quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Carta aberta para Belém

Oi, Belém, minha gata.

Agüenta mão aí que está quase acabando. Falta menos de um ano para terminar o mandato do desprefeito, o senhor Duciomar Costa. Sei que está sendo duro, muito duro, e a senhora já está pelas tabelas, morre, não morre. Dia desses a senhora foi bater no Pronto Socorro com essa ânsia em ver tudo acabar e pôr fim à tortura e deu no que deu. Quase bate as botas na porta do Hospital sem atendimento, coitadinha. Eu te avisei, meu bem, eu te avisei que não valia a pena ir e o melhor remédio seria um chazinho, uma andiroba, um cataplasma ou, em casos piores, a extrema unção junto com os teus, deitadinha no aconchego do teu lar. A senhora não tem mais idade para essas aventuras. Já são 396 anos, afinal.
Foto: Luiz Braga.
Ainda me lembro de ti, mocinha, bem novinha. Toda emperiquitada. Não recordo da minha memória, claro, mas da memória alheia, do que as fifis de porta de vila tanto falam de ti, dos teus saracoteios por aí. Primeiro no Teatro da Paz junto com a rapaziada de fraque e cartola cheirando aos dólares da borracha; depois no Grand Hotel, já balzaca, porém, ainda tchutchuca. Todo mundo fala que eras de parar o trânsito de charretes, uma morenaça. E eu acredito olhando agora - com todo respeito - tua carne murcha, mas ainda cheia de charme.

Lembro como se fosse hoje, doçura, as brigas feias por ti. Do pobre do tupinambá Cabelo de Velho morrendo na mão dos portugas, coitado. Do porradal renido que acabou com 300 e tantos mortos no Brigue, na época da adesão. Da mordição enciumada dos cabanos, massacrados sem piedade também. Tudo por ti, pra te ter, te usufruir. Quem mandou ser gostosa?

Só acho que esse pessoal que te ganhou na mão grande não te cuidou direito, meu bem. Desculpa te falar, mas acho que escolheste errado teu super-heroi. Sei que não foi culpa tua, que não te deram muita escolha, mas foi um erro. Dos feios, minha preta.

Quando o negócio começou a desandar, esses moços, ricos moços, te deixaram a ver navios. Retiraram todas as fichas e caíram fora o mais rápido possível. Lembro bem de gente que até tentou cortar os vínculos mais aparentes da tua época de ouro, minha lindeza. Jogaram os velhos casarões no chão e foram tentar a sorte em outro lugar, te deixando sozinha na mão dos sacripantas. Sim, os mesmos degenerados de sempre, que vão passando tua tutela de mão em mão. Mudam de cara, de endereço, até de sotaque, mas sempre te tratando com o mesmo desprezo que os rufiões despejam às suas funcionárias, exigindo a última gota de suor para levar o máximo que puder das noites e noites de trabalho forçado.
Foto: Tarso Sarraf
Já tem tempo, Belém, que eles te tratam assim, feito a preta velha, no fundo da cozinha, que embora considerada membro da família nunca sentará com o senhorzinho na sala de estar. Será sempre a lambaia, a mucama risonha, dócil que amamentou os filhos todos do dono da casa, envelheceu feliz sendo explorada e se contenta com as migalhas do resto da festa, encarando o pouco caso como afeto. Sabe, minha velha, meu amor, tu não mereces.

É por isso que te escrevo hoje, minha paixão. Não te quero apontar defeitos, não. As tuas ruas esburacadas entupidas de gente mal educada, teus bueiros transbordando, teu calor do inferno em lava quente, teus rios encobertos por prédios hediondamente horríveis, teus melhores filhos virando as costas para ti. Nada disso, minha linda. Eu que sempre reclamo demais, quero mesmo é te dizer que não mereces nada do que andam te aprontando, que tudo é um equívoco, que somos culpados e viemos hoje, eu sei que só hoje, rogar de joelhos, com os olhos rasos d’água, que tu nos perdoe.

Te fizeram festa. Uma, duas, três, mil delas. Te trouxeram uma estrela da Bahia; te ofereceram bolos gigantes; pintaram teu céu de fogos; te cantaram poemas - alguns terríveis, ruins -; reprisaram aquelas imagens batidas das mangueiras, do açaí, do peixe fresco, do sorriso e da chuva; cantaram os velhos hinos de sempre. Sei que tu olhas calada, minha Belém, com o rosto inerte de quem está cansada, exausta; de quem já não crê nessa palhaçada toda; de quem está para mandar tudo ao caralho de tanta impaciência.

E tens toda razão, minha princesa. Não mereces remendos, nem restos, nem raspas, nem o amor frívolo eventual por causa do dia te hoje. Merece o amor eterno todo dia. Não aquele amorzinho de nada, mas o dedicado à namorada nova, à amante tarada. Um amor quente, como quente tu és.
Foto: Breno Peck.
Merecias de verdade uma vida de rainha em trono de ouro, em reino de paz, banhada em fortuna para que nunca mais os que aqui moram exclamassem “pobre Belém”, nem os que aqui chegam pudessem aspirar o sopro da decepção.

Dias melhores virão, minha gata, minha flor. Hoje te mando esse recado, meio acanhado. Sei que estás assediada demais por causa da data. São muitos os galanteadores. Mas quando tudo passar e todos voltarem às rotinas e te deixarem quieta no teu canto de sempre, dá uma olhadinha, lê com carinho, não esquece de mim.

Espero que tudo se ajeite, esse tempo ruim passe logo, e ano que vem eu possa ir à tua festa tomar um café, comer uma tapioca. Esse ano nem deu, porque não gosto de axé music, mas prometo levar meu abraço de filho a hora em que a farra der lugar ao habitual esquecimento dos tantos que hoje te celebram.

Até, minha velha, meu amor.

Eu te amo.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Terra Firme

Havia quase dois meses ele dava uma desculpa qualquer e não aparecia nas noites sextas-feiras. A ausência a deixava, antes de qualquer coisa, desconsolada e, com o avançar das horas, furiosa. A fúria iniciava com lembranças de pequenos destemperos, como a recusa brusca ao almoço dominical na casa da mãe dela. Por que não?, ela indagava, chorosa, enrolada no edredon, protegida do frio sulista espargido pela central de ar do amplo quarto.
Foto: Thiago Araújo
A ira fervia ao percorrer caminhos lamacentos das lembranças do início da relação: telefonemas das ex e, principalmente, a não declaração do namoro nas redes sociais. Como podia? Para ela, não escancarar o amor no mundo virtual correspondia à atitude de pais que não davam festa de 15 anos para esconder a filha feia da sociedade. Ele não me ama, lamentava.

Chegava ao extremo, muito perto do ódio, ao pensar no jeito do namorado com todas as mulheres. Com certa malemolência, ele tratava todas muito bem. Da mãe às desconhecidas, todas ganhavam um afago, um elogio, uma atenção própria dos amantes congênitos, mesmos os amansados por mulher tão exuberante como ela, noiva linda que era. Porém, a futura esposa encarava como uma descompostura, um acinte. Era um galinha, isso sim, rangia no ponto alto de sua dor.

Naquela sexta, não foi diferente. Ele ligou com o “oi, amor da minha vida” de sempre e emendou: “não vai dar. Estou muito enrolado. Devo sair tarde e exausto daqui. Amanhã a gente almoça junto, ta bom?”.

Sentindo a estocada no peito, ela apertou os molares superiores contra os inferiores, fingiu o sorriso e mandou um “tudo bem” chocho, perfeito para esconder o desespero. “Tchau, amor da minha vida”. “Tchauzinho”.

Ele tem outra. Só pode. Não é possível. Uma sexta, vá lá. Mas, duas, três, quatro, cinco, sei lá quantas? Ele tem outra, repetia sozinha. Minutos após a conclusão, ligou para a melhor amiga. “Vamos lá amanhã de manhã. Cedinho. Estou decidida. No almoço, já saberei tudo, meu Deus”, soluçou para outra que ouvia sem atenção: “vamos sim, amiga, vamos, sim”.

Não dormiu. Levantou um bagaço. Tomou banho e às seis da manhã a maquiagem tinha corrigido o rosto devastado pela insônia. Desceu ao saguão do prédio, aparvalhada, ignorou o porteiro e foi tomar café na padaria da esquina. Comeu sem pressa, mastigando a cisma da noite passada. Mandou mensagem para ele: “chegou muito tarde?”. Sem resposta. Ligou para a parceira em seguida.

- Já estou pronta.
- Eu nem levantei. Vamos mais tarde?
- Não. Quanto mais cedo melhor. Em meia hora estou aí.
- Ai, não.
-Ai, sim. Não demora.

Partiram para o destino quase oito e meia da manhã. Pegaram um táxi na Padre Eutíquio, defronte ao shopping, e rumaram para o desconhecido. Chegaram ao endereço, sem muita certeza. Uma casinha de madeira de três cômodos, encravada junto com outras similares, em uma passagem do bairro de Montese, que todo mundo conhecia por Terra Firme.

Os malandros do lugar arregalaram os olhos na primeira avaliação. Quando entraram na rua, Boca de Sacola achou fácil e começou a imaginar, com a pouca Matemática que sabia, o quanto podiam render: na bolsa uns 300, já incluso o celular; os óculos uns 50; os sapatos dariam para Arlene. Achou os pés do mesmo tamanho. Já ia meter o bicho, mas parou quando as donzelas estancaram no número 23.

- Melhor jogar no bicho. Hoje é borboleta na cabeça.

Adentro uns 20 metros da beira do canal, o casebre ainda estava fechado quando elas bateram na porta. Depois de certa insistência, atendeu o chamado um adolescente macilento, acinzentado, sem camisa, com aos cabelos sarapintados de loiro em várias partes do cocoruto, ainda com remela nos olhos. Entra, convidou o rapazola.

Quando a porta se arreganhou, o cheiro impactou os nobres narizes acostumados a ambientes mais cleans. Erguida no alto para amenizar os transtornos dos aguaceiros de sempre, a choupana guardava um lodaçal embaixo do assoalho. De lá desprendia homogêneo o odor fresco do capim nascido na várzea, a acidez da merda e urina de toda a vizinhança, a exalação industrial de sabão em pó das lavadeiras e o sebo dos restos de comida que escorria dos jiraus. Invadia pelas frestas das tábuas do piso, um vapor suave guardado, sem discrição, embaixo de uma capa de lixo plástico movimentada pela correnteza sutil do igapó, antes moradia de jacarés enormes e fonte de água pura e serventia para o pouco lazer dos leprosos mandados para lá como exilados no passado, havia mais de cem anos.

A dupla sentou no único sofá da pequena sala, coberto com uma capa floral presa por elásticos encardidos. O chão bem varrido, as flores de plásticos na mesinha de centro, a CCE de 29 polegadas, os bibelôs de gesso na estante improvisada com tijolo e compensado tranqüilizaram as visitantes. Elas cochichavam admiradas com o zelo com que tudo fora organizado. Nas paredes, lado a lado um cartaz do Círio de número 200 de Nossa Senhora de Nazaré e um calendário de 1992 com um Jader Barbalho mais jovem, sorrindo. Num canto, o pequeno altar sincrético casava a imagens do Sagrado Coração de Jesus e outros santos católicos com Iemanjá, Exu e demais entidades da umbanda e do candomblé. Da cozinha, veio a voz, como ordem para as duas: venham para cá.

João estava sentado à pequena mesa de tábua crua. Um pedaço de pão massa fina na mão direita e o copo de café preto na esquerda compunham a imagem do mulato forte, vestido apenas de calça caqui, cabelos engrisalhando, tatuagens indecifráveis no seu couro engrossado por cimento na época em que serviu de besta nas construções.

- Só dá daqui a pouco. Demora um tanto, mas a senhora não vai se arrepender. Já, já ela vem - Ele disse, mastigando.

Levantou do banco e chamou, Clayton, que estava encostado na soleira da porta que dava para o quintal alagado. O rapazote entendeu e foi preparar figurino e adereços no pequeno quarto. Pouco depois, João deixou as moças e entrou na alcova. Lá, encontrou a escuridão, imperfeita por causa das brechas no telhado. Despiu-se e começou um murmúrio surdo, um rodopiar de cabeça, uma viração de olhos, tudo sumido de repente. O cessar era deixa para o auxiliar que sem demora acendeu as velas e correu até João para entregar as roupas. Dois minutos e ele estava pronto, incluindo a pintura de ruge nas bochechas e batom nos lábios. Sentou na cadeira de espaldar grande e pediu, em voz anasalada, para que ela entrasse sozinha.

Com medo, a mocinha mergulhou no reino de Benedita Tigre, quem emprestava o corpo de João para dar as mais variadas consultas. Surpresa, a cliente encontrou outra pessoa: o homem estava acomodado no trono, de pernas cruzadas, cachimbo pendente na boca, paramentado com cordão de contas brancas e azuis, brinco nas orelhas, tudo combinando com um xale de cetim anil e o turbante alvo. O ex-servente de pedreiro se movimentava com a suavidade e a elegância de uma ex-bailarina idosa.

- Então suncê acha que ele te mete cifre? Não to boa pr’essas coisa hoje, não, mizifia. Mas nós dá um jeito.

A mulher arregalou os olhos com a adivinhação do motivo de sua visita.

Benedita bafurou o tabaco e olhou para Clayton. Ele, de pronto, entregou a garrafa de 51 e a lâmpada à dama de azul. A feiticeira tirou um lenço branco do bolso e, em passe de mágica, envolveu o objeto no tecido e o esmagou em seguida com uma pisada. Abriu o pano para a cliente ver o estrago na lâmpada e levou os cacos de vidro à boca para mastigar em um croc-croc-croc-croc de impressionar a quem assistia. Deu um gole enorme no marafo e vaticinou: “agora, sim”.

Sem parar, a entidade disse: “suncê pregna muito, suncê tende ciúme, suncê devia confiá, mas galego né frô que se cheire, né? Galego ta comendo fora do terreiro de suncê, mizifia, bem na cara de suncê, com caboca do seu bem-querê, se era isso que mizifia vem saber. Suncê dá confiança demais. Abre olho, faz bem. Suncê só conta suncê mermo nessa estrada, mizifia”.

Ela começou a chorar, deixando o nariz escorrer. Benedita Tigre segurou-lhe as mãos e quando a freguesa achou que vinha um consolo, acostumada com mimo, a bruxa ralhou entrovoando a voz: “suncê num vem chorá no meu terreiro, não. Olha pra frente que galego num te qué e num volta aqui pra chorá, que hoje num to em dia bão, mizifia. Deixa chororô pra velório e mancebação”.

Depois disso, Benedita subiu. Restou o cavalo João, cansado, na cadeira da velha tigresa. Ele acordou do transe, pediu para que a moça aguardasse lá fora. Voltou recomposto como homem que era. Cobrou 500 reais pela consulta, receitou uns banhos. Clayton encaminhou as visitas à saída. Lá, fora Boca de Sacola cutucou Amendoim e Fala Fino. O trio estava agoniado para ver as duas mulheres.

- Nem mexe que é da Benedita. Deixa quieto, moleque - Disse o mais velho deles.

As duas passaram de cabeça baixa rumo ao táxi chamado pouco antes do fim dos procedimentos de João.

- E aí? O que ela disse? O que ela disse? Perguntou a acompanhante.

- Nada, não. Falou que tu és meu anjo da guarda. E só confirmou o que eu já sabia dele, querida. Tudo bobagem da minha cabeça - respondeu ela, mostrando os dentes perfeitos, pouco antes de atender o telefonema do noivo para confirmar o almoço naquele sábado singular.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Samba e amor até mais tarde com jornalistas

Ok, ok. A narrativa que se segue é mero fruto de observação, alguns relatos esparsos após o acontecimento e migalhas de flagras perdidos em pixels espalhados por aí em imagens gritantes. Qualquer semelhança com a realidade apartado do álcool é coincidência total. Pediram e capitulei para escrever as impressões sobre a já famosa festa da Fiepa. Para desespero nosso, os abutres da notícia, não teve nenhuma desgraça. Nadinha. Ninguém subiu na mesa, não houve dedo em riste, cenas de tragédia grega, tampouco um mero tapa na cara, embora tenha visto alguns tapinhas carinhosos em algumas nádegas na hora do funk. Tudo dentro do esperado. Ou o esperado era mesmo a boa e velha porrada? Se era, mais uma frustração de um ano repleto delas.
Ary e Célia, uma dupla do barulho.
Chego cedo à festa. Era umas nove e pouquinho. Desta vez trajando preto, como no Tropa de Elite, porque não sou moleque, tentando emular um latin lover, sem sucesso por causa da barriga. Consegui, no máximo, me aproximar de um Zorro aposentado sem máscara. Já na garagem da Federação encontro uma amiga das antigas que tinha jurado de pé junto não pôr os pés na festança por não ter recebido um convite. Mas o equívoco foi reparado e ela estava lá, claro, para confirmar que ninguém quer perder o bafafá.

Adentro o salão e os coleguinhas estão ali na área de fotos tentando transgredir posando com adereços de carnaval. Nada demais. A decoração é de boteco. Bela escolha para uma categoria que só não enche mais a cara por falta de tempo, energia e, sobretudo, dinheiro.

No meio de tudo, as nossas jornalistas, como sempre, se destacando de todo o resto com suas belezas bem planejadas para encaixar na tela. Uma mais belezoca que a outra, uma miríade que nem o mais tarado dos sutões conseguiria imaginar para o seu harém, um dos pontos altos da ideia estapafúrdia e genial de juntar jornalistas e abastecê-los com o bom e do melhor em comilança e bebelança.
Sorriso sem graça de sempre e a caricatura feita pelo J.Bosco.
Fui passar o olho nas caricaturas feitas pelo grande J. Bosco, uma homenagem da Fiepa a 34 jornalistas. Lúcio Flávio, Célia Pinho, Úrsula Vidal, Frank Siqueira, Anderson Araújo... Anderson Araújo? Pois é, estava entre os homenageados. Achei estranho porque passei quase o ano inteiro cobrindo polícia no jornal, muito longe das matérias de economia que envolvem a Federação. Mas, fiquei contente. Só acho que o genial cartunista deu uma reduzida nas minhas bochechas, porém gostei do desenho.

Na primeira olhada aos dançarinos, vejo a intrépida Célia Pinho atracada ao performático fotógrafo Ary Souza. Uma fotografia surreal e imaginável no nosso corrido dia a dia atrás de problemas, tragédias e muitos dramas. A dupla recebeu aplauso no final do suingue merengado, suado, rasgado a todo vapor. Aplauso a eles que sintetizaram o clima da noite.

O texto do ano passado deve ter provocado uma reação adversa. A mesma que ocorre quando um governador vai visitar um hospital público. Todo mundo maquia a unidade hospitalar para parecer tudo lindo. A impressão que tive é que eu passava e as pessoas escondiam a sacanagem para eu não saber.

Depois me passaram alguns detalhes, como o contado pela Úrsula Ferro, que havia até um OB perdido na área de dança. Reza a lenda que era usado, informação não confirmada, mas que pode ser real. As saias curtas e os movimentos frenéticos das lindas moças podem ter expulsado o pequeníssimo absorvente do paraíso.
Presidente da Fiepa, José Conrado: "meu Deus, ano que vem tem de novo". (Foto: Rogério Uchôa)

Sem barracos para registrar, o lance foi dançar. Dançar até versões de horrendas de pagodes de velhas músicas conhecidas, dançar o poperon dos anos 90 e dançar com as mulatas do Rancho não posso me amofiná. Já meio encharcado, não me amofinei e estou até agora coberto com a purpurina, o cheiro de Kolene e o perfume das fabulosas passistas do Jurunas. Coisas lindas.

No fim, o ritual comum da formação de casais improváveis, a confirmação de fins de amores, o extravio de velhas paixões e o velho desespero dos que querem se dar bem nas fartas porções femininas que ainda circulavam no salão. Teve fotógrafo querendo pegar beldades na marra, teve juras de amor de joelhos, teve enxerimentos sutis e, obviamente, teve a admissão de muito de voltar para casa apenas no desejo e com imagens em brasa na memória para render outras homenagens, essas não muito dignas nem em forma do traço elegante e jocoso da caricatura.
Oi, mulatas.
Enfim, quem perdeu, perdeu. Não posso reclamar de uma confraternização em que fui homenageado e ganhei no sorteio uma passagem com acompanhante para qualquer lugar do Brasil. Até tentei trocar por um pen drive de 64 gigas entre os convivas, mas ninguém se dispôs a fazer a troca. Deixaram passar a oportunidade.

Sem brigas, sem porradas, a festa mais concorrida do ano findou naquele papo de sempre: "e agora para onde a gente vai?". Comportado, acompanhei os coleguinhas em dois bares e parti para casa pensando seriamente em não escrever esse texto.