Um mercado tem crescido no Brasil nos últimos anos, pendurado em um fenômeno que une ações de políticas públicas de dois presidentes: a criação e regularização indiscriminada de cursos superiores, coisa do FHC, e possibilidade real dos pobres chegarem a essas faculdades, arte do Lula. Não sei se vocês perceberam, mas, nos últimos tempos ficou mais fácil alcançar uma das fases humanas mais absurdas, a de universitário. Sim, eles estão por toda parte.
São eles, rapazes e moças, boiando em um dos períodos mais escrotos de suas vidas (perdendo apenas para adolescência) e ainda assim achando muito dugaralhion. Orgulhosos, eles zanzam nesta etapa infeliz em que você não tem um puto no bolso, tempo é raro até para trocar a cueca e se alimenta porcamente por não ter dinheiro nem uns míseros minutos pra perder com coisas sem importância alguma como um almoço.
Ficou mais fácil pra todo mundo pegar o canudo.
Os iludidos, na sua condição de estudantes do ensino superior, vão a festas terríveis com uns nomes asombrosos, como Forró da “Picotinha”, com música da pior qualidade e gente chata entrando por todas as frestas incessantemente. Os acadêmicos estão obrigados ainda a ler uns livros insuportáveis até para o autor e ainda a passar pela prova de fogo final: parir um trabalho extenso cheio de regras nojentas justamente no momento em que ninguém mais sequer agüenta ouvir falar em universidade.
Pois é, não sei as estatísticas atuais, porém o que antes era o status da prole das famílias abastadas se popularizou e o filho do seu Mundinho e da dona Jacira já ostenta orgulhosamente seu título de universitário. E isso é excelente, diga-se de passagem, em um País em que o analfabetismo ainda é um problema sério. E, como não poderia deixar de ser, alguém tinha que lucrar com isso. Fica fácil de entender, desta forma, a quantidade de empresas especializadas pipocando por aí mais do que vídeo de estudantes fazendo atos libidinosos com a boca em banheiro de escola pública.
É do lucrativo negócio da organização de formaturas que falo. Os espertos sacaram o nicho e inventaram uma brilhante forma de rentabilizar o sonho dessa multidão que está prestes a pegar o canudo. Perceberam os pequenos gênios do capitalismo que não se pode pegar simplesmente o canudo. É preciso pegar, mas também mordiscar, apalpar, acariciar, lamber, beijar, cheirar, babar, fazê-lo parecer maior do que é e mostrar para todo mundo. Não, meus amigos, esqueçam os vídeos nos celulares. Estamos falando do diploma, caramba.
As empresas de festas de formatura estão trabalhando pesado para convencer que apenas terminar o curso e começar a trabalhar não está com nada. Eles evitam até falar no nome de certo cantor que morreu de Aids, na década de 90, devido a um grande sucesso popular, que desprestigia o negócio: “Por você eu largo tudo. Carreira, dinheiro, canudo... até as coisas mais banais, pra mim é tudo ou nunca mais”. Exagero da parte deles, claro.
Alvo do ódio das empresas organizadoras de formatura.
Não sei aí na sua cidade, mas na nossa Belém, onde até o prefeito já foi acusado de comprar canudo, prosperam as empresas das festas de formatura. E tem pra todos os tipos de mau gosto e de carteiras, desde as magrinhas até as rechonchudas dos papais lavadores de dinheiro. Claro, que nem todo mundo sabe escolher qual a melhor, a mais adequada para a megalomania dos nossos queridos futuros do Brasil e ocupantes de celas especiais nas cadeias. A equipe do BG também não tem esse poder, mas sabemos item por item o que deve ter em uma festa de formatura atual para ser ultra-mega-plus-super-infinitamente supimpa, até porque esse negócio de vestir beca, pôr chapeuzinho de badeja, dar dois beijinhos no coordenador do curso, pegar o diploma e sair não está mais com nada.
Vale mesmo é fazer um escândalo social para comemorar mais uma vitória do filhão que entrou falando grosso na faculdade e agora chega em casa dizendo “mãe, estou moooorta de cansaço” ou daquela antes exemplar pequerrucha que agora some na quarta e só aparece na segunda-feira, cheia de marcas de chupões, dizendo que estava estudando com as amigas. Vamos então à bendita lista:
Local
Este é um dos cinco itens fundamentais para ter um fim de graduação digno. Nem pense em usar o auditório da sua universidade. Se ela for pública, menos ainda. Sabemos que as instituições por mais investimentos governamentais aplicados sempre estarão estigmatizadas com aquela palavra horrenda: SUCATEAMENTO. Invenção dos xiitas do PSTU (desculpem o pleonasmo vicioso) ou não, a expressão remete à velharia, à sucata mesmo. E você não vai querer de jeito algum ver seu título de bacharel, licenciado ou doutor misturado a coisas degradantes. Jamais, não é? Então, arrume aí um jeito de levar sua solenidade para o Hangar - Centro de Convenções da Amazônia. Só o nome gigantesco e com determinante geográfico da região mais cobiçada do mundo deste lugar já traz uma pompa a mais para o evento. Não tinha mais vaga? Eu disse que era pra se apressar. Então, vá de Assembléia Paraense mesmo. Está ultrapassado e meio cafona, mas ainda vale muito. É o templo da elite belenense, desfrutadores das melhores escolas, visitadores dos lugares mais chiques do mundo e os jecas mais bizarros da cidade. Se não mora em Belém adote os dois modelos: grande centro de convenção inaugurado recentemente e clube dos ricaços que vivem de aparência. Não esqueça de um detalhe, se não houver como fazer a festa nesses dois locais, procure algum semelhante sem esquecer que quanto pior e mais fuleira for a sua faculdade melhor tem que ser o ambiente em que a comemoração vai se realizar. Não esqueça disso.
Divulgação
Você passou quatro anos indo a um lugar que não queria, encontrando colegas insuportáveis e ouvindo inutilidades de professores detestáveis. Agora acabou, nego. O pesadelo está no final e, em breve, a liberdade será real, embora estejam apenas lhe transferindo para uma pior, o mercado de trabalho. Mas, não importa. As únicas duas alegrias de uma universidade é entrar e sair. E o volume de felicidade da última não tem comparação com a primeira, é muito melhor. Então, futuro profissional, você tem o dever e o direito de espalhar a notícia, tipo o Roupa Nova: “eu te aaaaaaâmo e vou gritar pra todo mundo ouvir”. Beleza, está fácil. Faça sua parte, heim? Não vá deixar só nas mãos da empresa que organizará a festa. Use as redes sociais, porra. Não sabe o que é rede social? Twitter, Orkut, Face Book,. Google Wave, rádio cipó, o programa Carlos Santos. Isso tudo aí é a tal da rede social. Para aquela tia velha que mora em Jacareacanga ou Cabrobó do Mato Dentro, envie um telegrama ou uma carta escrita à mão, contando a maravilha em estilo romântico. Pega bem. Agora se concentre também na divulgação que vai ser feita pela empresa. Afinal, é sua imagem que está em jogo. Você ganhou 27 quilos nos últimos quatro anos? Dá teu jeito, doido. Mas trate de emagrecer. Costura a boca, toma só água por dois meses, compra 300 latas de Herbalife, mas te vira. Não vais querer parecer uma porca na foto do jornal e queimar o filme. Quanto menos parecido com o seu eu original e mais bonito ficar, mais falarão: “nossa, o filho do doutor Ataulfo se forma hoje. Mas, ta bunitão, não é?”. Frases do tipo contam ponto no céu e os anjos enviam energias positivas para aquele seu currículo furreca, sempre recusado por aí. Nunca esqueça de pedir o providencial photoshop nas fotografias, afinal sua cara deve estar toda esculhambada depois desse quatriênio bebendo todas e dormindo tarde. O software que vem salvando o mundo da feiúra há alguns anos pode fazer milagres por você também. Na hora de levar o clique para a foto oficial, recomendo às mulheres fazer cara de “pensa que é fácil me comer?” e aos homens de “terei uma conta bancária gorda e duas amantes gostosas mesmo sendo um idiota”. Funciona. Já deram uma olhada nos jornais? São as caras mais usadas.
Performance
Ah, aqui é um dos pontos mais delicados. Se você não fizer certo, no way. Vai perder a grande chance da sua vida, garotinho e garotinha juvenis. É o grande momento. É neste curto pedaço de existência, nessa infinitésima fatia temporal, que você pode dar uma de deficiente mental na fase adulta e ser aplaudido por todos. Sem exceção. Nem no carnaval, quando comer a mulher do melhor amigo pode até ser perdoado e creditado na conta do capeta, consegue-se tal façanha. Experimente se vestir como um paspalho e sair no folguedo pra ver. Vai conseguir uns risinhos, um gole ou até uma latinha de cerveja ou ainda parecer mais simpático e ter a chance de garfar aquela semi-conhecida que você anda pensando em traçar. Mas, palmas, gritinhos histéricos, bajulação explícita, ovação em alto e bom som, definitivamente, não. Só na formatura, bonitão. Então, capriche. Converse com a empresa organizadora, escolha um tema bem ridículo para festa e junte a comissão de estudantes para deliberar sobre o figurino, que deve ser o mais patético possível. Não precisa ser criativo. Patacoadas do gênero vem ocorrendo faz um tempo e você pode repeti-las. Nada se cria. O CTRL C + CTRL V está aí para comprovar. Sugiro um simples: super-heróis. Combine com os colegas para escolher os que tenham uniformes mais distantes da realidade. Como aqui a intenção é aparecer, peça à organização contratada para arrumar um mestre de cerimônias animador de auditório no estilo Clube das Mulheres e uma passarela bem grande para você fazer seu ‘show’. Na sua entrada, exija uma música eletrônica cujos zumbidos hipnotizantes. Nada de ‘We are the champion’, peloamordedeus. Carregue nos acessórios: chupetas de plástico, colares havaianos, plumas, óculos gigantes, chapéus de palhaço. Entre imitando Jacaré do É o Tchan nos bons tempos, tire toda a roupa, se besunte de calda de manga e lance farinha de tapioca no seu corpo nu, girando feito uma pomba-gira com disenteria. Pare com expressão demoníaca e um sorriso tinhoso. Conte até cinco e grite bem alto “viva o Pará”, assim entenderão que se trata de uma homenagem ao Estado que você nasceu. Vire de costas e se incline. Nas nádegas, escreva nas duas bandas o nome do seu curso, tipo 'SECRETARIADO-TRILINGUE'. Saia acenando e jogando beijos. Vai ser o máximo.
Homenageados
O esforço foi seu. Você agüentou a barra, mesmo quando tudo parecia perdido e você estava jogando bilhar no bar defronte à universidade. O esforço também foi dos seus pais. Os coitados acreditaram, bancaram mensalidades escorchantes, encontros estudantis devidamente desviados dos verdadeiros fins, seguraram a barra de ter um filho barbado e chorando por dinheiro pra ir pra balada. Sim, essa família é um exemplo para o Brasil. Mas, a formatura vai além. É preciso catar alguém da seara da Academia para lembrar no round final por um único motivo: é preciso homenagear. É praxe, tão praxe, como não arrotar à mesa nem repetir o prato no primeiro almoço com a família da namorada. Então, faça assim, escolha o pior. Pegue um professor faltoso ou aquele com suvaqueira ou o que baba pelas alunas sem disfarçar a ereção na sala de aula ou ainda aquela mal comida de maus bofes. Mencione o escolhido como o melhor de todos, teça elogios descabidos deixando os outros docentes furiosos. Crie intrigas, afinal, você não vai mais estar lá mesmo pra ver o mundo desabar. É necessário escolher também o patrono da turma, o nome elegante que deram para o ‘pagão’. É ele que vai arcar financeiramente com o delírio dos formandos de fazer um festão de arromba. Selecione também um de boa estirpe: veja aí na sua cidade qual o político mais corrupto ou o empresário mais patife. Ambos devem ser os mais bem sucedidos e com os egos mais inflados para topar o desafio. Lavadores de dinheiro, fraudadores do INSS, ex-prefeitos condenados pelo Tribunal de Contas, deputados metidos com o jogo do bicho, ex-assaltantes de carga, donos de clínica de aborto, grandes agiotas. É desse tipo de gente que você precisa. São eles os donos de la plata e podem dar vazão a sua mania de grandeza. Atividades ilícitas? Que isso! É tudo gente que faz esse País um bom lugar para se viver com projetos alternativos, ora, ora. Acredite nisso até a festa acabar, pelo menos.
Caixinha
Em Belém, a arrecadação coletiva de grana para festa de formatura se chama 'caixinha'. A festança da maioria dos universitários lascados depende desta união estudantil, encerrada neste nome esquisito. Se você não tem papai e mamãe abastados e abestados o suficiente para cometer o devaneio de pagar tudo sozinho, você vai se agregar aos coleguinhas para somar a pequena fortuna e promover seu escândalo social particular com a pompa merecida. Arrume aluno da turma corajoso e afeito ao estresses para administrar a baba e por ordem na casa. Mulheres são mais adequadas para a função pelo senso de organização. Mas, pode ser qualquer um com complexo de chefe de turma. Claro que o dinheiro juntado não vai ser suficiente, então, vocês terão que promover festinhas para complementar. Portanto, pense em algo com apelo bem popular. Se puder misture pagode, sertanejo, forró, axé music, funk e, se for aqui no Pará, tecnobrega. Vai atrair multidões. Venda a pior cerveja a preços módicos. Não precisa ser gelada. Quem gosta desses ritmos não merece tal cuidado e muito menos exige também. As rifas também vão ajudar. Arrume um microondas velho, um aparelho de DVD com defeito, um relógio de parede com borboleta no ponteiro e ofereça como grandes prêmios. Não valem nada, mas finja que são tesouros raros e cobre o preço dos bilhetes bem caro. Encha o saco de todos na hora de vender. Se reclamarem, use aquela chantagem moral muito comum: quem se negar a comprar chame de pão-duro, unha-de-fome ou Nonô Correia, se seu desafeto tiver mais de 30 anos. Ele vai entender. Agora, caro formando, todo cuidado é pouco. Com dinheiro não se brinca. Não vá entregar a senha da conta bancária da caixinha para aquele colega que empresta dinheiro de todo mundo e nunca paga ninguém ou para os que nunca dividem a conta no bar ou que respondem processo pelo artigo 157 do Código Penal. De vez em quando aparece nos jornais o cancelamento de festas de formatura porque sumiram com o pacotão de reais pelo mundo, deixando a classe toda enfurecida. O transtorno é certo para estudantes e os parentes ansiosos pela rega-bofe. Fora que provoca acessos de riso para quem gosta de ver a desgraça alheia, como eu. Se liga, mermão.