quinta-feira, 24 de abril de 2014

Sobre as eleições no Sinjor

Antes de qualquer coisa, preciso fazer uma confissão: já fui diretor sindical. Não é um crime para ser uma confissão, mas vou além: fui um péssimo diretor sindical. Tanto que não lembro muito bem minha função no Sindicato dos Jornalistas do Estado do Pará, o Sinjor. Não para por aí. Nas reuniões agendadas na sede da entidade, eu faltava. Nas comissões importantes, onde minha participação era necessária, eu virava as costas. Não era proposital, afinal, havia sempre uma justificativa plausível. Ou eu estava muito cansado da minha rotina de dois ou três turnos ou havia um compromisso social importante e inadiável ou uma ressaca medonha me afligia nas manhãs de sábado, o que também me impossibilitava de ir aos encontros oficiais da categoria.

Além de ser um sindicalista relapso, desimportante para a história do Sindicalismo aguerrido paraense, eu me locupletei da função de diretor. Como? Simples: por meio da imunidade sindical. Passei por, pelo menos, duas possibilidades reais de demissão no meu emprego na época e tenho absoluta certeza de que minha condição de sindicalista me manteve estável enquanto outros colegas foram apanhados pelo jacaré. Depois que meu mandato acabou e a diretoria, obviamente, não me convidou para uma nova chapa, desisti de integrar o Sinjor. Minha culpa, minha máxima culpa. Admito.

No entanto, nas atividades que o Sindicato promoveu posteriormente sempre estive presente e apoiando dentro dos meus limites, como jornalista e cidadão. Não se trata de um contrassenso. É, na verdade, uma admissão de que sou melhor fora da entidade do que dentro. Participei dos debates sobre data-base, engrossei atos públicos, assinei abaixo-assinados, berrei em protestos. Fiz o que pude seguindo o que acredito ser consciência de classe e mantive, senão um autêntico, um empenhado engajamento político-sindical.

Feitas essas contextualizações, me pergunto: o que queremos do Sindicato nessas eleições? Queremos um sindicato? Achamos necessária a representação de classe? Sabemos o que é um sindicato? 

Uma eleição para a entidade está prestes a acontecer com uma novidade incrível: há duas chapas disputando. Dois grupos adversários pressupõe debate e um interesse maior numa entidade que passou por reformas profundas e essenciais no começo dos anos 2000 com o coletivo “Nós, jornalistas”. A discussão e a atenção à entidade são dois grandes pontos deste momento para a categoria no Pará.

Nós, jornalistas, que todos os anos cobrimos as grandes eleições não podemos agora, no entanto, nos dar ao luxo de repetir erros e mesquinharias da macro política.  Não devemos esquecer o senso de coletividade e enxergar o adversário como inimigo. A conjuntura que culminou numa eleição com duas chapas foi antecedida por uma construção longa, iniciada com a derrota de um grupo que usurpava a entidade em benefício próprio e fazia acordos escusos com os patrões no breu das tocas em troca de migalhas para pouquíssimos. Com a derrubada dessa carcomida diretoria, sob liderança da ex-presidente Carmem, houve um período de euforia e consenso durante os primeiros anos e, naturalmente, as divergências nos anos seguintes e os consequentes rachas, as brigas internas, as desistências e todos os dramas menores ou maiores que a convivência de ideias diferentes suscita.

Tenho observado de longe as Chapas 1 e 2, numa distância geográfica e política por conta das atuais circunstâncias. Percebo uma animosidade intrínseca entre os grupos e espero que permaneça no campo das concepções. Há uma necessidade de um debate franco que ultrapasse a mera curiosidade ou a expectativa de uma porrada com ofensas pessoais, como já foi observado em alguns momentos pelas redes sociais.

Não fui um bom sindicalista, mas, como profissional, desejo que a categoria melhore, tenha ganhos, nosso mercado de trabalho seja mais generoso financeiramente e inteligente quanto à formação de uma opinião pública minimamente qualificada. 


O que espero da nova gestão do Sindicato é ampliação das bases, um diálogo mais direto com quem não entendeu ainda para que serve um sindicato, uma coesão da classe a partir de argumentos, empatia e compromisso. E, principalmente, a compreensão de que é preciso gritar, mas também ouvir, que é preciso pressionar ao extremo, porém ter as manhas da negociação com uma patronal resistente a qualquer tipo de diálogo. Um Sindicato não é um levante eterno, tampouco uma voz fraca diante da patronal.

O que vejo é que os dois grupos tem qualidades suficientes para que a categoria se organize e comece a aprofundar ganhos políticos que iniciaram em atos públicos e manifestações, como o ato contra a demissão em massa no jornal O Liberal e o protesto na TV Record, e culminou com a histórica greve dos colegas do Diário do Pará.

Que as consequências dessas experiências marcantes sejam para todos e que nenhum grupo deixe de compreender que, ao invés de inimigos, são dois coletivos que se complementam. Que não façam como os políticos profissionais que, conforme o resultado do pleito, ignoram seu compromisso com as causas e a coletividade.

Que ao vencer, um não ignore a força e a mobilização do outro e suas possibilidades de uso para a categoria.


É o que acredito.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

A palavra

Era a primeira entrevista real. Não só. Era o primeiro encontro com um escritor. Ela exacerbava a figura, idealizava. Mas, na esquina, a ilusão desmilinguiu quando o entrevistado surgiu.

Ele se sentou. Sorriu apenas com as bochechas e a expressão comprimiu os olhos, ressaltou as rugas e escondeu a ausência de um dos caninos.

A mocinha contraiu-se para esconder o nervosismo, abriu o caderninho e empunhou a caneca. Abriu o sorriso límpido e não percebeu o ajeitar dos óculos com um movimento simultâneo dos músculos da testa e do lábio superior.
E então?                             

Ela começou a explicar. O descontrole do corpo cessou e surgiu em um princípio de gagueira. Ele não prestou atenção em nada. Até que a moça pronunciou a palavra. A palavra! Pela primeira vez, olhou para ela de verdade.

Ela queria compreender os mecanismos mnemônicos usados no parto cansativo dos livros. Sabia que a obra era cosida linearmente, embora ele se envergonhasse dessa linearidade. Sim, era ela a sua única leitora de verdade.

Ele começou pela infância. Ela estimulava. Molhava os beiços de saliva entre uma questão e outra. A gagueira passou sem ninguém registrar. Havia um interesse real. O homem respondia por vontade. Falava pelos cotovelos.

Ela observou a falta do dente, o cabelo fino no cocuruto, a perda de água no corpo, as olheiras penduradas, o esforço para juntar os cacos e as coincidências que o levaram ao buraco da literatura mirrada. Disfarçou a comiseração numa pergunta seguinte sem vigor algum. Esqueceu as anotações. Ele pediu uma cerveja. Acendeu um cigarro. Ofereceu outro a ela que, de pronto, aceitou. A brasa acendeu a brasa. Ela riu.

A palavra. Mencionou de novo. Agora de propósito. Mexeu no cabelo, pensou como ele era muito mais feio. Esqueceu-se do nervosismo inicial. Sentia-se mais velha. Ele descontraiu o semblante, pareceu mais moço, menos enfezado. Mais um gole. Ela amarrou um rabo de cavalo.

Entre uma mão esbarrada na outra e o convite, ninguém entendeu muito bem o percurso. Não estavam embriagados. Não pelo álcool. Migraram sem escalas para o fetiche vulgar do escritor pela leitora e vice-versa.

Minutos depois, estavam no quarto. Ela na beira da cama. A postura expectante de quem quer entender os próximos capítulos. Ele pensando na maldita linearidade, no bagunça do dormitório. Ela desatou os cabelos, cortinas de um último pudor. Um beijo nas mãos. Deitaram-se, lado a lado. O teto, a respiração, nenhuma pergunta. Nenhuma objeção, constrangimento, obrigação.

Dentro, o calor, a novidade para ela. Fora, a surpresa, a espera até outro tempo para ele.  Entre, a palavra. Sussurrada. Espremida entre os amantes recentes.

Estiveram os dois suspensos por horas por aquela palavra que disparou todos os gatilhos imagináveis entre eles.
Perderam-se tarde afora.

Ela voltou na quarta-feira seguinte. No sábado, também. Retornou repetidas vezes por três anos, sete meses, 12 dias até se despedirem em um réveillon qualquer numa praia, sem branco, sem festa, numa conversa travosa, difícil, pausada, quase um soluço.

Lembrariam cada um a seu modo – sem jamais mencionar a ninguém – o primeiro encontro, o apego à linearidade, a festa naquele cômodo abafado e a palavra. Bendita, doce e única palavra.

Texto publicado originalmente na Revista Leal Moreira.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

García Márquez: borboletas no estômago, minhocas na cabeça

É muito mais fácil gritar o que odeia do que sussurrar sobre o que ama.

Gabriel García Márquez morreu ontem e desde então li tanta depreciação sobre sua pessoa e sua obra que me questiono agora se quem ganhou o Nobel de Literatura, em 1982, foi o colombiano ou seus detratores.
O caso não são os prêmios. Literatura como qualquer outra atividade artística não se move por prêmios. O artista continua sendo apenas um catalisador do sentimento do mundo e, por essa qualidade ao mesmo tempo vulgar e sobre-humana, tem os poderes da comoção e da provocação e, entre um e outro se eternizam.

No caso dos escritores, como Gabo - agora não se pode mais usar o apelido porque os detratores ditaram que não -, entram na cabeça, na alma e no coração de quem os lê. Reviram tudo, instigam, exasperam, plantam pulgas atrás das orelhas, injetam ninhos de minhocas no cérebro e soltam milhares de borboletas nos estômagos.

São eles vozes do além que nos acompanharão vida afora quando fizermos comparações das mais simplistas até metáforas complexas, quando formos escrever um poema ou até um recado para deixar na porta da geladeira. Pelas palavras deles, contaminamos os olhos para nunca mais nos descontaminar. Cada um deles, seus livros, manias, pensamentos, é culpado pela cegueira ou pela amplitude da visão que temos do mundo.

Sem medo digo que amo Garcia Márquez, a quem não tive intimidade que quis para lhe chamar Gabito, tomar uma cerveja ou um café na mesa da cozinha ou lhe fazer companhia em silêncio sobre as amendoeiras. Me assusto com as declarações de ódio ou desdém a um homem que alçou um continente inteiro ao centro do mundo exortando e exaltando os próprios fantasmas, tornando o particular e o corriqueiro em algo incrível e surpreendentemente universal. 

Nunca vou deixar de acreditar que ódio, desdém ou escárnio refletem desconhecimento. Ao desconhecido, o medo e a agressividade. Ao que se conhece, empatia e amor. Só é possível falar com propriedade do que se conhece e para conhecer se leva tempo, dedicação, uma vida inteira.

Se gastamos tempo, dedicação, a vida em si, com o que odiamos, estamos vivendo mal, para dizer o 
mínimo.

Prefiro acreditar que as comparações esdrúxulas entre Gabriel e outros autores, as acusações por suas posturas políticas e, principalmente, o desdém à sua obra seja ignorância. No amplo sentido da palavra ignorância, o desconhecimento, senão completo, mas próximo de uma superficialidade extrema sobre um dos gigantes do século XX que acabamos de perder.

Aos detratores, comparadores, patrulheiros do luto alheio, meus sentimentos. De comiseração.

Vocês perdem uma oportunidade brutal de conhecer tanto da humanidade e de refrescar a alma em obras como Cem anos de Solidão, O amor e outros demônios, O amor nos tempo do cólera, Relatos de náufrago, Crônica de uma morte anunciada, Doze contos peregrinos e outros tantos.

E como sabia escrever o velho! E como sabia contar! E como tinha consciência de suas habilidades que a essa hora deve estar rindo da mediocridade dos que tentam, sem sucesso nenhum, reduzi-lo.
García sempre será um dos melhores a quem teve o privilégio de lê-lo de verdade.

Aos que não tiveram, será apenas mais um motivo para falar sobre o que jamais ousaram saber. Sempre com a profundidade de um pires que lhes é peculiar.