quarta-feira, 14 de março de 2012

A moribunda

Naquela época, andava mais perdido do que nunca. Voltava dos ensaios do teatro exausto, a cabeça leve, mas sem saber o que fazer, para onde ir, como as coisas ficariam. Tinha 19 anos, afinal. Ainda era um tempo em que pessoas de 19 anos eram apenas pessoas de 19 e não sabiam de nada. Adentrava minha rua tarde da noite ainda sob o efeito energético da movimentação do palco, das marcações de cena, das outras vidas, dos risos do bom convívio com os sonhadores de sempre. Vivia de nada, em ritmo lerdo, em direção incerta, em um anarquismo patético entranhado nas veias, pensando ainda na primeira namorada de verdade que teria, em poucos meses, se tudo corresse bem. Muito mais tolo, muito mais penso e, sobretudo, muito mais magro e despreocupado do que hoje.
As pressões para ter meu próprio dinheiro, ter certa independência, ser um homem de verdade, eram maiores do que para voltar a estudar, depois de mais de um ano sem nenhum recurso para freqüentar um cursinho após minha derrota no primeiro vestibular. Mas, nada era prioridade e eu flutuava em amores da rua, em poesia barata, em paixões trepidantes, nas coisas sagradas e guardadas na minha cabeça imersa em teimosia de quem se arrisca e finge pagar o preço, mesmo sem nada no bolso.

Meu pai, longe da fragilidade atual, era um Deus do velho testamento, de castigo, desgosto e fogo nas ventas. Abominava aquela criatura tão contrária a ele: produtivo, responsável, provedor, forte. Nas manhãs de batente, de labuta sacrificante, nunca me via. Meus sonhos eram à noite, de olhos arregalados, na madrugada, na rua, nos livros, nos filmes, nas amizades que aquele nordestino curtido de sol nunca aprovaria. Tudo era uma afronta.

Nesse clima de reprovação, diletantismo e falta de perspectiva, fiz da minha casa um simples dormitório, aparecendo para passar noites em claros e acordar ao meio dia para começar um novo dia naquela rotina doce e inútil dos que não queriam envelhecer. Até que numa noite de volta para casa a percebi encostada em um dos muros das casas “lá de cima”, mais bonitas e de alvenaria, diferentes em praticamente tudo das “da baixa”, muito feias e de madeira, como a minha.

Mal olhei, mas percebi: branquela, mediana, grandes olhos, magra, moradora de uma vila de quartos, quase uma intrusa entre os narizes empinados “lá de cima”. A conversa se desfez quando passei, como se falassem um segredo ou parassem para olhar melhor aquele farrapo de gente que caminhava troncho e estranho no meio da via, sempre. Segui meu caminho, cumprimentei minha mãe, sumi casa adentro esquecendo os olhos da vizinha.

Num meio dia qualquer, umas semanas seguintes, um dos moleques da rua me chama. “A fulana quer te conhecer”. Como, meu amigo? “A fulana, ali de cima, quer te conhecer. Vai lá, cara”. “Eu?”. “É.”. “Mas, o que ela quer?”. “Porra, sei lá. Ela quer saber teu nome. O que eu digo?”. “Diz meu nome, ora porra”. “Vou lá”. E foi-se dizer meu nome e um punhado de mentiras. Em seguida, fui avisado que alguém me procurava.

Abri a porta e ela estava lá, ao lado do Chevette azul do meu pai. “Oi”. “Oi”. Confirmou meu nome e me chamou para mais perto. Sem cerimônia foi abrindo o jogo: “sabe o que é, eu sempre te vejo passando à noite. Queria te conhecer”. Sem nenhum preparo para aquele bote, eu balbuciei um “é? To aqui. Prazer”. Estendi a mão, sem jeito, dei os dois beijos desengonçado. Pareceu um cumprimento de umbandistas. Saravá.
Avaliei aquela flor que se entregava assim, sem ter, nem por que: uns 24 anos; nenhuma maquiagem; cabelos castanhos; olhos escuros e grandes, maiores e mais brilhantes e mais tristes do que notei antes; peitos pequenos, pescoço longo, pernas bonitas deixadas de fora em uma saia jeans; quadril largo.

Quando comecei a apreciar com mais afinco o presente daquela tarde de pachorra, ela emendou seu grande trunfo, de supetão: “sabe, eu não tenho muito tempo. Por isso estou sendo muito direta contigo. Não posso me dar esse luxo. Minha vida está no fim. Tenho um tumor na cabeça, no cérebro. Não tem cura. Vou morrer logo. Por isso não posso enrolar. Por isso vim aqui contigo”.

A primeira coisa que pensei foi “mas eu nem sou médico”. Depois pausei meus olhos naquele olhar sofrido reluzindo uma sacanagem sincera, envolta em desespero ou uma canastrice bem medida, que impressionava, no mínimo. Ela sorriu com o canto da boca. Passou o pé na minha perna e perguntou que horas eu voltaria à noite. “A mesma hora de sempre, umas onze”. “Onze tu passas lá comigo. Moro sozinha. Na última casa da vila. Vou deixar a porta aberta. O portão também. Vais gostar. Não deixa de ir. Vou te esperar”, e insistiu no convite feio com os pés e se inclinou deixando à mostra o pequeno bojo do decote.

Pensei no decote, nos peitos, nos pés, nos olhos grandes, no tumor, na porta aberta. Minha timidez, quase extinta na época, voltou feito um tsunami. Gaguejei. Eu, eu, eu gosto de uma, de uma, de uma moça aí. Não posso fazer, fazer isso. Sabe? Ela riu. O pé subiu, encostou em minha coxa, se insinuando ao centro cada vez mais. “Se eu fosse tu, eu ia”. E riu de novo. Em plena luz do dia, apareceu um vulto a poucos metros daquele início de descaramento: minha mãe na porta de casa. Brochei.

A vizinha se arrumou, endireitou a coluna, disfarçou. Ela me deu dois beijinhos e foi se despedindo:

- Já sabe: onze horas, a porta aberta. Pode entrar. Vou te esperar.

Fiquei ali pensando. Logo mais sairia para o ensaio. Arrumei tudo e parti com a proposta dela enterrada no miolo, como um tumor latejante. Não me concentrei e vi o tempo se arrastar até o fim de todas as cenas. Subi no ônibus de volta, o velho e bom Aeroclube, temendo a hora final, o limiar entre entrar no portal da promessa de prazer e seguir o caminho de sempre para casa.

As palavras dela se repetiam. Vem. Vais gostar. Última casa. Tempo. Vida. Tumor. Amor. Vem. Vem. Vem. Onze horas. Vem. Olhei o velho digital: onze e cinco. Reduzi a velocidade perto do muro enlodado da vila de quartos. A luz amarela dos postes mostrava uma rua vazia em que olhos atentos deviam estar nas brechas conferindo a vida alheia. Silêncio. Minha taquicardia juvenil gritava. Respirei fundo, olhei a grade do portão semi-aberta e passei direto para casa.

Abri minha porta e fui deitar no sofá, liguei a Sharp em cores, caixa de fórmica, sem controle remoto. Jornal da Globo. Não prestei atenção em nada das últimas medidas do FHC. Pensei a noite toda, em claro, naquela moça, na sua declaração de quase morte, no desejo ardente de se entregar a mim antes de se deixar levar pelo tumor e como eu era um fraco e pusilânime em não ter atendido a vontade daquela adorável moribunda. E mais covarde ainda por ter duvidado de que tudo não passava de uma mentira, um artifício qualquer. Depois do episódio nunca mais ouvi falar dela. Nem perguntei a ninguém por medo da resposta.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Não é fácil, mulher

Não é fácil, não é fácil, imagino eu do alto da minha prepotência masculina. Criancinhas vocês já percebem a desvantagem. Os meninos põem o peru para fora e fazem o seu xixi em qualquer lugar, na maior. Já as meninas precisam de local apropriado na hora em que a natureza chama. Mais adiante, a menstruação chega assustando as pobrezinhas. Sangue, meu Deus! Quanto sangue! Muito macho desmaiaria! Deve ser um pavor! Não contente de trazer um transtorno periódico, a menarca carrega consigo as primeiras faíscas de um inferno astral mensal chamado TPM, pesadelo para a maioria.
Tu que pensas que não tem nada.
Depois de serem forçadas a acreditar que são mais fracas fisicamente que homens, que precisam sentar de pernas fechadas e não subir no cercado de saia, começam a aparecer os maiores estorvos da vida de vocês: nós, os homens. Sim, porque por mais que seja infinitamente generoso o coração da mulher, temos que reconhecer: aturar as idiossincrasias do homem não é para qualquer uma. Muitas já pularam fora dessa barca furada e hoje vivem juntinhas, numa boa, sem a necessidade de aturar o porco por causa da linguiça. Apoiadas!

No percurso natural da história, vem a primeira paixão, o primeiro beijo, o primeiro drama. Vence-se a resistência da menina e se pisa, enfim, no terreno pantanoso, intrincado e obscuro do coração da mulher. E vocês, por puro desconhecimento, permitem que a gente roube a paz que já é parca a este gênero que carrega a culpa ancestral de falar tanto, tanto, que acabou por bater um papo com a serpente e levar a maçã, em promoção imperdível, coisa que o covarde do Adão não fez e perdeu a grande oportunidade de inventar um dos mais saborosos mistérios da humanidade: a consciência da nudez. Por outro lado, a muito mais sagaz Eva lançou a moda, inventou o primeiro modelito com a folha de parreira.

Flertam, apaixonam-se, namoram, casam-se. Já nos primeiros contatos cai por terra a cartilha do amor romântico, aprendida a vida inteira, desde os tempos das camisolas com buracos na direção do ventre. Cai com o ronco dos maridos à noite; com a toalha molha em cima da cama; com a primeira vez do esposo cruzando a porta bêbado e fedido; com as desconfianças de chifre; com o tubo da pasta de dente apertado no meio; com a preguiça de se entregar ao amor, vício eterno que acomete até os melhores homens.

Perseverantes, vocês encaram tudo com naturalidade e uma paciência que a maioria dos homens só reserva na hora de conferir a tabela do campeonato brasileiro. Já enterradas até o pescoço na dura arte de manter o convívio com seres primários, de pouca imaginação e couro grosso, as mulheres entram numa bola de neve sem fim e acabam gerando mais homens para lhe atazanar, os filhos.
Pega que tava em promoção.
Quando crianças, umas fofuras, os verdadeiros amores de suas vidas. Mas no primeiro sinal de barba, os moleques se transformam em tiranetes, malfeitores, mais um fardo a machucar o coração das mães, os únicos seres a receber a dádiva da felicidade, segundo a lenda de Cazuza. E pelos maus elementos engendrados no ventre são noites mal dormidas, aflições, medos, ciúmes, fúrias descontroladas, decepções, frustrações e, claro, mais amor que é que elas aprenderam de melhor a entregar.

É difícil, pelo menos é o que me parece. Risco alto de violência física, moral e psicológica, cólicas, cantadas de pedreiros na esquina, meia-calça rasgada, chefes neuróticos, filhos problemáticos, a tentação do cartão de crédito, a chateação do calo por causa do salto alto, o preconceito contra a calcinha bege, a fila do sábado no cabeleireiro, a posição indigesta na depilação. São tantas emoções, meninas. E vocês aí encarando tudo sem perder a ternura e segurando a barra do tempo de tomar as rédeas de suas casas, ser boa profissional, boa chefa, boa mãe, boa amante, boa amiga, ser magra, gostosa, entender de maquiagem e toda aquele jogo de cores e modelos de roupa, fingir que gosta de futebol e no meio de tudo ainda seguir aquele papo morto de chato de manter a mente quieta, a coluna reta e o coração tranquilo. Não sei como aguentam.

Talvez por ser tão complicado seus percursos que são tão fascinantes. Uma das pessoas que mais me influenciam é uma mulher muito próxima, que decidiu ser dona de sua vida aos 20 e poucos anos, largou um marido mané, mulherengo e opressor, saiu de Cametá com cinco filhos, se estabeleceu em Belém e nunca baixou a cabeça para nada. Isso ainda na década de 60. Trabalhou de sol a sol, criou os moleques sem perder a dignidade em nenhum momento. Minha avó, minha querida Marita, que é matriz para o sangue quente de uma geração toda influenciada por sua doçura, mão pesada e voz de trovão nas horas certas, precedida pela mãe Santina, e sucedida por filhas tão fortes quanto ela, como minha mãe.
Bege não! Nude. Desculpem.
Marita tem mais estilo que a maioria dos homens que conheço, muito mais firmeza e coragem também. É excelente mãe e seria um excelente pai, se macho fosse. Sem vergonha nenhuma, digo e repito que minha criação é em grande parte responsabilidade dela, o que me fez uma pessoa melhor e me deu a pecha - vista com pesar e despeito por quem nunca experimentou desse amor - de ser “criado por vó”, embora com a mãe e o pai vivos e morando comigo.

É dela que lembro sempre quando se fala na valentia da mulher, embora o mundo esteja cheio de Maritas por aí, algumas mudando a História do País e do mundo e outras alterando pequenos mundos, pequenos universos, não menos importantes que o todo.

Um beijo para avó Marita e a todas as mulheres.

domingo, 4 de março de 2012

Pará: a gente vai se ver na Globo

Chegamos ao topo, meu amigos. Finalmente, a rede Globo, a maior e mais poderosa emissora do País, olhou por nós. Depois de retratar os Estados nordestinos acachapando sotaques baianos, cearenses, paraibanos, pernambucanos; depois de mostrar as Chapadas, os Lençóis, o Pantanal, os Pampas e o Brasil todo, não tinha muita escolha. Sobrou a Amazônia e sua face mais expressiva nesse momento: o Pará.
Búfalo nem aí pra novela da Globo.
Antes de você começar a chorar e me xingar, vamos aplaudir. Pare de ler e comece a bater palmas. Um minuto de clap, clap, clap é o mínimo que você pode fazer. Por caminhos que a Sociologia e a Política com P maiúsculo traçaram, o Brasil desenvolveu a Nova Classe Média, a Classe C para os íntimos de Lula. Os pobres com poder aquisitivo e, portanto, com acesso aos bens de consumo. Por algum motivo alheio a minha e a sua vontade, essa nova condição começa hoje a se confundir com a ascensão cultural e econômica do nosso Pará, transformado em Estado-símbolo da nova era.

Somos a bola da vez depois de cem anos de ter sido a menina dos olhos do mundo no começo da Revolução da Indústria, com a borracha e aquela papagaiada toda. O Pará hoje se confunde com o novo modelo social criado pelas políticas lulistas e não é de se admirar que tenhamos aqui cidades, como Parauapebas, com indicadores de crescimento comparados à esquisita, gigante e poderosa China.

Parabéns para nós, paraenses, que captamos tudo isso e estamos agora cuspindo na cara do Brasil o que tínhamos há anos guardado: o açaí, o tucupi, nossa teimosa alegria de viver. Vocês vão ter que me engolir, gritaria o Pará, se um velhinho fosse tal qual o Zagalo.

Ok, vencemos. Chegamos. Aplaudimos e nos orgulhamos de tudo isso, mesmo que a nossa festa não seja lá como a gente queria. Mesmo que não tenha dado para chamar os fabulosos músicos do La Pupuña para tocar aquele bom merengue rasgado na comemoração e a música ficou por conta de um tecladista amador. Mas, vamos lá celebrar.

Como alguém já disse: pela imagem que tínhamos antes, a nova imagem é melhor do que nada. E qual era a imagem do passado? De mato, de índio, de onça, de poções mágicas, comidas estranhas. Tudo sem tirar nem por do relato dos europeus chegados aqui há cinco séculos.
Joelma e Chimbinha: cultura paraense na Globo.
Era essa a imagem? Era. E qual a nova passada pela Vênus de Platina em toda a sua programação? De mato, de índio, de onça, de poções mágicas, comidas estranhas e agora gente rindo, rindo muito, gente colorida e que aprendeu agora a fazer música para dançar mexendo em computadores, os mesmos comprados pela Nova Classe C, a inventada pelo Lulinha, nosso querido.

Até que enfim, o Brasil poderá ter uma amostra do que é o Pará. Como já tem da Bahia e seu estereotipo da preguiça para o trabalho e da super disposição para a festa. Como já tem do Ceará e sua fogosidade, sofrimento e belas praias. Como tem do Rio Grande do Sul e sua ascendência européia e espírito para a boa briga. Como tem do Rio e sua malandragem e de São Paulo com sua vocação para o cosmopolita e nariz pra cima.

Regina Casé, no último programa Esquenta, deu a dica de como a Globo vai tratar o Pará paralelamente ao tratamento a ser dado na novela “Eterno Amor”, com cenas em Belém e Marajó, pelo menos no começo da trama. A apresentadora que, dá espaço para a “cultura de periferia” que a Globo adotou como “cultura de periferia” há alguns anos, mostrou uma trupe de artistas do Pará em suas nuances e performances mais variadas no seu programa.

Amarantos, Joelma, Chimbinha, Dira Paes. Boa amostragem, por sinal. Gente com talento e vocação nas suas áreas de atuação. Todos vendendo nosso peixe com vontade. Mostrando nosso açaí real (sem granola), nosso camarão, nosso tucupi, nossa farinha baguda, nosso borogodó. Tudo muito enfeitado, muito brilhante, muito excessivo, com direito a uma caixa de isopor rosa pink, carregada por Gaby Amarantos, quem está capitalizando melhor o momento com bons contratos - e, por algum movimento desconhecido, tornou-se embaixadora do Estado do Pará e da Amazônia nos veículos de comunicação.
Gabi Amarantos, embaixadora e ícone da nova música do Pará.
Temos de fato um exotismo vendável, o que é ótimo para o mercado fonográfico e o intrincado jogo de interesses com as emissoras de tevê. O mato, a antropofagia ancestral, a feitiçaria, os índios com pena na cabeça, a comida (a melhor do mundo) e nossa gentileza e hospitalidade que insistem em existir em um mundo cada vez mais cruel e duro. Na real, também vivemos um momento novo na arte feita por essas bandas, onde quase se abandona o paraensismo ufanista do conteúdo dos produtos culturais e o adota muito mais no discurso político, dando contornos de um ativismo regional diante da globalização.

Juntar o velho e novo em um modelo pronto para a venda não é novidade para ninguém e até já se tentou fazer, sem sucesso, por essas paragens. É uma opção válida, claro. O que me preocupa, de fato, é como estamos encarando essa venda e, principalmente, quem está se beneficiando com isso. Ou melhor, quantos estão se beneficiando e por que justamente esses? Uma maioria, uma parcela representativa do que temos como expressão de cultura?

Talvez quem esteja ganhando, em dinheiro ou em publicidade, sejam os mais organizados, os mais vendáveis, os mais próximos às esferas de poder capazes de dar o empurrão necessário. Sempre ouço os defensores apaixonados pelo novo momento dizendo que é hora de ganhar com essa exposição toda. Sim, concordo. E acrescento: é hora de ganhar e é hora de olhar para nossa identidade também, refletir sobre o que éramos, o que somos hoje e o que vamos ser depois disso tudo.

O que a Globo deve pinçar para mostrar, como já está fazendo, é uma gota do que temos como nicho cultural. É uma prática da emissora que se adéqua a vendagem dos seus produtos para o grande público até porque é impossível mostrar tudo que temos, até porque não há interesse, nem é o melhor espaço para tal tarefa.
Dalcídio: e qual é a de vocês?
E, nós, o que faremos? Vamos nos contentar em aplaudir apenas o que está sendo transmitido na Globo? Vamos chorar de emoção porque, enfim, o Pará está sendo visto pelo Brasil? Vamos de joelhos agradecer a oportunidade de ser, finalmente, reconhecidos como brasileiros? Ou pior: vamos atribuir a este ou aquele grupo político o bom momento, a revolução, a salvação?

Há formas de ser ouvidos hoje em dia. Caberia a nós propor, minimante, um esforço para garantir uma amostragem melhor sobre nossa identidade e cultura. Mas como fazer isso sem conhecer o que se tem? Sem ultrapassar o limite do que é mostrado pela televisão, pelo que é vendido pelos donos do poder e seus amigos apeados nas melhores cadeiras atualmente?

São dilemas nossos, que precisamos vencer. Por nossa vontade, precisamos avançar no legado que foi deixado com o advento da nova classe social, a C. Os paraenses, os que ainda insistem em raciocinar, precisam agora sair da euforia de ser os pobres com poder aquisitivo e se transformar nos pobres com poder aquisitivo e que pensam sobre o que consomem, ouvem, vêem. Não faria mal nenhum. Ao contrário, só faria bem. Faria uma grande diferença no debate mais besta sobre a polêmica entre o gostar/não gostar e o ter orgulho/ter vergonha do que está sendo exibido no plim-plim.