terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O quepe do almirante

Nunca fui afeito à folia, pegação, azaração e outros substantivos das gerações mais novas que nunca deram espaço para alguém que nasceu com 70 anos usá-los. A mim o carnaval sempre pareceu um monte de débeis mentais que se liberam a um tempo só e se permitem beber além da conta, vestir-se de mulher e trepar a esmo sem maiores problemas. Sem contar a música variando entre as bizarras marchinhas, o antipático axé music, os melancólicos sambões e os autoritários e marciais samba-enredos.

No primeiro repique, no menor sinal de baticum, já estava longe do folguedo vociferando e reclamando do som dos imbecis. Era um velho aos 20 e poucos anos, sem rugas, sem reumatismo, sem a artrose típica dos meus irmãos etários, mas com o azedume, o desencanto e a vocação bem delineada para a implicância. Sempre quis estar a quilômetros daquela gente breada, fedida e obrigada pela data a se acabar em convulsão e coma alcoólico.

Porém, os amigos, essas doces desgraças em nossas vidas, nos apresentam sempre o caminho para se perder. Foi o caso naquela terça-feira. Relutei, me esquivei, argumentei, contra-argumentei, mas acabei seguindo meu grupo. A promessa era um dia de diversão em uma cidadezinha de interior, com as caboquinhas assanhadas por gente da capital e as assanhadas da capital liberada ultra liberadas por estarem longe de casa e possuídas pelo espírito de porco do Reinado de Momo.

Ganhei meu quepe de almirante e meu colar de havaiano na chegada. Entregaram um tridente de plástico e uma caneca de cerveja, embora nunca tivesse colocado um pingo de álcool na boca. Seguimos naquele cortejo falsamente mambembe. Tomei o primeiro gole. Amargo. Amargo pra caralho. Mas, a vida é assim. Comecei a sacudir as pernas acompanhando uma canção de duplo sentido. Mocinhas bonitas passavam. Provocantes. Sorrisos. Mais um gole. Mais outro. Já estava mais relaxado.

Encontramos outra turba de conhecidos. Neste havia mais mulheres. Bonitas. Mais um gole. Alguém passou um copo em formato de pênis e todo mundo enfiou a boca no falo de cerâmica sem cerimônia, achando tudo muito engraçado. Constrangido, bebi também. Uma mocinha de cabelos tingidos de vermelho tomou o copo da minha mão e sugou a bebida pelo pinto artificial com ares insinuantes acendendo uma possibilidade até então apagada.

O som já não me incomodava, as guerras de confete eram de uma normalidade palpável, os risos eram frouxos, as amizades instantâneas eram de infância, o fedor da urina nos muros era parte do cenário. A moça de cabelo escarlate empinava o rabo e se esfregava em mim, tendo minha coxa como divisor daquelas duas massas musculares enormes. Linda bunda. Ou seria a bebida?

Ela virou de repente e me pegou de olhos baixos, beiço caído, balançando em um barco invisível. Me tascou um chupão, querendo arrancar minha língua. Me serviu mais bebida e o que já não era cerveja saiu rasgando a garganta. Em seguida, correu e repetiu o gesto mais adiante agora com uma cigana de saias curtas demais para ser uma gipsy de verdade.

Comecei a não entender mais nada. Olhei as luzes dos postes e o mundo deu uma volta grande e lenta. Um travesti me encoxou ostensivamente e o alarme da masculinidade me atirou para frente repelindo o assédio. Quis brigar. Alguém veio com um sorriso, mais um gole e um deixa disso. Segui em frente procurando a falsa ruiva, que sumiu na multidão. Eu sumiria fácil atrás da cigana também. Boa escolha.

Fui ficando para trás. Os ruídos reduziram, as pálpebras pesaram, os bricantes se moviam em stop motion, as luzes foram apagando. O show terminava ali para o folião de primeira viagem. Sono, sono. Meu último flash da memória daquele dia é um cansaço brutal e a calçada simpática me acolhendo em um concreto tão macio como uma king size.

Acordei na quarta-feira de cinzas, jogado em frente à feira livre da cidadezinha, vestido apenas com uma cueca e segurando o quepe do almirante, como se fosse minha própria vida. A meio metro, um cachorro preguiçoso me fazia companhia e me compreendia muito mais do que menino que parou para prestar atenção no chapéu militar. Donas de casa com sacolas cheias de verduras me recriminavam. Os matutos riam enquando eu despertva das profundezas de um pesadelo feito feito de vergonha e cefaléia. Firmei a vista, reconheci o espaço em volta, amaldiçoei o sol e confirmei meu ódio pelo carnaval. Agora com conhecimento de causa.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Por um feliz aniversário

Ando muito desespirituoso ultimamente. Desculpem pelo desleixo aqui com o blog. Mas, as férias estão chegando e voltarei a postar com mais frequência. Prometo. Por hora, deixo vocês com a releitura do texto que fiz sobre meu aniversário, que por sinal é amanhã, dia 3. Quem quiser me dar presente aceito automóveis, iates, viagens para Europa Ocidental e um apartamento. Saquem só o draminha que eu faço no dia do natalício. Segue o "Raízes", escrito no ano passado. Abraços
 
O ano era 1979. A ditadura já não era tão dura com o presidente Ernesto Geisel que, não demoraria muito a passar a faixa para João Figueiredo, o presidente dos cavalos e o primeiro a ter foto oficial colorida. No cinema, rolava o bacana ‘Bye, Bye, Brasil’ e o ‘O bem dotado homem de Itu’, um escracho com Nuno Leal Maia. O mundo também arregalava os olhos com o apocalíptico ‘Mad Max’, dirigido por George Miller, e com o show de pornografia e História Antiga em Calígula’, de Gore Vidal.

Na tevê, a novela Cabocla, no horário das seis, apresentava a jovem Glória Pires e o igualmente jovem – que mais tarde se tornaria pai da filha da protagonista e o “perigote das mulheres”– o nada besta Fábio Júnior. A Globo já comandava e apesar dos cerca de 25 milhões de aparelhos de televisão no País, a telinha era privilégio de poucos. Era mais fácil saber pelo rádio que o aiatolá Khomeini estava desenrolando uma revolução sem precedentes no Iran, do outro lado do mundo. Eram também pelas ondas radiofônicas que a Jovem Guarda fazia cabeça e corações de gente como meu papai.
Pornochanchada, milicos, Jovem Guarda, ETs, futebol em baixa : tempos difíceis, diria Eric Hobsbawm.

O Brasil ainda se ressentia com Seleção Brasileira do craque Roberto Dinamite por ter tido um resultado escroto na última Copa do Mundo, no ano anterior. A Copa fora vencida pela dona da casa e arquiinimiga Argentina. Dizem que os portenhos levaram o caneco, mesmo sem ainda ter o mancebo Maradona no time, dando canseira nos adversários. Não na bola, mas colocando-os para enfrentar grandes viagens no país-sede durante a disputa pela classificação.

No Pará, em 1979, o Remo se consagraria tri-campeão do estadual, levando a melhor com o herói azulino Bira em cima do ídolo bicolor Dario. Meu pai, piauiense seduzido a torcer pelo Paysandu, ficou amuado naquele campeonato com o maior público de Re X Pa dos últimos anos no Mangueirão.

Em Belém, rolava ainda o maior papo sobre o Chupa-chupa, a história dos óvnis em Colares, que espalhou pavor no interior e na capital paraense. Todo mundo morria de medo de ter sua energia vital tragada pelos Ets. Mas, Belém não vivia apenas essa paranóia. Espalhavam-se os boatos sobre a cruel gangue da Bailique, um grupelho de arruaceiros que andava metendo a porrada em todo mundo. A primeira manifestação do gênero por essas bandas, dizem os mais velhos.

A atuação do bando ganhou proporções de calamidade a partir língua afiada e pouco criteriosa dos radialistas, que sem cerimônia ou confirmação anunciavam nas rádios que os bailique iam invadir escola tal, estuprar mocinhas, quebrar pernas, magoar fígados e decepar orelhas. Era um deus nos acuda.

Nesse cenário formidável, no dia 3 de fevereiro – um sábado e não era carnaval - uma bonita caboclinha de Cametá, de 17 anos, teve que parar o curso de programação em computação – um dos primeiros de Belém – para me parir, no Hospital Belém. Um dia antes tinha morrido Sid Vicius, o doidão do Sex Pitols. Ainda bem que mamãe não curtia essas paradas e não achou de homenagear o roqueiro tacando esse nome em mim. Em compensação, fez uma combinação triste, provavelmente, oriunda de um personagem bonitão de fotonovela: Anderson Luís.

Pedreira nos anos 70: ideal pra compor rocks rurais. (foto Jornal Pessoal).

Cresci pobrinho, feliz e desatento, num casebre minúsculo, com água suja embaixo, na Trav. Alferes Costa, num bairro da Pedreira quase rural, com ruas abertas imitando o bairro do Marco, mas sem estrutura urbana alguma. Em uma área tomada de mato, áreas de igapó, carapanãs e habitada por desterrados como meus pais – ela do interior, da região do Baixo Tocantins, e ele do Nordeste, de Teresina/Piripiri.

Em 1983, percebi pela primeira vez que a vida não seria lá muito fácil. Exatamente no dia do meu aniversário de quatro anos, nasciam minhas duas irmãs, gêmeas. Sim, é isso. Na minha casa, em um único dia três pessoas aniversariam. E, antes que perguntem, ambos os partos foram normais. Nada de cesarianas programadas.

O acontecimento deu a impressão que a reprodução na família tinha ares de Jogos Olimpícos: a cada quatro anos a matriarca daria a luz. Engano. O quarto e último filho quebrou o protocolo, surgindo somente 12 anos depois da última visita ao obstetra, isso em 1994. Alguém pode dizer “nossa, que ótimo, uma festa só”. Alerto que não é bem assim.

No dia do nascimento das meninas, lembro bem com minha memória de paquiderme, o alvoroço que foi. Minha avó nervosa, seguiu para o hospital sozinha, porque meu pai tinha ido camelar e seu fusquinha dera prego. Carro velho serve pra isso: pra não funcionar quando se mais precisa. Uma vizinha ficou tomando conta do garotinho aniversariante, condição que ninguém ligou muito. Nem o moleque que pouco entendia sobre datas comemorativas. 

1983: gêmeas fofinhas - 2009: a parte bonita da família.

A partir dali se estabelecia a regra: o garoto não teria aniversários. Parece brincadeira, mas, durante a infância, ninguém acreditava que em uma única festa três crianças pudessem comemorar idade. Os convidados imaginavam: “ah, deve ser só pra não desagradar o menino mais velho”. Ou, sei lá, simplesmente preteriam o cabeçudinho com bucho quebrado, focando a atenção na graça que eram as bonequinhas idênticas.

Só sei que de todos os festejos em comum, lembro de ter ganhado apenas uma cuequinha. Azul, com a figura de um Super-homem criança em cima do porta-pinto. E ainda ficou pequena em mim. Devido o erro no tamanho, foi repassada de imediato para um primo, ainda bebezinho na época.

Muito provavelmente, deve ser por isso que passei todas as idades redondas sem grande alarde: 18 anos, 20 anos, 25 anos e até o último 30 anos. Em nenhuma delas consegui superar a maldição das gêmeas enxeridas e promover uma festa das boas. De vez em quando aqui em casa, surge uma discórdia, um azedume, entre as univitelinas e mim. Creio que deve ser ainda resquício do trauma infantil que só deve passar na próxima encarnação, se eu não sofrer do mesmo azar novamente.
1983: "me dei mal". 2009: "se deu mal mesmo, moleque".

domingo, 24 de janeiro de 2010

Mamãe, quero ser jornalista.

Ah, a juventude e seus modismos. Até bem pouco tempo não existia o jovem, o adolescente. O ser humano nascia e era criança até seus 12, 13 anos. Nessa idade, o pai lhe metia umas porradas, dava-lhe umas calças mais longas, levava em um puteiro e estava feito mais um homem. Para as meninas, embora se desenvolvesse fisicamente mais depressa, o ritual de passagem era nos 15 anos, com aquele rococó todo: vestidão, bolo confeitado, valsa e aquele bando de tia velha impressionada com a rapidez do tempo. Isso se não aparecia uma maníaco e casava quando elas completavam 11 anos. Mas, veio o século XX, a segmentação do mercado consumidor, a propaganda, o cinema e pumba: habemos jovens. E com eles a moda para alimentá-los e se alimentar deles em um caso de amor viciante cada vez mais intrincado com o passar dos anos.

"A modo jovi no Brasil está cada vez mais escrota".
Nos anos 50, James Dean, topetinho, a opção pelo cigarrinho e a cara de mal fizeram fama. Vieram a jaqueta e a motocicleta como marca. A década de 60 questionou o sexo como forma de reproduzir e inventaram as saudáveis surubas, o power flower, a horrenda boca de sino, deram razão ao róquinróu e as drogas entraram pra valer no papo da moçada. A década de 70 elegeu a discoteca, a de 80 a saúde, embora tenha sido marcada pela Aids. Já os 90 optaram pela esquisitice e depressão do Kurt Kobain no intervalo em que as garotinhas dançavam ao som de É o Tchan e suspiravam pelo vocalista Bel Marques, do Chiclete com Banana, pavimentando de escrotice para chegarmos a uma das piores épocas da humanidade: os primeiros insípidos dez anos do século presente.

Claro que a moda ditou o comportamento da juventude o tempo todo.Contraditoriamente, quem gritou contra os grandes ditadores do mundo e os pequenos fascistas dentro de suas próprias casas, rendeu-se a este ente que ninguém sabe de onde vem. Aliás, até sabemos. Os mais atentos sabem que ainda hoje Paris dita tendências para chatice, Tóquio para bizarrices, Londres para paunocuzice e Nova Iorque soma tudo isso em festas com gente despirocada fritando na pista.

Com o rádio, a televisão e agora o meio difuso mais convergente do mundo, a Internet, ela está em todas. Começou nas roupas, atingiu os veículos, mudou os comportamentos hoje manda e desmanda até em escolhas profissionais, justamente o tema desta pequena verborragia gonza. Acredito que deva ser um fenômeno nacional ou até de escalas mundiais, mas aqui em Belém a onda é ser profissional de Comunicação.

Studio 54: modelo de causação jovi vindo de NY.
Sim, está tudo intrinsecamente vinculado à moda. A capital paraense passou muitos anos com seus filhos sendo enviados para o Rio de Janeiro para virarem doutores. Nossa primeira grande universidade tem pouco mais de 50 anos, então, imaginemos uma terra em que somente quem podia estudar era quem detinha grana para mandar os filhos às areias de Copacabana. Nosso isolamento criou uma geração inteira de advogados e médicos apenas. Todos hoje muito bem colocados. Muitos por sua competência e outros tantos pela falta de concorrência profissional neste fim de mundo na época em que seguraram no canudo. Ui.

Inaugurada a UFPa, a tradição Direito/Medicina vigorou por anos e anos para atender o desejo dos papais e mamães de verem seus pequerruchos sendo alguém na vida e agora morando na sua própria cidade, muito bem assegurados e vigiados pelos orgulhosos genitores. Outras profissões chegaram a riscar o brio do binômio sagrado dos estudos universitários, como as Engenharias, o Magistério, a cafetinagem e o contrabando, mas nenhuma afetou realmente o status de ter na família um solta-ladrão graduado ou um curador de postemas com diploma.

O tempo passou e eu sofri calado não deu pra tirar ela do pensamento a juventude se mordeu com esse negócio de andar ou engravatado parecendo um vendedor de livros de porta em porta ou de branco, emulando um pai de santo ou sendo confundindo com açougueiro. Do meio da década de 1990, os filhos de quem comanda a festa começaram a se encher desse jeito arrumadinho dos causídicos e do cheiro de éter dos consultórios e a moda das profissões começou a mudar por aqui.

Paralelo a isso, lá em São Paulo, um rapaz bem apessoado com uma cagada de pombo em cima da cabeça já estava muito bem colocado profissionalmente. William Bonner se tornava o Silvio Santos do jornalismo brasileiro, começando de baixo e atingindo o lugar da voz mais tonitruante do Brasil: Cid Moreira. Por outros caminhos, outro sujeito fazia algo pior e mais fantástico: ficar rico, reconhecido e bajulado sem saber de porra nenhuma e usando apenas uma única coisa, um troço que todo mundo acredita ter: criatividade. Aparecia na cena Washington Olivetto, gênio da criação e o primeiro publicitário pop star do Brasil, que mais tarde passaria cerca de dois meses nas mãos de sequestradores. Toma-lhe-te! Bem feito!

Bonner e Olivetto: ídolos da garotada.
Acrescente aos dois grandes ícones jovens e bem sucedidos ao fenômeno MTV no Brasil. Aqui a Music Television chegou no começo da década de 1990 e começou a contaminar as cabecinhas juvenis de que aqueles formatos quadradões de programas não estavam com nada e a matriz Silvio Santos estava mais do que gasta. Começamos a ver meninos do buchão surgindo com seu jeito troncho de ser na telinha.
Era preciso sonhar com algo mais próximo do “for ever youg, I wanna be for ever Young” e uma vida menos atrelada à rotina e que ainda assim tivesse alguma projeção social. Jornalistas já andavam tocando o terror por aí, por exemplo, no combate à ditadura em seus microjornais, como o Pasquim, colocando os veteranos Millôr Fernandes e Paulo Francis como modelos a ser seguidos.

Estava criado o ambiente ideal para surgir um dos modismos profissionais mais contagiosos do que impingem braba na cena paraense. Todo mundo já sabia o jeito, só faltava o lugar. Em 2002, a Unama lançou as primeiras vagas para Jornalismo em uma instituição privada (sem trocadilhos) de ensino e descobriu uma demanda reprimida fabulosa. Logo em seguida tabernas, mercearias, baiúcas, mafuás e toda sorte de bodega ofereceram turmas para quem estava de olho na TV e ficar famoso cobrindo as desgraças do mundo.

Duas fases do Jornalismo: Herzog "enforcado" e Léo Madeira, bacana da MTV.
Atualmente, Belém cospe, em média, cerca de duas centenas de jornalistas por ano no mercado e outro tanto muito semelhante de publicitários em um mercado de trabalho inchado e que trata em geral seus profissionais como meros braçais da informação. Muitos fisgados pelo espírito do tempo e pelo modismo, outros desavisados e alguns com vocação de fato para a coisa.

O baque da desobrigação do diploma para jornalistas talvez tenha sido um choque para quem embarcou no sonho da Comunicação Social, mas ainda assim os vestibulares ainda concentram muitos concorrentes. Nas agências de publicidade, também abundam currículos de rapazotes com cabelos estranhos e meninas com ar 'sou mais eu'. Gente jovem, elegante e sincera que quer contribuir com o quadro social, mas quando atinge o alvo se depara com uma guerra encarniçada sem precedentes para sobreviver, diferente da que travam os doutores da lei e da saúde, ancorados em uma certeza de que são muito mais necessários e que um dia já estiveram no topo da moda das profissões.

Não sei por quanto tempo vai durar a modinha da Comunicação Social, mas ainda vamos ouvir muito as frases que devem provocar pânico por aí nas famílias mais atentas: “Mamãe, quero ser jornalista” e “papai, a publicidade é minha vida”.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Os cinco piores males de Belém

Ainda estou vivo, gente querida do meu Brasil. Terremotos, gafes, festas de fim de ano, comida em excesso, fígado massacrado, rebuliços no coração, questões familiares, putaria e muitos afazeres me tiraram da rota e o Bêbado Gonzo ficou aqui sozinho, reclamando a ausência do pai. Mas, voltei. Voltei e chega de enrolação. Vamos direto ao ponto: Belém está velha. Velha e escrota, meus filhos. Como as putas da Riachuelo. Ah, não gostou. Hum. Ok, vou ser mais brando: Belém está como seus casarios do bairro do Comércio: caindo aos pedaços e sem esperança.

Nossa, como esse desgraçado é cruel! Não, meus queridos. Não é isso. Eu sei que não é de bom tom chegar na festa de aniversário e olhar para aniversariante e dizer “nossa, enorme essa bolsa cheia de ruga pendurada ai nos seus olhos, heim? Que pança enorme. E esse pescoço flácido? E essas manchas nas costas das mãos? E essa tintura nem esconde o branco dos seus cabelos... Coitada, o tempo ejaculou mesmo na sua face, pobrezinha!”.

Ver-O-Peso. Foto de César Meira.
Sei que o portal de entrada para Amazônia merece toda nossa consideração. Sei, sim. Tenho consciência de que essa senhora de 394 anos deve ser reverenciada. Em breve, ela vai debutar aos 400 anos e vamos fazer uma linda festa com valsa, vestido cor de rosa e muito bolo com cobertura de açúcar. Vamos ficar orgulhosos de nossa princesinha entrando na vida adulta, mesmo que ela tenha dado vários maus passos, embora ela tenha se metido com muitos filhos da puta que só quiseram lhe afagar as carnes e lhe comer, deixando para trás a donzela chorando com sua honra perdida.

Belém no dia 12 de janeiro aniversariou. Muita gente usou o bordão “mas o que temos para comemorar?”; muitos fizeram aquelas poesias escrotas que, se fosse numa sala de aula de quinta série, teriam levado uns 3,5 como nota máxima; alguns repetiram aquelas músicas de sempre com mangueira, rio, Ve-O-Peso, morena, manga, marajoara, açaí, lalalá. Muitos correram para apanhar um pedaço do bolo gigante oferecido por uma prefeitura que tem nos dado bolo há cinco anos, seja de palmatória seja daqueles de ficar na espera por quem não vem.

Muitos reclamaram de tudo e de todos e no outro dia continuaram sua saga para acabar com esta capital imprensada entre o rio e o resto do País. Belém está como uma puta velha realmente: maltratada, com um passado inesquecível e uma penca de filhos que lhe desprezam. Queria muito ter a chatice do Nilson Chaves e ficar aqui cantado a poesia que escorre da bréa de quem anda de ônibus às duas da tarde na Cidade das Mangueiras, do nosso traço indígena que só reconhecemos nos cordões de semente gigante e nunca na feiúra da nossa cara miscigenada, das nossas idéias que oxidam rápido com tanta proximidade com rio. Queria, sim. Mas, não vou.

Vai assustar o diabo, Nilson Chaves.
Para cantar nossas belezas, temos os nossos queridos artistas. Artistas inclusive que moram fora da cidade e pintam aqui de vez em quando para presentear a nossa Belém com seu talento fulgurante e reclamar que a classe artística daqui não se organiza nem consegue dar o salto tão esperado para se profissionalizar e mostrar sua cara para o mundo. São gênios da raça.

Diante dessa postura, não é difícil entender porque nossa cidade tem sido descrita em um cenário desenhado pelo olhar do estrangeiro, mesmo quando quem descreve é dessas bandas. Daí, o que temos cantado em verso e prosa é o bom selvagem, o idílio, uma poesia inocente de quem olha e enxerga só o nosso melhor, nosso mato verdinho, nosso rio imenso, nossas palmeiras, nossa mansidão de índio de livro de História.

Belém está além da repetição e da falta de senso dos seus poetas, como também não pode ser encarada como na música do Mosaico de Ravena, onde o belenense grita todo revoltadinho como um menino de nove anos: “olhem pra nós com respeito, parem de nos avacalhar, se não vou chamar a mãe”. O fato é que temos que reconhecer nosso valor, nos olhar como estranhos que somos, mas sem rechaçar nossa contribuição nessa colcha de retalhos chamada Brasil. Porém, olhar nossa parte ruim, rir dela, avacalhá-la e pensar que podemos melhorar.

Nesse espírito, a equipe do BG, depois do longo recesso, elaborou a lista com os cinco piores males de Belém e do belenense, com aquilo que nos faz patinar e não sair do mesmo lugar há muitos anos. Leia, veja se concorda, reflita e comente, quem sabe assim no ano que vem a gente possa apontar novos defeitos no natalício desta cidade onde não nasceu Jesus. Vamos lá.

Exportáveis

Belenenses partindo para o eixo RJ/SP
Os filhos de Belém tem muitos motivos para sair. Muitos. A cidade não comporta sua mão-de-obra qualificada e a economia anda tão baleada que ainda são os órgãos públicos que pagam os melhores salários. Daí, criou-se uma classe que para o bem ou para o mal tem visto que a melhor saída para capital paraense é o Aeroporto Internacional de Val-de-cães. Os exportáveis são como cães de raça preparados por seus donos com os melhores adestradores, comendo a melhor ração, tendo grama verdinha para brincar, dormindo em casinhas com central de ar, mas que serão levados embora para competir em outras paragens. A questão é que se tornou uma verdade irrefutável que as terras distantes são realmente melhores em tudo e o frisson para ir embora se tornou praticamente irracional em alguns casos. Não importa que você vá ganhar um salário proporcionalmente menor do que numa vaga em Belém, não importa se você vai morar em um cubículo com mais quatro paraenses que dividem o sonho de exportável, não importa se as esperanças de conseguir uma colocação melhor seja abaixo de zero. A onda é cair fora. Nesta aventura de pegar o Ita e partir, os afeitos às novelas do Manoel Carlos podem ser encontrados do Leme ao Pontal. Já os exportáveis sob o signo da mudernidade e descolamento são facilmente identificáveis na Av. Paulista, na Augusta ou quando cruzam a Ipiranga e a Av. São João. Aqui a expressão “eixo Rio-São Paulo” ganha contornos dramáticos e dificilmente um exportável enxerga outros destinos.

Motoristas


Motorista típico de Belém
Quem já dirigiu em Belém saberá muito bem o motivo de incluir o motorista belenense no rol das piores coisas da cidade. Quem ainda não dirigiu basta imaginar um lugar em que três quartos do espaço estejam abarrotados de carros. No pequeno espaço livre, não há lei e 90% dos motoristas querem ver seu semelhante morto da pior forma possível em um acidente. Os 10% restantes se dividem em dois grupos: os que não sabem dirigir direito e os que já cansaram e preferem encarar os ônibus entupidos ou a chatice dos taxistas. O trânsito de Belém é uma mistura de Mad Max 3 com a trilogia sobre o psicopata Hanibal Lecter, imortalizado por Anthony Hopkins. A diferença é que no nosso trash movie do dia a dia há muito mais carros endiabrados e muito mais maníacos. O motorista belenense deveria, antes de receber a CNH, deveria ser obrigado a escrever 394 mil vezes com giz no quadro negro: “não devo jogar minhas frustrações nas pessoas enquanto estou dirigindo, “não devo jogar minhas frustrações nas pessoas enquanto estou dirigindo...”.

Cinema

Vamos pegar um cineminha? Aleluia,ô glória.
A capital paraense já teve cinemas espalhados por vários bairros, quando as salas de exibição ainda rendiam uns trocados e a mania do vídeo-cassete não havia se espalhado com uma epidemia na principal cidade do Norte do País. Eram poucos os que podiam ver um filme no aconchego do seu lar. No bairro da Pedreia, brilhava nas tardes modorrentas o cine China, que alternava clássicos como “O homem mais forte do mundo” e “As mulheres que dizem sim”, com públicos diferentes se encontrando sem cerimônia ao fim de cada sessão. Os vídeos-cassete deram lugar aos DVDs, o espectador sumiu, as igrejas evangélicas compraram os cinemas, as salas de rua foram exterminadas e hoje chegamos à barbárie dos shoppings. Com raras exceções de salas pequenas com programação mais do que irregular, Belém hoje tem praticamente cinemas apenas nos shoppings centers, o que nos faz contestar a todo vapor o slogan do grupo Serveriano Ribeiro, que já zarpou da cidade inclusive: “cinema é a maior diversão”. Não é, meu amigo. Deixou de ser faz muitos anos. Começa na falta de opções. Os programadores acreditam que o público todo tem a mentalidade de meninas de 11 anos e oferecem nada além do que está na lista de mais vistos, com medo de perder dinheiro na venda dos ingressos. Isso faz com que bons títulos passem longe da capital do Pará. A mesma visão mercadológica e a falta de salas suficientes transformam a compra de um simples bilhete em um inferno. Filas quilométricas e um público, de fato, com comportamento de meninas de 11 anos são dois motivos para pensar cinco vezes antes de tentar assistir um filme na tela grande aqui na Mangueirosa.

Povão

"Essa é a galera da golada, traz um balde de gelada..."
Os leitores mais antigos sabem que este que vos escreve mora na Pedreira, um dos bairros da periferia de Belém, um forte candidato atualmente a nicho da classe média metida à besta. Posso falar do povão com o olhar de quem enxerga a coisa de dentro. E o que vejo é uma parcela numerosa da população belenense sem perspectivas e pouco se importando com a falta delas. Os rapazes muito interessados em pintar o cabelo com luzes, usar roupas falsificadas de marcas famosas e partir para as festas de aparelhagem nas suas Honda Titan financiadas a 897 vezes . As mocinhas de micro-short indo para mesmas baladas azarar e nove meses depois dar sua contribuição para o desenvolvimento da cidade. Deixado de lados e de fora das decisões mais importantes há anos e estimulados de que a ajuda vem do Jesus dos crentes ou de N. Sra. De Nazaré dos católicos, o povão vai deixando barco passar sem fazer muito esforço, sem reclamar, empurrando com a barriga tudo e repetindo e piorando práticas que só acabam com Belém. E inclua na lista dessas ações desde a falta de cuidado com a higiene, refletida nas nossas feiras livres, como o próprio cartão postal Ver-O-Peso, e a reação a tentativas de organização dos espaços comuns da cidade. Pode você aí culpar a falta de políticas públicas adequadas e blá, blá, blá, mas digo que a capacidade de reagir e pensar está longe de depender de político A, B ou C. O fato é que o povão se encolhe cada vez mais e tem usado a cabeça apenas para o divertimento de catar piolho na porta de casa às quatro da tarde.

Elite

Ricos de Belém: loucos por uma vicinal.
Finalmente, chegamos ao maior clichê dos discursos de classe. E não me venham reclamar dos clichês, pelamordedeus. São eles, os bem nascidos, meus alvos preferidos para toda sorte de avacalhação. Pode dizer que é inveja por eu ser um pobretão, mas nada mudará a idéia de que eles são os culpados de tudo. Pegue todos os itens anteriores e perceba que esta cidade só está assim por causa de sua classe dominante. Eles estudam nos melhores colégios, tem todas as regalias possíveis, podem comparar várias realidades de perto, podem ter insights de toda ordem, tem todas as condições de serem sujeitos úteis. Mas, me diga você aí, o que os filhos brancos, bem educados e programados para casar na Basílica de Nazaré e na Igreja de Santo Alexandre estão fazendo de bom para Belém, além de encher mais ainda os próprios cus de dinheiro? O que eu vejo é ostentação e uma burrice abissal. Gente passeando em pick-ups com tração nas quatro rodas e motor 3.0 numa cidade em que, no máximo, a velocidade atingida nas ruas é de 60 Km/h e andar de Uno Mille já está sendo complicado por causa das vagas de estacionamento. Uma elite que se orgulha ainda de apresentar suas filhinhas em baile das flores e mandá-las depois para conhecer a Disney; que paga caro para seus filhos não fazerem esforço algum, mas terem seus diplomas de nível superior. Uma gente que compra rodas de liga leve por R$ 4 mil e acredita piamente que a cidade se restringe ao percurso do Círio, da Basílica de Nazaré ao Boteco das Onze; que rezam à Nossa Senhora na missa das sete e às oito tramam como vão se prevalecer e ficar mais ricos de forma ilícita. Um punhado de mequetrefes se locupletando da ignorância e da pobreza do povão, oferecendo os salários aviltantes nas suas empresas de lavagem de dinheiro e explorando a mão-de-obra barata até a última gota de sangue, inclusive negando direitos consolidados desde Getúlio Vargas. Sem se envergonhar, passeiam nas suas carruagens de luxo, reclamando da sujeira nas ruas e jogando seu lixo pela janela. Sem atentar para o achaque à cidade, essa mesma elite tem apoiado os tubarões que andam roendo Belém todos os dias e garantido que nosso futuro será bem pior. Enfim, um bando de salafrários que se orgulha de ser jecas nas suas roupas compradas nas liquidações de Miami e de oferecer um modelo de boa vida que está muito longe de ser realmente bom. Infelizmente, Belém está tomada e com poucas esperanças de melhorar. Se depender dos que estão no topo dessa medíocre cadeia social, a cidade afundar e sobrará apenas os condomínios de luxo onde  a classe A brinca de pira e se engana de que está protegida.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Lula e o mistério da linguinha presa

Fui assistir Avatar, o maior blockbuster da temporada, e acabei em ‘Lula, o filho do Brasil’. Não dá para aplicar aqui a teoria do ‘queria sorvete, mas era feijão’. No máximo, um ‘queria sorvete e era um chope de ki-suco de uva’. Fábio Barreto, a esta hora ainda em coma, nem sei, deixa três fortes impressões para o espectador: a) Não existe filme bom se o diretor tem sobrenome Barreto; b) Lula era um manezão sem barba; c) Se Dilma Roussef depender desse filme pra se eleger, tá lascada.

Cartaz: "olha a Glória Pires é a mãe do Lula! Com quem será que ele casa no final?".

Vendo o filme não pude deixar de pensar, por exemplo, no meu pai nordestino, que percorreu o Brasil inteiro até parar nessas terras paraenses e constituir família e na minha própria trajetória, que não virei presidente nem perdi o mindinho, nem nasci no Nordeste, mas consegui uma profissão por causa das minhas duas Lindus, mãe e avó, protetoras até hoje. Independente se sua parte crasse média afetada gritar contra a política lulista, o presidente do “nunca na história deste País” tem uma história e tanto. Mas, foi mal aproveitada, evidentemente, pelo diretor.

Não é todo dia que um menino só lombriga, dos cafundós nordestinos, chega ao núcleo econômico do maior País da América Latina, domina a cena e mais adiante (se prepare para um spoiler) vira presidente da República. Da miséria ao cargo mais importante do Brasil, tem um dobrado enorme a passar, um sofrimento danado, um perrengue, que muita gente pobre ou que já soube o que é um aperto sabe de cor e salteado.

Mas, aí mora a questão onde o filme podia ser bom e não foi. A visão barretista de pobreza é estreita. Vem de alguma coisa perdida de um Glauber Rocha encantado com a seca e uma novela com sotaque falso feito pela Grobio. Falta uma verdade de Cidade de Deus, por exemplo, onde Fernando Meirelles vai beber na fonte da comunidade e conhecer os mano pra rodar o filme de ação mais porrada que Brasil já fez.

Barreto, antes do coma, olha a pobreza com aquela impressão da dondoca que, de vez em quando, oferece sopa para mendigo. Coitadinho do pobre, que vida difícil, meu deus. Mas, essa miopia social não é culpa do diretor. Está solta por ai, como um vírus de gripe qualquer, pegando muita gente que nem sabe que sofre do mal. Se estivesse acordado, Fábio Barreto teria recriminado Boris Casoy com a história do menosprezo aos garis, mas teria certo nojinho em apertar a mão dos lixeiros, como a maioria dos que reclamaram do âncora de TV.

Pega na minha e balança?

Fugir do clichê na hora de retratar um Nordeste miserento é difícil. Para um Barreto é impossível. Mas, se parasse por ai tudo bem. O problema é que não pára. Há erros na costura, no corte, no acabamento. O filme mostra propositadamente um Lula bonzinho demais. Muito bom filho, muito bom marido, muito sofrido, muito compreensivo com o mundo, muito ciente da sua força para ser a maior liderança da América Latina do final do século XX e início do século XXI, guardada pacificamente atrás da barba por nascer.

Porra, cadê o Lula cachaceiro, engraçado, encrenqueiro? Cadê o piadista que fala de política como se fosse futebol e quebra protocolo em qualquer lugar? Será que o presidente aprendeu essas coisas só quando chegou à sala da Presidência, em Brasília? O Lula do Fábio Barreto é uma moça bem comportada. Nem sinal do sapo barbudo. Nada do cabeça-chata atarracado e marrento.

Temos ali um ator (Rui Ricardo Dias) saradão. Tão bom moço, tão conciliador que lembra muito mais o Lulinha Paz e Amor da campanha de 2002. Tem ternura, tem amor no coração, tem choro além da conta para um cabra da peste, tem sensibilidade o rapaz. Mas, porra, cadê o sangue no zóio do sindicalista, mermão? Cadê a garganta solta e a língua presa. Nem isso. Tiraram a língua presa do Lula. Mostraram timidamente o maior modismo da esquerda brasileira, a hipnótica falha fonaudiológica do nosso querido presidente, a sibilação ecoada nos Vicentinhos e nos Edmilsons Rodrigues da vida.

Outro conflito estético do filme é dona Lindu. A mãe de Lula, interpretada por Glória Pires, surge aí como a base, o braço forte, a mão amiga do jovem Luiz Inácio. Seu maior exemplo, sua fonte de água pura, sua referência maior. São tantas intenções e pretensões em cima da genitora do Lulinha que ela acaba disputando com candura a vaga de protagonista. Mas, o roteiro é tão fraco que a pobre mamãe diz apenas uma frase de impacto: teima, teima, teima, teima, seu filho de uma puta, mas teima mesmo que tu consegues. Se ela dissesse assim seria até melhor, mas a senhorinha apenas diz para Lula teimar, brandamente, como só senhorinhas que não sabem ler falam. Estou sendo generoso quando digo ela soltou uma frase de impacto.

Um e oitenta, saradão, honesto e bom filho: Lula, o genro do Brasil.

O filme é um passeio direitinho, bem penteado e com terno engomado pela vida do macilento menino até a hora em que prendem o amarfanhado Lula. Convenhamos que o personagem central nessa época podia ser tudo menos alinhado e engomadinho, seu Barreto. Mas, nem tudo é tão ruim que não possa ter bons momentos. Pontos altos do filme são: o garotinho dando lições de Maria da Penha e interpretação ao Aristides, o papai do Lula, tristemente interpretado por Milhem Cortaz; Lula pegando a filha do Fábio Júnior; Lula mostrando ter uma excelente cara de pau com Juliana Baroni; e o povo gritando, em um dos poucos momentos de tensão, “se não soltarem o lula, ninguém vai trabalhar", um protesto contra a prisão arbitrária do sindicalista e ótimo motivo para não fazer nada naquele distante ano de 1980.

Barreto tentou. Tinha uma grande história nas mãos. A história que é a história de todo grande líder, seja em qualquer época, seja em qualquer lugar. Mas, a visão embotada da mesma classe média que detesta o torneiro mecânico dando às ordens no País cuspiu um filme fraquinho, fresquinho, sem pegada, sem chegar nem perto do poder de causar que o presidente tem. E reconheçamos: quando ele quer, ele sabe causar.

Se as eleições fossem agora e dependêssemos da película para decidir se o voto iria para Dilma ou outro candidato, acho que a ministra estava em maus lençóis. Como o exercício da democracia vai muito além do hábito burguês de ir à sala escura, vamos aguardar o efeito de Lula, o filho do Brasil no inconsciente coletivo eleitoral brasileiro. Não vejo a hora da pirataria se apossar da obra e espalhar o filmete nas mãos de quem recebe a Bolsa Família. Essa eu quero ver.