencial photoshop nas fotografias, afinal sua cara deve estar toda esculhambada depois desse quatriênio bebendo todas e dormindo tarde. O software que vem salvando o mundo da feiúra há alguns anos pode fazer milagres por você também. Na hora de levar o clique para a foto oficial, recomendo às mulheres fazer cara de “pensa que é fácil me comer?” e aos homens de “terei uma conta bancária gorda e duas amantes gostosas mesmo sendo um idiota”. Funciona. Já deram uma olhada nos jornais? São as caras mais usadas.
Performance


Ah, aqui é um dos pontos mais delicados. Se você não fizer certo, no way. Vai perder a grande chance da sua vida, garotinho e garotinha juvenis. É o grande momento. É neste curto pedaço de existência, nessa infinitésima fatia temporal, que você pode dar uma de deficiente mental na fase adulta e ser aplaudido por todos. Sem exceção. Nem no carnaval, quando comer a mulher do melhor amigo pode até ser perdoado e creditado na conta do capeta, consegue-se tal façanha. Experimente se vestir como um paspalho e sair no folguedo pra ver. Vai conseguir uns risinhos, um gole ou até uma latinha de cerveja ou ainda parecer mais simpático e ter a chance de garfar aquela semi-conhecida que você anda pensando em traçar. Mas, palmas, gritinhos histéricos, bajulação explícita, ovação em alto e bom som, definitivamente, não. Só na formatura, bonitão. Então, capriche. Converse com a empresa organizadora, escolha um tema bem ridículo para festa e junte a comissão de estudantes para deliberar sobre o figurino, que deve ser o mais patético possível. Não precisa ser criativo. Patacoadas do gênero vem ocorrendo faz um tempo e você pode repeti-las. Nada se cria. O CTRL C + CTRL V está aí para comprovar. Sugiro um simples: super-heróis. Combine com os colegas para escolher os que tenham uniformes mais distantes da realidade. Como aqui a intenção é aparecer, peça à organização contratada para arrumar um mestre de cerimônias animador de auditório no estilo Clube das Mulheres e uma passarela bem grande para você fazer seu ‘show’. Na sua entrada, exija uma música eletrônica cujos zumbidos hipnotizantes. Nada de ‘We are the champion’, peloamordedeus. Carregue nos acessórios: chupetas de plástico, colares havaianos, plumas, óculos gigantes, chapéus de palhaço. Entre imitando Jacaré do É o Tchan nos bons tempos, tire toda a roupa, se besunte de calda de manga e lance farinha de tapioca no seu corpo nu, girando feito uma pomba-gira com disenteria. Pare com expressão demoníaca e um sorriso tinhoso. Conte até cinco e grite bem alto “viva o Pará”, assim entenderão que se trata de uma homenagem ao Estado que você nasceu. Vire de costas e se incline. Nas nádegas, escreva nas duas bandas o nome do seu curso, tipo 'SECRETARIADO-TRILINGUE'. Saia acenando e jogando beijos. Vai ser o máximo.
Homenageados



O esforço foi seu. Você agüentou a barra, mesmo quando tudo parecia perdido e você estava jogando bilhar no bar defronte à universidade. O esforço também foi dos seus pais. Os coitados acreditaram, bancaram mensalidades escorchantes, encontros estudantis devidamente desviados dos verdadeiros fins, seguraram a barra de ter um filho barbado e chorando por dinheiro pra ir pra balada. Sim, essa família é um exemplo para o Brasil. Mas, a formatura vai além. É preciso catar alguém da seara da Academia para lembrar no round final por um único motivo: é preciso homenagear. É praxe, tão praxe, como não arrotar à mesa nem repetir o prato no primeiro almoço com a família da namorada. Então, faça assim, escolha o pior. Pegue um professor faltoso ou aquele com suvaqueira ou o que baba pelas alunas sem disfarçar a ereção na sala de aula ou ainda aquela mal comida de maus bofes. Mencione o escolhido como o melhor de todos, teça elogios descabidos deixando os outros docentes furiosos. Crie intrigas, afinal, você não vai mais estar lá mesmo pra ver o mundo desabar. É necessário escolher também o patrono da turma, o nome elegante que deram para o ‘pagão’. É ele que vai arcar financeiramente com o delírio dos formandos de fazer um festão de arromba. Selecione também um de boa estirpe: veja aí na sua cidade qual o político mais corrupto ou o empresário mais patife. Ambos devem ser os mais bem sucedidos e com os egos mais inflados para topar o desafio. Lavadores de dinheiro, fraudadores do INSS, ex-prefeitos condenados pelo Tribunal de Contas, deputados metidos com o jogo do bicho, ex-assaltantes de carga, donos de clínica de aborto, grandes agiotas. É desse tipo de gente que você precisa. São eles os donos de la plata e podem dar vazão a sua mania de grandeza. Atividades ilícitas? Que isso! É tudo gente que faz esse País um bom lugar para se viver com projetos alternativos, ora, ora. Acredite nisso até a festa acabar, pelo menos.

Caixinha

Em Belém, a arrecadação coletiva de grana para festa de formatura se chama 'caixinha'. A festança da maioria dos universitários lascados depende desta união estudantil, encerrada neste nome esquisito. Se você não tem papai e mamãe abastados e abestados o suficiente para cometer o devaneio de pagar tudo sozinho, você vai se agregar aos coleguinhas para somar a pequena fortuna e promover seu escândalo social particular com a pompa merecida. Arrume aluno da turma corajoso e afeito ao estresses para administrar a baba e por ordem na casa. Mulheres são mais adequadas para a função pelo senso de organização. Mas, pode ser qualquer um com complexo de chefe de turma. Claro que o dinheiro juntado não vai ser suficiente, então, vocês terão que promover festinhas para complementar. Portanto, pense em algo com apelo bem popular. Se puder misture pagode, sertanejo, forró, axé music, funk e, se for aqui no Pará, tecnobrega. Vai atrair multidões. Venda a pior cerveja a preços módicos. Não precisa ser gelada. Quem gosta desses ritmos não merece tal cuidado e muito menos exige também. As rifas também vão ajudar. Arrume um microondas velho, um aparelho de DVD com defeito, um relógio de parede com borboleta no ponteiro e ofereça como grandes prêmios. Não valem nada, mas finja que são tesouros raros e cobre o preço dos bilhetes bem caro. Encha o saco de todos na hora de vender. Se reclamarem, use aquela chantagem moral muito comum: quem se negar a comprar chame de pão-duro, unha-de-fome ou Nonô Correia, se seu desafeto tiver mais de 30 anos. Ele vai entender. Agora, caro formando, todo cuidado é pouco. Com dinheiro não se brinca. Não vá entregar a senha da conta bancária da caixinha para aquele colega que empresta dinheiro de todo mundo e nunca paga ninguém ou para os que nunca dividem a conta no bar ou que respondem processo pelo artigo 157 do Código Penal. De vez em quando aparece nos jornais o cancelamento de festas de formatura porque sumiram com o pacotão de reais pelo mundo, deixando a classe toda enfurecida. O transtorno é certo para estudantes e os parentes ansiosos pela rega-bofe. Fora que provoca acessos de riso para quem gosta de ver a desgraça alheia, como eu. Se liga, mermão.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Chore você também por Verequete

Verequete morreu. Isso meia dúzia de pessoas informadas em Belém já sabe desde que os boletins médicos informaram que a vida do carimbozeiro estava encerrada clinicamente. Outros ouviram falar. O certo é que muitos reclamaram a vitória da morte no jogo em que o músico Augusto Gomes Rodrigues jogou por 92 anos. Choraram os paraenses: "pobrezito, morreu tão pobrinho o pobre do Verequete. Coitadinho do pobre".

De fato, Verequete não era rico e há tempos se ouvia prefeitos e governos estaduais lhe prometerem pensão, o que deve ser pedido através de projeto de lei e submetido ao Legislativo. Dái, você tira o saco que é conseguir ganhar esse dinheirinho. Do Estado, o músico ganhava algo em torno de R$ 1.040 e tinha ainda a aposentadoria do INSS de R$ 465, além de uma cota de R$ 1 mil para comprar remédio, cortesia de uma rede de farmácias local. Não dá para dizer que era um homem abastado. Meu pai diz, não faz muitos anos o mestre ainda vendia seu churrasquinho de gato no Guamá, defronte a uma casa humilde, de madeira, sem saneamento ou luxo nenhum. Era pobre, afinal.


No livro "Cantos e cantares", sobre música paraense do estudioso Alfredo Oliveira , Verequete aparece lado a lado com outros mestres da nossa música de raiz. Figura ele na obra como um modernizador do ritmo, que popularizou e incrementou a brincadeira em torno dos curimbós, o instruimento de percusão responsável pela levada dançante. É inegável sua marca na história da música do Pará e é inegável que não foi reconhecido em vida também. Com o defunto ainda fresco, quem sabe o mestre tenha algumas loas.

Agora culpar o poder público por abandono e esquecimento soa de uma hipocrisia boba. Claro, que os governos esqueceram os mestres e continuam esquecendo. Sou parente de Joaquim Castro, o mestre Cupijó, com muito orgulho. Agora digo que o carimbozeiro de mão cheia de Cametá, famoso na década de 1970 por seus metais irados misturados ao batuque, está curtindo uma velhice modestíssima na cidade em que nasceu, fazendo um showzinho aqui e ali, se recuperando de doença grave e vendo seu conjunto de músicos morrer um a um ao longo dos anos. Perguntem se ele ganha pensão. A resposta vai ser não.

Temos problemas para resolver questões consideradas prioritárias, como saúde, educação, segurança e saneamento. Nos batemos com o feijão com arroz, com o básico. Com o filé, não seria diferente e até mais difícil. Daí, evidentemente, a cultura fica em segundo plano. Basta olhar, em todas as esferas de poder, os Orçamentos Gerais e os Planos de Diretrizes Orçamentárias. Não há grandes somas para este setor.

Portanto, é tolice acreditar que o socorro fundamental dos artistas tradicionais e seus produtos seja o subsídio e a bóia de salvação jogada pelos governos. Artistas vivem de sua arte, do que produzem como cultura e, principalmente, do que realmente vendem ao mercado consumidor. O paraense chora a morte de Verequete e sua miséria no fim da vida, mas pouca gente consumia o tal carimbó. E estou falando dos tempos em que música era "consumida" no sentido de ser comprada. Hoje nem isso. Basta jogar nos sites de compartilhamento de arquivo e baixar os arquivos digitais sem pagar nada ao compositor ou ao cantor. Não preciso dizer que Verequete não chegou nem perto desta nova fase. O CD para ele foi o limite da inovação, infelizmente


Falar em show de Verequete também é uma complicação. Me corrijam, mas acho que não houve nenhum grandioso, como, por exemplo, o que houve nos 50 anos de vida de Nilson Chaves, em que vários artistas paraenses e de outros Estados se reúniram para homenagear o "cantor da Amazônia". Claro que o velhinho fez lá suas apresentações custeadas pelo poder público, porém, não existiu uma mobilização com boa produção e engajamento de quem grita aos quatro ventos a admiração ao mestre. Pelo menos, não vi e duvido que alguém viu.

Verequete se perdeu no limbo dos "mestres" há muitos anos e já vinha sendo encarado como aquele vovozinho amado, mas que dá trabalho demais e a família se alivia quando morre. Agora se foi. Sobraram as piadas de que o "Chama Verequete" foi atendido, finalmente. E muito discurso bonito sobre a importância da cultura popular, sobre pobreza dos artistas, sobre identidade cultural e outros papos furadíssimos. Obviamente, estamos em um tempo marcado pela tal globalização midiática que nos torna informados em tempo real sobre a morte do músico paraense miserável e nos toca profudamente, porque é um símbolo que deixa de existir materialmente. Agora é o mesmo fenômeno que nos impõe produtos de todas as partes do mundo e deixa pouco espaço para conhecer os que estão mais perto. Mesmo os de alguma qualidade, seja ela técnica ou simbólica mesmo, como era do caso do mestre falecido.

É um traço da nossa época, afinal, que pode ser encarado como a "ordem natural das coisas", mas nem por isso deixo de identificar como uma impostura dos que reclamam dos governos, lamentam a pobreza do rei do carimbó, ao mesmo tempo que deixam essa traço de lado, encostado no canto, como um suvenir que só nos serve para enfeitar a sala e mostrar para as visitas que vem de fora: olha, sou paraense. Pai d'égua, não é?

"O carimbó não morreu está de volta outra vez. O carimbó não morreu está de volta outra vez. O carimbó nunca morre. Quem canta o carimbó sou eu". Mestre Verequete.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Badalados Inglórios










Não entendeu? Então, você não está longe de estar entre os tops ou ser um dos Badalados e Badaladas de Belém.
Você pode ver a tira também no Quando a barata voa e no Lorotas da Doca (pelo menos, deveria estar), os blogs comparsas.