Ainda estou vivo, gente querida do meu Brasil. Terremotos, gafes, festas de fim de ano, comida em excesso, fígado massacrado, rebuliços no coração, questões familiares, putaria e muitos afazeres me tiraram da rota e o Bêbado Gonzo ficou aqui sozinho, reclamando a ausência do pai. Mas, voltei. Voltei e chega de enrolação. Vamos direto ao ponto: Belém está velha. Velha e escrota, meus filhos. Como as putas da Riachuelo. Ah, não gostou. Hum. Ok, vou ser mais brando: Belém está como seus casarios do bairro do Comércio: caindo aos pedaços e sem esperança.
Nossa, como esse desgraçado é cruel! Não, meus queridos. Não é isso. Eu sei que não é de bom tom chegar na festa de aniversário e olhar para aniversariante e dizer “nossa, enorme essa bolsa cheia de ruga pendurada ai nos seus olhos, heim? Que pança enorme. E esse pescoço flácido? E essas manchas nas costas das mãos? E essa tintura nem esconde o branco dos seus cabelos... Coitada, o tempo ejaculou mesmo na sua face, pobrezinha!”.
Ver-O-Peso. Foto de César Meira.
Sei que o portal de entrada para Amazônia merece toda nossa consideração. Sei, sim. Tenho consciência de que essa senhora de 394 anos deve ser reverenciada. Em breve, ela vai debutar aos 400 anos e vamos fazer uma linda festa com valsa, vestido cor de rosa e muito bolo com cobertura de açúcar. Vamos ficar orgulhosos de nossa princesinha entrando na vida adulta, mesmo que ela tenha dado vários maus passos, embora ela tenha se metido com muitos filhos da puta que só quiseram lhe afagar as carnes e lhe comer, deixando para trás a donzela chorando com sua honra perdida.
Belém no dia 12 de janeiro aniversariou. Muita gente usou o bordão “mas o que temos para comemorar?”; muitos fizeram aquelas poesias escrotas que, se fosse numa sala de aula de quinta série, teriam levado uns 3,5 como nota máxima; alguns repetiram aquelas músicas de sempre com mangueira, rio, Ve-O-Peso, morena, manga, marajoara, açaí, lalalá. Muitos correram para apanhar um pedaço do bolo gigante oferecido por uma prefeitura que tem nos dado bolo há cinco anos, seja de palmatória seja daqueles de ficar na espera por quem não vem.
Muitos reclamaram de tudo e de todos e no outro dia continuaram sua saga para acabar com esta capital imprensada entre o rio e o resto do País. Belém está como uma puta velha realmente: maltratada, com um passado inesquecível e uma penca de filhos que lhe desprezam. Queria muito ter a chatice do Nilson Chaves e ficar aqui cantado a poesia que escorre da bréa de quem anda de ônibus às duas da tarde na Cidade das Mangueiras, do nosso traço indígena que só reconhecemos nos cordões de semente gigante e nunca na feiúra da nossa cara miscigenada, das nossas idéias que oxidam rápido com tanta proximidade com rio. Queria, sim. Mas, não vou.
Vai assustar o diabo, Nilson Chaves.
Para cantar nossas belezas, temos os nossos queridos artistas. Artistas inclusive que moram fora da cidade e pintam aqui de vez em quando para presentear a nossa Belém com seu talento fulgurante e reclamar que a classe artística daqui não se organiza nem consegue dar o salto tão esperado para se profissionalizar e mostrar sua cara para o mundo. São gênios da raça.
Diante dessa postura, não é difícil entender porque nossa cidade tem sido descrita em um cenário desenhado pelo olhar do estrangeiro, mesmo quando quem descreve é dessas bandas. Daí, o que temos cantado em verso e prosa é o bom selvagem, o idílio, uma poesia inocente de quem olha e enxerga só o nosso melhor, nosso mato verdinho, nosso rio imenso, nossas palmeiras, nossa mansidão de índio de livro de História.
Belém está além da repetição e da falta de senso dos seus poetas, como também não pode ser encarada como na música do Mosaico de Ravena, onde o belenense grita todo revoltadinho como um menino de nove anos: “olhem pra nós com respeito, parem de nos avacalhar, se não vou chamar a mãe”. O fato é que temos que reconhecer nosso valor, nos olhar como estranhos que somos, mas sem rechaçar nossa contribuição nessa colcha de retalhos chamada Brasil. Porém, olhar nossa parte ruim, rir dela, avacalhá-la e pensar que podemos melhorar.
Nesse espírito, a equipe do BG, depois do longo recesso, elaborou a lista com os cinco piores males de Belém e do belenense, com aquilo que nos faz patinar e não sair do mesmo lugar há muitos anos. Leia, veja se concorda, reflita e comente, quem sabe assim no ano que vem a gente possa apontar novos defeitos no natalício desta cidade onde não nasceu Jesus. Vamos lá.
Exportáveis
Belenenses partindo para o eixo RJ/SP
Os filhos de Belém tem muitos motivos para sair. Muitos. A cidade não comporta sua mão-de-obra qualificada e a economia anda tão baleada que ainda são os órgãos públicos que pagam os melhores salários. Daí, criou-se uma classe que para o bem ou para o mal tem visto que a melhor saída para capital paraense é o Aeroporto Internacional de Val-de-cães. Os exportáveis são como cães de raça preparados por seus donos com os melhores adestradores, comendo a melhor ração, tendo grama verdinha para brincar, dormindo em casinhas com central de ar, mas que serão levados embora para competir em outras paragens. A questão é que se tornou uma verdade irrefutável que as terras distantes são realmente melhores em tudo e o frisson para ir embora se tornou praticamente irracional em alguns casos. Não importa que você vá ganhar um salário proporcionalmente menor do que numa vaga em Belém, não importa se você vai morar em um cubículo com mais quatro paraenses que dividem o sonho de exportável, não importa se as esperanças de conseguir uma colocação melhor seja abaixo de zero. A onda é cair fora. Nesta aventura de pegar o Ita e partir, os afeitos às novelas do Manoel Carlos podem ser encontrados do Leme ao Pontal. Já os exportáveis sob o signo da mudernidade e descolamento são facilmente identificáveis na Av. Paulista, na Augusta ou quando cruzam a Ipiranga e a Av. São João. Aqui a expressão “eixo Rio-São Paulo” ganha contornos dramáticos e dificilmente um exportável enxerga outros destinos.
Motoristas
Motorista típico de Belém
Quem já dirigiu em Belém saberá muito bem o motivo de incluir o motorista belenense no rol das piores coisas da cidade. Quem ainda não dirigiu basta imaginar um lugar em que três quartos do espaço estejam abarrotados de carros. No pequeno espaço livre, não há lei e 90% dos motoristas querem ver seu semelhante morto da pior forma possível em um acidente. Os 10% restantes se dividem em dois grupos: os que não sabem dirigir direito e os que já cansaram e preferem encarar os ônibus entupidos ou a chatice dos taxistas. O trânsito de Belém é uma mistura de Mad Max 3 com a trilogia sobre o psicopata Hanibal Lecter, imortalizado por Anthony Hopkins. A diferença é que no nosso trash movie do dia a dia há muito mais carros endiabrados e muito mais maníacos. O motorista belenense deveria, antes de receber a CNH, deveria ser obrigado a escrever 394 mil vezes com giz no quadro negro: “não devo jogar minhas frustrações nas pessoas enquanto estou dirigindo, “não devo jogar minhas frustrações nas pessoas enquanto estou dirigindo...”.
Cinema
Vamos pegar um cineminha? Aleluia,ô glória.
A capital paraense já teve cinemas espalhados por vários bairros, quando as salas de exibição ainda rendiam uns trocados e a mania do vídeo-cassete não havia se espalhado com uma epidemia na principal cidade do Norte do País. Eram poucos os que podiam ver um filme no aconchego do seu lar. No bairro da Pedreia, brilhava nas tardes modorrentas o cine China, que alternava clássicos como “O homem mais forte do mundo” e “As mulheres que dizem sim”, com públicos diferentes se encontrando sem cerimônia ao fim de cada sessão. Os vídeos-cassete deram lugar aos DVDs, o espectador sumiu, as igrejas evangélicas compraram os cinemas, as salas de rua foram exterminadas e hoje chegamos à barbárie dos shoppings. Com raras exceções de salas pequenas com programação mais do que irregular, Belém hoje tem praticamente cinemas apenas nos shoppings centers, o que nos faz contestar a todo vapor o slogan do grupo Serveriano Ribeiro, que já zarpou da cidade inclusive: “cinema é a maior diversão”. Não é, meu amigo. Deixou de ser faz muitos anos. Começa na falta de opções. Os programadores acreditam que o público todo tem a mentalidade de meninas de 11 anos e oferecem nada além do que está na lista de mais vistos, com medo de perder dinheiro na venda dos ingressos. Isso faz com que bons títulos passem longe da capital do Pará. A mesma visão mercadológica e a falta de salas suficientes transformam a compra de um simples bilhete em um inferno. Filas quilométricas e um público, de fato, com comportamento de meninas de 11 anos são dois motivos para pensar cinco vezes antes de tentar assistir um filme na tela grande aqui na Mangueirosa.
Povão
"Essa é a galera da golada, traz um balde de gelada..."
Os leitores mais antigos sabem que este que vos escreve mora na Pedreira, um dos bairros da periferia de Belém, um forte candidato atualmente a nicho da classe média metida à besta. Posso falar do povão com o olhar de quem enxerga a coisa de dentro. E o que vejo é uma parcela numerosa da população belenense sem perspectivas e pouco se importando com a falta delas. Os rapazes muito interessados em pintar o cabelo com luzes, usar roupas falsificadas de marcas famosas e partir para as festas de aparelhagem nas suas Honda Titan financiadas a 897 vezes . As mocinhas de micro-short indo para mesmas baladas azarar e nove meses depois dar sua contribuição para o desenvolvimento da cidade. Deixado de lados e de fora das decisões mais importantes há anos e estimulados de que a ajuda vem do Jesus dos crentes ou de N. Sra. De Nazaré dos católicos, o povão vai deixando barco passar sem fazer muito esforço, sem reclamar, empurrando com a barriga tudo e repetindo e piorando práticas que só acabam com Belém. E inclua na lista dessas ações desde a falta de cuidado com a higiene, refletida nas nossas feiras livres, como o próprio cartão postal Ver-O-Peso, e a reação a tentativas de organização dos espaços comuns da cidade. Pode você aí culpar a falta de políticas públicas adequadas e blá, blá, blá, mas digo que a capacidade de reagir e pensar está longe de depender de político A, B ou C. O fato é que o povão se encolhe cada vez mais e tem usado a cabeça apenas para o divertimento de catar piolho na porta de casa às quatro da tarde.
Elite
Ricos de Belém: loucos por uma vicinal.
Finalmente, chegamos ao maior clichê dos discursos de classe. E não me venham reclamar dos clichês, pelamordedeus. São eles, os bem nascidos, meus alvos preferidos para toda sorte de avacalhação. Pode dizer que é inveja por eu ser um pobretão, mas nada mudará a idéia de que eles são os culpados de tudo. Pegue todos os itens anteriores e perceba que esta cidade só está assim por causa de sua classe dominante. Eles estudam nos melhores colégios, tem todas as regalias possíveis, podem comparar várias realidades de perto, podem ter insights de toda ordem, tem todas as condições de serem sujeitos úteis. Mas, me diga você aí, o que os filhos brancos, bem educados e programados para casar na Basílica de Nazaré e na Igreja de Santo Alexandre estão fazendo de bom para Belém, além de encher mais ainda os próprios cus de dinheiro? O que eu vejo é ostentação e uma burrice abissal. Gente passeando em pick-ups com tração nas quatro rodas e motor 3.0 numa cidade em que, no máximo, a velocidade atingida nas ruas é de 60 Km/h e andar de Uno Mille já está sendo complicado por causa das vagas de estacionamento. Uma elite que se orgulha ainda de apresentar suas filhinhas em baile das flores e mandá-las depois para conhecer a Disney; que paga caro para seus filhos não fazerem esforço algum, mas terem seus diplomas de nível superior. Uma gente que compra rodas de liga leve por R$ 4 mil e acredita piamente que a cidade se restringe ao percurso do Círio, da Basílica de Nazaré ao Boteco das Onze; que rezam à Nossa Senhora na missa das sete e às oito tramam como vão se prevalecer e ficar mais ricos de forma ilícita. Um punhado de mequetrefes se locupletando da ignorância e da pobreza do povão, oferecendo os salários aviltantes nas suas empresas de lavagem de dinheiro e explorando a mão-de-obra barata até a última gota de sangue, inclusive negando direitos consolidados desde Getúlio Vargas. Sem se envergonhar, passeiam nas suas carruagens de luxo, reclamando da sujeira nas ruas e jogando seu lixo pela janela. Sem atentar para o achaque à cidade, essa mesma elite tem apoiado os tubarões que andam roendo Belém todos os dias e garantido que nosso futuro será bem pior. Enfim, um bando de salafrários que se orgulha de ser jecas nas suas roupas compradas nas liquidações de Miami e de oferecer um modelo de boa vida que está muito longe de ser realmente bom. Infelizmente, Belém está tomada e com poucas esperanças de melhorar. Se depender dos que estão no topo dessa medíocre cadeia social, a cidade afundar e sobrará apenas os condomínios de luxo onde a classe A brinca de pira e se engana de que está protegida.